René Guénon – Cap XXI de “O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos”

Texto retirado de http://www.reneguenon.net/GUENONtextos/IRGETGuenonCaimAbel.html

 

 “solidificação” do mundo tem ainda, na ordem humana e social, outras conseqüências de que não falamos até agora: a este respeito, ela cria um estado de coisas no qual tudo está contado, registrado e regulamentado, o que, no fundo, não é mais do que outro gênero de “mecanização”; nada é mais fácil do que constatar por todo o lado, na nossa época, fatos sintomáticos tais como, por exemplo, a mania dos recenseamentos (que se liga, aliás, diretamente à importância atribuída às estatísticas) (1), e igualmente, a multiplicação incessante das intervenções administrativas em todas as circunstâncias da vida, intervenções que devem ter como efeito certamente assegurar uma uniformidade tão completa quanto possível entre os indivíduos, tanto mais que, de certo modo, é “princípio” de qualquer administração moderna tratar esses indivíduos como simples unidades numéricas todas semelhantes entre si, isto é, agir como se, por hipótese, a uniformidade “ideal” estivesse já realizada, obrigando deste modo todos os homens a ajustarem-se, se assim de pode dizer, a uma mesma medida “média”. Por outro lado, esta regulamentação cada vez mais excessiva tem uma conseqüência bastante paradoxal: é que, quanto mais se glorifica a rapidez e a facilidade crescentes da comunicação entre os países mesmo os mais afastados, graças às invenções da indústria moderna, põem-se ao mesmo tempo todos os entraves possíveis à liberdade dessa comunicação, de tal modo que é muitas vezes praticamente impossível passar de um país para outro, ou pelo menos, tornou-se mais difícil do que nos tempos em que não havia nenhum meio mecânico de transporte. É mais um aspecto particular da “solidificação”: num mundo assim, já não há lugar para os povos nômades que até agora têm subsistido em condições diversas, porque cada vez menos encontram espaço livre diante de si. Aliás, todos se esforçam por todos os meios para os levar à vida sedentária (2), de modo que, também sob este aspecto, não parece longe o momento em que “a roda deixará de andar”; além disso, nesta vida sedentária, as cidades, que representam, de certo modo, o último grau da “fixação”, tomam uma preponderância importante e tendem cada vez mais a absorver tudo (3); e é assim que, perto do final do ciclo, Caim acabara realmente por matar Abel. 

                    Com efeito, no simbolismo bíblico, Caim é representado como agricultor e Abel como pastor. São assim tipos das duas espécies de povos que existiram desde as origens da presente humanidade, ou pelo menos, desde que se produziu nela uma primeira diferenciação: os sedentários, ligados à cultura da terra, os nômades, à criação de gado (4). Estas são, é preciso insistir, as ocupações essenciais e primordiais destes dois tipos humanos; o resto é acidental, derivado ou acrescentado, e falar de povos caçadores ou pescadores, por exemplo, como fazem comummente os etnólogos modernos, ou é tomar o acidental pelo essencial, ou referir unicamente casos mais ou menos tardios de anomalia e de degenerescência, como se pode encontrar realmente em certos povos selvagens (e os povos essencialmente comerciantes ou industriais do Ocidente moderno não são, aliás, menos anormais, embora de outro modo) (5). Cada uma destas duas categorias tinha naturalmente a sua lei tradicional própria, diferente da outra, e adaptada ao seu gênero de vida e à natureza das suas ocupações; esta diferença manifestava-se nomeadamente nos ritos sacrificiais, e dai a menção especial que é feita das oferendas vegetais de Caim e das oferendas animais de Abel, no texto do Gênesis (6). Já que fazemos aqui uma referência particular ao simbolismo bíblico, é bom notar já, a este propósito, que a Thora hebraica se liga propriamente ao tipo da lei dos povos nômades: daí a maneira como é apresentada a história de Caim e de Abel, que, do ponto de vista dos povos sedentários, apareceria sob outra luz e seria susceptível de outra interpretação; mas, claro, os aspectos correspondentes a estes dois pontos de vista estão incluídos um e outro no seu sentido profundo, e não são, na realidade, mais do que uma aplicação do duplo sentido dos símbolos, aplicação à qual só fizemos uma alusão parcial a propósito da «solidificação», já que esta questão, como se verá melhor a seguir, está estreitamente ligada ao simbolismo do assassínio de Abel por Caim. Do caráter especial da tradição hebraica vem também a reprovação que se faz a certas artes ou a certos ofícios que estão ligados propriamente aos sedentários, e nomeadamente a tudo o que diz respeito à construção de habitações fixas; pelo menos foi assim até à época em que precisamente Israel deixou de ser nômade, durante alguns séculos, isto é, até ao tempo de David e de Salomão, e sabe-se que, para construir o Templo de Jerusalém, foi preciso chamar operários estrangeiros (7)

                      São naturalmente os povos agricultores que, pelo fato de serem sedentários, acabam, mais cedo ou mais tarde por construir cidades; e, de fato, diz-se que a primeira cidade foi fundada pelo próprio Caim; esta fundação só teve lugar, aliás, muito depois de se terem referido as suas ocupações agrícolas, o que mostra bem que há como que duas fases sucessivas no “sedentarismo”, em que a segunda representa, em relação à primeira, um grau mais acentuado de fixação e de “concentração” espacial. De modo geral, as obras dos povos sedentários são, por assim dizer, obras do tempo; fixados no espaço e num domínio estritamente delimitado, desenvolvem a sua atividade numa continuidade temporal que lhes aparece como indefinida. Pelo contrário, os povos nômades e pastores não edificam nada que perdure, e não trabalham com vista a um futuro que lhes escapa; mas vão adiante de si próprios no espaço, que não lhes opõe nenhuma limitação, mas, pelo contrário, lhes abre constantemente novas possibilidades. Encontra-se assim a correspondência dos princípios cósmicos aos quais se liga, numa outra ordem, o simbolismo de Caim e de Abel: o princípio da compressão, representado pelo tempo e o princípio da expansão, pelo espaço (8). A bem dizer, ambos estes princípios se manifestam simultaneamente no tempo e no espaço, como em todas as coisas, e é necessário anotar isto para evitar identificações ou assimilações demasiado “simplificadas”, bem como para resolver por vezes certas oposições aparentes; mas não é menos certo que a ação do primeiro predomina na condição temporal, e a do segundo na condição espacial. Ora o tempo gasta o espaço, se assim se pode dizer, afirmando desse modo o seu papel de «devorador»; igualmente, ao longo dos tempos, os sedentários absorvem pouco a pouco os nômades: é esse, como dizíamos mais atrás, o sentido social e histórico do assassínio de Abel por Caim. 

                    A atividade dos nômades exerce-se especialmente no reino animal, móvel como eles; a dos sedentários, pelo contrário, tem como objeto direto os dois reinos fixos, o vegetal e o mineral (9). Por outro lado, pela força das coisas, os sedentários chegam a constituir símbolos visuais, imagens feitas de diversas substâncias, mas que, do ponto de vista do significado essencial, se reduzem sempre mais ou menos diretamente ao esquematismo geométrico, origem e base de todas as formações espaciais. Os nômades, pelo contrário, para quem as imagens estão proibidas como tudo o que tenda a fixá-los num determinado lugar, têm símbolos sonoros, os únicos compatíveis com o seu estado de contínua migração(10). Mas há uma coisa notável que é o fato de, entre as faculdades sensíveis, a vista estar em ligação direta com o espaço, e o ouvido, com o tempo: os elementos do símbolo visual exprimem-se em simultaneidade, os do símbolo sonoro, em sucessão; opera-se, pois, nesta ordem uma espécie de inversão das relações que vimos atrás, inversão que é, aliás, necessária para estabelecer um certo equilíbrio entre os dois princípios contrários de que falamos, e para manter as suas ações respectivas nos limites compatíveis com a existência humana normal. Assim, os sedentários criam as artes plásticas (arquitetura, escultura, pintura), isto é, as artes das formas que se desenvolvem no espaço; os nômades criam as artes fonéticas (música, poesia), isto é, as artes das formas que se desenvolvem no tempo; porque, digamo-lo de novo, qualquer arte é, na sua origem, simbólica e ritual, e só por uma degenerescência ulterior, muito recente, aliás, é que perde esse caráter sagrado para se tornar finalmente o “jogo” puramente profano, ao qual está reduzida entre os nossos contemporâneos (11)

                    Eis onde se manifesta o complementarismo das condições de existência: os que trabalham para o tempo estão estabilizados no espaço; os que erram no espaço, modificam-se sem cessar com o tempo. E vejamos onde aparece a antinomia do “sentido inverso”: aqueles que vivem segundo o tempo, elemento mutável e destruidor, fixam-se e conservam-se; aqueles que vivem segundo o espaço, elemento fixo e permanente, dispersam-se e mudam-se sem cessar. É preciso que seja assim para que a existência de uns e de outros se torne possível, pelo equilíbrio, pelo menos relativo, que se estabelece entre os termos representativos das duas tendências contrárias; se só uma ou outra destas duas tendências compressiva e expansiva estivesse em ação, o fim viria rapidamente, quer por “cristalização”, quer por “volatilização”, se nos é permitido empregar a este respeito as expressões simbólicas que devem evocar a “coagulação” e a “solução” alquímicas, e que correspondem, aliás, efetivamente, no mundo atual, a duas fases de que ainda iremos elucidar mais à frente o respectivo significado (12). Com efeito, é este um domínio onde se afirmam com particular nitidez todas as conseqüências das dualidades cósmicas, imagens ou reflexos mais ou menos longínquos da primeira dualidade, a mesma da essência e da substância, do Céu e da Terra, de Purusha e de Prakriti, que gera e rege toda a manifestação. 

                   Mas, voltando ao simbolismo bíblico, o sacrifício animal é fatal a Abel (13), e a oferenda vegetal de Caim não é aceito (14); aquele que é abençoado, morre, aquele que vive é amaldiçoado. Rompe-se o equilíbrio, de uma parte e de outra; como restabelecê-lo senão através de trocas, de tal modo que cada uma tenha a sua parte das produções da outra? É assim que o movimento associa o tempo e o espaço, e de certo modo, é a resultante da sua combinação e concilia neles as duas tendências opostas de que falamos atrás (15); o movimento não é em si próprio mais do que uma série de desequilíbrios, mas a soma destes constitui o equilíbrio relativo compatível com a lei da manifestação ou do “devir”, isto é, com a própria existência contingente. Qualquer troca entre os seres submetidos às condições temporal e espacial é um movimento, em suma, ou antes, um conjunto de dois movimentos inversos e recíprocos, que se harmonizam e se compensam um ao outro; aqui, o equilíbrio realiza-se, pois, diretamente pelo fato mesmo desta compensação (16). O movimento alternativo das trocas pode, aliás, exercer-se nos três domínios espiritual (ou intelectual puro), psíquico e corporal, em correspondência com os “três mundos”: troca dos princípios, dos símbolos e das oferendas, tal é, na verdadeira história tradicional da humanidade terrestre, a tripla base sobre a qual assenta o mistério dos pactos, das alianças e das bênçãos, isto é, no fundo, a própria repartição das “influências espirituais” em ação no nosso mundo; mas não podemos insistir mais nestas últimas considerações, que se ligam evidentemente a um estado normal do qual estamos muito afastados sob todos os aspectos, e dos quais o mundo moderno não é mais do que negação pura e simples (17)

                                                                                  * * * 

Notas: 

1. Muito haveria a dizer sobre as proibições formuladas em certas tradições contra os recenseamentos, salvo em alguns casos excepcionais; se disséssemos que estas operações e todas aquelas daquilo a que chamamos o «estado civil» têm, entre outros inconvenientes, o de contribuir para encurtar a duração da vida humana (o que, aliás, está conforme com a própria marcha do ciclo, sobretudo nos últimos períodos), ninguém acreditaria; e, no entanto, em certos países, os camponeses mais ignorantes sabem bastante bem, como fato de experiência corrente, que se se contarem muitas vezes os animais, morrem muitos mais do que se não o fizerem. É claro, evidentemente, que aos olhos dos modernos que se dizem «esclarecidos», isto não passa de uma «superstição»! 

2. Citemos, como exemplos particularmente significativos, os projetos «sionistas», no que diz respeito aos Judeus e também as tentativas recentes para fixar os Ciganos em certas regiões da Europa ocidental. 

3.  É preciso lembrar a este respeito que a própria «Jerusalém celeste» é simbolicamente uma «cidade», 
o que mostra, mais uma vez, como dizíamos atrás, que se pode verificar um duplo sentido da «solidificação». 

4. Poderíamos acrescentar que, sendo Caim designado como mais velho, a agricultura parece que teve 
uma certa anterioridade, e, de fato, o próprio Adão, antes da «queda», é representado como tendo a  função de «cultivar o jardim», o que, aliás, não se refere propriamente à predominância do simbolismo vegetal na figuração do início do ciclo (daí uma «agricultura» simbólica e até iniciática, a mesma que, entre os Latinos, se dizia que Saturno tinha ensinado aos homens da «idade de ouro»); mas, seja como for, só temos que ter em conta aqui o estado simbolizado pela oposição (que é ao mesmo tempo um complementarismo) de Caim e de Abel, isto é, aquele em que a distinção dos povos em agricultores e pastores é já um fato consumado. 

5   As denominações de Iran e de Turan que se quis já atribuir a designações de raças, representam na reali¬dade respectivamente os povos sedentários e os povos nômades; Iran ou Airyana vem da palavra arya (de onde deriva ârya por extensão), que significa «lavrador» (derivado da raiz ar, que se encontra também no latim arare, arator, e também arvum «campo»); e o emprego da palavra ârya como designação honorífica (para as castas superiores) é, por conseguinte, característica da tradição dos povos agricultores. 

6  Sobre a importância muito particular do sacrifício e dos ritos que a eles se ligam, nas diferentes formas tradicionais, ver Frithjof Schuon, Du Sacrifice, na revista Études Traditionnelles, Abril de 1938, e A. K. Coomaraswamy, Atmayajna Self-sacrifice, no Harvard Journal ofAsiatic Studies, Fevereiro de 1942. 

7 A fixação do povo hebreu dependia, essencialmente, aliás, da própria existência do Templo de Jerusalém: assim que este foi destruído, o nomadismo reapareceu sob a forma especial da «dispersão». 

8  Sobre este significado cosmológico devem ver-se especialmente os trabalhos de Fabre d’Olivet. 

9 A utilização dos elementos minerais compreende especialmente a construção e a mineralogia: voltaremos a esta última, cujo simbolismo bíblico a faz remontar a Tubalcaim, isto é, a um descendente de Caim, cujo nome se encontra na formação do seu próprio, o que indica que existe entre eles uma ligação direta particularmente estreita. 

10  A distinção destas duas categorias fundamentais de símbolos é, na tradição hindu, a do yantra, símbolo figurado, e do mantra, símbolo sonoro; ela arrasta naturalmente uma distinção correspondente nos ritos onde estes elementos simbólicos são empregues respectivamente, embora não haja sempre uma separação tão nítida como a que se pode encarar teoricamente, já que todas as combinações em proporções diversas são possíveis aqui. 

11 Seria desnecessário notar que, em todas as considerações expostas aqui, se vê aparecer nitidamente o caráter correlativo, e de certo modo simétrico, das duas condições espacial e temporal, consideradas no seu aspecto qualitativo. 

12 É por isso que o nomadismo, sob o seu aspecto «maléfico» e desviado, exerce facilmente uma ação «dissolvente» sobre tudo aquilo com que entra em contado; por seu lado, o sedentarismo, sob o mesmo aspecto, só pode levar às formas mais grosseiras de um materialismo sem saída. 

13 Como Abel derramou o sangue dos animais, o seu sangue é derramado por Caim; há como que a expressão de uma «lei de compensação», em virtude da qual os desequilíbrios parciais, que é no que consiste fundamentalmente toda a manifestação, se integram no equilíbrio total. 

14 Importa notar que a Bíblia hebraica admite, no entanto, a validade do sacrifício não sangrento considerado em si mesmo: é o caso do sacrifício de Melquitsedec, que consiste na oferenda essencialmente vegetal do pão e do vinho; mas isto liga-se em realidade ao ritual do Soma védico e à perpetuação direta    da «tradição primordial», para além da forma especializada da tradição hebraica e «abraâmica», e até, muito mais longe ainda, para além da distinção da lei dos povos sedentários e da dos povos nômades; há ainda uma reminiscência da associação do simbolismo vegetal com o «Paraíso terrestre», isto é, com o «estado primordial» da nossa humanidade.A aceitação do sacrifício de Abel e a rejeição do de Caim é representada muitas vezes sob uma forma simbólica bastante curiosa; o fumo do primeiro eleva-se verticalmente para o céu, enquanto que o do segundo se espalha horizontalmente à superfície da terra; deste modo traçam respectivamente a altura e a base de um triângulo que representa o domínio da manifestação humana.  

15 Estas duas tendências manifestam-se ainda, aliás, no próprio movimento, sob as formas respectivas  do movimento centrípeto e do movimento centrífugo. 

16  Equilíbrio, harmonia, justiça, não são mais do que três formas ou três aspectos de uma e mesma coisa; aliás, em certo sentido, poder-se-ia fazê-las corresponder respectivamente aos três domínios que mencionamos a seguir, com a condição, claro, de restringir aqui a justiça ao seu sentido mais imediato, cuja simples «honestidade» nas transações comerciais representa, nos modernos, a expressão diminuída e degenerada pela redução de todas as coisas ao ponto de vista profano e à estreita banalidade da «vida vulgar».

17 A intervenção da autoridade espiritual no que diz respeito à moeda, nas civilizações tradicionais, liga-se imediatamente àquilo que acabamos de dizer; com efeito, a moeda em si é de certo modo a própria representação da troca, e podemos compreender por esse fato, de modo mais preciso, qual era o papel efetivo dos símbolos que trazia gravados e que circulavam com ela, dando a essa troca um significado completamente diferente da simples «materialidade», que é tudo o que resta nas condições profanas que regem, no mundo moderno, as relações dos povos bem como as dos indivíduos.

O Coração Do Filósofo Cristão – Ou Um Conto… Biográfico!

Fonte da Imagem: plus.google.comFolheando os livros mais antigos de minhas prateleiras surpreendi-me quando encontrei uma carta de meu falecido pai dentro de um belo exemplar encadernado do livro “Nekroi Diálogoi”, de Luciano , cujo título em dourado destacava-se em autorelevo na lombada; carta esta endereçada a mim. Sim, meu pai que não conheci enquanto vivo e que me deixou uma pequena herança em livros, poucos realmente, cerca de trezentos, mas muito valiosos em conteúdo.
Não sei se ele escrevera-me e tencionava dar-me num encontro determinado, mas se esquecera onde colocara a carta, ou se a teria deixado premeditadamente no opúsculo de título sugestivo pressagiando que seria lida apenas após seu passamento!
Abri lentamente o belo envelope preto e aveludado e li silenciosamente o título que encabeçava seu escrito: “O CORAÇÃO DO FILÓSOFO CRISTÃO”!
E é este o testamento de suas palavras que transcrevo a seguir:

“Meu filho.

Sei que é um jovem e afinado com as novas tecnologias, duas prerrogativas que intuo lhe impelirão a publicar o que lhe escrevo no ambiente que chamam de cyberespaço!

Mesmo assim escrevo porque sei que poucos lerão minhas palavras, pois em nossos dias qualquer texto que seja “postado”, como vocês dizem, deve necessariamente ter no máximo quatro ou cinco linhas, caso ultrapasse este limite dificilmente será lido (por inteiro). 

Logo me dirão os especialistas na analise dos fenômenos sociais, que a culpa não é dos leitores, posto que a “Web” seja um ambiente de informações rápidas, dinâmicas e fluidas!

Admito esta réplica, mas sustento que um animal leitor é leitor em qualquer ambiente; o fato é que temos hoje uma geração preguiçosa e indolente que já não sabe apreciar o valor das boas letras, que não aprecia os clássicos, que não gosta de qualquer coisa que lhes provoque, que lhes desafie ao pensar!

Espero que não seja um dos tais, pois apesar de não ter podido ficar com sua mãe, posto que nosso amor fora-nos proibido; pedi-lhe e ela prometeu-me que não o deixaria abandonar os estudos e lho ensinaria amar as boas letras!

Para isso deixei-lhe um pouco daquilo que de melhor havia em meu acervo particular. Dos mitos, de Homero à Tolkien; das tragédias, de SófoclesShakespeare; dos filósofos, de Demócrito a Deleuze; dos romances, de Balzac a Saramago!

Selecionei os que me eram mais caros, caros não em valor do vil metal, pelo qual se matam uns aos outros os nossos semelhantes, porém caros naquilo que os homens tanto precisam e menos procuram: o conhecimento e o afeto. Meu filho, se os buscares não é certo que serás feliz, mas ao menos, viverás bem contigo mesmo!

Mas, não escrevo para falar de ti e tampouco para falar dos outros, mas escrevo para falar sobre mim. Ou, antes, para falar sobre quem acredito que sou; ou ainda mesmo sobre quem os outros acreditam que eu seja. Pois, é notório que os outros sabem mais sobre nós, do que nós mesmos!

Quando as pessoas vêem meu perfil nas redes sociais ou meu currículo lattes, pensam que sou feliz, realizado e que tenho uma vida próspera. Porém, nada poderia estar mais longe da verdade!

Não sou feliz e tampouco realizado, à vezes estou feliz e noutras vezes estou infeliz, triste e angustiado. Os momentos de felicidade cada vez se tornam mais raros!

Afinal, como ser feliz num mundo em que grassa tanta infelicidade? Como ser feliz enquanto milhões morrem de fome, ou são mortos pela estupidez e ganância de seus semelhantes?

Muitas pessoas pensam que alguns reconhecimentos acadêmicos e publicações me concedem algum prestígio, e, assim o prazer duradouro da “autorrealização profissional”. Mas, tudo isso é enganoso, estas coisas apenas alimentam meu ego, e, não são eficazes para transformar a dimensão mais profunda de meu ser que clama por atenção, além disso, minha frustração está em que apesar de todo este aparente reconhecimento, à duras penas consigo saldar minhas dívidas e colocar o alimento em minha mesa.

Porque, por mais que eu odeie admitir, vivo num mundo do capital, onde o dinheiro vale mais que as pessoas e onde todos são medidos por aquilo que têm e não por aquilo que são!

Talvez alguns me digam: “Mas e o cristianismo? Esse sim é robusto em sua vida e sabemos que nutre a tua alma com muitas e preciosas certezas”. Quisera eu que isso fosse fato!

Para mim, a era das convicções já passou; já não posso mais dar-me ao luxo de arvorar a convicção de minha “cristaneidade”. Pois todos os dias ao olhar-me no espelho, no espelho de minha alma, pergunto-me: “que monstro abjeto eu sou”? Como posso aparentar beleza de uma alma pura em palavras, e, ao mesmo tempo nutrir no coração desejos tão contraditórios e eivados de concupiscência?

Eu até tento, ‘dia a dia’, ser melhor; parecer melhor e para muitos até pareço. Mas, só eu sei o quão perverso é meu coração, egoísta e vaidoso!

Proclamo virtudes que não tenho, prego uma doutrina que não sigo, falo de um bem que não pratico. Essa não é uma boa definição do hipócrita?

Enquanto conheço muitas pessoas de quem se pode dizer, e, dizem, ‘são cristãos’. Eu duvido de minha fé até a sua raiz. Não há proposição de meu ‘cristianismo’ da qual eu não duvide. Não há qualquer ‘dogma’ de minha fé que eu não ponha em questão!

Outros me perguntam: “por que, sendo você filósofo reflete e escreve tanto sobre a fé ou a religião”? Certamente, dirão outros, “é porque sabes muito sobre estes assuntos e tens de dividir o que sabes com os outros”. Eis, outros juízos equivocados.

O que não compreendem é que sou egoísta, escrevo por ensaio, por tentativa em fixar novos conhecimentos obtidos, em revisitar velhos conhecimentos, escrevo para melhor ordenar minhas idéias, e, quem sabe (?), convencer-me das verdades com as quais tenho lidado.

Portanto, sou egoísta, pois que não escrevo para os outros, escrevo para mim mesmo, por isso nunca escrevo tudo o que eu poderia escrever sobre determinado assunto, guardo para mim (e às vezes para poucos) o que eu acredito que seja mais essencial, mais valioso, ou simplesmente, o que me cause mais prazer!

 Vejo a religião como uma construção humana, todo rito, gesto e palavra religiosa se inserem no âmbito das ações desesperadas do animal religioso, o animal cioso de transcendência. 

Invejo aqueles que têm fé robusta, que conseguem crer sem hesitar. Mas, não sou um dos tais!

Penso que se há Deus o abismo ontológico entre Ele e a criatura é tão imenso que todos os gestos religiosos caem no vazio. Penso também que o abismo jamais é transposto num movimento ascendente, mas apenas num movimento descendente!

Imagino um leitor perguntando-me:

“Mas, se você vê tudo e a si mesmo de forma tão desesperadora, qual é o valor têm para ti as Escrituras?”

A mensagem das Escrituras tem um valor imensurável. Elas também mostram este mesmo quadro desesperador da condição humana, também nos apresentam homens tão iguais ou até piores que eu mesmo.

Entretanto, as Escrituras também falam que o movimento para transpor o abismo já foi realizado, que ele é fundamentalmente descendente e por isso eu posso ser alcançado por ele, e, em verdade eu fui, bem como, você!

Neste ponto, meu filho, reside o enigma da fé: fé não como o assentimento intelectual de um corpo de doutrinas inacreditáveis, mas como a aceitação de que somos aceitos por Ele, por mais paradoxal que isso pareça. Paradoxal exatamente por sabermos existencialmente qual é nossa condição.  

Todavia, se isso se passa realmente assim, eu posso dizer que tenho fé, ainda que ela seja, em mim, quase imperceptível, como um filete de águas cristalinas entre as pedras num dia de sol.

Pois, se aquele que tem a fé do tamanho de um grão de mostarda é capaz de transportar os montes. O que é possível para aquele cuja fé flui, escoa lentamente num fluxo rumo ao infinito?

Deste modo se encerra sua epístola, do exato modo como eu imaginava que se encerraria um diálogo com meu pai, um homem que tinha um coração de filósofo e que agora pude saber também que tinha um coração cristão, porém filosófico, sim, pois findara este escrito do bom e velho modo filosófico, com uma questão!

Resumo – “República” de Platão – Livro VI

 

            O livro VI se conecta ao V no momento em que todos concordam que o filósofo deve governar a cidade, pois ele conhece a essência das coisas; é mais capaz de guardar as leis e os costumes da cidade; é avesso à mentira; é moderado, justo, bom e dotado de uma alma superior.

            Adimanto volta à “realidade” e diz a Sócrates que o filósofo na verdade é muito diferente do que se há dito até então. Ele é um ser extravagante, senão desonesto, e, ainda por cima, inútil para a cidade. Todavia, por justamente os governantes de “hoje” e a maioria da população não entenderem a essência que o filósofo conhece, pensam ser extravagante, inútil e tagarela: os papéis estão invertidos.

            Desta forma, estas qualidades pejorativas que o filósofo possui pelo povo são nada menos que um engano. Pois, este ama a verdade, tem coragem, é generoso, tem facilidade no aprendizado e boa memória. De fato, é muito útil para a cidade. Estas qualidades pejorativas miram na verdade àqueles que apenas tem pretensão de serem filósofos, os philodóxos, que foi visto no último livro, os que têm uma mera opinião das coisas. Estes são os sofistas, mercenários do saber, que buscam mais o agrado da multidão que o encontro com a verdade. Sendo assim, é muito claro que os sofistas sejam adorados, enquanto o filósofo, odiado, uma vez que fala da essência que apenas poucos conhecem.

            Interessante o fato de a crise da sociedade grega, dar à luz aos sofistas e aos filósofos, no entanto, estes últimos se encontram numa posição muito menos agradável. Pois, são alvos do orgulho ferido dos outros, sendo inventados contra si intrigas da vida privada e processos públicos, o que com efeito serve de empecilho para que governe e salve a cidade.

            Então, resta a questão de Adimanto: qual dos governos atuais é adequado à filosofia? Sócrates responde com um retumbante: “nenhum!” E, ainda completa, por esta mesma razão que todos os governos se degeneram. Desta maneira, é preciso decidir uma maneira para a cidade se relacionar com os filósofos para não perecer.

            Aqui começa uma crítica severa para a formação atual dos filósofos. Para Sócrates, ou talvez seja melhor dizer Platão aqui, é preciso de uma educação gradual desde a infância para dominar a educação do corpo até a dialética. Assim, no final de suas vidas teriam liberdade para não governar a cidade, mas para dedicar-se totalmente à filosofia.

            A hostilidade para com o filósofo se deve aos maus filósofos ou falsos, que vivem se insultando e que visam apenas interesses individuais. Sendo que o verdadeiro filósofo visa transformar a cidade ao transformar as leis, visando a justiça, a beleza, a moderação e as virtudes. Por esta razão, é capital que se escolha bem os melhores guardiões, pois o governante deve conhecer dentre todas as coisas, o bem, já que todas as outras virtudes se tornam úteis a partir dele. No entanto, o que seja o bem não é algo unânime na discussão.

            Entretanto, Sócrates julga que tratar sobre o bem é demais para a ocasião e se propõe a falar sobre o filho do bem, prometendo pagar a dívida sobre o pai posteriormente. Ele começa dissertando sobre os sentidos, mas em especial a visão, que precisa diferentemente dos outros, de um terceiro elemento para se efetivar: a luz![1]

            O Sol é a causa da luz, mas não é o olho, nem a visão. No entanto, a visão é o mais solar dos sentidos[2]. O Sol é a causa da visão que pode ser vista por ela. No mundo das essências o Bem é o mesmo que o Sol para o mundo das coisas sensíveis.

Quando a alma se fixa em algo iluminado pela verdade e o ser, ela compreende, sabe e parece possuir inteligência; mas quando se fica no que está mesclado com obscuridade, no que vem a ser e deixa de ser, ela opina e fica turva, muda suas opiniões voluvelmente e parece privada de inteligência.

Portanto, o que concede verdade às coisas conhecidas e o poder de conhecer ao conhecedor é a forma (Idéia) do bem. E embora seja a causa do conhecimento e da verdade, também é um objeto de conhecimento. Tanto o conhecimento quando a verdade são coisas belas. Mas o bem é distinto deles e os supera em beleza. No  mundo visível é com acerto que se considera a luz e a visão como solares ou semelhantes ao sol, mas é equívoco pensar que são o mesmo que o Sol, tal como aqui é acertado considerar o conhecimento e a verdade como semelhantes ao bem, mas equívoco pensar que um ou outra é o mesmo que o bem; este é ainda mais valioso.[3]

            Ou seja, o que transmite a verdade às coisas é a essência do bem. O Bem não é algo solar, mas o próprio Sol. Daí a dificuldade de falar sobre o pai. Pois, apesar de a verdade e o conhecimento serem semelhantes ao Bem, não o são. Deste modo, é preciso ter uma idéia muito mais elevada do que seja o Bem, o pai da luz.[4]

            Por fim, o princípio do mito da caverna é esboçado por Sócrates ao considerar que aqueles que estudam a partir de hipóteses e se utilizando dos objetos sensíveis, apenas se relacionam com as sombras das coisas, enquanto que aquele que aqueles que conhecem a partir de seu princípio adquirem uma inteligência plena das coisas. Sócrates dá o nome de entendimento ao que os geômetras e outros cientistas da área conhecem, algo intermediário entre a opinião e a inteligência. Sendo a ordem do maior para o menor, inteligência, entendimento, crença e opinião, pois o grau de clareza corresponde ao grau de evidência do seu objeto[5].


[1] Elemento este que será explorado no mito da caverna e muito bem discutido no texto de Gerard Lebrun, A Filosofia e sua história, no capítulo Sombra e Luz em Platão.

[2] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 302

[3] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 302-3

[4] Fato interessante aqui é que quando Glauco diz que “algo assim [o Sol e o Bem] não seria idêntico ao prazer”, Sócrates se exalta “Silêncio!” como se talvez tal idéia fosse desprezível. E logo depois Glauco diz em tom cômico “Por Apolo, que divina superioridade!” Glauco talvez tenha feito uma piada relacionando o Sol a Apolo. Mas logo parece ficar cada vez mais claro que Sócrates está incômodo de expor suas idéias a um possível ridículo (ou se desculpa por ter se exaltado). “A culpa é tua, pois me forçaste a transmitir-te minha opinião sobre isso”. PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 303

[5] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 306

Resumo – “República” de Platão – Livro VII

            O livro VII começa puxando o assunto da educação dos filósofos e o tema da luz do livro VI, onde se esboçou também uma idéia que se concretiza neste instante sobre alegoria da caverna de Platão.

            Pessoas moram presas numa caverna. Pela entrada, vem uma luz de uma fogueira. Todos os moradores estão lá desde a infância, ou seja, foram educados de uma mesma maneira desde então. Há um muro entre eles e o fogo e não conseguem olhar para trás. Desta maneira, não vêem a fonte da luz, mas apenas as figuras ou sombras que da abertura vem. Assim, os habitantes da caverna, que só viam sombras, teriam a opinião de que elas são os próprios objetos reais. Até o eco pareceria vir das sombras.

            No entanto, se fossem libertos e olhassem para trás, sofreriam pelo ofuscar da luz forte, mas, ao mesmo tempo, estariam mais perto da realidade, dos objetos reais e não de suas sombras. Se fossem obrigados a sair então, ficariam aflitos irritados por alcançar a  mais forte luz, a do Sol, a ponto de nem conseguirem discernir as coisas que lhes dissessem ser verdadeiras. Seria preciso habituar-se nesta região superior fora da caverna para então depois poder olhar diretamente ao Sol e não ao seu reflexo na água. Isto é, depois de certo tempo, pode-se alcançar o verdadeiro conhecimento, o Bem.

            A partir daí, veria que era o Sol a fonte de todas as coisas que via na caverna, as sombras ou, pode-se dizer, opiniões e que este produz as estações, o ano e as coisas visíveis.

            Entretanto, uma hora este homem pensaria  nos seus “antigos vizinhos” e lembraria de quando atribuíam prêmios para quem adivinha-se mais rápido a sombra, mas isso não fazia mais sentido agora. As sombras não são a realidade. Então, voltaria para alertá-los. Todavia, sozinho seria motivo de risos[1], lhes diria tudo para perder a credibilidade, como dizendo que sua visão estivesse prejudicada pela luz e, por fim, até matariam quem tentasse libertá-los para mostrar a luz e tirá-los deste jogo de aparências em que estavam tão bem estabelecidos desde a infância.

            Esta é para o autor desta resenha a parte mais importante do livro VII. A alegoria em si com certeza por explorar a questão solar, mas mais importante que isso é Platão tratar a vida de Sócrates ou do filósofo desta maneira. Como o homem que viu a luz diretamente e retornou para os seus iguais, mas tendo os outros sidos educados desde sempre às sombras, não queriam se desfazer de tantos anos de ilusão, de uma falsa realidade, de um prestígio que não passa de sombras dos objetos reais. Platão aqui discorre sobre a elevação da alma ao mundo superior inteligível, isto é, o Bem, o pai da luz.

            Desta forma, ficam mais clara as dificuldades que os filósofos enfrentam na cidade, pois são poucos realmente os que chegam até a última fase da educação, a de ser filósofo. E a este cabe o papel de educar na cidade ideal que se está construindo, pois é o que conhece a essência das coisas, como vimos no livro VI, e sabe os métodos da boa administração da cidade. Em resumo, cabe a todo filósofo retornar à caverna.

            Posteriormente, Sócrates toma o longo tema do processo pelo qual seriam formados os filósofos, que além da música e da ginástica, teriam de saber a ciência dos números e do cálculo, uma vez que tal ciência é útil na guerra. Porém, a matemática e a inteligência indaga também sobre a grandeza e pequeneza das coisas, se tornando não só algo útil à guerra, mas ao alcançar da essência. Assim como na geometria, que é uma ciência que lida com o que existe sempre, não com o que gera e se destrói. E também para com a astronomia que tem como campo a agricultura, a navegação, mas também ajuda a alma a acostumar-se com a contemplação do que é verdadeiro.[2]

            Como no livro VI, Sócrates diz que o que é o Sol para o mundo visível, ou seja das sensações, é o Bem para o mundo inteligível e que somente com a dialética podia-se alcançar o conhecimento da essência das coisas. Enquanto as outras artes só se apóiam em opiniões, o método da dialética destrói toas as hipóteses e torna seguro seus resultados, já que apenas este método alcança o princípio autêntico da realidade, o Bem.

            No entanto, para tal tarefa de alcançar o Bem, é preciso possuir certas disposições naturais discutidas em outros livros. Além do mais, é também preciso desenvolver outras qualidades intelectuais, morais, atléticas e virtuosas; ter facilidade no aprendizado, boa memória, abominar a mentira e destacar-se em sua grandeza.

            Por fim, Sócrates divide as etapas de ensino do filósofo em: Inicial, que corresponde da infância aos vinte anos; A segunda, que corresponde dos 20 aos trinta anos; A terceira, que corresponde dos trinta aos cinqüenta; E a última, que é quando depois de terem contemplado o bem em si, podem servir-se dele como modelo e impor ordem à cidade para então poderem se retirar tranqüilos para as ilhas do Bem-Aventurados[3], podendo serem reconhecidos como quase Deuses por seus concidadãos.


[1] Que é o que o Sócrates é vítima dos seus próprios interlocutores.

[2] Não é a única vez que Sócrates cita os pitagóricos nas obras de Platão. Aqui diz que se juntasse a harmonia aos feitos do olhos, traduzem-se tudo o que estudam os números, medidas, proporções, isto é, relações inteligíveis.

[3] Ilha mitológica de delícias no além para aqueles que praticassem o bem em vida.

Resumo – “República” de Platão – Livro VII

Resenha VIII

            Aqui Sócrates inicia o livro sobre o tirano, este último tipo de governante que se analisa desde o último livro. Para isso, é preciso aprofundar-se na questão dos desejos, mas especificamente sobre aqueles que surgem durante o sono. Pois, estes são os que escapam da nossa vigilância, da nossa razão. Isto é, a parte inferior da alma é livre da parte superior durante os sonhos. Desta maneira, há desejos em nós que são tão terríveis e selvagens que só se despertam durante o sono.

            Os zangões no regime democrático se prende aos desejos necessários até que seja arrastado ao desregramento. Ele é o que consegue criar uma relação de amor muito mais forte do que os outros desejos supérfluos. E, como diz o ditado, “o amor é um tirano” e “um homem dominado pelo amor é como se estivesse embriagado, apaixonado e louco”. Assim foi como foi demonstrado o zangão que governa e se torna o tirano no livro VIII. Ele se entrega aos desejos do amor, indo à festas, orgias, banquetes e tendo todo tipo de amantes.

            Dominado por tais desejos, o tirano cometerá até crimes e violências para satisfazê-los. Desta forma, refletirá sua alma na cidade. Ele não terá amigos, nem desfrutará da justiça e da liberdade, pela qual um dia esteve bêbado e foi escolhido para governar. De certa maneira, colherá a ressaca da embriagues de tamanho liberdade, que é nada menos a maior de todas as escravidões. Pois, o tirano tem o a miserável vida de viver em vigília o que outros vivem apenas sonhando.

            Todos pensarão que o tirano é feliz, enquanto ele é o mais infeliz da cidade. Sua vida é tanto mais desgraçada quando perversa. Desta maneira, tanto a cidade quanto o seu governante são escravos. De uma democracia com excesso de liberdade se chega à sua escassez máxima, a mais escrava de todas. Nestas condições, ambas a cidade quanto as almas dos cidadãos se encontram pobres. Elas se encontram dominadas por muitos desejos e pouco poder para os satisfazer. Por fim, se encontra nelas todos os vícios e uma vontade má direcionada em acabar com eles, no sentido de que poderiam acabar ou satisfazendo os desejos como o tirano ou dominando-os como o filósofo. Porém, a primeira é a única que o tirano conhece e, como dito anteriormente em outro livro da República, uma vida em que não se busca o bem e a virtude não merece ser vivida, já que este em vez de reinar sobre si, tiraniza-se.

            Sócrates volta ao tema da alma, dizendo que ela tem três partes: a qual aprendemos; a qual nos iramos; e a qual desejamos. Esta última corresponde ao beber, comer, amar e aos prazeres. A ira é a que tende ao dominar, vencer e à fama. A parte pela qual aprendemos, não se importa com o que procura as outras duas, a não ser pela verdade e o conhecimento. Desta maneira, alguns homens são amigos do saber, outros amigos da fama e outros amigos da riqueza. Todos dirão que seu modo de vida é o melhor, assim como acontece com a legislação de cidades distintas. No entanto, só se pode saber qual modo de vida é realmente melhor por meio da experiência e do raciocínio que só o amigo do saber possui, i. e., o filósofo. Ademais, pelo fato de o filósofo também conhecer desde criança as outras partes da alma, enquanto os outros não conhecem a parte amiga do saber.

            Logo depois, Sócrates fala sobre sua terceira analogia, que se refere à dor, ao prazer e a um estágio intermediário: o repouso da dor ou o do prazer. Este pode parecer muito bom quando se deixa a dor para trás e se tem um repouso, porém apenas aparenta ser um prazer, enquanto o prazer verdadeiro ainda não é conhecido. Entretanto, tampouco a dor é a ausência do prazer e vice-versa. O que acontece é que no caminho baixo da dor para o repouso, se tem uma subida, que se interpreta como o prazer. Todavia, só quando do repouso se vai para o prazer é que se tem a verdadeira experiência, mesmo sendo outra “subida”.

            Desta maneira,  a ignorância e a insensatez também são uma forma de ausência, que precisa de conhecimento para se alimentar como na fome. Sendo a comida para a parte mortal de nós e o conhecimento para a parte imortal. Esta última parte, Sócrates diz, se refere à alma, que é mais consistente e verdadeira, assim sente mais prazer que o corpo. Então, o filósofo conclui belamente e, como Glauco diz, como um oráculo no que é o momento mais importante para o autor desta resenha:

Portanto, os que não dispõem da experiência da inteligência e da virtude, se mantendo ocupados com banquetes e similares, são movidos para baixo e em seguida erguidos até o estado intermediário, pelo que parece, e vagam dessa forma ao longo de suas vidas, jamais ultrapassando esse estado para o que é verdadeiramente superior, jamais o contemplando ou sendo movidos até ele, de sorte que não são preenchidos com aquilo que realmente é e nunca provam qualquer prazer estável e puro. Ao contrário, mantêm-se com o olhar voltado para baixo, para o solo, como o gado, e com suas cabeças inclinadas para suas mesas, comem, engordam e copulam. Numa mútua emulação, para se sobrepujarem reciprocamente nessas coisas, eles se escoiceiam e dão marradas entre si com cornos e ferraduras, matando-se uns aos outros, posto que seus desejos são insaciáveis e o vazio que tentam preencher é como um vaso repleto de furos, e nem ele, nem as coisas com as quais tentam preenche-lo estão entre as coisas que são e que são reais.[1]

            Assim, esses indivíduos vivem em meio a prazeres mesclados com dores, a meras imagens do verdadeiro prazer, dando origem a loucas paixões e desejos eróticos e tirânicos.

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[1] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 409

Resumo – “República” de Platão – Livro VII

Resenha VII

            

            O livro VIII começa retomando um assunto há alguns livros deixado de lado, que são as formas de governo e os correspondentes tipos de alma, que são cinco no total, sendo uma perfeita e quatro defeituosas. A perfeita se refere a esta forma ideal de cidade discutida até agora, isto é à aristocracia, pois os melhores governam, aristoi. No entanto, estavam em falta quanto aos outro quatro tipos de governo, a saber: a timocracia, o governo das honrarias; a oligarquia, o governo dos ricos, a democracia, o governo da maioria do povo; e a tirania, o governo de um. Análise toma o foco de mostrar as origens de um governo ao outro, então começam sobre como a timocracia se origina da aristocracia.

            Essa mudanças de governo ocorrem na verdade dentro dos próprios governos, sendo a causa desta em questão, a transgressão das normas de reprodução dos guardiões. Desta maneira, da aristocracia, onde os melhores são escolhidos para governar, a timocracia nasce do desrespeito pelos ciclos de fertilidade dos guardiões e a mistura das diferentes raças, isto é, como dito em outro livro, da procriação fora do melhor tempo da vida e da mistura maior dos piores homens que dos melhores. Essa prole enfraquecida, portanto, só pode gerar desigualdades e desarmonia, o que por fim provocará a falta de justiça, ódio, desequilíbrio e guerra. Ademais, essa raça ou geração mais fraca tende a exercer mais a ginástica à música, o que os torna mais agressivos, violentos, ávidos de riquezas e honrarias, misturando assim o bem e o mal do caminho. Assim também devemos considerar os homens correspondentes a esta forma de governo.

            A forma de governo que vem da timocracia é a oligarquia, onde os ricos comandam e os pobres excluídos. Neste governo, as leis são feitas para satisfazer ao avarento da timocracia, ou seja, ele se torna mais rico e começa a se preocupar apenas com seus próprios bens, desprezando totalmente a virtude. Para tanto, a escolha do governante é a quantidade de dinheiro e, usando a força, governa pelo medo. Entretanto, em tal condição o conflito de ricos e pobres é constante. A cidade entra em desarmonia, pois o inimigo interno é constante, enquanto que no caso de inimigo externo, os ricos hesitarão em dar armas aos pobres e ainda mais em arcar com a guerra. Em extrema situação de pobreza, é muito plausível que pessoas abandonem tudo para roubar, profanar e saquear, dando abertura grande ao crime, uma vez que o desejo por dinheiro não é só dos ricos, mas contamina também aos pobres. Então, a satisfação desenfreada dos desejos subjugarão a virtude, acabando por educar as crianças de uma mesma maneira pobre.

            Quando os ricos tiverem que vender tudo para saldar suas dívidas e se tornarem poucos na sociedade. E, quando os pobres foram tantos em condições tão humilhantes que a revolta fosse eminente, surge então a democracia da oligarquia, pois os ricos estão em ruínas e a maioria precisa decidir pela cidade. Nesta situação, os cargos públicos serão decididos por meio do sorteio, o que caracteriza a liberdade de falar e fazer qualquer coisa. Desta maneira, muitos a escolhem como a melhor forma de governo.

            No entanto, por fim Sócrates diz ser a tirania a forma mais bela de governo, que nasce da democracia. É no desejo desenfreado do grande bem da democracia, a liberdade, que leva à sua destruição. Isto é, quando é exigido do governo mais do que se pode conceder, como que bêbados de liberdade, acabam por chegar à anarquia. Os papeis começam a se exacerbar e a se inverter. Os cidadãos ignoram qualquer lei que ameace sua liberdade, porém por fim as ignora completamente, tornando todos os libertos em escravos deste exagero, já que todo exagero em uma direção tem uma resposta equivalente na direção contrária.[1]

            Nesta forma de governo, há três grupos de pessoas: os zangões, pessoas ociosas e desajustadas pelo excesso de liberdade, que findam por se destacar e assumir a cidade; os ricos, uma  minoria que se contrapõe à multidão; e o povo, que é muito pobre, mas se encontra poderoso por ser numeroso.

No entanto, são os próprios zangões, estes bêbados de liberdade, que uma vez de posse do poder da cidade, colocará os pobres contra os ricos, tendo nesta batalha sempre uma parcela para si. Ele se mostra amigo do povo, dando-lhes privilégios, promessas e guerras para que sempre tenham a necessidade de sua liderança. Não querendo perder o poder, elimina todos os seus opositores e, não sabendo quando haverá tempo para conspirar contra si entre as ocupadas guerras, sempre terá mercenários para protegê-lo e garantir sua posição. Ou seja, por fim, numa sede de poder ignora seus iguais e se isola com mercenários que podem muito bem ser estrangeiros e apenas sedentos por dinheiro, não por virtude. Acontecendo de até se tirar o dinheiro do povo para se manter. Assim, por não haver harmonia e justiça nesta cidade é natural que a tirania nasça da democracia. A liberdade morre naquele que mais a possuía.

 

PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 302


[1] Fato interessante aqui é que esta regra que parece ser de senso comum da época sobre a ação e reação é também a terceira lei de Newton. “Se um corpo exerce uma força sobre outro, este reage e exerce sobre o primeiro uma força de intensidade e direção iguais, mas em sentido oposto”.