Resumo – Aristóteles – Metafísica – Livro I – Cap. II

Continuação do Capítulo I

Metafísica – Livro I – Cap. II

Devemos examinar de que causas e de que princípios a filosofia é a ciência”[1]. Mas antes admitamos o que é o filósofo: ele

  1. conhece, na medida do possível, todas as coisas, embora não possua a ciência de cada uma delas por si”[2].
  2. conhece  as coisas difíceis além do conhecimento sensível que é comum a todos e não-científico.
  3. “Conhece as causas com mais exatidão, e é mais capaz de ensinar[3].

O que é filosofia:

  1. A que escolhemos por ela própria, visando o saber [a causa] e não uma ciência de resultados.
  2. A ciência que não é subordinada a nenhuma outra. Ou seja, não recebe leis, mas as dá.
  3. A única ciência livre. A única que existe por si.

A filosofia é a maior das ciências, pois é a que em maior grau, possui a ciência universal, e que assim conhece todos os singulares. Logo, só o filósofo é aquele que pode ensinar já que sabe conhece a causa das outras ciências.

A mais elevada das ciências, e superior a qualquer subordinada, é, portanto, aquela que conhece aquilo em vista do qual cada coisa se deve fazer[4].

Assim, a ciência que procuramos é esta, a ciência teorética dos primeiros princípios e das causas, “porque o bem e o “porquê” são uma das causas”[5].

Foi pela admiração que os primeiros homens se propuseram a filosofar, depois de já haver quase tudo que é indispensável ao bem-estar e à comodidade. “Com efeito, a mais divina [ciência] é também a mais apreciável, e só em duas maneiras o pode ser: ou pó ser possuída principalmente de Deus, ou por ter como objeto as coisas divinas”[6]. Neste caso, Sofia, a divina sabedoria. Ou seja, “Deus, com efeito, parece ser, para todos, a causa e princípio, e tal uma ciência só Deus, ou Deus principalmente, poderia possuí-la”.

Estabelecida no capítulo anterior a existência da ciência ( ou sabedoria ), Aristóteles propõe-se neste capítulo indagar o que caracteriza. Em resumo é: ciência das causas primeiras; teórica, por excelência; eminentemente livre; divina; a mais digna de apreço, gerando a sua aquisição um estado de espírito contrário ao do pasmo da ignorância.[7]

“Fica assim estabelecida a natureza da ciência que procuramos e também o fim que a nossa investigação e todo o tratado devem alcançar”[8].

Continua no Capítulo III.


[1] Ibidem, p.213.

[2] Ibidem.

[3] Ibidem.

[4] Ibidem, p.214.

[5] Ibidem.

[6] Ibidem, p.215.

[7] Ibidem, p.213, nota de rodapé.

[8] Ibidem, p.215.

Análise Da Estrutura Lógica Do Texto Fédon De Platão

Por: André Luíz Avelino

1 – Argumento à imortalidade da alma: teoria dos contrários.

P1 – Se é verdade que as almas dos que morrem estão ou não no Hades (o invisível) e se regressam a este mundo para renascerem dos mortos, devemos pensar que as almas existem no além. Elas não poderiam renascer se não existissem. (XV)

P2 – Todas as coisas contrárias nascem das que lhes são contrárias: o belo nasce do feio, o justo do injusto, o fraco do mais forte, o pior do melhor. (XV)

P3 – Viver tem um contrário, assim como o contrário de acordado é o contrário de dormir. Se existisse o dormir e não lhe correspondesse o acordar parece que tudo estaria mergulhado no sono. Do mesmo modo que se tudo quanto participa da vida morresse e se conservasse depois na morte, nada existiria com vida. (XVI)

P4 – Estar morto é o contrário de viver e estes estados se originam um do outro. O que está morto nasce, então, do que está vivo. Os vivos nascem dos mortos e estes dos vivos. (XVI)

C1 –  Então, é verdade que a alma dos que morrem estão no Hades e regressam a este mundo para renascerem dos mortos, devemos pensar que as almas existem no além. Elas não poderiam renascer se não existissem. Podemos concluir que as almas dos mortos subsistem. (XVI)

2 – Argumento à pré-existência da alma: teoria das reminiscências.

P1 – Para que alguém se lembre de alguma coisa, é indispensável que a tivesse sabido no passado. A sabedoria é reminiscência quando se produz em nós de um modo determinado. Reminiscência é o fato de alguém se recordar de alguma coisa quando está em presença de outra. A reminiscência procede não só de coisas semelhantes, mas até das dessemelhantes. (XIX)

P2 – O conceito de igualdade é diferente da igualdade existente entre os objetos, o que significa existência da igualdade em sí. Os objetos iguais, ainda que sua igualdade seja diferente da igualdade em si, permitem-nos conceber a idéia e o seu conhecimento, e isto só é possível pela reminiscência. Quando se vê uma coisa, é-se obrigado a pensar noutra, quer seja igual, quer seja diferente, o que se produz é, necessariamente, uma reminiscência. (XIX)

P3 – Alguém, ao ver uma coisa, pensa que aquilo que vê aspira a ser igual a outro objeto, sendo, no entanto, inferior a ele. Podemos concluir que é necessário ter-se visto já o objeto que serve de modelo. É preciso que tenhamos visto a igualdade num tempo anterior àquele em que vemos um objeto para que possamos dizer que há semelhança entre eles. (XIX)

P4 – Está reflexão (da reminiscência) só é possível porque se origina nos orgãos sensoriais, mas antes de nos servirmos dos sentidos, é necessário que tenhamos adquirido o conhecimento da igualdade em si para, com ela, podermos comparar as igualdade percebidas pelos sentidos. (XIX)

P5 – Quando nascemos começamos a utilizar os orgãos sensoriais, no entanto, foi necessário ter adquirido o conhecimento do igual em si, e é forçoso concluir que tenhamos adquirido antes do nascimento. (XIX)

P6 – Se nascemos com este conhecimento, podemos admitir que toda a realidade pura nasce conosco, quer trate do belo, do bom ou do justo e de todas as essências deste gênero. (XIX)

P7 – Certamente nossas almas não adquirem o conhecimento das essências depois do nascimento, pois há identidade das nossas almas com as essências (vide argumento à natureza da alma). Significa que as almas existiam separadas dos corpos e aptas a pensarem antes de revestirem forma humana. (XIX)

C2 – Se todas as essências existêm em nós (o argumento demostra que existe), é forçoso concluir que também as nossas almas existem antes de nascermos, porque é tão necessária a existência das essências como das nossas almas. A não existência das primeiras implica a não existência das segundas. (XXII)

3 – Argumento à natureza da alma: simplicidade da alma e sua identidade com os objetos ideais.

P1 – Só perece o que é composto, o que sempre permanece isento de composição. Ora, as essências, tal como o belo em si e toda a qualidade pura, não sofrem alterações, são uniformes. Tudo que é particular e visível só pelos sentidos é apreensível, nunca permanece na identidade, está submetido à mudança. (XXV)

P2 – A alma, quando se serve do corpo para examinar alguma coisa é arrastada para a relatividade, mas quando se dirige para o que é puro, eterno e imortal, permanece sempre a mesma e igual àquilo que contempla e é a isso que se chama conhecimento. (XXVII)

P3 – A alma é semelhante ao divino, é imortal, inteligível, uniforme, indissolúvel. O corpo decompõe-se porque é composto, e a alma permanece. (XXVIII)

C3 – Pode afirmar-se que o que permanece sempre idêntico, o que é invisível, não pode ser apreendido pelos sentidos, mas só pelo pensamento. O corpo indentifica-se com o visível e a alma com o invisível. (XXVIII – Conclusão implícita)

4 – Argumento à imortalidade da alma e natureza da alma: desenvolvimento à teoria dos contrários.

P1 – Os contrários não podem subsistir simultaneamente, a grandeza em sí não consente ser grande e pequena ao mesmo tempo. O que agora se afirma não colide com o que se demostrou no primeito argumento dos contrários, isto é, que o maior nasce do mais pequeno e este do maior e que a verdadeira origem dos contrários são os seus contrários. (LI)

P2 – Afirmar que de uma coisa contrária nasce outra contrária é diferente de afirmar que o próprio contrário não pode ser contrário de si mesmo, quer no homem quer na natureza. O corpo humano passa da vida à morte, mas isso não significa que a vida como essência se torne no seu contrário, ou seja, na morte. (LI)

P3 – A natureza do ser quente nunca se transformou na natureza do ser frio, o dia nunca se transforma na noite, a natureza da vida na natureza da morte e a do par na do ímpar. (LII)

P4 – Cada um dos contrários permanece sempre exatamente o que é. (LIII)

P5 – Quando a morte se aproxima do homem, morre só o que nele há de mortal, o imortal permanece ileso à destruição. (LV)

C4 – A essência da alma é ser vida e exclui o seu contrário que é morte. A alma identifica com as essências imortais, as idéias, é da mesma natureza, logo é imortal e indestrutível. (LVI)

CONCLUSÃO GERAL ESTRUTURAL LÓGICA

PC1 –  Então, é verdade que a alma dos que morrem estão no Hades e regressam a este mundo para renascerem dos mortos, devemos pensar que as almas existem no além. Elas não poderiam renascer se não existissem. Podemos concluir que as almas dos mortos subsistem.

PC2 – Se todas as essências existêm em nós (o argumento demostra que existe), é forçoso concluir que também as nossas almas existem antes de nascermos, porque é tão necessário a existência das essências como das nossas almas. A não existência das primeiras implica a não existência das segundas.

PC3 – Pode afirmar-se que o que permanece sempre idêntico, o que é invisível, não pode ser apreendido pelos sentidos, mas só pelo pensamento. O corpo indentifica-se com o visível e a alma com o invisível.

PC4 – A essência da alma é ser vida e exclui o seu contrário que é morte. A alma identifica com as essências imortais, as idéias, é da mesma natureza, logo é imortal e indestrutível.

CGERAL- Essencialmente a alma consiste em ser vida e exclui a morte que é o contrário de vida (PC1); A alma é imortal e participa do imortal que é imperecível, portanto, a alma é imortal e imperecível (PC2); A alma é imortal porque é da mesma natureza das idéias, que são eternas (PC3); A impericibilidade da alma é deduzida  da sua essência, porque o conceito de alma exclui intrinsecamente, o atributo mortal (PC4); Portanto, a alma humana é capaz de conhecer coisas imutáveis e eternas, e para poder conhecer coisas imutáveis e eternas, ela dever possuir uma natureza dotada de afinidade com essas coisas. Caso contrário estas coisas ultrapassam as capacidades da alma. Conseqüentemente, como as coisas que a alma conhece são imutáveis e eternas, a alma também precisa ser eterna e imutável.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PLATÃO. Fedão, Versão eletrônica. Trad. Carlos Alberto Nunes. Créditos da digitalização: Membros do grupo Acrópolis (Filosofia). Disponível em:< http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/fedon.pdf>

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Sócrates e a morte em “Fédon”

Socrates antes de morrer (Fédon)

O filósofo é aquele que despreza o seu corpo e só dá valor à sua alma. Apenas satisfaz aos desejos de sua alma, que só podem ser alcançados intelectualmente. Logo, filósofo. 

Toda a sua vida se dedica ao momento de sua morte, pois, uma vez que só valoriza sua alma e não ao seu corpo e seus empecilhos, gostaria no fundo de si mesmo ser só alma. Aqui Sócrates toma emprestado muitas idéia do orfismo ou apenas chega à mesma conclusão.

Mas para alcançar este nível de ser apenas alma, há duas maneiras:

  • morrer de fato, e o corpo se separar da alma, mas logo voltar a reencarnar.
  • ou se purificar através da verdade e do pensamento que, para Sócrates, são formas de purificação.

Assim, só o filósofo que é aquele que tem amor, ou seja, ligação com a sabedoria pode alcançar o lugar privilegiado! Pois, como no diálogo é dito, todas as moedas e mercadorias são trocadas reciprocamente, mas à sabedoria cabe a supremacia. Então, o filósofo, possuidor da mais valorizada posse alcança o Hades sem ter de voltar à sua ligação com o corpo, pois seu amor e alma purificada o liga à Sabedoria Pura! Então, o filósofo não teme a morte, mas vive para ela, pois é somente nela, a separação da alma do corpo e a ligação à pura Morada dos Deuses, que ele pode se realizar.

Desta forma, o “aprender não é outra coisa senão recordar” que é dito no “Menão” se legitima nesta lógica. A de que lembramos de nossas outras vidas e de que pelo seu princípio geral de toda geração a alma é imortal.

Resumo de Ética a Nicômaco de Aristóteles

Ética a Nicômaco : Aristóteles

Esse livro intitulado como Ética a Nicômaco foi escrito por Aristóteles e dedicado ao seu pai chamado Nicômaco. Essa obra é composta por dez livros, no qual Aristóteles assume o papel de um pai preocupado com a educação e a felicidade de seu filho, mas não somente isso, mas também a intenção de fazer com que as pessoas reflitam sobre as suas ações e coloque a razão acima das paixões, buscando a felicidade individual e coletiva, pois o ser humano é um ser social e suas práticas devem visar o bem comum.

Biografia:

Aristóteles foi o primeiro pesquisador cientifico. O pensamento aristotélico tomou um rumo diferente do de Platão, pois ele apoiou-se no espírito de observação, próprio das ciências em sentido empírico.Também se preocupou em estudar muitas obras anteriores, prova disso, são as varias citações feitas de obras anteriores no seu livro.Compreendeu a necessidade de integrar o pensamento anterior a sua própria pesquisa Tratou-se de conceituação de palavras e termos num sentido amplo, aprofundado.
Nasceu em Estagira – Macedônia em 384 a.C.. Era filho do medico Nicômaco, da corte do Rei Amintas II, pai de Filipe da Macedônia. Ainda na adolescência, dirigiu-se para Atenas, pois na época era para esta cidade que os jovens procuravam ir para terem uma boa formação. Duas escolas atraiam a atenção, a do sofista Isócrates, e a de Platão. Com a morte de Alexandre (323), Aristóteles teve de fugir a perseguição dos democratas atenienses, refugiando-se em Calcide, na Eubeia onde morreu em322 a.C.
As principais obras de Aristóteles agrupadas por matérias, são: (1) Lógica: Categorias, Da interpretação, Primeiro e segundo analíticos, Tópicos, Refutações dos sofistas; (2) Filosofia da Natureza: física; (3) Psicologia e antropologia: Sobre a alma, alem de um conjunto de pequenos tratados físicos; (4) Zoologia: Sobre a historia dos animais; (5) Metafísica: Metafísica; (6) Ética: Etica a Nicômaco, Grande Ética, Ética a Eudemo; (7) Política: Política, Economia; (8) Retórica e poética: Retórica, Poética.
O dualismo platônico – o mundo da inteligência separado do mundo das coisas sensíveis – visava antes de tudo a salvar a ciência, estabelecendo a coerência necessária entre o conceito e seu objeto. O realismo de Aristóteles procura restabelecer essa coerência sem abandonar o mundo sensível: explora a experiência, e nela mesma insere o dualismo entre o inteligível e o sensível.
Lógica: Nos primeiros séculos da era cristã, os escritos lógicos de Aristóteles foram reunidos sob a denominação de Organom.
Metafísica: Sob esse titulo estão reunidos 14 livros de Aristóteles que tratam do ser no sentido mais amplo ou mais radical. Duas questões se destacam na metafísica aristotélica: a da unidade do ser e a da existência de essências separadas.
Ética e política: No dialogo perdido Da justiça já se anunciavam alguns dos temas expostos nos oito fragmentos reunidos por Andronico sob o titulo de Política. Escritos ao longo de toda a vida de Aristóteles, são tudo o que resta da sua obra sobre o assunto. Foi o primeiro filosofo a distinguir a ética da política, centrada a primeira na ação voluntária e moral do individuo enquanto tal, e a segunda, nas vinculações deste com a comunidade.
Poética: Confere grande relevo a sua teoria da tragédia, que exerceu notável influencia sobre o teatro desde a época do Renascimento.
Física e Ciências naturais: É a realidade sensível, na qual a idéia é inteiramente envolvida pela matéria. O físico deve possuir um acurado espírito de observação. A realidade natural, em seus aspectos mais gerais, é autônoma, contrapondo-se a espontaneidade acidental que exprime os efeitos inesperados que as coisas produzem em nos.

Resenha:

Livro I:

Toda arte e toda investigação, bem como toda ação e toda a escolha, visam a um bem qualquer; e por isso que o bem é aquilo a que as coisas tendem. Mas entre os fins observa-se uma certa diversidade: alguns são atividades, outros são produtos distintos das atividades das quais resultam; e onde há fins distintos das ações, tais fins são, por natureza, mais excelentes do que as últimas.
Se existe para as coisas que fazemos, algum fim que desejamos pro si mesmo e tudo o mais é desejado por causa dele, evidentemente tal fim deve ser o bem, ou melhor, o sumo bem. Esse bem é objeto da ciência mais prestigiosa e que prevalece sobre tudo. Esta é a ciência política, pois é ela que determina quais as ciências que devem ser estudadas em uma cidade-estado. A finalidade dessa ciência deve abranger a finalidade das outras, de maneira que essa finalidade deverá ser o bem humano.
As ações belas e justas, que a ciência política investiga, admitem grande variedade e flutuações de opinião. Devemos contentar-nos em indicar a verdade de forma aproximada e sumária. Pois é característica do homem instruído buscar a precisão. É em torno dos fatos da vida que giram as discussões referentes à ciência política.
Todo conhecimento e todo trabalho visa a algum bem, procuremos então o mais alto de todos os bens que se podem alcançar pela ação. Esse bem supremo é a felicidade e consideram que o bem viver e o bem agir equivalem a ser feliz.
Quem quiser ouvir com proveito as exposições sobre o que é nobre e justo, é preciso ter sido educado nos bons hábitos. O fato é o princípio, ou ponto de partida, ele deve ser claro para o ouvinte, sem ter necessidade de explicar porque é assim.
Pode-se dizer com efeito, que existem três tipos principais de vida: a vida agradável, a vida política e a vida contemplativa.
Os homens de discernimento parecem buscar a honra visando ao reconhecimento de seu valor, para eles a virtude é mais excelente do que o título ou o status.
Quanto a vida dedicada a ganhar dinheiro, é uma vida forçada, e a riqueza não é, o bem que estamos procurando: trata-se de uma coisa útil, nada mais, e desejada no interesse de outra coisa. A piedade exige darmos primazia à verdade.
O termo bem é usado tanto na categoria de substância, quanto na de qualidade e na de relação, e o que existe por si mesmo, ou seja, a substância, é anterior por natureza ao relativo, então, não pode haver uma idéia comum a ambos esses bens. É evidente que o bem não pode ser algo único e universalmente presente em todos os casos, pois se fosse assim, ele não poderia ter sido predicado em todas as categorias, mas apenas em uma. A ciência e uma só, teria de haver uma única ciência de todos os bens. Mas o fato é que as ciências são muitas, mesmo das coisas compreendidas em uma só categoria: por exemplo, a da oportunidade, pois esta, na guerra, é estudada pela estratégia, e na saúde pela medicina, e a moderação nos alimentos é estudada na medicina, e nos exercícios, pela ciência da educação física.
Os pitagóricos parecem fazer uma concepção mais plausível acerca do bem quando põe o “um” na coluna dos bens. Poder-se-ia objetar ao que acabamos de dizer, o fato de que eles (os platônicos) não falam de todos os bens, e que os bens buscados e amados por si mesmos são chamados bons em referência a uma idéia única. Separemos, portanto, as coisas boas em si mesmas das coisas úteis, e vejamos se as primeiras são chamadas boas em referencia a uma única idéia.
Quanto à honra, a sabedoria e ao prazer, no que concerne a sua bondade, os conceitos são diversos e distintos. Do mesmo modo que a visão é boa para o corpo, a razão é boa para a alma.
Os bens que são atingíveis e realizáveis e usando-o como uma espécie de padrão, conhecermos melhor os bens que verdadeiramente são bons para nos, e, desse modo, poderemos atingi-los. Ele se mostra diferente nas diversas ações e artes. Em função de alguma outra coisa, segue-se que nem todos os fins são absolutos; mas o bem supremo é claramente algo absoluto. Chamamos de absoluto e incondicional aquilo que é sempre desejável em si mesmo e nunca no interesse de outra coisa.
Ora, parece que a felicidade, acima de qualquer outra coisa, e considerada como esse sumo bem. Ela é buscada sempre por si mesma e nunca no interesse de uma outra coisas; enquanto a honra, o prazer, a razão, e todas as demais virtudes, ainda que as escolhamos por si mesmas, fazemos isso no interesse da felicidade, pensando que por meio dela seremos felizes. Mas a felicidade ninguém a escolhe tendo em vista alguma outra virtude, nem, de uma forma geral, qualquer coisa alem dela própria.
A mesma conclusão o raciocínio parece levar, considerado sob o ângulo da auto-suficiência, visto que o bem absoluto é considerado auto-suficiente, já que o homem é um animal político. Definimos a auto-suficiência como aquilo que, em si mesmo, torna a vida desejável por não ser carente de nada. E é desse modo que entendemos a felicidade. A felicidade é algo absoluto e auto-suficiente, e a finalidade da ação. Mas dizer que a felicidade é o bem supremo talvez pareçam uma trivialidade.
Estamos agora, buscando saber o que é peculiar ao homem. Excluamos, pois, as atividades de nutrição e crescimento. Resta, portanto, a atividade do elemento racional do homem, desta, uma parte tem esse principio racional no sentido de ser obediente a ele, e a outra, no sentido de possuí-lo e de pensar.
A função do homem é uma atividade da alma que implica um principio racional com ações da alma boas e nobre. O bem do homem vem a ser a atividade da alma em consonância com a virtude e, se há mais de uma virtude, em consonância com a melhor e mais completa entre elas.
O progresso das artes deve-se ao fato de que qualquer um pode acrescentar o que está faltando. Devemos igualmente recordar o que foi dito antes e não ficar insistindo em encontrar a precisão em tudo, mas, em cada classe de coisas, devemos buscar apenas a precisão que o assunto comporta, e ate o ponto que for apropriado à investigação. O fato é o ponto de partida dos primeiros princípios. Eles têm grande influencia na seqüência da investigação.
Os bens têm sido divididos em três classes; alguns foram descritos como exteriores, e outros como relativos à alma ou ao corpo. Consideramos os bens que se relacionam com a alma como bens no mais próprio e verdadeiro sentido do termo, e como tais classificaram as ações e atividades psíquicas. O homem feliz vive bem e age bem, visto que definimos a felicidade como uma espécie de boa vida e boa ação.
Os prazeres estão em conflito uns com os outros porque não são aprazíveis por natureza. O homem não se compraz com as ações nobres não é sequer bom; e ninguém chamaria de justo o homem que não sente prazer em agir justamente, nem liberal o que não sente prazer nas ações liberais e do mesmo modo com todas as outras virtudes.
Das coisas a mais nobre e mais justa, e a melhor é a saúde; porém a mais doce e ter o que amamos. A melhor atividade é a felicidade. A felicidade necessita igualmente dos bens exteriores. A definição de felicidade é: certa atividade da alma conforme a virtude. A felicidade é inerente ao homem. Para a felicidade é preciso não apenas virtude completa, mas também uma vida completa. O que consiste a felicidade são as atividades virtuosas, e as atividades viciosas nos conduzem a situação oposta. Pensamos que o homem verdadeiramente bom e sábio suporta com dignidade todas as contingências da vida e sempre tira o maior proveito das circunstancias.
A finalidade da vida política e o melhor dos fins, e que o principal empenho dessa ciência é fazer com que os cidadãos sejam bons e capazes de nobres ações.
A felicidade é louvável ou estimada? O louvor convém a virtude, fica claro que a felicidade é algo louvável e perfeito. Porque ela é o primeiro principio, pois fazemos todas as coisas tendo-a em vista, e o primeiro principio e causa dos bens é algo louvável e divino.
Uma vez que a felicidade é então, uma atividade da alma conforme a virtude perfeita, o homem verdadeiramente político é aquele que estudou a virtude acima de todas as coisas, visto que ele deseja tornar os cidadãos homens bons e obedientes às leis. A virtude que devemos examinar é a virtude humana, não a do corpo, mas a da alma. A alma é constituída de uma parte racional e outra privada de razão (o instinto). Louvamos um homem sábio referindo-nos a sua disposição de espírito, e as disposições de espírito louváveis chamamos virtudes.

Livro II:

Há duas espécies de virtude, a intelectual e a moral. A primeira deve, em grande parte, sua geração e crescimento ao ensino, e por isso requer experiência e tempo; ao passo que a virtude moral é adquirida em resultado do hábito, de onde o seu nome se derivou, por uma pequena modificação dessa palavra. As virtudes dá-se exatamente o oposto: adquirimo-las pelo exercício, tal como acontece com as artes. Nossas disposições morais ou caráter nascem de atividades semelhantes a elas. É por essa razão que devemos atentar para a qualidade dos atos que praticamos, pois nossas disposições morais correspondem às diferenças entre nossas atividades. Ser feliz é usar a razão com propriedade e fazer de tal modo que isso se torne uma virtude.
Devemos agora examinar a natureza dos atos, ou seja, como devemos praticá-los. Com efeito, os atos determinam a natureza das disposições morais.
O prazer ou a dor que sobrevêem aos atos devem ser tomados como sinais indicativos de nossas disposições morais. A excelência moral relaciona-se com prazer e sofrimento; é por causa do prazer que praticamos más ações, e por causa do sofrimento que deixamos de praticar ações nobres.
A virtude e o vício se relacionam com as mesmas coisas. Existem três objetos de escolha e três de rejeição: o nobre, o vantajoso, o agradável; e seus contrários, o vil, o prejudicial e o doloroso. Em relação a todos eles o homem bom tende a agir certo e o homem mal agir errado.
É pela prática de atos justos que o homem se torna justo.
Na alma se encontram três espécies de coisas – paixões, faculdades e disposições –, a virtude deve ser uma dessas. As virtudes não são paixões nem faculdades só podem ser disposições.
O meio-termo não é o único e nem o mesmo para todos, o excesso e a falta destroem a excelência dessas obras, ao passo que o meio-termo a preserva, virtude deve ter a qualidade de visar ao meio-termo.
A virtude é, então, uma disposição de caráter relacionada com a escolha de ações e paixões, e consistente numa mediania. A virtude é um meio-termo entre dois vícios, um dos quais envolve excesso e o outro falta, e isso porque a natureza da virtude é visar à mediania nas paixões e nos atos.

Livro III:

Apenas as paixões e ações são louvadas ou censuradas, ao passo que as involuntárias recebem perdão e às vezes inspiram compaixão, parece necessária a quem estuda a natureza da virtude a distinção entre o voluntário e o involuntário. São consideradas involuntárias aquelas ações que ocorrem sob compulsão ou por ignorância.
Tudo o que é feito por ignorância é não-voluntario, e só o que produz sofrimento e arrependimento é involuntário. Tendo definido o voluntário e o involuntário, devemos passar agora ao exame da escolha, a qual, com efeito, parece estar mais intimamente ligada a virtude do que as ações.
Agir por ignorância também parece diferir de agir na ignorância.
O desejo se relaciona com os fins, e a escolha com os meios. A escolha é louvada pelo fato de relacionarem-se com o objeto conveniente ou por ser acertada, ao passo que a opinião é louvada quando é verdadeira. Escolhemos o que sabemos ser melhor. A escolha é um desejo deliberado de coisas que estão ao nosso alcance, pois, após decidir em decorrência de uma deliberação, passamos a desejar de acordo com o que deliberamos.
O desejo tem por objetivo o fim, algumas pessoas pensam que esse fim é o bem. No sentido absoluto e verdadeiro o objeto de desejo é o bem, mas para cada pessoa em particular é o bem aparente. Escolhemos o agradável como um bem e evitamos o sofrimento como um mal. Os fins aquilo que desejamos, e os meios aquilo sobre o que deliberamos e que escolhemos as ações relativas aos meios devem concordar com a escolha e ser voluntárias.
É preciso ter nascido com uma visão moral. Dessa qualidade é a excelência perfeita no que tange aos dotes naturais.
Homem bom adota voluntariamente os meios, a virtude é voluntária, e o vicio não será menos voluntário. As virtudes são meios e também são disposições de caráter, que, alem disso, tendem por sua própria natureza a realização dos atos pelos quais elas são produzidas; que dependem de nós, são voluntárias e agem de acordo com as predisposições da regra justa.
As virtudes são como: coragem. A coragem é um meio-termo em relação aos sentimentos de medo e temeridade. A coragem é um meio-termo no que tange as coisas que inspiram confiança ou temor. Não são corajosas essas criaturas que são impelidas para o perigo pelo sofrimento ou a paixão. A coragem devida à paixão parece ser a mais natural. É por enfrentarem o que é penoso que os homens são chamados corajosos.
Depois da coragem, falaremos da temperança, visto que estas parecem ser as virtudes da parte irracional da alma. Dissemos que a temperança e um meio-termo em relação aos prazeres. A intemperança parece uma disposição mais voluntária do que a covardia, portanto a intemperança é mais involuntária, e por isso mesmo ela é mais censurável. Mas a covardia parece ser voluntária em grau diferente de suas manifestações particulares.

Livro IV:

Falemos agora da liberalidade. Aparentemente ela é o meio-termo em relação à riqueza. A riqueza será melhor usada pelo homem que possui a virtude relacionada com a riqueza, e esse é o homem liberal. É mais próprio da virtude fazer o bem do que recebê-lo, bem como praticar ações nobres mais do que abster-se de ações ignóbeis.
O termo liberalidade e usado considerando as posses de um homem, pois essa virtude não reside na grande quantidade de dádivas, mas na disposição de caráter de quem dá, e esta é proporcional as suas posses. A liberalidade é um meio-termo entre dar e obter riquezas.
A avareza consiste em duas coisas: a deficiência no dar e o excesso no tomar.
Uma disposição de caráter e determinada pelas suas atividades e pelos seus objetos. É o caráter do homem magnificente. O homem que se inclina para o excesso e é vulgar e extravagante excede-se, gastando além do que seria justo.
A magnanimidade, até por seu nome, parece relacionar-se com coisas grandiosas, é o que busca a grandeza da alma.
Magnânimo é o homem que se considera digno de grandes coisas e está a altura delas. Aquele que é pouco merecedor e assim se considera é temperante e não magnânimo. Homem verdadeiramente magnânimo deve ser necessariamente bom. A grandeza em todas as virtudes deve ser característica do homem magnânimo. É preciso para ser magnânimo possuir um caráter bom e nobre. Conduzir-se-á também com moderação no que diz respeito ao poder. Pois somente os homens bons merecem ser distinguido com honras.
A calma e um meio-termo em relação à cólera. A falta quer seja ela um tipo de pacatez, quer outra coisa, é censurável, são considerados tolos.
Uma vez que a vida é feita não só de atividade, mas também de repouso, e este inclui o lazer e o entretenimento, parece haver aqui também uma espécie de intercambio que se relaciona com o bom gosto.

Livro V:

No que diz respeito a justiça e a injustiça devemos indagar com que espécie de ações se relacionam elas, que espécie de meio-termo é a justiça. Justiça é a virtude completa, por isso, a justiça é muitas vezes considerada a maior das virtudes. Justiça é a virtude completa no mais próprio e pleno sentido do termo, porque é o exercício atual da virtude completa. Ela é completa porque a pessoa que a possui pode exercer sua virtude não só em relação a si mesmo, como também em relação ao próximo.
O justo é, por conseguinte, uma espécie de termo proporcional, a proporção é uma igualdade de razões, envolve no mínimo quatro termos. Temos então que a justiça distributiva é a conjunção do primeiro termo de uma proporção com o terceiro, e do segundo com o quarto, e o justo neste sentido é o meio-termo, e o injusto é o que viola a proporção, pois o proporcional é o intermediário, e o justo é o proporcional, de proporção geométrica.
O justo é o proporcional, e o injusto é o que viola a proporção. O igual é o meio-termo entre a linha maior e alinha menor, de acordo com uma proporção aritmética, e essa e a origem do termo justo, onde o juiz é que media a situação.
O justo é intermediário entre uma espécie de ganho e uma espécie de perda nas transações que não são voluntárias, e consiste em ter uma quantidade igual antes e depois da transação.
A reciprocidade deve fazer-se de acordo com uma proporção e não na base de uma retribuição exatamente igual, e é pela retribuição proporcional que a cidade se mantém unida.
A justiça é uma espécie de meio-termo, mas não no mesmo sentido que as outras virtudes, e sim porque ela se relaciona com uma quantia ou quantidade intermediaria, ao passo que a injustiça se relaciona com os extremos. O magistrado é um guardião da justiça e, portanto, também guardião da igualdade.
Uma classe de atos justos se compõe de atos que estão em consonância com alguma virtude e que são prescritos pela lei.

Livro VI:

Dividimos as virtudes da alma e dissemos que algumas são virtudes do caráter e outras do intelecto. Dissemos antes que a alma tem duas partes: a que concebe uma regra ou principio racional, e a privada de razão. Façamos agora uma distinção semelhante no interior da primeira, admitindo que sejam duas as partes racionais: uma pela qual contemplamos as coisas cujas determinantes são invariáveis, e outra pela qual contemplamos as coisas passiveis de variação.
A virtude de algo se relaciona com o seu funcionamento apropriado, e são três os elementos da alma que controlam a ação e a verdade: sensação, razão e desejo. A afirmação e negação no raciocínio correspondem à busca e a repulsa na esfera do desejo. A virtude moral é uma disposição de caráter relacionado com a escolha, e a escolha é um desejo deliberado.
O conhecimento científico é um estado que nos torna capazes de demonstrar se um homem tem conhecimento cientifico quando tem uma convicção a qual chegou de determinada maneira, e conhece os pontos de partida, pois se estes últimos não lhe são mais bem conhecidos do que a conclusão, ele terá o conhecimento de modo puramente acidental. A arte é uma capacidade raciocinada de produzir, e não há arte alguma que não seja uma capacidade dessa espécie.
Julga-se que seja característico de um homem dotado de sabedoria pratica ser capaz de deliberar bem acerca do que é bom e conveniente para ele, não sob um aspecto particular, mas sobre aqueles que contribuem para a vida boa de um modo geral. Sabedoria pratica não pode ser ciência, nem arte. É uma capacidade verdadeira e raciocinada de agir no tocante as coisas que são boas ou más para o homem. A sabedoria prática é uma virtude e não uma arte. As pessoas ignorantes são mais praticas que aquelas que têm sabedoria teórica porque elas agem de forma instintiva ou instantânea, enquanto que as sabias agem com raciocínio, portanto necessitam de mais tempo.
As disposições da alma pelas quais possuímos a verdade são: o conhecimento científico, a sabedoria prática, a sabedoria filosófica e a razão intuitiva, e se a disposição da alma pela qual aprendemos as primeiras causas não pode ser nenhuma das três primeiras, resta somente uma alternativa, a saber, que é a razão intuitiva que aprende os primeiros princípios. A sabedoria deve ser uma combinação da razão intuitiva com o conhecimento científico. A sabedoria política e a sabedoria prática correspondem à mesma disposição de alma, porém sua essência não é a mesma.
Também temos como virtudes a inteligência e a perspicácia. A inteligência não consiste em ter ou adquirir sabedoria prática, mas assim como aprender é chamado entendimento quando significa o exercício da faculdade de conhecer.
Discernimento é a faculdade pela qual os homens são juizes humanos, a reta discriminação do eqüitativo. Um homem eqüitativo é, sobretudo, um homem de discernimento humano.
A função de um homem somente é perfeita quando esta de acordo com a sabedoria prática e com a virtude moral, pois esta faz com que nosso objetivo seja certo, e a sabedoria prática, com que escolhemos os meios certos. Não é possível possuir sabedoria prática sem ser bom. Sócrates estava errado em pensar que todas as virtudes fossem formas de sabedoria prática, e certo em pensar que as virtudes implicavam sabedoria prática.
Então, não é possível ser bom, no sentido estrito da palavra, sem sabedoria prática, nem é possível ter essa sabedoria sem ter a virtude moral.

Livro VII:

Há três espécies de disposições morais a ser evitadas: o vício, a incontinência e a bestialidade. As disposições contrárias a duas delas são evidentes: uma chamou de virtude e a outra de continência. Se os homens se tornaram deuses pelo excesso de virtude, evidentemente deve ser dessa espécie a disposição contrária a bestialidade.
Agora discutiremos a incontinência e a frouxidão (efeminação), e também suas disposições contrárias, a continência e a fortaleza. Considera-se que tanto a continência quanto a fortaleza estão incluídas entre as coisas boas e louváveis, e que tanto a incontinência quanto a frouxidão incluem-se entre as coisas más e censuráveis.
Em primeiro lugar devemos investigar se as pessoas incontinentes agem tendo ou não ciência de seus atos, e em que sentido; e a seguir investiguemos com que espécie de objetos se relaciona o homem incontinente e o continente, e se as pessoas continentes e as dotadas de fortaleza são as mesmas ou diferentes; e analogamente no que diz respeito aos outros assuntos de nossa investigação. A continência é a moderação e a incontinência o exagero ou exaltação. A bestialidade é um mal menor do que o vício.
O hábito é adquirido pela prática, ate fazer-se próprio da natureza humana, no seu raciocínio instantâneo.
Nos versos de Homero que fala sobre o cinto bordado de Afrodite: E ali estão os sussurros de amor, tão sutis que roubam a razão aos mais sábios espíritos. O seu apetite por Afrodite venda a sua razão, e ele age pela emoção.
Um homem mau causará muito mais mal do que um animal irracional.
A diversão é um relaxamento da alma, visto que é uma pausa no trabalho; e o homem que gosta demasiadamente de diversões excede-se em tais coisas. Entre as espécies da incontinência, uma é a impetuosidade, e outra é a indolência. O homem incontinente é como aqueles que se embriagam rapidamente e com pouco vinho. Uma vez que as pessoas incontinentes tendem a buscar, não por convicção, prazeres do corpo que são excessivos e contrários a reta da razão.
Como diz Eveno, o hábito é tão-somente uma longa prática que por fim faz-se natureza.
O estudo do prazer e do sofrimento também pertence ao campo do filosófico político, pois ele é o arquiteto do fim com vista no qual dizemos que uma coisa é má e outra é boa, em absoluto. Os argumentos em favor do ponto de vista dos que negam absolutamente que o prazer seja um bem são: todos os prazeres são processos conscientes em direção a uma disposição natural. Os prazeres que não envolvem sofrimento não admitem excesso, e esses se incluem entre as coisas agradáveis por natureza.
Terminamos aqui nossa discussão acerca da continência e da incontinência, e do prazer e do sofrimento, mostramos o que cada um é em si, e em que sentido alguns são bons e outros maus. Agora nos resta falar da amizade.

LivroVIII:

É necessário fazer uma discussão acerca da natureza da amizade, já que é uma virtude ou implica virtude, e alem disso é extremamente necessária a vida.
Ela estimula a prática de nobres ações, pois com amigos – dois que andam juntos – as pessoas são mais capazes de agir e de pensar. Quando os homens são amigos não necessitam de justiça, ao passo que mesmo os justos necessitam também da amizade; e considera-se que a mais autentica forma de justiça é uma espécie de amizade.
As pessoas amam por três motivos. Para o amor dos objetos inanimados não empregamos a palavra “amizade”, visto que não ocorre neste caso reciprocidade de afeição. É em espécie também que diferem as correspondentes formas de amor e amizade.
Aqueles que fundamentam sua amizade no interesse amam-se por causa de sua utilidade, por causa de algum bem que recebem um do outro, mas não amam um ao outro por si mesmo. O mesmo se pode dizer a respeito dos que se amam por causa do prazer, não é por causa do caráter que os homens amam por causa do prazer; não é por causa do caráter que os homens amam as pessoas espirituosas, mas porque as consideram agradáveis. Desse modo, os que amam as outras pessoas por interesse, amam pelo que são bons para eles mesmos, e agradável a eles, e não porque o outro é a pessoas amada, mas porque ela é útil ou agradável.
A amizade perfeita é aquela que existe entre os homens que são bons e semelhantes na virtude, pois tais pessoas desejam o bem um ao outro de modo idêntico, e são bons em si mesmos. O amor e amizade, portanto, ocorrem principalmente e em sua melhor forma entre homens desta espécie. Uma amizade desta espécie exige tempo e intimidade. O mesmo vale para a amizade que busca a utilidade, pois as pessoas boas também são úteis reciprocamente.
Uma vez que a amizade divide-se em duas espécies, os maus serão amigos visando à utilidade ou ao prazer, pois com relação a esse aspecto se assemelharão um ao outro; entretanto, os bons serão amigos por eles mesmos, isto é, por causa da sua bondade. Eles, portanto, são amigos no sentido absoluto da palavra.
Parece que o amor é um sentimento e a amizade é uma disposição de caráter.
Não se pode ser amigo de muitas pessoas no sentido de ter com elas uma amizade perfeita, da mesma maneira que não se podem amar muitas pessoas ao mesmo tempo. Pois não passam juntos os seus dias, nem se comprazem na companhia uma da outra; e estas são consideradas as características marcantes da amizade e do amor. É preciso, para uma amizade perfeita, que as duas partes adquiram experiência recíproca e se tornem intimas, e isso custa muito esforço.
A amizade e a justiça parecem se relacionar com os mesmos objetos e manifestar-se entre as mesmas pessoas.
Há três espécies de constituição e igual número de desvios ou perversões, por assim dizer, daquelas. São elas: a monarquia, a aristocracia, e em terceiro lugar a que se baseia na posse de bens e que seria talvez apropriado chamar timocracia, embora a maioria chame governo do povo.
Nas amizades que se baseiam na virtude não surgem queixas; aqui, a intenção do benfeitor é uma espécie de medida, uma vez que na intenção se encontra o elemento essencial da virtude e do caráter. O homem que não contribui com nada para o bem comum não é distinguido com honras, pois o que pertence à comunidade. Não é possível receber ao mesmo tempo riqueza e honra do patrimônio comum.

Livro IX:

As relações amigáveis com o seu semelhante e as características pelas quais se definem as amizades parecem derivar das relações de um homem para consigo mesmo. Definimos um amigo como aquele que deseja e faz, ou parece desejar e fazer o bem no interesse de seu amigo, ou como aquele que deseja que seu amigo exista e viva por si mesmo, ou também o amigo como aquele que vive na companhia de uma outra pessoa e tem os mesmos gostos que essa pessoa.
A benevolência é um elemento da relação amigável, mas não é a amizade. A conformidade de opinião também parece ser uma relação amigável; ela não é identidade de opinião. Quando os homens têm a mesma opinião sobre o que é de seu interesse, escolhem as mesmas ações e fazem em comum aquilo que decidiram.
Todos os homens aprovam e louvam os que se dedicam com empenho excepcional em ações nobres; concorreria para o bem comum e cada um asseguraria para si os maiores bens, uma vez que a virtude é o bem maior que existe. Por isso, a pessoa boa deve ser amiga de si mesma (pois ela mesma se beneficiará com a prática de atos nobres, ao mesmo tempo em que beneficiará o seu próximo).
O homem é um ser político e está em sua natureza viver em sociedade. E certamente é melhor passar os dias com amigos e pessoas boas que com estranhos ou companheiros casuais. Desse modo, o homem feliz necessita de amigos, que precisam ser virtuosos.
A felicidade é uma atividade, algo que nos pertence. Considera-se que o homem feliz deve ter uma vida agradável.

Livro X:

Depois desses assuntos parece que devemos examinar o prazer. Pensa-se também que comprazer-se com as coisas apropriadas e desprezar as que se deve desprezar tem grande influencia na formação do caráter virtuoso. O prazer não é um meio-termo, pois é antagônico ao sofrimento, portanto deve-se objetivar o agradável ou satisfação que no caso quando for uma interação entre duas ou mais pessoas, todas devem se equivaler nesse sentimento. Devemos nos precaver do prazer, pois não podemos julgar com imparcialidade.
Depois de falarmos das virtudes, das formas de amizade e das várias espécies de prazer, resta-nos discutir em linhas gerais a natureza da felicidade, já que afirmamos que ela é o fim da natureza humana. A felicidade não está em passatempos e divertimentos, e sim nas atividades virtuosas e contemplativas.
A sabedoria prática também esta ligada ao caráter virtuoso e este a sabedoria prática, visto que os princípios desta são conformes as virtudes morais e a retidão moral é conforme a sabedoria prática. As virtudes morais, por estarem ligadas as emoções, devem também se relacionar a nossa natureza composta, e as virtudes morais de nossa natureza composta são humanas; por conseguinte, também são humanas a vida e a felicidade que lhes correspondem. Todavia, a excelência da razão e uma coisa a parte. Enquanto homem que convive com os outros, ele deseja praticar ações conformes à virtude, e desse modo também necessitara das coisas que facilitam a vida humana. Para-se proceder virtuosamente deve-se ter recursos moderados.
A felicidade perfeita é uma atividade contemplativa.
Alguns pensam que por natureza nos tornamos bons, outros pelo hábito, e outros pelo ensino, mas em decorrência de alguma causa divina.
Apenas em Esparta, ou quase exclusivamente nessa cidade, o legislador parece ter-se detido nas questões de educação e de trabalho.
Para completarmos da melhor maneira possível a nossa filosofia da natureza humana é necessário conhecer as leis profundamente.
Para compreensão da ética de Aristóteles é de suma importância saber que: os filósofos são
os que amam e honram a razão acima de todas as coisas, conduzindo-se com justiça e nobreza.
Todas essas qualidades fazem com que o filosofo seja o mais feliz dos homens. O ser humano tem que se realizar virtuosamente naquilo que lhe é natural, a sua razão. Viver bem é viver de acordo com o bom desenvolvimento do espírito racional.
A razão deve dirigir o cotidiano, para dominar as paixões e criar bons hábitos, e a mediania entre as atitudes também é importante, pois estabelece um equilíbrio.

Resenha elaborada pelo acadêmico da Universidade Federal do Tocantins – Naldson Ramos da Costa Júnior

“Nós somos aquilo que fazemos repetidamente. Excelência, então, não é um modo de agir, mas um hábito” (Aristóteles)

Resenha revisada pelas acadêmicas da Universidade Luterana de Palmas – Daiany Alves Esclavassini, Mônica Maria Mendes e Laís Alves Teixeira.

Sombra e Luz em Platão

No texto “Sombra e Luz em Platão”, G. Lebrun diferencia a interpretação da “visão” entre Platão e Descartes. Sendo elas:

Para Platão a visão é o único sentido que se faz necessário um terceiro elemento, o Sol, assim como para chegar ao conhecimento, se faz necessário um terceiro elemento, o bem, pois se isso não ocorrer à exposição não passará de um espelhamento de saberes desconexos. Encontraremos esse paralelo entre o olho e o espírito na “analogia solar”no livro VI da republica. “A visão, como já sabemos, precisa de luz, sem a qual desaparece” (GÉRARD n.d. p. 403). Para Platão: “a visão não é um paradigma do saber. O único paradigma do saber é a luz.” (GÉRARD n.d. p. 405)

Platão luta contra o sensu comum, “Para sair da amathía[1], é preciso não apenas “virar a cabeça” e “violentar-se”, mas sobre tudo deixar que o educador use de violência. Pois não há, aqui “razão natural” à nossa disposição.Para Platão de natural só há a desrazão.é preciso obrigar aqueles que são capazes (e estes não são muitos) a olhar alhures.” (GÉRARD n.d.)

Sabedoria humana seria o foco luminoso para Descartes que se opõe à “uma tradição (Platão e Agostinho) a qual o espírito humano só é capaz de apreender seu objeto se estiver iluminado por uma luz cuja a fonte ela não traz em si, mas lhe vem de um foco luminoso transcendente (a idéia de bem, deus).” (GÉRARD n.d. p.401)

Descartes acreditará na condução do individuo, paideía, porém não declarará guerra ao sensu comum. ”O único defeito do vulgo é o de contentar-se com conhecimento sensíveis, que recebeu pela visão ou pela audição (os ensinamentos dos mestres). Mas o exercício do método porá fim a esse estado de ignorância (ágnoia) fazendo-o concentrar sua visão “nos princípios comuns e os axiomas” que ele, até agora, “não se preocupou em considerar” (GÉRARD n.d. p. 410)


[1] “Nada saber e crer que sabe”

Vico e a natureza poética

As línguas e as letras nasceram gêmeas. Fato, para Vico,  e quaisquer argumentos contrários eram opiniões extravagantes e monstruosas. E, assim, progrediram paralelamente nas suas três modalidades. Tais princípios se encontram nas origens da língua latina, percebidos na Ciência Nova.

E foi por obra e graça de tais elaboradas razões que se fizeram tantas descobertas no âmbito da história, do governo e do direito romano antigo (…) Inspirados neste exemplo, os eruditos das línguas orientais , grega e, entre as atuais, particularmente da língua alemã, que é língua autóctone, poderão ir ter a descobertas da antiguidade fora de qualquer expectativa deles e nossa.”

Razão de tais origens, seja de línguas seja de alfabetos, é que os primeiros povos da gentilidade, por uma comprovada necessidade natural, foram poetas, e falaram por figuras poéticas. Esta, que é a descoberta basilar desta Ciência, custou-nos a obstinada pesquisa de toda a nossa vida literária, mesmo porque às nossas naturezas civilizads é totalmente impossível imaginar, e com grande esforço apenas nos é dado perceber, essa tal natureza poética dos primeiros homens.”

“Tais figuras correspoderam a determinados gêneros fantásticos (ou imagens, predominantemente de substâncias animadas, seja de deuses seja de heróis, excogitadas pela fantasia deles), a que reduziam todas as espécies ou todos os particulares pertencentes a cada gênero. De forma análoga, as fábulas dos tempos humanos, quais os da comédia recente, são gêneros inteligíveis, isto é, racionalizados pela filosofia moral, dos quais os poetas cômicos formam os gêneros fantásticos (que outra coisa não são as ótimas ideias dos homens em seus respectivos gêneros), isto é, as personagens de comédias. Eis, pois, que tais caracteres divinos ou heróicos percebemo-los quais verdadeiras fábulas, ou narrações verazes. E nelas se descobrem as alegorias, cujos sentidos não são mais análogos, mas unívocos, nem filosóficos, mas históricos de rais tempos dos povos da Grécia.”

Ademais,

justamente porque tais gêneros (quais, na sua essência, as fábulas) constituíam-se engendrados por robustíssimas fantasias, quais as de homens de racioncínio debilíssimo, deles podemos intuir os verdadeiros enunciados poéticos, que hão de ser tidos como sentimentos revestidos de grandíssimas paixões, e, por isso mesmo, plenos de sublimidade e capazes de sucitar maravilha.”

De resto, Vico diz, que as duas fontes de toda locução poética são:

  • A indigência das falas
  • A necessidade de expressar-se e de se fazer entender

E de ambas provêm a evidência da:

  • Linguagem heróica ( della favella eroica )

Que imediatemente sucedeu à:

  • Linguagem muda ( alla favella mutola )

“(…) por gestos ou caracteres que tinham correspondência com as ideias que se intencionava significar, linguagem empregada nos tempos divinos, aliás.”

Em suma,

“através do imperativo fluxo das coisas humanas, as línguas, entres os assírios, os sírios, os fenícios, os egípcios, os gregos e os latinos sabemo-las iniciadas pelos versos heróicos, depois passados a jâmbicos, que afinal foram dar na prosa. Com isto dá-se credibilidade à história dos antigos poetas, e explica-se a razão por que na língua alemã, particularmente na Silésia, província toda ela de camponeses, naturalmente nascem versejadores, sendo que na língua espanhola, na francesa e na italiana os primeiros autores escreveram em versos.”

Todas as citações:

VICO, Giambattista. Princípios de (uma) Ciência Nova. Coleção: Os Pensadores de 1973. p.26

A Temperança Salva a Phronesis

Podemos dizer que a phronesis é a excelência intelectual para atingir o que é nobre, por essa instância ela é comumente traduzida por “prudência” e em determinados contextos, com maior precisão, por “sabedoria prática”. O homem somente é reconhecido como homem, no pensamento aristotélico, se realizar a função que lhe é própria, para tanto ele buscará através do exercício racional buscar os melhores meios para atingir os fins adequados, e que lhe são próprios, de acordo com sua disposição de caráter, habilmente instaurada pela educação e pelo treino. Todavia, o exercício da sabedoria prática se dá no âmbito das coisas variáveis, como se infere das seguintes palavras:

“Resta, pois, a alternativa de ser ela uma capacidade verdadeira e raciocinada de agir com respeito às coisas que são boas ou más para o homem”.[1]

Ora, as proposições necessárias (como, por exemplo, aquelas pertencentes ao reino da Aritmética), não podem ser pervertidas pela intemperança, Mas, o juízo das coisas variáveis, que são aquelas que “se há de fazer”, podem ser pervertidos. E é por este motivo que Aristóteles pode dizer que, quem salva a phronesis é a “temperança” (sophrosinè). Pois mantém nítida a relação estabelecida entre a “causa originária” das ações – morais – com seus fins, não permitindo que o prazer ou dor as obnubilem, como ocorre com o homem intemperante.


[1] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. V, 5. 1140 b 5.

O simbólico divino na natureza.

ponto-de-fuga-do-divino

Podemos dizer que toda criação espelha o Divino, cada qual em sua própria dimensão de ser. Tudo o que existe em certo sentido serve como um veículo de expressão do Eterno. Por esse ângulo, as criaturas podem ser encaradas como símbolos ou metáforas do Divino. Uma bela figura está no livro de Salmos onde é dito: “Porque o Senhor Deus é um sol…”[1] Significa isso, que o sol seja Deus? Ou, que como este é apenas mais um dentre os milhares, talvez milhões, de sóis existentes no Universo, Deus seja apenas mais um dentre os deuses?

É muito improvável! Há maior probabilidade que signifique ser o sol uma metáfora do Divino, este imenso astro no firmamento possui (sempre guardando as devidas proporções) atributos que espelham ao seu Criador. O sol é fonte de luz e calor para nosso planeta, assim, como o Eterno é a fonte de luz a todo o aquele que Nele crê e fonte de calor nos momentos em que a frieza espiritual assalta nossa alma. Sem o sol não haveria vida, da mesma forma sem Deus não há vida, como diz o livro de Provérbios: “O temor do Senhor é fonte de vida, para desviar dos laços da morte.”[2] O sol irradia por sobre a Terra, assim como “o Eterno dos altos céus”(expressão muito usada pelos profetas) também irradia suas bênçãos sobre nós que somos terra (Adâm quer dizer, homem e humano, que provavelmente vem de uma raiz que significa vermelho ou escuro, donde temos adamáh significando pó da terra) uma referência a cor avermelhada da terra do “Crescente Fértil”. O sol tem a lua como seu satélite natural, a lua é um símbolo do feminino e não possuí luz própria, mas, reflete a luz do sol, da mesma forma, a lua representa nação de Israel, e os cristãos crêem que represente a Igreja, ambas não possuem luz própria, mas, refletem a luz de Deus, por isso no Cântico dos Cânticos é dito:

“Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército com bandeiras?”[3]

Temos então, a possibilidade de observar como os elementos criados podem nos ensinar grandes verdades sobre o Criador. É quase certo que a explicação dada a Arjuna pelo Senhor Krsna (Krishna) no Décimo capítulo do Bhagavad-Gita:

“…entre as luzes, sou o Sol radiante; …entre as estrelas, sou a Lua… e das massas de águas , sou o oceano…”[4]

Ou a palavras de Jesus no Evangelho de Tomé – O Dídimo:

“…Parti um (pedaço de) madeira, lá estou; levantai uma pedra, e ali me encontrareis.”[5]

Possam ser entendidas como uma afirmação deste princípio. O grande perigo é que confundamos o símbolo com o Simbolizado, o significante com o Significado. Há em Agostinho uma bela passagem onde indícios dessa possibilidade de confusão o assaltaram no início de sua busca pela resposta a pergunta :quem é Deus?

“Perguntei-o a terra e disse-me: – Eu não sou. E tudo o que nela existe, respondeu-me o mesmo. Interroguei o mar, os abismos e os répteis animados e vivos e responderam-me: – Não somos teu Deus; busca-o acima de nós. Perguntei aos ventos que sopram; e o ar, com seus habitantes respondeu-me: – Anaxímenes está enganado; eu não o teu Deus. Interroguei o céu, o sol, a lua, as estrelas e disseram-me: – Nós também não somos o Deus que procuras. Disse a todos os seres que me rodeiam as portas da carne: Já que não sois o meu Deus, falai-me do meu Deus, dizei-me ao menos, alguma coisa dEle. E exclamaram com voz forte: -Foi Ele quem nos criou.” [6]

Toda criação traz em si algo de seu criador, carrega os sinais que caracterizam-na como criação deste e não daquele artista. Da mesma forma:

“Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz.”[7]

Não necessitam das palavras para transmitir sua mensagem de exaltação ao Criador, pois, as palavras são formadas por conjuntos de símbolos gráficos e neste caso tudo é um símbolo e o conjunto total da criação a mensagem!

Por esta perspectiva, entende-se que o panteísmo e o animismo são contados entre nossos equívocos mais comuns, ao atentarmos para a beleza divinal da criação ou ao ouvirmos suas “vozes”, sem o devido preparo espiritual, tendemos a considerar que a criação fala de si própria e confundimos a criatura com o Criador! O Apostolo Paulo, diz dos que assim procedem:

“Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.”[8]

Essa confusão nos coloca numa situação de anômala ignorância perante Deus, e caracteriza um estado de cegueira espiritual tão acentuado que é chamado por uma palavra grega que significa “ tornar-se tolo” emwranqhsan – a tradição vedantina afirma que a causa de todos os males que nos assolam é a ignorância, “avidyã” (alguns especialistas dizem nescidade, o que nos remete ao conceito hebraico sobre a raiz do ateísmo, ou agnosticismo[9]). Portanto, uma correta apreensão espiritual do mundo e de tudo o que nele há, envolve a noção que toda perfeição, beleza, dinâmica e sabedoria, dentre outros atributos da natureza são apenas metáforas fragmentárias da Perfeição, Beleza, Dinâmica e Sabedoria do Eterno Criador e apontam na direção dos céus que anunciam a imensidão Daquele que os criou!

Temos então, a tarefa de ir além dos símbolos em direção do Verdadeiro e Único Significado de tudo que existe.


[1] Salmo. 84.11a.

[2] Provérbios.14:27.

[3] Cântico dos Cânticos. 6:10.

[4] Bhagavad-Gita. 10:21b,c; 24 b,c.

[5] Evangelho de Tomé, o Dídimo. Vs.77b.

[6] Agostinho. As Confissões. Livro 10: 6.

[7] Salmos. 19:1-3.

[8] Romanos. 1:22 e 23.

[9] Salmos. 14: 1. “Disse o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, fazem-se abomináveis em suas obras,…”

Bibliografia

AGOSTINHO, Santo. – Confissões. Livraria Apostolado da Imprensa. 4ª. Edição, Porto – Lisboa. 1952.

ALMEIDA, João Ferreira (Trad.) Bíblia Sagrada: Edição Revista e Corrigida. Imprensa Bíblica do Brasil. Rio de Janeiro, s/d.

MEYER, Marvin. – O Evangelho de Tomé: as sentenças ocultas de Jesus. Editora Imago, Rio de Janeiro, s/d.

PRABHUPÃDA, A.C. Bhaktivedanta Swami. – Bhagavad-Gitã como ele é. The Bhaktivedanta Book Trust. 4ª. Edição, São Paulo, 2006.

A relação entre a ciência e a metafísica para Descartes

A relação entre a ciência e a metafísica para Descartes se dá quanto à sabedoria ou grau de clareza e nitidez de idéias que é possível atingir em cada uma.

Segundo Koyré: “ diz-nos que a ciência tem necessidade de uma metafísica. E até, o que é mais grave, diz nos que ela deve começar por está.” (KOYRÉ, Considerações sobre Descartes, p.76)

Com certeza apenas as idéias ou os pensamentos dessas coisas se apresentam ao meu espírito. E mesmo agora não contesto que essas idéias estejam em mim. […], por causa do meu hábito de crer nela (por meio das sensações), julgava perceber bastante claramente, embora, na verdade, não a percebesse de modo algum, isto é, que existam coisas fora de mim de onde se originam essas idéias e as quais elas eram semelhantes.” (DESCARTES, Meditações p. 270)

Para Descartes a ciência pode ser comparada a uma árvore; a metafísica é a raiz, a física é o tronco, e os três principais ramos são a mecânica, a medicina, e a moral, estes formando as três aplicações do nosso conhecimento, que são, o mundo externo, o corpo humano, e a conduta da vida. Mas os conhecimentos científicos não bastam a si mesmos: o tronco da física sustenta-se em raízes metafísicas.