Mini-curso online de Filosofia Moderna (Gratuito)

Segunda-feira, dia 22 de maio de 2015, o professor Lúcio Prado dará um mini-curso sobre filosofia moderna, de Descartes a Kant, ao vivo, para todos os interessados. O curso será gratuito.
Lúcio Prado possui graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994), mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1998) e doutorado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2006). Atualmente é professor assistente doutor da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, atuando nas áreas de História da Filosofia Moderna e Filosofia da Linguagem. Link para o Lattes:  http://lattes.cnpq.br/6780091892383853

O curso será ministrado via youtube, com interação via chat.
Para mais informações e atualizações, confirmem presença no evento do facebook e acessem a página oficial do grupo no facebook.

É imprescindível que os interessados em assistir o curso enviem pedido para entrar na página do grupo! É lá que as discussões e os links do curso serão disponibilizados!

https://www.facebook.com/events/1579410512317642/  (página do evento)
https://www.facebook.com/groups/1582235232031165/?__mref=message_bubble (página do grupo, com as infos atualizadas)
Recomendadíssimo.

Eis uma apresentação do curso pelo próprio Lucio Prado:

E-Book – Considerações sobre Descartes

Três séculos nos separam de Descartes e do seu Discursodo Método, muito tempo para a história e para a ciência, mas pouco para o pensamento filosófico.   Desde sempre a filosofia se ocupa do Ser, do Conhecimento e do Homem.    O pensamento de Descartes é ainda hoje profundamente actual. O Discurso do Método é rico em ideias sobre o bom senso. Este bom senso é algo que todos pensam possuir e que lhes basta na medida em que acham que o têm.   Descartes ensinou-nos que o que importa realmente é aplicar Bem o espírito, é sempre melhor procurar o caminho a direito para um fim.    Um dos filósofos cuja filosofia conduziu a uma das mais profundas revoluções intelectuais, levando o homem à liberdade espiritual, da razão e da verdade.

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A religião de Darwin

Desidério Murcho

Universidade Federal de Ouro Preto

Ocorre por vezes, nos momentos mais pretensiosos de uma conversa despretensiosa, alguém mencionar, com um ar severo, três Grandes Questões Fundamentais: “Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?” Se alguém nessa conversa tiver um saudável sentido de humor, responderá imediatamente que é o Jacinto, filho dos Gouveias, veio de Odemira e vai para Loulé amanhã por volta das sete e meia, a menos que ainda consiga boleia hoje à noitinha. Caso contrário, menciona-se com ar douto o filósofo alemão Immanuel Kant, para dar supostamente mais peso às Questões.

Todavia, como acontece em muitos outros casos em que se fazem perguntas fundamentais, cedo se descobre que, além de um certo pretensiosismo na sua formulação, muitas pessoas não estão realmente interessadas em respostas cuidadosamente pensadas. O que realmente querem é um discurso poético, místico, inspirador. O que não querem é a verdade — a menos que esta corresponda exactamente ao que querem que a verdade seja. E o que querem? Que seja comezinha e antropocêntrica: os seres humanos no centro do universo, superlativamente importantes no esquema geral das coisas.

Charles Darwin — tal como Isaac Newton, Galileu Galilei e muitos outros cientistas que eliminaram uma parte importante da nossa ignorância — é ainda hoje uma ameaça para quem tem uma mentalidade antropocêntrica. E a reacção não se faz esperar: não podemos aceitar as suas ideias porque põem em causa a nossa dignidade. Esta é uma inversão curiosa das coisas, dado que em vez de considerar a verdade — sacralizada em tantas religiões — mais importante do que a nossa suposta dignidade, considera a nossa vaga e suposta dignidade mais importante do que a verdade. É um pouco como alguém que se julgava filho do Duque de Bragança e subitamente descobre que é filho de um modesto taxista; compreende-se que fique abalado, mas não é particularmente sábio fingir que a verdade de que não é filho de quem pensava que era pode ser mudada com a força da convicção. Mas será mesmo verdade que as ideias de Darwin põem em causa a nossa dignidade? Há razões para pensar que não e é isso que procurarei mostrar.

O que nos ensina a ciência contemporânea? Para começar pelo universo, é de uma dimensão que faz qualquer religião humana parecer provinciana. Até muito recentemente — quando os europeus andavam a matar-se entre si, na segunda guerra mundial — as pessoas não sabiam sequer que a Via Láctea, a nossa galáxia, era apenas uma de entre muitas outras galáxias. O número rigoroso de galáxias é ainda desconhecido e provavelmente sê-lo-á sempre; as últimas estimativas apontam para a existência de 125 mil milhões de galáxias no universo (mas talvez haja 500 mil milhões). Isto significa que se conseguíssemos visitar uma galáxia por segundo, demoraríamos mais de 4 mil anos para percorrê-las todas. Acontece que só na nossa galáxia há pelo menos 100 mil milhões de estrelas, o que significa que para percorrer todas as estrelas da nossa galáxia, ao ritmo de uma por segundo, demoraríamos apenas ligeiramente menos de 4 mil anos.

Se o provincianismo é fundamentalmente ignorância, a ciência é um dos seus mais importantes antídotos. No entanto, quando se ouve falar das Grandes Questões, raramente se ouve falar de algo tão simples como a dimensão do universo, ou até apenas da nossa galáxia. Há pessoas que pensam que há milhares de estrelas na nossa galáxia, o que é verdade apenas no sentido em que se há 100 mil milhões delas, também logicamente há milhares delas — mas é tão enganador falar de milhares de estrelas como seria falar de dezenas de pessoas para falar da totalidade da população humana.

Quando alguém se pergunta de onde veio a humanidade, se quiser honestamente conhecer a resposta, em vez de apenas inventar palavreado reconfortante, terá de se interessar pela ciência. E é aqui que Darwin não só nos deu pistas fundamentais, como nos fez ver as coisas de um modo radicalmente diferente. O princípio filosófico fundamental, e bastante intuitivo, que Darwin nos ensinou a rejeitar é o seguinte: do menos não pode vir o mais. Um caso em que se vê este princípio a funcionar é quando se argumenta que na origem do universo tem de estar uma inteligência. A força desta ideia não resulta apenas, como por vezes se pensa, do uso que se faz dela naquilo que em filosofia se chama o argumento do desígnio: o argumento que conclui que Deus existe porque há indícios de inteligência no modo como o universo está organizado. A ideia de que o universo teve um criador porque indicia inteligência é apenas um caso particular da ideia geral segundo a qual do menos não pode vir o mais.

Uma das formulações mais transparentes deste princípio filosófico é a do filósofo e matemático francês René Descartes — o que é apropriado, pois foi também ele o responsável pela adaptação à mentalidade moderna das ideias dualistas de Platão, segundo a qual o corpo é radicalmente distinto da alma. Descartes começa por levantar a hipótese de que tudo o que julga saber não passe de ilusão, talvez provocada por um génio maligno sumamente poderoso. Depois de concluir que, por mais que o engane, o génio maligno não poderá enganá-lo se ele não existir, Descartes fica com a tarefa de reconstruir o conhecimento a partir dessa modesta base. Como fazer tal coisa?

É neste passo do seu raciocínio que Descartes introduz o princípio de que do menos não pode vir o mais. Descartes raciocina que tem em si a ideia de um ser sumamente perfeito, a que chama Deus. Mas ao mesmo tempo também sabe que ele mesmo, Descartes, erra e se engana — afinal, está precisamente a admitir que o génio maligno o poderá enganar sempre que pensa ver uma árvore, por exemplo. De modo que conclui que Deus existe porque só de Deus poderia emanar a própria ideia de Deus que Descartes descobre em si. Porquê? Porque sendo Descartes imperfeito, não poderia ter inventado por si a ideia de um ser perfeito: do menos não pode vir o mais.

Podemos pôr em causa a aplicação particular que Descartes faz do princípio geral. Mas sem Darwin não teríamos como rejeitar a sua aplicação noutros casos em que parece magia que do menos possa vir o mais: como pode um animal dotado de capacidade para a poesia e a matemática, a filosofia e a física, ter origem em organismos semelhantes às amebas, sem qualquer intencionalidade, consciência, raciocínio complexo ou escrúpulo moral?

A resposta é que é possível porque a realidade é dinâmica, e não estática. Em particular, os organismos morrem e reproduzem-se. E basta que ao longo do tempo, por mero acaso, alguns organismos respondam de modo mais eficiente ao meio ambiente para que deixem mais descendentes. Se o que lhes permite responder de modo mais eficiente ao meio ambiente se transmitir aos seus descendentes, estes acabarão por substituir completamente os que deixam menos descendentes. Assim, a maior complexidade pode surgir da menor complexidade. Na verdade, a complexidade não entra sequer na equação: é apenas um acidente. Em alguns casos, maior complexidade poderá tornar mais eficientes as respostas de um organismo ao seu meio ambiente; noutros, isso poderá não acontecer. Quando acontece, do menos vem o mais. E até parece magia.

A nossa complexidade emocional, psicológica e cognitiva pode assim ser explicada de um modo profícuo e iluminante: emergiu das respostas eficientes dos organismos nossos antepassados ao seu meio ambiente. Não precisamos de uma divindade a dar-nos uma alma imortal. Pode ser que tenhamos tal coisa e que uma divindade no-la tenha dado. Apenas não precisamos dessa hipótese para explicar de onde viemos, quem somos e para onde vamos. Viemos de organismos menos complexos do que nós, somos organismos muitíssimo complexos e, como todos os outros organismos, tendemos para a extinção — que só poderá ser atrasada por alguns séculos ou milénios se recorrermos, ironia das ironias, não às religiões, mas à ciência e à tecnologia.

O que a ciência nos permite saber de nós mesmos é fascinante. Mostra, efectivamente, a nossa profunda ligação não apenas aos outros organismos do nosso planeta, mas ao nosso próprio planeta e ao universo no seu todo. Os átomos de que somos compostos tiveram origem nas mesmas fornalhas cósmicas que estão na origem do Sol. É esta irmandade fundamental com o restante universo que a ciência nos mostra. É por isso que, num certo sentido, a ciência é a religião mais genuína: se entendermos a religião no sentido do étimo da palavra, a função da religião é religar-nos a uma realidade mais fundamental, para lá das aparências enganadoras. Mas isso é precisamente o que faz a ciência. E a biologia evolucionista, de que Darwin é um dos fundadores, ensina-nos que essa ligação fundamental não ocorre apenas no que respeita aos nossos átomos, mas também no que respeita às características biológicas que mais valorizamos: os nossos afectos e emoções, a nossa inteligência complexa e sentido moral. É por isso que quem menciona as três Grandes Questões Fundamentais ao mesmo tempo que despreza, desconhece e não procura a ciência, está a simular um interesse nessas questões que realmente não tem.

Saímos nós diminuídos ou humilhados do conhecimento de nós mesmos que nos dá a ciência? Dificilmente. Por um lado, porque qualquer ser deste imenso universo que desenvolva a complexidade suficiente para poder descobrir a imensidão do universo em que habita é, só por isso, notável. Pó de estrelas a calcular cuidadosamente quantas galáxias há no universo é uma imagem que não parece humilhante; bem pelo contrário. Filhos de deuses omnipotentes e sumamente sábios a fazer tal cálculo é que parece humilhante, pois tais deuses sabem disso sem precisar de quaisquer cálculos, supostamente — apenas as suas criaturas, diminuídas, têm de recorrer a tão prosaicos métodos, um pouco como uma criança tem de fazer contas num papel, concentradamente, para saber quanto é 16 mais 3.

Por outro lado, o suposto estatuto “superior” dos seres humanos (note-se como os termos para hierarquias sociais estão associadas a quem, numa árvore, está mais acima ou mais abaixo), relativamente aos restantes organismos, é conseguido, nas religiões, à custa do estatuto imensamente inferior dos seres humanos perante os deuses. Ora, se abandonarmos os termos sociais inadequados — “inferior,” “superior” — as diferenças objectivas entre nós e os outros animais persistem: de todos os animais do nosso planeta, só nós sabemos sequer que existimos num planeta. A nossa complexidade cognitiva, psicológica e emocional, assim como o nosso sentido moral, não ficam diminuídos pelo facto de terem uma origem biológica modesta. Afinal, os mais poderosos dirigentes religiosos ou políticos humanos tiveram origem em bebés indefesos e ignorantes, que usavam fraldas e só com muita dificuldade aprenderam a andar, e nem por isso perdem a sua dignidade. Do mesmo modo, as nossas origens biológicas modestas em nada nos diminuem.

Concluo com as palavras do poeta António Gedeão, que se aplicam na verdade a qualquer cientista: “Eu queria agradecer-te, Galileo, / a inteligência das coisas que me deste.” Todos nós, organismos biológicos inteligentes e em busca permanente da inteligência mais profunda das coisas, devemos este agradecimento a Darwin. Este cientista, e outros como ele, honram a nossa espécie biológica — e honrariam qualquer ser de qualquer galáxia — porque nos revelam a verdade e nos religam com o universo, como nenhuma religião humana o fez.

Fonte: http://criticanarede.com

Resumo do “Discurso sobre o Método” de René Descartes


Por: André Luiz Avelino

Graduando em Filosofia – FFLCH – USP

Da necessidade de um método

A razão é igual em todos os homens, a diversidade de nossas opiniões não decorre de uns serem mais capazes de conhecerem a verdade do que outros, mas de conduzirem bem seus raciocínios, ao passo que outros os conduzem mal.

Consideração sobre as ciências

Ao terminar seus estudos, Descartes se vê repleto de dúvidas. Renuncia a procura da verdade nos livros e viaja para observar o mundo, o livro da vida. Mas, verifica uma grande diversidade e contradições nos costumes dos homens. Por fim, decide procurar a verdade em si mesmo.

Do método matemático à reflexão filosófica

Apenas os matemáticos encontrara algumas demonstrações, razões certas e evidentes, mas não possuíam um verdadeiro emprego a essas demonstrações, além dos utilizados na mecânica. Então, Descartes, corrigindo a lógica, a análise geométrica e a álgebra, uma pela outra, e reduzindo o número de preceitos, chega a um método composto por quatro regras:

1 – Receber escrupulosamente as informações, examinando sua racionalidade, aceitando apenas o indubitável, aquilo que se apresente de forma clara e distinta, o evidente;

2 – Dividir cada um dos problemas em exame em quantas partes forem necessárias (análise);

3 – Ordenar o que foi dividido partindo do mais simples, acrescendo por degraus de complexidade até o mais composto, supondo ordem entre aqueles que não procedam naturalmente uns dos outros (síntese);

4 – Enumerar e revisar de modo geral as conclusões, garantindo que nada seja omitido.

Descartes aplicou o método à geometria, resolvendo problemas, até o momento, insolúveis, então, certo de sua funcionalidade, o aplica a filosofia, que não possuía princípios que fossem certos.

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Coleção Os Pensadores (“Discurso do Método”, “Meditações”, “Objeções e Respostas”, “As Paixões da Alma” e “Cartas”)Clique Aqui

Regras para direção do espirito – Clique Aqui

Entre a loucura e sua história – Descartes e Montaigne na História da Loucura

Introdução

Nosso trabalho tem, como primeiro objetivo, estruturar dois textos de dois autores diferentes (Michel de Montaigne e René Descartes), e esclarecer as idéias ali contidas.

Um segundo objetivo será, identificar as relações entre loucura e razão, verdade e falsidade e possibilidades e limitações do conhecimento humano, nas obras desses dois autores.

E por último, o terceiro objetivo será relacionar os dois autores, encontrando, se possível, pontos de contato e diferenças, através de uma ótica foucaultiana dentro da história da loucura.

Montaigne e a “loucura da razão”

Montaigne começa seu ensaio, intitulado “Da loucura de opinar acerca do verdadeiro e do falso unicamente de acordo com a razão”, relacionando a simplicidade e a ignorância à nossa facilidade em acreditar e em nos deixar persuadir externamente, pois “acreditar é por assim dizer o resultado de uma espécie de impressão sobre a nossa alma, a qual recebe tanto melhor quanto mais tenra e de menor resistência”.[1] Ora, quanto mais vazia é a alma e quanto menos intelecto possuem os indivíduos, diz Montaigne, mais fácil é se deixar levar através da opinião de outrem. Contudo, seria presunção de nossa parte condenar as opiniões inverossímeis, os fenômenos que nossa razão não consegue explicar, etc…, pois isso caracteriza um “defeito comum aos que estimam ser mais dotados de razão que o homem normal”.[2]

A razão, por vezes, nos condiciona a rejeitar de maneira absoluta aquilo que para ela é inverossímil e digna de dúvida, e seria um passo ilegítimo, diz Montaigne, atuar desse modo. “O maior sintoma de loucura no mundo é reduzir essa vontade e essa força à medida de nossa capacidade e de nossa inteligência”.[3]

É apenas através do hábito, que consideramos a veracidade ou a falsidade de alguma coisa. Se nos deparássemos sempre com fenômenos “sobrenaturais”, por exemplo, com fatos que para nós parecem inverossímeis, não os julgaríamos tal como julgamos, e eles perderiam seu signo de “maravilhas”. Montaigne nos exemplifica isso com uma passagem de Lucrécio que diz: “familiarizados com as coisas que cotidianamente vemos , não as admiramos mais e não procuramos entender as causas disso”.[4]

Seguindo o texto de Montaigne, parece-nos que através da nossa crença em alguém digno de confiança, fatos inverossímeis possam ser verdadeiros. Contudo, “se seus testemunhos não bastam para nos convencer, sejamos ao menos prudentes em nosso julgamento, pois considerá-las impossíveis é vangloriar-se de saber até onde vão a possibilidade e a impossibilidade, o que, sem dúvida, é presunção exagerada”.[5] Portanto, acreditar que unicamente nossa razão e nosso intelecto possam nos levar ao verdadeiro e o falso, é acreditar que o crivo da razão é irrefutável e absoluto, o que para Montaigne, é uma loucura. A razão, por si só, não nos conduz simplesmente ao conhecido, mas também nega o desconhecido, o transformando em dúvida e também em falsidade.

Mais uma vez, parece-nos, que para Montaigne, a confiança e a crença em pessoas que possuem autoridade e respeito, não por serem somente  virtuosas e piedosas mas também inteligentes e capacitadas, devem ser levadas em conta, pois, “ainda que não trouxessem nenhum argumento razoável, eles me persuadiriam com a sua autoridade”.[6]

Montaigne, ainda nos lembra, que nosso julgamento já caiu inúmeras vezes em contradição, e o que antes era tido como absolutamente verdadeiro (como artigos de fé, por exemplo), hoje não passam de fábulas, ou seja, o julgamento da razão pode ( e efetivamente é) ser tão falho quanto qualquer outro.

Portanto, fiar-se unicamente na razão, segundo Montaigne, é limitar nossas possibilidades de conhecer, determinando o falso e o verdadeiro, o possível e o impossível de maneira arbitrária e caindo desse modo no erro, ou mais, na ignorância daquilo que nos ultrapassa e não conseguimos capturar e nem compreender.

Descartes e a “insensatez irracional”

Descartes inicia sua primeira meditação, na obra “Meditações”, afirmando que lhe era necessário se livrar de todas as opiniões que  dava crédito e começar a reconstruir desde os fundamentos “se quisesse estabelecer algo de firme e de constante nas ciências”[7], ou seja, no conhecimento humano. Diferente de uma dúvida vulgar, essa dúvida de Descartes consiste em uma decisão, da qual todos os homens dotados de razão podem, e deve ter.

Para tal “reconstrução”, Descartes se baseará unicamente naquilo que   lhe chegará através da razão, “uma vez que a razão já me persuade de que não devo menos cuidadosamente impedir-me de dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e indubitáveis, do que às que nos parecem manifestamente ser falsas, o menor motivo de dúvida que eu nelas encontrar bastará para me levar a rejeitar todas”.[8]

Porém, comparando o conhecimento à um edifício, Descartes não examinará cada dúvida em particular, pois o trabalho seria extremamente dispendioso, e se limitará a examinar os fundamentos, os alicerces desse “edifício científico”, tendo em vista que se os fundamentos não se sustentarem, todo o conhecimento desabará, como se o material utilizado para sustentar a construção fosse de péssima qualidade.

No caminho da dúvida, Descartes, no interior de seu método, desabilitará a confiança nos sentidos como forma de se adquirir um conhecimento verdadeiro e sólido: “Tudo o que recebi, até presentemente, como mais verdadeiro e seguro, aprendi-o dos sentidos ou pelos sentidos : ora, experimentei algumas vezes que esses sentidos eram enganosos, e é de prudencia nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou alguma vez”.[9]

Ora, o argumento do erro dos sentidos, e posteriormente da ilusão dos sonhos, fazem parte do caminho da dúvida, que no final, desembocará nas certezas (em última instância, na certeza da existência do “eu”). Portanto, esse caminho, utilizando o argumento do erro (dos sentidos) e o da ilusão (dos sonhos), nos levará, segundo Descartes, à certeza do cogito e a recuperar a verdade objetiva das coisas, postas em dúvida pela razão.

Contudo, em Descartes, há um desequilíbrio fundamental entre o erro e a ilusão de um lado, e a loucura de outro. A loucura é considerada de um modo totalmente diferente, ela atinge de imediato a verdade objetiva, não das coisas mesmas, mas do próprio eu pensante. Os sentidos podem nos enganar, porém, encontramos muitas coisas das quais não podemos duvidar, embora as conheçamos por intermédio deles, um exemplo é a existência de noso próprio corpo[10].

Os sonhos também podem nos enganar, entretanto, “é preciso ao menos confessar que as coisas que nos são apresentadas durante o sono são como quadros e pinturas, que não podem ser formados senão à semelhança de algo real e verdadeiro; e que assim, pelo menos, essas coisas gerais, a saber, olhos, cabeça, mãos e todo o resto do corpo, não são coisas imaginárias, mas verdadeiras e existentes”[11]. Portanto, sentidos e ilusões não atingem de fato a verdade objetiva, essencial das coisas.

A verdade mais clara e distinta, para Descartes, a primeira que fundamenta todas as outras, é a verdade do cogito, do eu pensante, o “penso, logo existo”. Essa confiança no pensamento, na razão, é indubitável. A dúvida reafirma a existência do eu pensante. Duvidar da verdade do cogito e não confiar inteiramente na razão (claro, utilizando o reto caminho e o método cartesiano) seria loucura descabida. O eu penso possui estatuto ontológico, vem seguido da afirmação da existência da subjetividade, sem a qual não posso conhecer nada, nem a mim mesmo.

Portanto, a linha entre a verdade e a falsidade das coisas, situa-se no escopo da razão e do método, sem o qual a razão não possui direção correta, e a possibilidade (ou impossibilidade) do nosso conhecimento não é limitada pelo pensamento, e sim pelos sentidos e pela falta de direção do espírito. Se pensamos, não podemos ser loucos, mas, se pelo contrário, não pensamos, nem sequer existimos.

Razão cartesiana e desrazão montaigniana em Foucault

No século XVI, a loucura possuía um estatuto diferente, em relação ao século XVII. Um exemplo, é a filosofia de Montaigne, onde o ser louco e o não ser louco não era tido como uma certeza. Não havia a certeza sólida da loucura e da desrazão dos homens, todos poderiam ser e não se ao mesmo tempo, loucos e sensatos. Não existe cisão definitiva. “Entre todas as outras formas de ilusão, a loucura traça um dos caminhos da dúvida dos mais freqüentados pelo século XVI. Nunca se tem certeza de não estar sonhando, nunca existe uma certeza de não ser louco”.[12]

Em Descartes, já no século XVII, essa cisão acontece. “A loucura implica a si própria”, e se exclui da razão. Loucura e razão se negam, pois, se sou louco, não penso e nem existo, e se penso, existo e não sou louco. A loucura não diz respeito à razão, (não mais) e se exclui do caminho da dúvida, que leva ao conhecimento. Mais uma vez, se duvido, não sou louco.

Se com Montaigne, fiar-se unicamente na razão como forma de descobrir a verdade era insensatez, com Descartes ocorre o oposto. É necessário guiar nossos conhecimentos unicamente através do crivo da razão, do pensamento, que determina quem eu sou e, em última instância, se sou realmente.

Com Descartes, então, há uma reviravolta, há uma fronteira explícita onde os racionais e os desarrazoados não possuem contatos, são antagônicos e não fazem parte nem de um e nem de outro simultaneamente, estão fadados a distanciarem-se para nunca mais se encontrar. A condição de possibilidade de um discurso sobre a loucura, portanto, está dada, para na modernidade (metado do séc. XVIII até hoje, para Foucault), e também para a concepção de loucura como doença mental.


[1] MONTAIGNE, M. Ensaios. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Abril Cultural, 1972, p. 93.

[2] Id. Ibidem.

[3] Idem. p. 94.

[4] Id. Ibidem.

[5] Id. Ibidem

[6] Montaigne, citando Cícero. p. 95

[7] Descartes, R. Meditações. Tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Junior. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 92.

[8] Id. Ibidem.

[9] Id. Ibidem.

[10] id. Ibidem. Ver p. 94, o argumento dos sentidos.

[11] id. Ibidem. Ver. p. 94, o argumento dos sonhos.

[12] Foucault, M. História da Loucura. Tradução de José Teixeira Coelho Neto. São Paulo: Perspectiva, 2008. p. 47.