XXIII SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CIÊNCIA:

Temas clásicos de filosofia de la ciencia a la luz de las concepciones semânticas de la teorías – Prof. Pablo Lorenzano
de 07 de outubro a 25 de novembro de 2011
sextas-feiras, das 9h30 às 12h30

Sala 113 do conjunto didático de Filosofia e Ciências Sociais da FFLCH/USP

07/10/11. – 1º seminario: El origen de las concepciones semánticas de las teorias.

14/10/11 – 2º seminario: La concepción clásica de las teorías: las teorías como cálculos interpretados.

21/10/11 – 3º seminario: La concepción historicista de las teorías: las teorías como proyectos de investigación.

28/10/11 – 4º seminario: Las concepciones semánticas: las teorías como entidades modelo-teóricas.

04/11/11 – 5º seminario: La concepción estructuralista de las teorías.

11/11/11 – 6º seminario: Tipología de los conceptos científicos: conceptos clasificatorios, comparativos y
métricos.

18/11/11 – 7º seminario: La contrastación de hipótesis.

25/11/11 – 8º seminario: El concepto de ley científica

Detalhes do evento

Cartaz do evento

A religião de Darwin

Desidério Murcho

Universidade Federal de Ouro Preto

Ocorre por vezes, nos momentos mais pretensiosos de uma conversa despretensiosa, alguém mencionar, com um ar severo, três Grandes Questões Fundamentais: “Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?” Se alguém nessa conversa tiver um saudável sentido de humor, responderá imediatamente que é o Jacinto, filho dos Gouveias, veio de Odemira e vai para Loulé amanhã por volta das sete e meia, a menos que ainda consiga boleia hoje à noitinha. Caso contrário, menciona-se com ar douto o filósofo alemão Immanuel Kant, para dar supostamente mais peso às Questões.

Todavia, como acontece em muitos outros casos em que se fazem perguntas fundamentais, cedo se descobre que, além de um certo pretensiosismo na sua formulação, muitas pessoas não estão realmente interessadas em respostas cuidadosamente pensadas. O que realmente querem é um discurso poético, místico, inspirador. O que não querem é a verdade — a menos que esta corresponda exactamente ao que querem que a verdade seja. E o que querem? Que seja comezinha e antropocêntrica: os seres humanos no centro do universo, superlativamente importantes no esquema geral das coisas.

Charles Darwin — tal como Isaac Newton, Galileu Galilei e muitos outros cientistas que eliminaram uma parte importante da nossa ignorância — é ainda hoje uma ameaça para quem tem uma mentalidade antropocêntrica. E a reacção não se faz esperar: não podemos aceitar as suas ideias porque põem em causa a nossa dignidade. Esta é uma inversão curiosa das coisas, dado que em vez de considerar a verdade — sacralizada em tantas religiões — mais importante do que a nossa suposta dignidade, considera a nossa vaga e suposta dignidade mais importante do que a verdade. É um pouco como alguém que se julgava filho do Duque de Bragança e subitamente descobre que é filho de um modesto taxista; compreende-se que fique abalado, mas não é particularmente sábio fingir que a verdade de que não é filho de quem pensava que era pode ser mudada com a força da convicção. Mas será mesmo verdade que as ideias de Darwin põem em causa a nossa dignidade? Há razões para pensar que não e é isso que procurarei mostrar.

O que nos ensina a ciência contemporânea? Para começar pelo universo, é de uma dimensão que faz qualquer religião humana parecer provinciana. Até muito recentemente — quando os europeus andavam a matar-se entre si, na segunda guerra mundial — as pessoas não sabiam sequer que a Via Láctea, a nossa galáxia, era apenas uma de entre muitas outras galáxias. O número rigoroso de galáxias é ainda desconhecido e provavelmente sê-lo-á sempre; as últimas estimativas apontam para a existência de 125 mil milhões de galáxias no universo (mas talvez haja 500 mil milhões). Isto significa que se conseguíssemos visitar uma galáxia por segundo, demoraríamos mais de 4 mil anos para percorrê-las todas. Acontece que só na nossa galáxia há pelo menos 100 mil milhões de estrelas, o que significa que para percorrer todas as estrelas da nossa galáxia, ao ritmo de uma por segundo, demoraríamos apenas ligeiramente menos de 4 mil anos.

Se o provincianismo é fundamentalmente ignorância, a ciência é um dos seus mais importantes antídotos. No entanto, quando se ouve falar das Grandes Questões, raramente se ouve falar de algo tão simples como a dimensão do universo, ou até apenas da nossa galáxia. Há pessoas que pensam que há milhares de estrelas na nossa galáxia, o que é verdade apenas no sentido em que se há 100 mil milhões delas, também logicamente há milhares delas — mas é tão enganador falar de milhares de estrelas como seria falar de dezenas de pessoas para falar da totalidade da população humana.

Quando alguém se pergunta de onde veio a humanidade, se quiser honestamente conhecer a resposta, em vez de apenas inventar palavreado reconfortante, terá de se interessar pela ciência. E é aqui que Darwin não só nos deu pistas fundamentais, como nos fez ver as coisas de um modo radicalmente diferente. O princípio filosófico fundamental, e bastante intuitivo, que Darwin nos ensinou a rejeitar é o seguinte: do menos não pode vir o mais. Um caso em que se vê este princípio a funcionar é quando se argumenta que na origem do universo tem de estar uma inteligência. A força desta ideia não resulta apenas, como por vezes se pensa, do uso que se faz dela naquilo que em filosofia se chama o argumento do desígnio: o argumento que conclui que Deus existe porque há indícios de inteligência no modo como o universo está organizado. A ideia de que o universo teve um criador porque indicia inteligência é apenas um caso particular da ideia geral segundo a qual do menos não pode vir o mais.

Uma das formulações mais transparentes deste princípio filosófico é a do filósofo e matemático francês René Descartes — o que é apropriado, pois foi também ele o responsável pela adaptação à mentalidade moderna das ideias dualistas de Platão, segundo a qual o corpo é radicalmente distinto da alma. Descartes começa por levantar a hipótese de que tudo o que julga saber não passe de ilusão, talvez provocada por um génio maligno sumamente poderoso. Depois de concluir que, por mais que o engane, o génio maligno não poderá enganá-lo se ele não existir, Descartes fica com a tarefa de reconstruir o conhecimento a partir dessa modesta base. Como fazer tal coisa?

É neste passo do seu raciocínio que Descartes introduz o princípio de que do menos não pode vir o mais. Descartes raciocina que tem em si a ideia de um ser sumamente perfeito, a que chama Deus. Mas ao mesmo tempo também sabe que ele mesmo, Descartes, erra e se engana — afinal, está precisamente a admitir que o génio maligno o poderá enganar sempre que pensa ver uma árvore, por exemplo. De modo que conclui que Deus existe porque só de Deus poderia emanar a própria ideia de Deus que Descartes descobre em si. Porquê? Porque sendo Descartes imperfeito, não poderia ter inventado por si a ideia de um ser perfeito: do menos não pode vir o mais.

Podemos pôr em causa a aplicação particular que Descartes faz do princípio geral. Mas sem Darwin não teríamos como rejeitar a sua aplicação noutros casos em que parece magia que do menos possa vir o mais: como pode um animal dotado de capacidade para a poesia e a matemática, a filosofia e a física, ter origem em organismos semelhantes às amebas, sem qualquer intencionalidade, consciência, raciocínio complexo ou escrúpulo moral?

A resposta é que é possível porque a realidade é dinâmica, e não estática. Em particular, os organismos morrem e reproduzem-se. E basta que ao longo do tempo, por mero acaso, alguns organismos respondam de modo mais eficiente ao meio ambiente para que deixem mais descendentes. Se o que lhes permite responder de modo mais eficiente ao meio ambiente se transmitir aos seus descendentes, estes acabarão por substituir completamente os que deixam menos descendentes. Assim, a maior complexidade pode surgir da menor complexidade. Na verdade, a complexidade não entra sequer na equação: é apenas um acidente. Em alguns casos, maior complexidade poderá tornar mais eficientes as respostas de um organismo ao seu meio ambiente; noutros, isso poderá não acontecer. Quando acontece, do menos vem o mais. E até parece magia.

A nossa complexidade emocional, psicológica e cognitiva pode assim ser explicada de um modo profícuo e iluminante: emergiu das respostas eficientes dos organismos nossos antepassados ao seu meio ambiente. Não precisamos de uma divindade a dar-nos uma alma imortal. Pode ser que tenhamos tal coisa e que uma divindade no-la tenha dado. Apenas não precisamos dessa hipótese para explicar de onde viemos, quem somos e para onde vamos. Viemos de organismos menos complexos do que nós, somos organismos muitíssimo complexos e, como todos os outros organismos, tendemos para a extinção — que só poderá ser atrasada por alguns séculos ou milénios se recorrermos, ironia das ironias, não às religiões, mas à ciência e à tecnologia.

O que a ciência nos permite saber de nós mesmos é fascinante. Mostra, efectivamente, a nossa profunda ligação não apenas aos outros organismos do nosso planeta, mas ao nosso próprio planeta e ao universo no seu todo. Os átomos de que somos compostos tiveram origem nas mesmas fornalhas cósmicas que estão na origem do Sol. É esta irmandade fundamental com o restante universo que a ciência nos mostra. É por isso que, num certo sentido, a ciência é a religião mais genuína: se entendermos a religião no sentido do étimo da palavra, a função da religião é religar-nos a uma realidade mais fundamental, para lá das aparências enganadoras. Mas isso é precisamente o que faz a ciência. E a biologia evolucionista, de que Darwin é um dos fundadores, ensina-nos que essa ligação fundamental não ocorre apenas no que respeita aos nossos átomos, mas também no que respeita às características biológicas que mais valorizamos: os nossos afectos e emoções, a nossa inteligência complexa e sentido moral. É por isso que quem menciona as três Grandes Questões Fundamentais ao mesmo tempo que despreza, desconhece e não procura a ciência, está a simular um interesse nessas questões que realmente não tem.

Saímos nós diminuídos ou humilhados do conhecimento de nós mesmos que nos dá a ciência? Dificilmente. Por um lado, porque qualquer ser deste imenso universo que desenvolva a complexidade suficiente para poder descobrir a imensidão do universo em que habita é, só por isso, notável. Pó de estrelas a calcular cuidadosamente quantas galáxias há no universo é uma imagem que não parece humilhante; bem pelo contrário. Filhos de deuses omnipotentes e sumamente sábios a fazer tal cálculo é que parece humilhante, pois tais deuses sabem disso sem precisar de quaisquer cálculos, supostamente — apenas as suas criaturas, diminuídas, têm de recorrer a tão prosaicos métodos, um pouco como uma criança tem de fazer contas num papel, concentradamente, para saber quanto é 16 mais 3.

Por outro lado, o suposto estatuto “superior” dos seres humanos (note-se como os termos para hierarquias sociais estão associadas a quem, numa árvore, está mais acima ou mais abaixo), relativamente aos restantes organismos, é conseguido, nas religiões, à custa do estatuto imensamente inferior dos seres humanos perante os deuses. Ora, se abandonarmos os termos sociais inadequados — “inferior,” “superior” — as diferenças objectivas entre nós e os outros animais persistem: de todos os animais do nosso planeta, só nós sabemos sequer que existimos num planeta. A nossa complexidade cognitiva, psicológica e emocional, assim como o nosso sentido moral, não ficam diminuídos pelo facto de terem uma origem biológica modesta. Afinal, os mais poderosos dirigentes religiosos ou políticos humanos tiveram origem em bebés indefesos e ignorantes, que usavam fraldas e só com muita dificuldade aprenderam a andar, e nem por isso perdem a sua dignidade. Do mesmo modo, as nossas origens biológicas modestas em nada nos diminuem.

Concluo com as palavras do poeta António Gedeão, que se aplicam na verdade a qualquer cientista: “Eu queria agradecer-te, Galileo, / a inteligência das coisas que me deste.” Todos nós, organismos biológicos inteligentes e em busca permanente da inteligência mais profunda das coisas, devemos este agradecimento a Darwin. Este cientista, e outros como ele, honram a nossa espécie biológica — e honrariam qualquer ser de qualquer galáxia — porque nos revelam a verdade e nos religam com o universo, como nenhuma religião humana o fez.

Fonte: http://criticanarede.com

Ciência – Diante da impossibilidade de justificação do princípio indutivo em bases lógicas ou experimentais, quais as possíveis respostas ao problema da indução?


“Seus programas técnicos levaram a avanços interessantes dentro da teoria da probabilidade, mas nenhum novo insight foi acrescentado sobre a natureza da ciência. Seu programa degenerou.”[1]

Resposta – Cética.

“Podemos aceitar que a ciência se baseia na indução e aceitar também a demonstração de Hume de que a indução não pode ser justificada por apelo à lógica ou à experiência, e concluir que a ciência não pode ser justificada racionalmente. O próprio Hume adotou uma posição desse tipo. Ele sustentava que crenças em leis e teorias nada mais são que hábitos psicológicos que adquirimos como resultado de repetições das observações relevantes.”[2]

Reposta – Racionalidade do princípio.

“Uma segunda resposta é enfraquecer a exigência indutivista de que todo o conhecimento não-lógico deve ser derivado da experiência e argumentar pela racionalidade do princípio da indução sobre alguma outra base. Entretanto, ver o princípio de indução, ou algo semelhante, como “óbvio” não é aceitável.”[3] Pois, o “óbvio” depende de nossa educação e é particular.

Resposta – Negação de que a ciência se baseie em indução.

“O problema da indução será evitado se pudermos estabelecer que a ciência não envolve indução. Os falsificacionistas, notadamente Karl Popper, tentam fazer isso.”[4]


[1] CHALMERS, A. F. O que é a ciência afinal? 2009. Editora Brasiliense. P. 42

 

[2] CHALMERS, A. F. O que é a ciência afinal? 2009. Editora Brasiliense. P. 42

[3] CHALMERS, A. F. O que é a ciência afinal? 2009. Editora Brasiliense. P. 43

[4] CHALMERS, A. F. O que é a ciência afinal? 2009. Editora Brasiliense. P. 43

Ciência – As principais teses do Indutivismo ingênuo.

“De acordo com o indutivismo ingênuo, a ciência começa com a observação. O observador científico deve ter órgãos sensitivos normais e inalterados e deve registrar fielmente o que puder ver, ouvir etc.  Em relação ao que está observando, e deve fazê-lo sem preconceitos.”[1] Desta maneira, se pode se justificar como verdadeira  as afirmações a respeito do estado do mundo ou parte dele. Essas afirmações formam a base para as leis e teorias que devem derivar e constituir o conhecimento.

Ou seja, se trata aqui de, iniciando com a experiência singular, fazer afirmações singulares sobre a observação. Assim, satisfazendo as condições para generalizações, deste modo,

  1. o número de proposições de observação que forma a base de uma generalização deve ser grande;
  2. As observações devem ser repetidas sob uma ampla variedade de condições;
  3. Nenhuma proposição de observação deve conflitar com a lei universal derivada.

Se pode fazer uma afirmação ou lei universal.

“Desde que certas condições sejam satisfeitas, é legítimo generalizar a partir de uma lista finita de proposições de observação singulares para uma lei universal.”[2]


[1] CHALMERS, A. F. O que é a ciência afinal? 2009. Editora Brasiliense. P. 23

[2] CHALMERS, A. F. O que é a ciência afinal? 2009. Editora Brasiliense. P. 25

Resumo – Aristóteles – Metafísica – Livro I – Cap. II

Continuação do Capítulo I

Metafísica – Livro I – Cap. II

Devemos examinar de que causas e de que princípios a filosofia é a ciência”[1]. Mas antes admitamos o que é o filósofo: ele

  1. conhece, na medida do possível, todas as coisas, embora não possua a ciência de cada uma delas por si”[2].
  2. conhece  as coisas difíceis além do conhecimento sensível que é comum a todos e não-científico.
  3. “Conhece as causas com mais exatidão, e é mais capaz de ensinar[3].

O que é filosofia:

  1. A que escolhemos por ela própria, visando o saber [a causa] e não uma ciência de resultados.
  2. A ciência que não é subordinada a nenhuma outra. Ou seja, não recebe leis, mas as dá.
  3. A única ciência livre. A única que existe por si.

A filosofia é a maior das ciências, pois é a que em maior grau, possui a ciência universal, e que assim conhece todos os singulares. Logo, só o filósofo é aquele que pode ensinar já que sabe conhece a causa das outras ciências.

A mais elevada das ciências, e superior a qualquer subordinada, é, portanto, aquela que conhece aquilo em vista do qual cada coisa se deve fazer[4].

Assim, a ciência que procuramos é esta, a ciência teorética dos primeiros princípios e das causas, “porque o bem e o “porquê” são uma das causas”[5].

Foi pela admiração que os primeiros homens se propuseram a filosofar, depois de já haver quase tudo que é indispensável ao bem-estar e à comodidade. “Com efeito, a mais divina [ciência] é também a mais apreciável, e só em duas maneiras o pode ser: ou pó ser possuída principalmente de Deus, ou por ter como objeto as coisas divinas”[6]. Neste caso, Sofia, a divina sabedoria. Ou seja, “Deus, com efeito, parece ser, para todos, a causa e princípio, e tal uma ciência só Deus, ou Deus principalmente, poderia possuí-la”.

Estabelecida no capítulo anterior a existência da ciência ( ou sabedoria ), Aristóteles propõe-se neste capítulo indagar o que caracteriza. Em resumo é: ciência das causas primeiras; teórica, por excelência; eminentemente livre; divina; a mais digna de apreço, gerando a sua aquisição um estado de espírito contrário ao do pasmo da ignorância.[7]

“Fica assim estabelecida a natureza da ciência que procuramos e também o fim que a nossa investigação e todo o tratado devem alcançar”[8].

Continua no Capítulo III.


[1] Ibidem, p.213.

[2] Ibidem.

[3] Ibidem.

[4] Ibidem, p.214.

[5] Ibidem.

[6] Ibidem, p.215.

[7] Ibidem, p.213, nota de rodapé.

[8] Ibidem, p.215.

Resumo – Aristóteles – Metafísica – Livro I – Cap. I

aristoteles 02

Outro resumo da Metafísica e até mais completo no post “O método da Metafísica”

Metafísica – Livro I – Cap. I

Todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer[1].

E a razão é o que melhor nos faz conhecer.

A memória, a capacidade de recordar a experiência, é o que diferencia o homem das abelhas e dos animais, do mais inteligente do menos.

Pois,

Aristóteles discrimina três graus no conhecimento sensível dos irracionais, que com Fonseca se podem designar de: ínfimo, médio e superior. O ínfimo é próprio dos animais que somente vivem a experiência presente; o médio, dos que podem conservar a experiência passada mas não ouvem, e o superior, dos que ouvem, possuem memória e podem ser adestrados.[2]

Mas a espécie humana tem também a arte e o raciocínio.

A arte aparece quando, de um complexo de noções experimentadas, se exprime um único juízo universal dos [casos] semelhantes[3]. Sendo aqui, a memória necessária para tal feito apenas humano.

Mas na prática a experiência então nada parece diferir da arte. “E isto é porque a experiência é conhecimento dos singulares, e a arte, dos universais[4]; e, por outro lado, porque o geral sempre diz respeito ao singular.

Exemplo: Não é o Homem a quem o médico cura, mas a Sócrates que por acaso é homem. Ou seja, cura-se o singular e não o geral, mas através do conhecimento do geral.

Portanto, quem possua a noção sem a experiência, e conheça o universal ignorando o particular nele contido, enganar-se-á muitas vezes no tratamento, porque o objeto da cura é, de preferência, o singular[5].

Os empíricos sabem o “quê”, os outros, os artistas – no sentido de techné -, o “porquê”. E, por isso, que a arte é vista como mais sábia, pois, como numa obra de uma casa, vê a causa do que faz, já os empíricos, não.

Logo, a teoria é o que os diferencia e torna o mestre-de-obras superior. E, uma vez que sabe a teoria, a pode ensinar.

Não julgamos ser a sensação que constitua uma ciência, embora constitua um conhecimento seguro dos singulares.

O motivo que nos leva a discorrer é este: que  a chamada filosofia é por todos concebida como tendo por objeto as causas primeiras e os princípios; de maneira que, como acima se notou, o empírico parece ser mais sábio que o ente que unicamente possui uma sensação qualquer, o homem de arte mais do que os empíricos, o mestre-de-obras mais do que o operário, e as ciências teoréticas mais que as práticas. Que a filosofia seja a ciência de certas causas e de certos princípios é evidente.[6]

Este capítulo tem por fim mostrar que o desejo de sabe é natural; que há graus diversos de conhecimento – sensação, memória, experiência, arte, ciência – e que a  verdadeira ciência é a que resulta do conhecimento teorético, especulativo, não-prático, cujo objeto é o saber das causas ou razão de ser. A ciência deste saber constitui a sabedoria ou filosofia. [7]

Continua no Capítulo II.


[1] ARISTÓTELES. Metafísica. 1973. Editora Abril. São Paulo. P. 211

[2] Idem, nota de rodapé.

[3] Ibidem.

[4] Ibidem., p.212

[5] Ibidem.

[6] Ibidem, p.213.

[7] Ibidem, p.211, nota de rodapé.