Ciência – Diante da impossibilidade de justificação do princípio indutivo em bases lógicas ou experimentais, quais as possíveis respostas ao problema da indução?


“Seus programas técnicos levaram a avanços interessantes dentro da teoria da probabilidade, mas nenhum novo insight foi acrescentado sobre a natureza da ciência. Seu programa degenerou.”[1]

Resposta – Cética.

“Podemos aceitar que a ciência se baseia na indução e aceitar também a demonstração de Hume de que a indução não pode ser justificada por apelo à lógica ou à experiência, e concluir que a ciência não pode ser justificada racionalmente. O próprio Hume adotou uma posição desse tipo. Ele sustentava que crenças em leis e teorias nada mais são que hábitos psicológicos que adquirimos como resultado de repetições das observações relevantes.”[2]

Reposta – Racionalidade do princípio.

“Uma segunda resposta é enfraquecer a exigência indutivista de que todo o conhecimento não-lógico deve ser derivado da experiência e argumentar pela racionalidade do princípio da indução sobre alguma outra base. Entretanto, ver o princípio de indução, ou algo semelhante, como “óbvio” não é aceitável.”[3] Pois, o “óbvio” depende de nossa educação e é particular.

Resposta – Negação de que a ciência se baseie em indução.

“O problema da indução será evitado se pudermos estabelecer que a ciência não envolve indução. Os falsificacionistas, notadamente Karl Popper, tentam fazer isso.”[4]


[1] CHALMERS, A. F. O que é a ciência afinal? 2009. Editora Brasiliense. P. 42

 

[2] CHALMERS, A. F. O que é a ciência afinal? 2009. Editora Brasiliense. P. 42

[3] CHALMERS, A. F. O que é a ciência afinal? 2009. Editora Brasiliense. P. 43

[4] CHALMERS, A. F. O que é a ciência afinal? 2009. Editora Brasiliense. P. 43

Hume e a Geometria

O segundo princípio que me propus observar diz respeito à Geometria. Tendo negado a divisibilidade infinita da extensão, nosso autor sente-se obrigado a refutar aqueles argumentos matemáticos apresentados a favor daquela tese; tais argumentos, de fato, são os únicos que têm algum peso. Para refutá-los, nega que a Geometria seja uma ciência suficientemente exata para admitir conclusões tão sutis como as que dizem respeito à divisibilidade infinita. Seus argumentos podem ser expostos assim: toda a Geometria está fundada nas noções de igualdade e desigualdade, e logo, a própria ciência terá menor ou maior exatidão, conforme tivermos ou não um padrão mais ou menos exato dessa relação. Ora, existe um padrão exato de igualdade, supondo-se que a quantidade é composta de pontos indivisíveis. Duas linhas são iguais quando os números de pontos que as compõem são iguais, e quando cada ponto de uma corresponde a cada ponto da outra. Mas, mesmo que esse padrão seja exato, é inútil, pois jamais conseguimos contar o número de pontos em nenhuma linha. Além disso, isto se funda na suposição da divisibilidade finita, e, portanto, não pode fornecer qualquer conclusão contra ela. Se rejeitarmos esse padrão de igualdade, não temos outro que possua quaisquer pretensões de exatidão. Posso exemplificar com dois padrões comumente usados. Duas linhas sobre unia jarda, por exemplo, são consideradas iguais quando contêm qualquer quantidade inferior, como uma polegada, o mesmo número de vezes. Mas isso é um círculo vicioso. Pois a quantidade que chamamos de polegada, em uma das linhas, é supostamente igual à que chamamos de polegada na outra. E a questão ainda é: por que padrão procede-mos quando as julgamos iguais: ou, com outras palavras, que queremos dizer quando dizemos que elas são iguais. Se tomarmos quantidades ainda menores, seguiremos assim in infinitum. Logo, não é nenhum padrão de igualdade. Os filósofos, em sua maioria, quando perguntados sobre o que entendem por igualdade, respondem que a palavra não admite definições, e que basta colocar diante de nós dois corpos iguais, tais como dois diâmetros de um círculo, para fazer-nos entender esse termo. Ora, isso é tomar a aparência geral dos objetos como padrão dessa proporção, e entregar à nossa ima- ginação e aos nossos sentidos o último julgamento sobre ela. Mas, tal padrão não admite nenhuma exatidão e não consegue fornecer conclusão contrária à imaginação e aos sentidos. Se a questão é válida ou não, o mundo dos sábios deverá julgar. Seria certamente desejável que se descobrisse algum expediente para reconciliar a filosofia com o senso comum, os quais, no que concerne a questão da divisibilidade infinita, sustentaram guerras muito cruéis.[1]


[1] HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. P. 101-9

Resumo – Aristóteles – Metafísica – Livro I – Cap. IV

Continuação do capítulo III.

Metafísica – Livro I – Cap. IV

Poderia se supor que Hesíodo e Parmênides foram os primeiros a introduzir  o “amor” como princípio.

Contudo, os contrários do bem e do belo aparecem também na natureza. Então, Empédocles introduz a amizade (Philia) e a discórdia (Neikos), “cada uma delas casa contrária de efeitos contrários(…) encontrará que a amizade é a causa das coisas boas, e a discórdia das más.[1] Assim, Empédocles afirma, pela primeira vez, o bem e o mal como princípios de tudo. Aqui vemos duas causas expostas, ainda que de forma obscura por estes, na Física: a material e a eficiente. Anaxágoras serve-se do nous, inteligência, mente para a geração do Universo “como um deus ex machina”[2][3]. “Empédocles se serve das causas, mais que este último, mas de maneira não suficiente nem coerente[4]. Ele foi o primeiro a introduzir esta divisão na causa, admitindo dois princípios diferentes e contrários; e ainda de dizer que são quatro os elementos atribuídos à natureza material. Porém serve os elementos como dois: o fogo como um e os três como uma única natureza.

Leucipo e Demócrito já reconhecem como elementos o pleno e o vazio, o ser e o não-ser. Para estes filósofos as diferenças são as causas das coisas.

São, segundo eles, estas três: a figura, a ordem e a posição[5]. O ser, dizem eles, só difere pelo “rismó”, “diatigé” e “tropé”, isto é, pela “figura”, “ordem” e “posição”. Assim A difere de N pela figura. AN de Na pela ordem e Z de N pela posição. Quanto ao movimento, donde ou como se encontre nos seres, também estes, como os outros, negligentemente descuraram. Tal é, pois, a respeito das causas [isto é causa material e eficiente], o ponto ao qual parecem ter chegado, a nosso ver, os que investigaram anteriormente [a nós].[6]


[1] Ibidem, p.219.

[2] Ibidem.

[3] Alusão ao recurso teatral de uma cena que, como a intervenção de um deus, não estava no seguimento lógico da ação e que dava desfecho à situação criada.

[4] Ibidem. p.219-20

[5] Colle, I, 64-5, desenvolve da seguinte maneira este passo: A e N diferem entre si pela ordem diversa das suas partes (supondo A e N de extensão igual, pois parece que na teoria atomista se faz abstração da quantidade).

AN e Na diferem entre si do mesmo modo que A e Z, se se considerarem AN e NA cada um como um todo, porque AN e NA assim considerados diferem pela diversidade da disposição, isto é, a ordem diferente das suas partes.

Não é, porém, assim que cumpre considerar, porque o que importa indagar é aquilo em que o A de AN difere do A de NA ou aquilo em que o N de AN difere do N de NA, porque há nisto uma diferença de outra espécie. Com efeito, o A de AN não difere do A de NA pela ordem diferente das suas partes, porque esta ordem é idêntica nos dois A; mas o primeiro A difere do segundo em que todas as partes do primeiro A estão para todos as partes de N em relação diferente das partes do segundo A.

Z também não difere de N pela ordem diferente das partes porque, uma vez mais, as partes estão na mesma ordem em Z e em N, mas Z e N diferem em que todas as partes de Z estão relativamente a todos os pontos do espaço numa relação diferente da das partes de N. Na diferença precedente, baseava deslocar N para que A mudasse segundo a diferença considerada, mas as relações de A com os pontos do espaço, quaisquer que estes fossem, não sofriam modificação alguma. Pelo contrario, para mudar Z em N reverte-se Z até ao momento em que ele é N. O que se não faz sem mudar a relação de qualquer uma das partes de Z para qualquer uma das partes da extensão real ou ideal. (Ibidem, p.220-1, nota de rodapé)

[6] Ibidem, p.220-1

Resumo – Aristóteles – Metafísica – Livro I – Cap. II

Continuação do Capítulo I

Metafísica – Livro I – Cap. II

Devemos examinar de que causas e de que princípios a filosofia é a ciência”[1]. Mas antes admitamos o que é o filósofo: ele

  1. conhece, na medida do possível, todas as coisas, embora não possua a ciência de cada uma delas por si”[2].
  2. conhece  as coisas difíceis além do conhecimento sensível que é comum a todos e não-científico.
  3. “Conhece as causas com mais exatidão, e é mais capaz de ensinar[3].

O que é filosofia:

  1. A que escolhemos por ela própria, visando o saber [a causa] e não uma ciência de resultados.
  2. A ciência que não é subordinada a nenhuma outra. Ou seja, não recebe leis, mas as dá.
  3. A única ciência livre. A única que existe por si.

A filosofia é a maior das ciências, pois é a que em maior grau, possui a ciência universal, e que assim conhece todos os singulares. Logo, só o filósofo é aquele que pode ensinar já que sabe conhece a causa das outras ciências.

A mais elevada das ciências, e superior a qualquer subordinada, é, portanto, aquela que conhece aquilo em vista do qual cada coisa se deve fazer[4].

Assim, a ciência que procuramos é esta, a ciência teorética dos primeiros princípios e das causas, “porque o bem e o “porquê” são uma das causas”[5].

Foi pela admiração que os primeiros homens se propuseram a filosofar, depois de já haver quase tudo que é indispensável ao bem-estar e à comodidade. “Com efeito, a mais divina [ciência] é também a mais apreciável, e só em duas maneiras o pode ser: ou pó ser possuída principalmente de Deus, ou por ter como objeto as coisas divinas”[6]. Neste caso, Sofia, a divina sabedoria. Ou seja, “Deus, com efeito, parece ser, para todos, a causa e princípio, e tal uma ciência só Deus, ou Deus principalmente, poderia possuí-la”.

Estabelecida no capítulo anterior a existência da ciência ( ou sabedoria ), Aristóteles propõe-se neste capítulo indagar o que caracteriza. Em resumo é: ciência das causas primeiras; teórica, por excelência; eminentemente livre; divina; a mais digna de apreço, gerando a sua aquisição um estado de espírito contrário ao do pasmo da ignorância.[7]

“Fica assim estabelecida a natureza da ciência que procuramos e também o fim que a nossa investigação e todo o tratado devem alcançar”[8].

Continua no Capítulo III.


[1] Ibidem, p.213.

[2] Ibidem.

[3] Ibidem.

[4] Ibidem, p.214.

[5] Ibidem.

[6] Ibidem, p.215.

[7] Ibidem, p.213, nota de rodapé.

[8] Ibidem, p.215.

Anaxímenes de Mileto

 Anaximenes 01

Anaxímenes, cujo apogeu se deu entre 546 e 525 a.C., mas novo que Anaximandro em uma geração, foi o último do trio de cosmologistas milésios, e de vários modos ele é mais próximo de Tales que Anaximandro, mas seria um erro considerar que com ele a ciência teria regredido em vez de avançar. À semelhança de Tales, Anaxímenes pensava que a Terra deveria repousar sobre algo, mas ele sugeriu o ar, e não a água, como seu colchão. A Terra é plana, e planos são também os copos celestes. Estes, em vez de circularem abaixo e acima de nós durante o período de um dia, circulam horizontalmente em torno de nós, como um capacete girando em torno de uma cabeça (KRS 151-6). O nascer e o pôr dos corpos celestes é aparentemente explicado pelo ângulo formado com a Terra plana. Quando ao princípio de tudo,  Anaxímenes considerava a matéria infinita um conceito muito vago e optou, à semelhança de Tales, por considerar fundamental apenas um dos elementos existentes, e de novo escolheu o ar em vez da água.

Em seu estado estável o ar é invisível, mas quando é movido e condensado ele primeiro se torna vento, em seguida nuvem, depois água e, finalmente, a água condensada se torna lama e pedra. O ar rarefeito torna-se fogo, completando assim a escala dos elementos. Desse modo,  a rarefação e a condensação podem conjurar tudo a partir do ar existente (KRS 140-1). Para sustentar essa afirmação, Anaxímenes apelou para a experiência, na verdade para um experimento – um experimento que o leitor pode facilmente realizar por si mesmo. Sopre em sua mão, primeiro com seus lábios cerrados, depois com a boca aberta: da primeira vez o ar será sentido frio, da segunda será quente. Isso, argumentou Anaxímenes, demonstra a conexão entre a densidade e a temperatura.

O experimento e a percepção de que mudanças de qualidade estão relacionadas a mudança de quantidade definem Anaxímenes como um cientista em potencial. Somente em potencial, no entanto, pois ele não tem os meios para medir as quantidades que invoca, ele não concebe equações que as relacionem, e seu princípio fundamental contém propriedades míticas e religiosas. O ar é divino, e gera divindades a partir de si (KRS 144-6); o ar é nossa alma e é o que mantém nossos corpos unidos (KRS 160).

Os milésios não são portanto físicos de fato, mas também não são construtores de mitos.  Eles não abandonaram os mitos, mas estnao se distanciando deles. Ainda não são verdadeiramente filósofos, a não ser que por “filosofia” se queira dizer apenas ciência em sua infância. Eles fazem pouco uso da análise conceitual e do argumento a priori, que tem sido a ferramenta dos filósofos desde Platão até o presente. Eles são especuladores, e em suas especulações se misturam elementos de filosofia, ciência e religião em uma rica e borbulhante poção.

KENNY, Anthony. Uma Nova História da Filosofia Ocidental. Volume I. Filosofia Antiga. Edições Loyola. PP. 32-33

Anaximandro de Mileto

Anaximandro

É mais fácil aceitarmos a cosmologia do conterrâneo mais jovem de Tales, Anaximandro de Mileto ( c. 547 a. C.). Sabemos mais a respeito de seus pontos de vista porque ele deixou um livro intitulado “Sobre a natureza”, escrito em prosa, um estilo que apenas começava a se firmar. À semelhança de Tales, credita-se a ele uma série de feitos científicos originais: o primeiro mapa-mundi, a primeira carta-celeste, o primeiro relógio de sol grego e até mesmo um relógio caseiro. Ele ensinava que a Terra tinha forma cilíndrica, como um pedaço de coluna cuja altura era três vezes maior que sua largura. Em redor do mundo havia tubos gigantescos repletos de fogo, cada um deles com um buraco por ondeAnaximandro mapa-mundi se podia enxergar o fogo a partir do exterior, os buracos sendo o sol, a lua e as estrelas. Julgava que as obstruções nos buracos eram eclipses do sol e fases da lua. O fogo celestial, hoje totalmente oculto, foi em certa ocasião uma grande bola de fogo que circundava a terra em seu princípio. Quando essa bola explodiu, dos fragmentos cresceram os tubos com cascas de árvores em torno de si.

A Anaximadro impressionava muito a maneira como as árvores cresciam e como suas cascas se desprendiam. Ele empregou a mesma analogia para explicar a origem do seres humanos. Os outros animais, ele ressaltou, podem cuidar de si mesmo logo após o nascimento, mas os humanos necessitam de um aleitamento prolongado, e é por isso que o seres humanos não teriam sobrevivido se sua natureza tivesse sido sempre tal como ela é agora. Em um primeiro momento, conjecturou, os seres humanos passavam sua infância envoltos por uma casca espinhosa, de modo que se assemelhavam a peixes e viviam na água. Com a chegada da puberdade ele rompiam sua casaca e partiam em direção à terra seca, para um ambiente em que poderiam cuidar de si próprios. Era por isso que Anaximandro, embora não fosse vegetariano, recomendava que evitássemos comer peixe, pois estes eram os antepassados da raça humana (KRS 133-7).

A cosmologia de Anaximandro é variadamente mais elaborada que a de Tales. Para começar, ele não busca algo que sustente a Terra: ela permanece onde está devido à sua eqüidistância de tudo o mais e não há razão pela qual ela devesse s mover para qualquer direção específica em vez de para uma outra (DK 12 A11; Aristóteles, Cael. II, 13, 295b10).

Depois, ele julga ser um erro relacionar o elemento primeiro do universo com quaisquer dos elementos que podemos ver a nosso redor no mundo atual, como a água e o fogo. O princípio fundamental das coisas, ele afirma, deve ser ilimitado ou indefinido (apeíron). O termo grego utilizado por Anaximandro é normalmente traduzido como “ o Infinito”, mas isso o faz soar muito grande. Ele pode ou não ter julgado que seu princípio se estendia para sempre no espaço, mas o que sabemos é que ele pensava que este não tinha nem começo nem fim no tempo e que não pertencia a nenhum tipo ou classe particular de coisas. “Matéria eterna” seria provavelmente a paráfrase mais aproximada que poderíamos almejar. Aristóteles iria posteriormente refinar a noção em seu conceito de matéria-prima.

Por fim, Anaximandro oferece um relato da origem do mundo atual, e explica quais forças agiram para trazê-lo à existência, investigando, como diria Aristóteles, tanto a causa eficiente como a material. Ele via o universo como um campo de contrários em competição: quente e frio, úmido e seco. Algumas vezes um desses pares de opostos é dominante, outras vezes o outro; eles avançam um sobre o outro e depois recuam, intercâmbio que é governado pelo princípio da reciprocidade. Como definido de forma poética por Anaximandro em seu último fragmento preservado, “eles concedem justiça e deferência uns aos outros pela injustiça, segundo a ordenação do tempo” (DK 12 B1). Assim, pode-se alegar, no inverno o quente e o seco oferecem compensação ao frio e ao úmido pela agressão que cometeram no verão. O calor e o frio foram os primeiros contrários a surgir, separando-se de um ovo cósmico primevo contendo algo indeterminado e eterno. A partir deles se desenvolveram o fogo e a terra, que, como vimos, estavam na origem de nosso presente cosmos.

KENNY, Anthony. Uma Nova História da Filosofia Ocidental. Volume I. Filosofia Antiga. Edições Loyola. PP. 29-32

Tales de Mileto

Tales de Mileto 

Restaram apenas dois ditos de Tales de Mileto registrados (c. 625-545 a.C.), tradicionalmente apontado como o pai fundador da filosofia grega. Eles ilustram a mistura de ciência e religião, pois um deles afirma que “ Todas as coisas estão cheias de deuses” e o outro “A água é o princípio único de tudo”. Tales foi um geômetra, o primeiro a descobrir o método de inscrever um triângulo-retângulo em um círculo, descoberta que celebrou oferecendo um boi em sacrifício aos deuses (DL 1, 24-25).  Ele calculou a altura das pirâmides ao medir a sombra que projetavam no momento do dia em que sua própria sombra equivalia a sua altura. Deu uso prático a sua geometria: depois de provar que triângulos com um lado e dois ângulos iguais são congruentes, fez uso desse resultado para determinar a distancia dos navios no mar.

Tales era também astrônomo e meteorologista reputado. Alem de prever um eclipse, diz-se ter sido também o primeiro a demonstrar que o ano contem 365 dias e a identificar os dias dos solstícios de verão e de inverno. Estudou as constelações e fez estimativas a respeito dos tamanhos do sol e da lua. Empregou seu talento na previsão do tempo com bom proveito: antevendo uma excepcional safra de azeitonas, alugou todas as prensas e fez fortuna a partir de seu monopólio. Desse modo, afirmou Aristóteles, Tales provou que os filósofos poderiam enriquecer facilmente se assim o desejassem (Pol. I, 11, 1259a6-18).

Se metade das histórias que se contavam sobre Tales na Antiguidade fossem verdadeiras, ele era um home de várias facetas. Mas o retrato que de Le foi pintado pela tradição é ambíguo. Por um lado ele surge como um filósofo empreendedor e como experiente político e militar. Por outro, tornou-se sinônimo de preocupação com as coisas não-terrenas. Platão, entre outros, conta a seguinte história:

Tales estudava as estrelas, e a ao olhar para o céu, caiu num poço. Uma serva trácia, irônica e graciosamente, fez troça de sua preocupação em saber o que se passava nos Ceus quando nem ao menos se dava conta do que tinha sob os pés (Teet. 174a).

Um história pouco provável dizia que ele morreu exatamente em conseqüência de uma queda que sofreu enquanto olhava as estrelas.

Tales era reconhecido como um dos Sete Sábios, ou homens de saber, da Grécia, juntamente com Sólon, o grande legislador de Atenas. A ele se creditavam vários aforismos, como o de que a certa idade é muito cedo para um homem se casar e passada essa é muito tarde. AO ser indagado das razões para não ter filhos, respondeu: “Porque gosto de crianças”.

Os comentários de Tales justificaram muitos séculos de desprezo pelo casamento. Qualquer pessoa que faça uma lista dos dez verdadeiramente grandes filósofos irá descobrir que ela se compõe quase inteiramente de solteirões. Uma lista possível, por exemplo, incluiria Platão, Agostinho, Aquino, Scotus, Descartes, Locke, Spinoza, Hume, Kant, Hegel e Wittgenstein, nenhum deles casado. Aristóteles é a grande exceção que invalida a regra de que o casamento seja incompatível com a filosofia.

Mesmo na Antiguidade, as pessoas julgavam difícil entender a adoção por Tales da água como o princípio final de explicação. A terra, ele dizia, repousa sobre a água como um pedaço de madeira flutua na correnteza – mas se é assim então, pergunta Aristóteles, sobre o que repousaria a água? (Cael. II, 13, 294a 28-34). Ele vai alem e afirma que tudo veio da água, e de alguma maneira é feito de água. Uma vez mais, seus argumentos eram obscuros, e Aristóteles podia apenas conjecturar que isso se devia a que todos os animais e plantas necessitavam de água para viver, ou porque o sêmen é úmido (Met. A 3, 983b 17-27). 

 

KENNY, Anthony. Uma Nova História da Filosofia Ocidental. Volume I. Filosofia Antiga. Edições Loyola. PP. 28-29