René Guénon – Cap XXI de “O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos”

Texto retirado de http://www.reneguenon.net/GUENONtextos/IRGETGuenonCaimAbel.html

 

 “solidificação” do mundo tem ainda, na ordem humana e social, outras conseqüências de que não falamos até agora: a este respeito, ela cria um estado de coisas no qual tudo está contado, registrado e regulamentado, o que, no fundo, não é mais do que outro gênero de “mecanização”; nada é mais fácil do que constatar por todo o lado, na nossa época, fatos sintomáticos tais como, por exemplo, a mania dos recenseamentos (que se liga, aliás, diretamente à importância atribuída às estatísticas) (1), e igualmente, a multiplicação incessante das intervenções administrativas em todas as circunstâncias da vida, intervenções que devem ter como efeito certamente assegurar uma uniformidade tão completa quanto possível entre os indivíduos, tanto mais que, de certo modo, é “princípio” de qualquer administração moderna tratar esses indivíduos como simples unidades numéricas todas semelhantes entre si, isto é, agir como se, por hipótese, a uniformidade “ideal” estivesse já realizada, obrigando deste modo todos os homens a ajustarem-se, se assim de pode dizer, a uma mesma medida “média”. Por outro lado, esta regulamentação cada vez mais excessiva tem uma conseqüência bastante paradoxal: é que, quanto mais se glorifica a rapidez e a facilidade crescentes da comunicação entre os países mesmo os mais afastados, graças às invenções da indústria moderna, põem-se ao mesmo tempo todos os entraves possíveis à liberdade dessa comunicação, de tal modo que é muitas vezes praticamente impossível passar de um país para outro, ou pelo menos, tornou-se mais difícil do que nos tempos em que não havia nenhum meio mecânico de transporte. É mais um aspecto particular da “solidificação”: num mundo assim, já não há lugar para os povos nômades que até agora têm subsistido em condições diversas, porque cada vez menos encontram espaço livre diante de si. Aliás, todos se esforçam por todos os meios para os levar à vida sedentária (2), de modo que, também sob este aspecto, não parece longe o momento em que “a roda deixará de andar”; além disso, nesta vida sedentária, as cidades, que representam, de certo modo, o último grau da “fixação”, tomam uma preponderância importante e tendem cada vez mais a absorver tudo (3); e é assim que, perto do final do ciclo, Caim acabara realmente por matar Abel. 

                    Com efeito, no simbolismo bíblico, Caim é representado como agricultor e Abel como pastor. São assim tipos das duas espécies de povos que existiram desde as origens da presente humanidade, ou pelo menos, desde que se produziu nela uma primeira diferenciação: os sedentários, ligados à cultura da terra, os nômades, à criação de gado (4). Estas são, é preciso insistir, as ocupações essenciais e primordiais destes dois tipos humanos; o resto é acidental, derivado ou acrescentado, e falar de povos caçadores ou pescadores, por exemplo, como fazem comummente os etnólogos modernos, ou é tomar o acidental pelo essencial, ou referir unicamente casos mais ou menos tardios de anomalia e de degenerescência, como se pode encontrar realmente em certos povos selvagens (e os povos essencialmente comerciantes ou industriais do Ocidente moderno não são, aliás, menos anormais, embora de outro modo) (5). Cada uma destas duas categorias tinha naturalmente a sua lei tradicional própria, diferente da outra, e adaptada ao seu gênero de vida e à natureza das suas ocupações; esta diferença manifestava-se nomeadamente nos ritos sacrificiais, e dai a menção especial que é feita das oferendas vegetais de Caim e das oferendas animais de Abel, no texto do Gênesis (6). Já que fazemos aqui uma referência particular ao simbolismo bíblico, é bom notar já, a este propósito, que a Thora hebraica se liga propriamente ao tipo da lei dos povos nômades: daí a maneira como é apresentada a história de Caim e de Abel, que, do ponto de vista dos povos sedentários, apareceria sob outra luz e seria susceptível de outra interpretação; mas, claro, os aspectos correspondentes a estes dois pontos de vista estão incluídos um e outro no seu sentido profundo, e não são, na realidade, mais do que uma aplicação do duplo sentido dos símbolos, aplicação à qual só fizemos uma alusão parcial a propósito da «solidificação», já que esta questão, como se verá melhor a seguir, está estreitamente ligada ao simbolismo do assassínio de Abel por Caim. Do caráter especial da tradição hebraica vem também a reprovação que se faz a certas artes ou a certos ofícios que estão ligados propriamente aos sedentários, e nomeadamente a tudo o que diz respeito à construção de habitações fixas; pelo menos foi assim até à época em que precisamente Israel deixou de ser nômade, durante alguns séculos, isto é, até ao tempo de David e de Salomão, e sabe-se que, para construir o Templo de Jerusalém, foi preciso chamar operários estrangeiros (7)

                      São naturalmente os povos agricultores que, pelo fato de serem sedentários, acabam, mais cedo ou mais tarde por construir cidades; e, de fato, diz-se que a primeira cidade foi fundada pelo próprio Caim; esta fundação só teve lugar, aliás, muito depois de se terem referido as suas ocupações agrícolas, o que mostra bem que há como que duas fases sucessivas no “sedentarismo”, em que a segunda representa, em relação à primeira, um grau mais acentuado de fixação e de “concentração” espacial. De modo geral, as obras dos povos sedentários são, por assim dizer, obras do tempo; fixados no espaço e num domínio estritamente delimitado, desenvolvem a sua atividade numa continuidade temporal que lhes aparece como indefinida. Pelo contrário, os povos nômades e pastores não edificam nada que perdure, e não trabalham com vista a um futuro que lhes escapa; mas vão adiante de si próprios no espaço, que não lhes opõe nenhuma limitação, mas, pelo contrário, lhes abre constantemente novas possibilidades. Encontra-se assim a correspondência dos princípios cósmicos aos quais se liga, numa outra ordem, o simbolismo de Caim e de Abel: o princípio da compressão, representado pelo tempo e o princípio da expansão, pelo espaço (8). A bem dizer, ambos estes princípios se manifestam simultaneamente no tempo e no espaço, como em todas as coisas, e é necessário anotar isto para evitar identificações ou assimilações demasiado “simplificadas”, bem como para resolver por vezes certas oposições aparentes; mas não é menos certo que a ação do primeiro predomina na condição temporal, e a do segundo na condição espacial. Ora o tempo gasta o espaço, se assim se pode dizer, afirmando desse modo o seu papel de «devorador»; igualmente, ao longo dos tempos, os sedentários absorvem pouco a pouco os nômades: é esse, como dizíamos mais atrás, o sentido social e histórico do assassínio de Abel por Caim. 

                    A atividade dos nômades exerce-se especialmente no reino animal, móvel como eles; a dos sedentários, pelo contrário, tem como objeto direto os dois reinos fixos, o vegetal e o mineral (9). Por outro lado, pela força das coisas, os sedentários chegam a constituir símbolos visuais, imagens feitas de diversas substâncias, mas que, do ponto de vista do significado essencial, se reduzem sempre mais ou menos diretamente ao esquematismo geométrico, origem e base de todas as formações espaciais. Os nômades, pelo contrário, para quem as imagens estão proibidas como tudo o que tenda a fixá-los num determinado lugar, têm símbolos sonoros, os únicos compatíveis com o seu estado de contínua migração(10). Mas há uma coisa notável que é o fato de, entre as faculdades sensíveis, a vista estar em ligação direta com o espaço, e o ouvido, com o tempo: os elementos do símbolo visual exprimem-se em simultaneidade, os do símbolo sonoro, em sucessão; opera-se, pois, nesta ordem uma espécie de inversão das relações que vimos atrás, inversão que é, aliás, necessária para estabelecer um certo equilíbrio entre os dois princípios contrários de que falamos, e para manter as suas ações respectivas nos limites compatíveis com a existência humana normal. Assim, os sedentários criam as artes plásticas (arquitetura, escultura, pintura), isto é, as artes das formas que se desenvolvem no espaço; os nômades criam as artes fonéticas (música, poesia), isto é, as artes das formas que se desenvolvem no tempo; porque, digamo-lo de novo, qualquer arte é, na sua origem, simbólica e ritual, e só por uma degenerescência ulterior, muito recente, aliás, é que perde esse caráter sagrado para se tornar finalmente o “jogo” puramente profano, ao qual está reduzida entre os nossos contemporâneos (11)

                    Eis onde se manifesta o complementarismo das condições de existência: os que trabalham para o tempo estão estabilizados no espaço; os que erram no espaço, modificam-se sem cessar com o tempo. E vejamos onde aparece a antinomia do “sentido inverso”: aqueles que vivem segundo o tempo, elemento mutável e destruidor, fixam-se e conservam-se; aqueles que vivem segundo o espaço, elemento fixo e permanente, dispersam-se e mudam-se sem cessar. É preciso que seja assim para que a existência de uns e de outros se torne possível, pelo equilíbrio, pelo menos relativo, que se estabelece entre os termos representativos das duas tendências contrárias; se só uma ou outra destas duas tendências compressiva e expansiva estivesse em ação, o fim viria rapidamente, quer por “cristalização”, quer por “volatilização”, se nos é permitido empregar a este respeito as expressões simbólicas que devem evocar a “coagulação” e a “solução” alquímicas, e que correspondem, aliás, efetivamente, no mundo atual, a duas fases de que ainda iremos elucidar mais à frente o respectivo significado (12). Com efeito, é este um domínio onde se afirmam com particular nitidez todas as conseqüências das dualidades cósmicas, imagens ou reflexos mais ou menos longínquos da primeira dualidade, a mesma da essência e da substância, do Céu e da Terra, de Purusha e de Prakriti, que gera e rege toda a manifestação. 

                   Mas, voltando ao simbolismo bíblico, o sacrifício animal é fatal a Abel (13), e a oferenda vegetal de Caim não é aceito (14); aquele que é abençoado, morre, aquele que vive é amaldiçoado. Rompe-se o equilíbrio, de uma parte e de outra; como restabelecê-lo senão através de trocas, de tal modo que cada uma tenha a sua parte das produções da outra? É assim que o movimento associa o tempo e o espaço, e de certo modo, é a resultante da sua combinação e concilia neles as duas tendências opostas de que falamos atrás (15); o movimento não é em si próprio mais do que uma série de desequilíbrios, mas a soma destes constitui o equilíbrio relativo compatível com a lei da manifestação ou do “devir”, isto é, com a própria existência contingente. Qualquer troca entre os seres submetidos às condições temporal e espacial é um movimento, em suma, ou antes, um conjunto de dois movimentos inversos e recíprocos, que se harmonizam e se compensam um ao outro; aqui, o equilíbrio realiza-se, pois, diretamente pelo fato mesmo desta compensação (16). O movimento alternativo das trocas pode, aliás, exercer-se nos três domínios espiritual (ou intelectual puro), psíquico e corporal, em correspondência com os “três mundos”: troca dos princípios, dos símbolos e das oferendas, tal é, na verdadeira história tradicional da humanidade terrestre, a tripla base sobre a qual assenta o mistério dos pactos, das alianças e das bênçãos, isto é, no fundo, a própria repartição das “influências espirituais” em ação no nosso mundo; mas não podemos insistir mais nestas últimas considerações, que se ligam evidentemente a um estado normal do qual estamos muito afastados sob todos os aspectos, e dos quais o mundo moderno não é mais do que negação pura e simples (17)

                                                                                  * * * 

Notas: 

1. Muito haveria a dizer sobre as proibições formuladas em certas tradições contra os recenseamentos, salvo em alguns casos excepcionais; se disséssemos que estas operações e todas aquelas daquilo a que chamamos o «estado civil» têm, entre outros inconvenientes, o de contribuir para encurtar a duração da vida humana (o que, aliás, está conforme com a própria marcha do ciclo, sobretudo nos últimos períodos), ninguém acreditaria; e, no entanto, em certos países, os camponeses mais ignorantes sabem bastante bem, como fato de experiência corrente, que se se contarem muitas vezes os animais, morrem muitos mais do que se não o fizerem. É claro, evidentemente, que aos olhos dos modernos que se dizem «esclarecidos», isto não passa de uma «superstição»! 

2. Citemos, como exemplos particularmente significativos, os projetos «sionistas», no que diz respeito aos Judeus e também as tentativas recentes para fixar os Ciganos em certas regiões da Europa ocidental. 

3.  É preciso lembrar a este respeito que a própria «Jerusalém celeste» é simbolicamente uma «cidade», 
o que mostra, mais uma vez, como dizíamos atrás, que se pode verificar um duplo sentido da «solidificação». 

4. Poderíamos acrescentar que, sendo Caim designado como mais velho, a agricultura parece que teve 
uma certa anterioridade, e, de fato, o próprio Adão, antes da «queda», é representado como tendo a  função de «cultivar o jardim», o que, aliás, não se refere propriamente à predominância do simbolismo vegetal na figuração do início do ciclo (daí uma «agricultura» simbólica e até iniciática, a mesma que, entre os Latinos, se dizia que Saturno tinha ensinado aos homens da «idade de ouro»); mas, seja como for, só temos que ter em conta aqui o estado simbolizado pela oposição (que é ao mesmo tempo um complementarismo) de Caim e de Abel, isto é, aquele em que a distinção dos povos em agricultores e pastores é já um fato consumado. 

5   As denominações de Iran e de Turan que se quis já atribuir a designações de raças, representam na reali¬dade respectivamente os povos sedentários e os povos nômades; Iran ou Airyana vem da palavra arya (de onde deriva ârya por extensão), que significa «lavrador» (derivado da raiz ar, que se encontra também no latim arare, arator, e também arvum «campo»); e o emprego da palavra ârya como designação honorífica (para as castas superiores) é, por conseguinte, característica da tradição dos povos agricultores. 

6  Sobre a importância muito particular do sacrifício e dos ritos que a eles se ligam, nas diferentes formas tradicionais, ver Frithjof Schuon, Du Sacrifice, na revista Études Traditionnelles, Abril de 1938, e A. K. Coomaraswamy, Atmayajna Self-sacrifice, no Harvard Journal ofAsiatic Studies, Fevereiro de 1942. 

7 A fixação do povo hebreu dependia, essencialmente, aliás, da própria existência do Templo de Jerusalém: assim que este foi destruído, o nomadismo reapareceu sob a forma especial da «dispersão». 

8  Sobre este significado cosmológico devem ver-se especialmente os trabalhos de Fabre d’Olivet. 

9 A utilização dos elementos minerais compreende especialmente a construção e a mineralogia: voltaremos a esta última, cujo simbolismo bíblico a faz remontar a Tubalcaim, isto é, a um descendente de Caim, cujo nome se encontra na formação do seu próprio, o que indica que existe entre eles uma ligação direta particularmente estreita. 

10  A distinção destas duas categorias fundamentais de símbolos é, na tradição hindu, a do yantra, símbolo figurado, e do mantra, símbolo sonoro; ela arrasta naturalmente uma distinção correspondente nos ritos onde estes elementos simbólicos são empregues respectivamente, embora não haja sempre uma separação tão nítida como a que se pode encarar teoricamente, já que todas as combinações em proporções diversas são possíveis aqui. 

11 Seria desnecessário notar que, em todas as considerações expostas aqui, se vê aparecer nitidamente o caráter correlativo, e de certo modo simétrico, das duas condições espacial e temporal, consideradas no seu aspecto qualitativo. 

12 É por isso que o nomadismo, sob o seu aspecto «maléfico» e desviado, exerce facilmente uma ação «dissolvente» sobre tudo aquilo com que entra em contado; por seu lado, o sedentarismo, sob o mesmo aspecto, só pode levar às formas mais grosseiras de um materialismo sem saída. 

13 Como Abel derramou o sangue dos animais, o seu sangue é derramado por Caim; há como que a expressão de uma «lei de compensação», em virtude da qual os desequilíbrios parciais, que é no que consiste fundamentalmente toda a manifestação, se integram no equilíbrio total. 

14 Importa notar que a Bíblia hebraica admite, no entanto, a validade do sacrifício não sangrento considerado em si mesmo: é o caso do sacrifício de Melquitsedec, que consiste na oferenda essencialmente vegetal do pão e do vinho; mas isto liga-se em realidade ao ritual do Soma védico e à perpetuação direta    da «tradição primordial», para além da forma especializada da tradição hebraica e «abraâmica», e até, muito mais longe ainda, para além da distinção da lei dos povos sedentários e da dos povos nômades; há ainda uma reminiscência da associação do simbolismo vegetal com o «Paraíso terrestre», isto é, com o «estado primordial» da nossa humanidade.A aceitação do sacrifício de Abel e a rejeição do de Caim é representada muitas vezes sob uma forma simbólica bastante curiosa; o fumo do primeiro eleva-se verticalmente para o céu, enquanto que o do segundo se espalha horizontalmente à superfície da terra; deste modo traçam respectivamente a altura e a base de um triângulo que representa o domínio da manifestação humana.  

15 Estas duas tendências manifestam-se ainda, aliás, no próprio movimento, sob as formas respectivas  do movimento centrípeto e do movimento centrífugo. 

16  Equilíbrio, harmonia, justiça, não são mais do que três formas ou três aspectos de uma e mesma coisa; aliás, em certo sentido, poder-se-ia fazê-las corresponder respectivamente aos três domínios que mencionamos a seguir, com a condição, claro, de restringir aqui a justiça ao seu sentido mais imediato, cuja simples «honestidade» nas transações comerciais representa, nos modernos, a expressão diminuída e degenerada pela redução de todas as coisas ao ponto de vista profano e à estreita banalidade da «vida vulgar».

17 A intervenção da autoridade espiritual no que diz respeito à moeda, nas civilizações tradicionais, liga-se imediatamente àquilo que acabamos de dizer; com efeito, a moeda em si é de certo modo a própria representação da troca, e podemos compreender por esse fato, de modo mais preciso, qual era o papel efetivo dos símbolos que trazia gravados e que circulavam com ela, dando a essa troca um significado completamente diferente da simples «materialidade», que é tudo o que resta nas condições profanas que regem, no mundo moderno, as relações dos povos bem como as dos indivíduos.

UMA REFLEXÃO A PARTIR DO TEXTO “UM TROTE NO ESTILO SOKAL POR UM FILÓSOFO ANTIRELIGIOSO”.

Por: Carlos Eduardo Bernardo.

“Quem procurar sinais da presença de uma divindade irônica mexendo seus pauzinhos por trás do enorme jogo do mundo, não encontrará nenhum indício disto no gigantesco ponto de interrogação que se chama cristianismo. Veremos que a humanidade se ajoelha diante da antítese daquilo que no início era o sentido e a lei do Evangelho, que no conceito de ‘igreja’ santificou-se justamente o que o ‘mensageiro feliz’ considerava inferior e ultrapassado em relação a esse conceito; porém, procuraremos em vão uma forma maior de ironia da história mundial”.

(Friedrich W. Nietzsche, O Anticristo, 36.)

Introdução.

Diego Azizi, meu amigo, e, articulista deste blog, traduziu o artigo de Jerry A. Coyne[1], Um trote no estilo Sokal por um filósofo antireligioso [sic]. O artigo nos apresenta a faceta do Dr. Maarten Boudry, filósofo antirreligioso. O Dr. Boudry remeteu um “pós-moderno e teologicamente sofisticado […]” resumo para duas conferências de teologia, porém era um resumo “falso”, um texto no estilo Sokal.

Um texto no estilo Sokal é uma fraude acadêmica, um texto verborrágico e prolixo, mas sem sentido algum, propositalmente escrito com grande poder de sedução devido o excesso de palavras difíceis e citações aparentemente eruditas, cujo propósito é testar o rigor acadêmico e a legitimidade de instituições que se pretendem bastiões de cultura acadêmica sobre determinada disciplina[2].

Dadas características desse tipo de escrito, espera-se que nenhuma instituição acadêmica séria aprove sua publicação, todavia o escrito de

Dr. Maarten Budry

Dr. Maarten Boudry (1984). Pesquisador  e Membro Docente do Depto. de Filosofia da Universidade de Ghent (Bélgica) 

Boudry foi aprovado para as publicações.

Este episódio parece comprovar que não apenas a religião cristã, em suas expressões mais populares, mas também suas expressões mais requintadas, representadas pelo labor teológico – os seminários, as conferências, os periódicos e outros – são indignos de crédito.

A Teologia enquanto instituição cristã pretende ser um conhecimento “científico e racional das coisas divinas”, mas não consegue distinguir entre um conhecimento fundamentado de uma fraude acadêmica, na área mesma em que se pretendem especialistas.

O presente escrito pretende refletir sobre o significado da submissão a instituições de ensino e teológico de textos no estilo Sokal, e, também pretende demonstrar que a eficácia desse tipo de teste é garantida por uma defecção intrínseca à constituição do próprio cristianismo.

O Texto.

Se há realmente uma batalha entre a religião e a antirreligião, em especial entre o cristianismo e o ateísmo, é possível considerar cada argumento, cada referência, cada denúncia, cada gesto de um dos lados, em relação ao outro, como se fosse um “ataque” e a reação do outro como uma “defesa”, ou simplesmente um “contra-ataque”.

Por este ângulo a submissão de textos no estilo Sokal às instituições de divulgação e ensino teológico, aparentemente significa que os ateus e outros antirreligiosos consideram a teologia como a “última forma resistente do cristianismo”.

Desde ao advento da Modernidade (séc. XVI) o cristianismo começou a cindir-se em duas ‘instituições’, a igreja e a teologia.

Nos primórdios o cristianismo tinha na vida cotidiana e no serviço da igreja a formação espiritual e intelectual de seus fiéis, inclusive dos líderes, sendo sua ocupação de ordem prática e não teórica.

Ao longo dos séculos este modelo se manteve relativamente inalterado, apesar de, no período medievo, a educação “teológica” ter sido transferida para os mosteiros, ainda assim manteve-se intramuros da igreja.

O século XVI viu o surgimento dos primeiros seminários teológicos católicos, mas foi principalmente a partir dos meados do século XVIII, sobretudo com o advento do ‘movimento evangélico’ e o “boom” do racionalismo, que o cristianismo tomou de empréstimo os modelos seculares de formação, a universidade[3]. Estes modelos sobrepostos aos moldes do ensino teológico protestante de algumas universidades “misturaram- se” à mística da ‘religião do coração’, ensejando o ensino de uma teologia evangélica, biblicista e fundamentalista.

Esta teologia também tomou do racionalismo as categorias discursivas com objetivo de defender a fé e formar líderes competentes para a igreja.

Este é basicamente o momento histórico em que o cristianismo cindiu-se em duas ‘instituições’ diferentes: a igreja e a teologia.  A primeira seria o bastião da fé e a segunda o bastião da intelectualidade cristã.

A teologia se hipostasiou em face da igreja, assim como, o cristianismo, séculos antes, hipostasiara-se em face das comunidades dos fiéis, o que era

uma vida de simples testemunho da fé em Cristo Jesus, foi substituída gradativamente pelo assentimento intelectual num determinado conjunto de doutrinas, alicerçadas numa leitura muito questionável da Bíblia.  De igual modo o testemunho “itinerante” dos fiéis o mundo antigo, nas primeiras comunidades, fora gradativamente absorvido pela imposição de adesão a igreja como estrutura monolítico-centralizada.

Sobretudo a partir do século XIX e em parte do século XX, muitos jovens considerados fervorosos e fiéis na fé, perdiam-se ou sentiam-se fortemente abalados em suas convicções ao ingressarem nos seminários, advoga-se que isso se dava por causa da exigência do uso rigoroso da razão no exercício de análise do conteúdo da fé[4].

Porém, a divisão à qual nos referimos não trouxe benefícios aos cristãos, foi sim malévola, pois enfraqueceu suas fileiras de modo indelével.

Houve um “confinamento” da fé nas congregações, de modo que pessoas mais cultas, sobretudo os não cristãos, começaram a acreditar em um determinado estereotipo: os cristãos nas congregações são pessoas ignorantes, “burras”, estúpidas que se deixam manipular por pastores espertalhões!

Também foi criada a imagem dos teólogos como aqueles que dominam racionalmente a fé, como aqueles que são os únicos habilitados para pastorear a igreja e fazer frente ao secularismo e à crescente onda de incredulidade que “assalta” ao homem moderno.

Em consequência disto o século XX testemunhou muitos conflitos entre os teólogos e os pastores de campo; os primeiros criticavam a fé ingênua e “supersticiosa” da congregação, eles supunham que esta ingenuidade era alimentada por seus pastores, e, os últimos criticavam a atitude acentuadamente teórica dos teólogos, consideravam sua abordagem excessivamente racional, distante da realidade das congregações, além de acusarem os teólogos de se portarem diante dos demais fiéis e líderes com atitude de pretensa superioridade.

O caráter individual de muitos adeptos, suas intenções e seu testemunho não estão em causa. Todavia, analisando com rigor e imparcialidade é difícil negar que a igreja, enquanto congregação, o grupo de fiéis que busca orientar-se quase exclusivamente pela fé, entrou em colapso, e isso devido à sua própria ingenuidade, à superstição sob o título de piedade, mas, sobretudo à corrupção extrema de seus líderes; estes se envolveram no jogo de vaidades e se deixaram dominar pela ambição em conquistar o poder secular.

Esta conjuntura colocou o cristianismo em descrédito diante da sociedade secular e mesmo para muitos fiéis, o que se constata facilmente por meio dos dados de estatísticas acerca da crescente perda de fiéis a cada dia[5]. Muitos ex-adeptos do cristianismo se tornam seus mais ativos opositores, engrossando principalmente as fileiras do ateísmo; a veemência com que negam a fé cristã, estes que outrora a professavam, é proporcionalmente inversa à defesa que dantes dela faziam.

Os teólogos, e, a teologia, representada pelos seminários, aparentemente são a única frente de resistência ainda fortificada contra o secularismo e o ateísmo, ao menos assim tem sido considerado pela igreja, sobretudo em sua corrente denominada ‘evangélica’.

Posto que, a igreja perdeu sua credibilidade e não consegue fazer frente ao

Será  a teologia  o último refúgio do cristianismo?

Será a teologia o último refúgio do cristianismo?

avanço da racionalidade científica e dos ataques do ateísmo “militante”, os teólogos foram reabilitados com o objetivo principal de defender a igreja, supostamente, sobre as mesmas bases científicas e racionais.

Esta atividade teológica, de cunho apologético, tem sido constante principalmente nos Estados Unidos da América (USA), onde o fundamentalismo cristão resiste ao secularismo crescente e às inquirições do ateísmo.

Mas, se pudéssemos provar rigorosamente que as pretensões acadêmicas dos seminários e outras instituições de ensino teológico não se sustentam? Se conseguíssemos demonstrar que todas as verborrágicas obras de teologia, racionalmente justificadas, não passam de quimeras sustentadas apenas pelo envoltório de um bom discurso?  A consequência não seria a desmoralização dos seminários, e, a desarticulação do discurso teológico frente aos nossos contemporâneos?

Aparentemente este é caminho mais eficiente para a derrocada final do cristianismo.

Há tempos livros têm sido escritos e documentários produzidos com o intuito de desmascarar ou refutar teorias acerca da fé ou da religião, tanto por parte de ateus, quanto por parte de religiosos. Há muito, debates públicos entre ateus e teólogos têm sido promovidos com o propósito de “dar a vitória” a um dos lados!

O uso do estilo Sokal parece ser um modo devastador de minar a autoridade das instituições de ensino teológico, pois, seu sucesso indica que apesar de se pretenderem eruditas, não sabem distinguir entre o que seja uma fraude acadêmica e o que seja um escrito sério com fundamentos epistêmicos acerca de assuntos em que deveriam ser exímios especialistas.

A possibilidade de eficácia desta espécie de ataque ao cristianismo tem como fonte a própria natureza desta religião, conforme sua moderna configuração, ou seja, o desvio do cristianismo, enquanto instituição, sua cisão em duas instâncias na tentativa em equiparar-se ao modelo secular, é que possibilita esta investida.

A bifurcação igreja/seminário feriu o principio de unidade do Evangelho, pois dividiu a igreja em uma classe de doutos e outra de símplices[6].

A própria existência de seminários atesta a inépcia da igreja em formar seus membros no Evangelho. A preocupação da igreja jamais deveria ter se demovido da existência em testemunho vivo de Cristo, para a elaboração teórica da fé. Os lideres da igreja nos primórdios se formavam na vivência, no seio das comunidades, eram homens simples, mas envoltos em uma aura de espiritualidade e autenticados pela prática do amor ao próximo, isso de tal modo que impactavam com seu testemunho mesmo aos homens que poderiam ser considerados mais incrédulos.

É possível pensar, de acordo com as características do Evangelho, que o Sokal pode afetar frontalmente a teologia, porque a sua esfera, o seu “lugar” (gr. ho tópos) é a imanência, ela é um exercício teórico marcado pelas contingências históricas[7], assim como os que nela se exercitam. Todavia o Sokal não pode afetar o Evangelho, porque sua essência está na esfera, no “lugar” de transcendência[8]. Dizer isso é assumir que a teologia, bem como a religião, é uma construção humana, e, portanto está marcada pelas contradições que o humano carrega em si enquanto ser de agonia. Mas, esta argumentação é em si mesma uma abordagem teológica, sobre a qual não pretendemos nos debruçar.

Conclusão.

O resultado das articulações políticas de Constantino, no século IV, sofreu dobras e desdobras ao longo dos séculos, marcado por momentos históricos vergonhosos: Cruzadas, a cisão na Reforma, as Guerras da Religião, a Inquisição, o silencio diante das atrocidades do nazismo e a cínica conivência com diversos regimes autoritários e ditatoriais em diversas partes do mundo.  Com este histórico o cristianismo parece ter encontrado o fim de seus recursos.

A Europa, outrora foco disseminador do cristianismo, está tomada por uma onda de incredulidade crescente, e nas Américas as igrejas também sofrem perdas consideráveis.

Se os teólogos conseguiam, de algum modo, salvaguardar as fronteiras da cristandade, sua seriedade teórica, além de ser questionada, está sendo testada e parece não alcançar êxito em seus resultados.

Não é possível terminar este escrito sem retornar, ainda que brevemente, à citação em epígrafe. Dentre os críticos da fé cristã Nietzsche foi o mais agudo e aquele que fez o melhor diagnóstico acerca do cristianismo. Ele pode dizer

Friedrich W. Nietzsche (1844-1900). O mai agudo crítico do cristianismo.

Friedrich W. Nietzsche (1844-1900). O mais agudo crítico do cristianismo.

que no cristianismo “[…] a humanidade se ajoelha diante da antítese daquilo que no início era o sentido e a lei do Evangelho […]”. É visível que ele opõe o Jesus do Evangelho ao cristianismo e o seu Cristo, pois em sua visão, o cristianismo apresenta ao mundo um antievangelho sob o título de Evangelho, além de transformar o ‘mensageiro feliz’ e gracioso no pregador de uma mensagem de ressentimento, que noutra parte, ele, designa pelas expressões “má-nova” e desevangelho[9].

Talvez toda esta situação, a queda do cristianismo, o fim da “civilização cristã”, abra espaço para o Evangelho, para vidas transformadas que não afirmam qualquer superioridade de si, mas se doam em verdade para que todos possam realizar-se em suas possibilidades reais. Talvez, seja necessário o esvaziamento dos templos para que haja o pleroma de Cristo naqueles que realmente a Ele se entregaram e mostram isso na entrega ao outro, na linguagem cristã: na entrega ao próximo.

Da morte de Deus, constatada por Nietzsche, sobe o cheiro pútrido que contamina os ares, e, esse cheiro nada mais é que o próprio cristianismo, suas doutrinas, suas práticas, seus ritos, sua teologia, enfim, tudo o que se constitui em detrimento do Evangelho.

Se as igrejas são túmulos de Deus, suas lapides os seminários são e as teologia o seu epitáfio.

Esperamos que haja realmente “a manhã do terceiro dia”!

Bibliografia.

CLEMENTE DE ALEXANDRIA. Stromata. In: www.earlychristianwritinngs.com/clement.html

LOUREIRO, Maria Amélia Salgado. (Coord.) História das Universidades, São Paulo, Estrela Alfa Editora, S/D.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Anticristo: Maldição do Cristianismo. Rio de Janeiro, Newton Compton Brasil Ltda., 1992.

THIELICK, Helmut. Recomendações Aos Jovens Teólogos e Pastores, São Paulo, Editora SEPAL, 1990.

http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/09/25/a-sokal-style-hoax-by-an-anti-religious-philosopher-2

http://projetophronesis.com/2013/03/26/um-trote-no-estilo-sokal-por-um-filosofo-antireligioso-a-sokal-style-hoax-by-an-anti-religious-philosopher/

http://censo2010.ibge.gov.br/noticias-censo?view=noticia&id=1&idnoticia=2170&t=censo-2010-numero-catolicos-cai-aumenta-evangelicos-espiritas-sem-religiao.

http://en.wikipedia.org/wiki/Alan_Sokal

 

http://skepp.be/nl/levensbeschouwing-evolutie/vrije-universiteit-voor-schut-met-namaakartikel#.Udg9wzuorqF


[2] Sugere-se como leitura introdutória acerca do que seja o trote no estilo Sokal (Sokal hoax) a página da Wikipédia: http://en.wikipedia.org/wiki/Alan_Sokal

[3] Importante lembrar que as Universidades têm origem ligada às transformações pelos quais passaram os ‘ensinos maiores ou gerais’ (lat. studium generale), importantes conjuntos de escolas monásticas e episcopais da Idade Média. Algumas dentre as mais importantes universidades norte-americanas nasceram com objetivo de reavivar a fé cristã, Harvard (1636) e a Princeton (1896), por exemplo, porém secularizaram-se no decorrer dos séculos.

[4] Sugiro a leitura de THIELICK, Helmut. Recomendações Aos Jovens Teólogos e Pastores, São Paulo, Editora SEPAL, 1990, o livro relata este fenômeno e propõe um lenitivo ao problema, uma espécie de código de ética que gerenciasse suas primeiras experiências nos seminários, este escrito, dentre outros, indica quais eram as dimensões do problema.

[5] O quadro no Brasil é relativamente diferente, enquanto análise estatística, o Censo Demográfico 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou um crescimento na população evangélica, que passou de 15% em 2000 para 22,2% em 2010, embora a maioria religiosa no Brasil ainda se declare de fé católica. Todavia, o mesmo Censo registrou um considerável aumento no número daqueles que se declaram sem religião, em 2000 eram quase 12,5 milhões (7,3%), e, em 2010 ultrapassam os 15 milhões (8,0%). Informações adicionais que revelam o perfil daqueles que integram cada uma das fileiras podem ser obtidas em http://censo2010.ibge.gov.br/noticias-censo?view=noticia&id=1&idnoticia=2170&t=censo-2010-numero-catolicos-cai-aumenta-evangelicos-espiritas-sem-religiao.

[6] Não ignoramos que na história da igreja este tipo de classificação não é estranha, Clemente de Alexandria, por exemplo, classificava os cristãos entre dois grupos: o simples fiel e o gnóstico, cristão perfeito (Strom. IV, 21; 130,1), porém, este caso se trata de uma topologia que visa um determinado fim no contexto de uma teoria específica. Já no exemplo do cristianismo contemporâneo, se trata de uma práksis que não se presta a uma justificativa teórica, na realidade é vergonhosamente mascarada sob um discurso de igualdade que não encontra qualquer ressonância na realidade.

[7] O próprio Boundry relativiza a importância de seu hoax, ao admitir que toda disciplina científica é suscetível à uma paródia, ainda que considere a teologia como aquela que é mais suscetível.

Vide: http://skepp.be/nl/levensbeschouwing-evolutie/vrije-universiteit-voor-schut-met-namaakartikel#.Udg9wzuorqF

[8] Embora o Evangelho seja de transcendência, sua virtude é exatamente participar, enquanto logoi de Deus, para os que creem assim, da automanifestação do Divino no plano da imanência.

[9] Vide: Nietzsche, O Anticristo, 39.

Um trote no estilo Sokal por um filósofo antireligioso (A Sokal-style hoax by an anti-religious philosopher)

Por Jerry A. Coyne


Sou um grande fã do Dr. Maarten Boudry, um filósofo belga que é pesquisador-bolsista do departamento de filosofia e ciências morais da Ghent University. Boudry passou muito tempo mostrando que religião e ciência são incompatíveis, atacando a distinção entre “naturalismo metafísico” e “naturalismo metodológico” (uma distinção bastante adorada pelos acomodacionistas), e geralmente humilhando (
pwning*) “teólogos sofisticados™.”

Vocês podem encontrar minhas discussões anteriores sobre o trabalho de Boudry aqui, aqui e aqui, e se vocês estão familiarizados como o escorregadio teólogo Alvin Plantinga, certifiquem-se de ler a nova resenha de Boudry sobre o livro de Plantinga “Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism. A resenha de Boudry está disponibilizada online, começando na p. 21 da the latest newsletter from The International History, Philosophy and Science Working Group.

Mas hoje eu apresentarei algo mais: um verdadeiro trote no estilo Sokal perpetrado por Boudry. Ele me informou ontem que submeteu um falso, pós moderno e teologicamente sofisticado resumo para duas conferências sobre teologia:

A propósito, eu pensei que você pudesse achar isso engraçado. Eu escrevi um resumo fraudulento cheio de baboseira (gibberish) teológica (no estilo Sokal) e o submeti a duas conferências sobre teologia, as duas das quais aceitaram de pronto . O resumo entrou nos processos da conferência de “filosofia reformacional”. Veja Robert A. Maundy (um anagrama de meu nome) na p. 22 do programa”.

Para não dar trabalho para você, leitor, eu reproduzo abaixo, com a permissão de Boudry, o resumo de “Maundy” . Note-se que ele inventou uma faculdade, também, mas a citação de John Haught é real.

Os paradoxos da desordem darwiniana. Acerca de uma reafirmação ontológica da ordem e da transcendência.

Robert A. Maundy, College of the Holy Cross, Reno, Nevada

Na perspectiva darwiniana, a ordem não é imanente à realidade, mas sim um aspecto de auto-afirmação de realidade na medida em que é experimentada por sujeitos situados. Contudo, não é tanto a realidade que é auto-afirmativa, mas a ordem estrutural criativa da realidade que se manifesta para nós. Ser-completo, em oposição ao Ser-um, subscreve o nosso sentido fundamental de localidade e particularidade no universo. A valorização da ordem qua significativa ordem, ao invés da ordem-em-si-mesma, foi completamente objetivada na cosmovisão darwinista. Esse processo de descontextualização e reificação do significado acabaram, em última instância, por conduzir à des-ordem’ ao invés da ‘esta-ordem’(this-order). Como resultado, o materialismo darwinista confronta-nos com a erradicação do significado da experiência fenomenológica da realidade. A teologia negativa, no entanto, sugere a reavaliação da desordem como um pressuposto necessário à ordem, esta sem a qual a ordem não pode ser pensada de uma maneira ordenada. Nesse sentido, des-ordem se dissolve em manifestações de ordem transcendentes ao reino materialista. De fato, ordem se torna somente transparente qua ordem na medida em que está situada em um contexto de caos e ausência de sentido. Essa oposição binária entre ordem e des-ordem, ou entre ordem e aquilo que perturba a ordem, encarna um paradoxo central do pensamento darwinista. Como Whitehead sugere, a realidade não é composta por substâncias materiais desordenadas, mas com eventos ordenados serialmente que são experienciados em um sentido subjetivamente significativo. A questão não é o que estrutura a ordem, mas qual estrutura é imposta na nossa concepção transcendente de ordem. Através do foco estrito sobre o desordenado estado do ser-presentado, ou da “incoerência de uma multiplicidade primordial”, como John Haught bem colocou, materialistas darwinistas perdem o sentido da definitiva ordem no desdobramento do ainda-não-ser. Contrariamente ao que Dawkins afirma, se nós reformularmos nosso senso de “localicidade” da existência dentro de um espaço de contingência radical do destino espiritual, então a ordem absoluta reemerge como uma possibilidade ontológica. O discurso da des-ordem sempre já incorpora um momento criativo que permite a si próprio transcender o contexto no qual encontra a si mesmo, mas também a encontrar conforto e “respostividade” em uma ordem absoluta na qual ambos engendram e retém significado. Criação é a condição de possibilidade do discurso que, por sua vez, evoca-se como apresentando a própria criação. Discurso darwinista é, portanto, somente uma emanação do discurso absoluto da des-ordem, e não o contrário, como materialistas brutos como Dawkins sugerem.

Eu desafio vocês a entenderem o que ele está dizendo, mas claro está que isso apela para aqueles que, mergulhados na Teologia Sofisticada™, adoram muitas palavras difíceis que nada dizem/significam, mas que de alguma forma parecem criticar o materialismo enquanto afirma o divino. Não fará mal também se você humilhar Dawkins algumas vezes.

Isso mostra mais uma vez o apelo da baboseira (gibberish = palavras que nada dizem) religiosa aos crentes educados, e demonstra que organizadores de conferências também não lêem o que publicam, ou lêem e acham que, se o texto é opaco (complicado, difícil) é porque deve ser profundo.


Traduzido livremente e sem muito rigor por Diego Azizi.
Fonte: http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/09/25/a-sokal-style-hoax-by-an-anti-religious-philosopher-2/

*Pwning (de pwned) é um estrangeirismo de gíria da internet usado comumente em comunidades de jogadores. Quer dizer que uma pessoa foi humilhada por outra pessoa, ou por um grupo. É uma variação de owned, porém mais ofensiva.

Obra Completa de René Guenon em espanhol

René Guenon, assim como Mircea Eliade, é um pensador obrigatório para quem busca estudar os aspectos do sagrado, as raízes das grandes religiões, seus significados simbólicos e seus erros hermenêuticos. Com um conhecimento não só teórico mas também prático (Guenon realmente vivia nas religiões que estudava, conhecendo de dentro), o pensador francês nos proporcionou um vasto estudo sobre o islamismo, os ritos e símbolos vedas, as diversas correntes do cristianismo, dentre muitas outras. Uma fonte inesgotável sobre conhecimentos tradicionais, Guenon merece ser lido.

Link: https://sites.google.com/site/textostradicionales/ren-gunon-abdel-wahid-yahia

Espiritualidade

Francis Bacon (1561-1626) escreveu uma pequena obra, intitulada De Sapientia Veterum, “A Sabedoria dos Antigos”[1], onde pretende demonstrar que os mitos antigos eram alegorias de aspectos atinentes à ordem civil, moral e filosófica!  Entre os mitos conhecidos de , Perseu, Dédalo e outros, encontramos aquele que narra a história de Erictônio que o filósofo relaciona com a atitude de Impostura. Seguindo o exemplo de Bacon, gostaríamos de usar desta narrativa para refletir sobre a  espiritualidade, assunto, não pouco, suscetível à impostoras.

Na tradição grega, diz-se que Vulcano ardendo de desejo tentou possuir Minerva, à força; seu objetivo fora malogrado, no entanto, sua semente derramou-se no chão de forma que lhe nasceu Erictônio. Este da cintura para cima era belo e formoso, porém suas coxas e pernas eram disformes – finas e sem consistência – de tal modo que não podia suster-se em pé!

Herdeiro do talento de Vulcano e vaidoso como só, fez um carro com o qual podia locomover-se escondendo a parte feia do corpo e simultaneamente mostrando a bonita!  Erictônio era um impostor, as pessoas encantavam-se por seu busto e por seu rosto, porém desconheciam sua deformidade escondida por seu belo carro!

Hoje muitos grupos e personalidades usando técnicas arrojadas de marketing, os recursos tecnológicos da mídia eletrônica e da indústria do entretenimento, nos encantam, porém escondem sua deformidade, sua fealdade. Fealdade esta que consiste na falsificação da espiritualidade, no incentivo de atitudes egóticas por parte de seus adeptos e líderes, que vivem em total contradição com a mensagem das tradições espirituais da humanidade. Estes apontam para terra, almejam apenas os “valores” deste século – dinheiro, poder, fama… – e ignoram valores transcendentes, não suscetíveis a efemeridade deste mundo! Pregam uma mensagem de total conformidade com os anseios desta geração “fast food”, prometem aprimoramento espiritual rápido e garantido, principalmente àqueles que podem pagar bem e manter o alto padrão de vida destes novos gurus!

A iluminação – libertação, ou mesmo salvação – apregoada por eles está confinada ao seu grupo particular, que transmite a seus adeptos a crença que podem alcançá-la através de onerosas sessões programadas especificamente para esse fim!

Logo, na presente era, as pessoas têm crido nas afirmações mais estapafúrdias no que tange a espiritualidade. Muitos se aproveitam da incapacidade com a qual os homens e mulheres do século XXI lidam com esse assunto e conseguem vender sua mensagem usando slogans e rótulos, com os quais querem nos convencer que integram a corrente de transmissão das tradições espirituais ou que delas são remanescentes; quando na verdade, sua mensagem nada tem em comum com essas tradições – a não ser uma ou outra afirmação, temperada a gosto de seus proponentes – o que indica que estes usam de má-fé para com a boa-fé das pessoas!

Mundo caótico, do ponto de vista da espiritualidade, mundo de evangélicos que não valorizam o Evangelho, espíritas que não cultivam as ciências do espírito, ortodoxos que não andam no caminho da retidão, católicos que desconhecem o significado do universalismo[2] cristão, protestantes que já não protestam contra a situação de conformismo e esotéricos que publicam seus “segredos’ e os vendem em livrarias como best-sellers.

Este é um mundo de respostas fáceis,  o mundo em que temos vivido, onde todos se julgam aptos à discorrer sobre qualquer assunto, e, aquele que mais discorre é tido por  mais destacado entre seus pares, porém, suas palavras não passam de opiniões – doxa – cuja profundidade não ultrapassa a de uma poça d’água.

Alguns diriam que isto é um mal que atinge a plebe, as massas, e que homens letrados não se curvam a superstições e não se apegam a futilidades, e, que com o aumento crescente dos níveis de formação escolar e acadêmica, em breve,  estas balelas serão erradicadas.

Belo discurso positivista, porém tão marcado pela ingenuidade, quanto ingênuos são os que nele acreditam, pois, infelizmente não podemos dizer que este seja um mal, de uma classe inculta e desinformada. Antes, suas raízes se encontram no próprio seio  do academicismo, que após aproximadamente dois séculos de doutrinação, conseguiu lançar-nos num lodaçal de secularismo e incapacidade de considerarmos seriamente a possibilidade de uma realidade ou valores transcendentes que se correlacionem com a imanência de nosso viver, de modo,  contribuir para o pleroma de nossa existência.

O Dr. Walter Martin, certa vez, compartilhou que todos os anos a Associação dos Bancos dos Estados Unidos leva centenas de funcionários a Washington para um treinamento onde aprenderão a identificar dinheiro falso. Esse treinamento tem uma duração de quinze dias, mas, sua peculiaridade está em que durante esse período os “caixas” não manuseiam nem uma vez, cédulas falsas, apenas verdadeiras. Por que?

Porque a Associação… acredita que se os funcionários dos bancos estiverem bem familiarizados com as cédulas verdadeiras, reconhecerão facilmente, quando durante seu expediente de trabalho tiverem qualquer contato com cédulas falsas!

Este expediente ilustra, de modo simples,  porém eficiente, como a experiência de formação de um indivíduo pode se constituir no fator decisivo para sua formação, enquanto ser humano,  e enquanto pessoa, o que implica viver na profundidade de seu ser muito mais  como uma totalidade, do que como uma fração, muito mais como  um ser independente, do que como um escravo.

Porém, frente a isso, uma pergunta  se nos impõe: se nossos mestres não nos ensinaram nada sobre a verdadeira espiritualidade, e, nem ao menos a considerar sua existência ou  possibilidade,  quando a falsa, se nos apresentar, como a  distinguiremos?


[1] Cf. Francis Bacon. A Sabedoria dos Antigos, São Paulo, UNESP, 2002.

[2] A expressão Ciências do Espírito, pode ser entendida como aquela que trata dos  elementos constitutivos da Cultura, portanto, criações do espírito humana (ex. Crítica Literária, Pintura e etc.), ou como aquelas ciências que, em conjunto, estudam fenômenos mentais atinentes apenas a seres dotados de consciência (ex. Psiquiatria, Fenomenologia e etc.).  Lembremos que a palavra ortodoxia carrega consigo o sentido de caminho correto e católico o significado de universal.

O significado cósmico da habitação humana.

Riad - Figura do Jardim Primordial

Nas grandes tradições religiosas Deus e o universo são tidos como o macrocosmo e o homem como o microcosmo, este carrega em si de modo análogo as mesmas particularidades existentes no macrocosmo. Essa correspondência possibilita estabelecer analogias úteis para o nosso aprimoramento espiritual. As grandes tradições do Espírito sempre consideraram que a analogia entre o macrocosmo e o microcosmo também pode ser aplicada a templos e a todo tipo de edifício construído com objetivos sagrados (quer trate-se de mesquitas, sinagogas, stûpas ou catedrais cristãs)!
Porém, cremos como alguns eruditos (e neste caso pensamos em Guénon ), que as habitações humanas também podem ser objetos dessa analogia. Pois, há uma transposição do templo (neste caso como macrocosmo) para a residência (como microcosmo), sempre guardando as devidas proporções. Isso mostra a sacralidade do lar e qual seja a dinâmica espiritual do homem em sua habitação que deve tornar-se um ritual doméstico de exaltação ao Altíssimo. A própria palavra habitar (em latim habitare) deriva da palavra hábito (em latim habitus), um hábito é algo que fazemos de modo regular e com uma certa constância, de modo a tornar-se uma inclinação, no latim habitare se liga etimologicamente a habere (ter), logo é algo que temos devido à interiorização, daí a relação com ritual, aquilo que se compõe de determinados, gestos, atos e palavras que têm um significado místico, transcendendo a mera forma. Isso significa que a habitação, o lar tem um significado mais que meramente utilitário, a habitação humana é também um microcosmo refletindo o macrocosmo. Essa característica foi mantida nas sociedades tradicionais, o modelo islâmico é muito significativo neste ponto, suas residências possuem os pisos (ou as bases) quadrados ou retangulares (quadrado duplicado) e os tetos abobadados. Nas tradições espirituais o quadrado simboliza a terra e o círculo o céu (no caso, o domo é um semicírculo e símbolo da abóbada celeste). As residências tradicionais são construídas de modo quadrilátero, ao redor de um pátio interior, assim sobre este se constitui um vão livre, um espaço onde o domo é substituído pela real abóbada celeste, afirmando ainda mais o seu caráter simbólico, neste ponto se encontra também um jardim com uma fonte, simbolizando o “Jardim Primordial”, o paraíso onde viveram nossos primeiros pais, a fonte não é outra, senão a fonte da vida, e embora a árvore nem sempre esteja presente, a fonte também faz vezes à “Árvore da Vida”, bem no centro do jardim. Porque, isso indica o local onde podemos nos encontrar com Deus, no centro, a árvore é um símbolo axial, bem como a fonte, o fato de elas estarem no centro e serem atraídas para cima pela lei natural, as caracterizam como colunas ou pontos de ligação entre “reino celeste” e o “reino terrestre”, entre o “em cima” e o “embaixo”, entre Deus e os homens!
Nas residências tradicionais da Índia não há distinção entre sala e cozinha, o fogo é acesso no lugar principal da casa e simboliza a manifestação de Agni (na tradição védica, deus do fogo), da mesma forma os lares tinham suas estátuas próximas ao fogo, ali seria aceso nos corações humanos o desejo pelas coisas celestiais (espirituais) e pelo mundo porvir!
Podemos dizer, enfim que os edifícios eram construídos com significados cósmicos implícitos; e suas estruturas representavam a formação do mundo e (ou) a hierarquia cósmica! Com o evidente declínio do mundo moderno as residências são construídas apenas com fim utilitários. Mas, não totalmente arreligiosos, pois no fundo há uma religiosidade às avessas, onde o consumo é a prática da “fé” e as posses materiais garantias de status social!
Por que será que bem no centro de nossas residências (as salas) estão instalados os televisores, os home theaters e os dvds? Objetos poderosos não apenas para o entretenimento, mas também para a formação de nossas opiniões, de nossos valores e principalmente de nossos anseios!

Bibliografia
GUÉNON, René. Os Símbolos da Ciência Sagrada. São Paulo, Editora Pensamento, 1993.
RIFFARD, Pierre A. O Esoterismo – O que é esoterismo? Antologia do esoterismo ocidental. São Paulo, Editora Mandarim, 1996.

Uma breve reflexão sobre o nome/função e a simbólica da luz nos mitos pré-cristão e grego; Lúcifer e Prometeu

Blacksmith e Sheaper são sobrenomes comuns na Inglaterra. O primeiro significa ferreiro, o segundo, pastor. Aqui há uma coisa interessante. Estes nomes – ou sobrenomes – são também funções, trabalhos. Assim como os Deuses da mitologia grega que têm nome/função. Por exemplo, Philia, o deus do amor que aglomera as coisas ou Neikos, a divindade da discórdia que as afasta. Conceitos usados por Empédocles.

A macieira – pelo seu nome/função – dá maçã. Mas, uns pensam, e se a macieira não der maçã, e, sim, der banana? Então como não têm a função de macieira, não a é, mas, sim, bananeira. Assim sendo, no momento em que me pergunto se a macieira der banana, entro em contradição. Pois, A deve ser igual a A (A=A), ou seja, sua função é seu nome, e assim tem de ser de acordo com esta lógica.

Aristóteles dizia que cada coisa só é a si mesma por ter em sua essência sua própria finalidade e a cumprir. Por exemplo, o homem obter a phronesis e a macieira dar maçã.

Porém, é possível expressar ainda melhor esta situação. Pois, invertemos erroneamente a situação.

  • Não é a macieira que dá maçã.
  • Não é homem que obtêm a phronesis.

E sim,

  • O que dá maçã é macieira.
  • O quem tem phronesis é homem.

Pois, o significado, a essência/finalidade, a sua função vem antes do próprio nome. Até porque em todo o mundo sabemos o que é o objeto mação objeto que dá maçã, ou seja, suas representações, independentemente dos vários nomes das várias línguas que existem.

Carregando tal pressuposto, damos um salto com o intuito de analisar de acordo  com este pensamento um nome, que aqui o pensaremos como nome/função, Lúcifer.

Satan in his Original Glory - William Blake

Todos conhecemos a história da ambição de Lúcifer para com Deus. Em suma, no que nos interessa, Lúcifer tentou infinitamente ser Deus. Brilhar como Deus. E daí o seu nome/função, pois Lúcifer (em hebraicoheilel ben-shahar, הילל בן שחר; em grego na Septuagintaheosphoros) significa o que leva a luz, representa a estrela da manhã (a estrela matutina), a estrela D’Alva, o planeta Vênus, o primeiro a brilhar antes da alvorada.

Numa segunda fase, por tentar tal ‘audácia’ num ponto de vista do senso comum, Lúcifer é expulso dos céus. Também se é tomada a idéia de que  Lúcifer, como o maior dos anjos, não quis se submeter ao ‘homem’, se revolta, assim sendo expulso dos céus e se tornando o nome/função Satã (cuja origem é o hebraico Shai’tan, que significa simplesmente adversário). Mas nenhuma passagem da bíblia diz isso. Vide “Satã, uma biografia de Henry Angar Kelly”.

E em poucas traduções portuguesas aparece aqui a tradução de Figueiredo verte Isaías 14:12: “Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante?” Como mostra o quadro de William Blake “Satã em toda sua glória” e posteriormente em sua queda a Estátua de Lúcifer na catedral Saint-Paul de Liège, na Bélgica.

Mas apresento aqui neste texto um novo ponto de vista, uma vez que tomemos Estátua de Lúcifer na catedral Saint-Paul de Liège, na Bélgicaa Deus não como uma personificação, um ser, mas como um estágio, assim como o estágio de buddha. Ou seja, iluminação, iluminado… Lúcifer.

Phillip K. Dick em seu livro, com apenas tradução para o português de Portugal, chamado ” Transmigração de Timothy Archer” nos mostra uma nova interpretação:

Mas, antes, saibamos que aqui Phillip K. Dick ou seu personagem já toma Lúcifer e Satã como uma mesma entidade. Ou, pelo menos, pormenorizadamente, Lúcifer que “enfrenta” Deus com ousadia ainda pode-se ser chamado de satã (com letra minúscula) uma vez que a palavra é comum e se remete a “adversário”.

” – Vejo a lenda de Satã de uma maneira diferente. Satã desejava conhecer Deus tão completamente quanto possível. O conhecimento mais completo seria atingido se ele se tornasse Deus, fosse ele próprio. Lutou por isso e conseguiu-o, sabendo que a punição seria o exílio permanente da companhia de Deus. Mas, ainda assim, fê-lo, porque a memória do conhecimento de Deus, de o conhecer realmente como mais ninguém o fizera ou tornaria a fazer, justificava a seus olhos a punição eterna. Agora, quem considerariam vocês que amava realmente Deus, mais do que qualquer outro que alguma vez tivesse existido? Satã aceitou de boa vontade o castigo e o exílio eternos apenas para conhecer Deus, tornando-se Deus, durante um instante. Além disso, ocorre-me que Satã conheceu verdadeiramente Deus, mas que talvez Deus não tivesse conhecido ou compreendido completamente Satã; se o tivesse compreendido, não o teria castigado. É por isso que se diz que Satã se rebelou, o que significa que Satã estava fora do controlo de Deus, fora do domínio de Deus, como se estivesse num outro universo. Mas Satã recebeu alegremente o castigo, porque ele era a prova, fornecida a si próprio, de que conhecia e amava a Deus.  De outro modo poderia ter feito o que fez apenas pela recompensa… se a houvesse. << É melhor reinar no Inferno do que servir no Céu>> é, aqui, uma saída, mas não a verdadeira: o que é a meta e a procura do saber e do ser finais: compreender total e realmente a essência de Deus, em comparação com o que tudo o resto é realmente muito pouco.”

No próximo parágrafo, depois de ouvir Timothy Archer, Kirsten, outra personagem, diz:

” – Prometeu – disse Kirsten abstractamente. Estava sentada a fumar de olhar perdido.

Tim disse:

– Prometeu significa <<Criador>>. Ele esteve envolvido na criação do Homem. Ele era também o supremo malabarista entre os deuses. Pandora foi enviada por Zeus para a Terra, como castigo para Prometeu, por ter roubado o fogo e o ter dado ao homem Além disso, Pandora puniu toda a raça humana. Epimeteu casou com ela, ele era a Compreensão Tardia. Prometeu avisou-o para que não casasse com Pandora, uma vez que Prometeu podia prever consequecias. Esse mesmo tipo de conhecimento absoluto do futuro ´ou era considerado pelos Zoroastrianos como sendo um atributo de Deus, a Mente Sábia.

– Uma águia comeu-lhe o fígado – disse Kirsten num tom longínquo.

Assetindo, Tim disse:

– Zeus puniu prometeu acorrentando-o e mandando que uma águia lhe comesse o fígado, que se regenerava continuamente. No entanto, Hércules libertou-o. Sem dúvida que Prometeu era um amigo da Humanidade. Ele era mestre artesão. Há aqui certamente uma afinidade com a lenda de Satã. Conforme o vejo, poder-se-ia dizer que Satã roubou, não o fogo, mas o verdadeiro conhecimento de Deus. No entanto, ele não o deu ao homem, conforme Prometeu fez com o fogo. Talvez o pecado capital de Satã tenha sido o de, ao adquirir esse conhecimento, o guardar para si; não o partilhou com a humanidade. Isto é interessante… por estar linha de racioncínio, poder-se-ia argumentar que pode adquirir-se o conhecimento de Deus por intermédio de Satã. Nunca vi antes ser avançada esta teoria. – Ficou em silêncio, aparentemente a ponderar o assunto. – Eras capaz de escrever isto? – perguntou a Kirsten.

– Eu lembro-me. – O tom dela era distraído e neutro.

– O homem tem de assaltar Satã e tomar-lhe o seu conhecimento. Satã não quer largar. por escondê-lo – e não tanto por tê-lo roubado – é punido. Portanto, e num certo sentido, os seres humanos podem redimir Satã, roubando-lhe à força esse conhecimento.” DICK, Philip K. “A Transmigração de Timothy Archer”. Puclicações Europa-América, Lda. F

Mas aqui avançamos no pensamento de Philip K. Dick/Timothy Archer. Vemos que o Satã que conta Timothy, pela sua função, é mais certo chamá-lo de Lúcifer – ignorarei aqui a discussão de que Satã e Lúcifer poderiam ser ‘pessoas’ diferentes. E nesta história nova vemos que o desejo e o amor de Lúcifer para com o absoluto é infinito, tanto que só ele, através deste amor, consegue iluminar um caminho para isso e tais luzes não são mero jogo de palavras. Pois, só se passa pelo caminho que se vê. Assim como retratado em outro texto sobre luz e iluminação como quando Jesus e Buddha dizem: ‘Eu sou a luz. Eu sou o caminho’. Aqui uma frase leva a outra.

Mas Philip K. Dick/Timothy Archer diz que Lúcifer guardou para si o segredo. Pelo menos o interpreta assim. Mas parece ter lhe faltado a luz para enxergar o caminho por onde seus pensamentos deveriam seguir. Prometeu ‘roubou’ ou alcançou, na m, orada do Deus, o fogo. E o fogo, como sabido  a princípio, aquece e ilumina. E, sabendo disto, vale aqui dizer que Lúcifer só tem este nome por enxergar o caminho através da luz que, no mesmo texto referido acima, ainda diz a ligação que há em tal iluminação com a claridade na mente, como quem diz: ‘agora está claro’. Mas observando que o que se ilumina está dentro de nós, vemos um relação com o místico.

Assim, segundo o Dictionnaire Étymologique de la Langue Grecque, de E. Basaicq, a palavra mystes siginifica “iniciado”, o termo mystikos quer dizer “que concerne aos mistérios” e a palavra mysterion, por sua vez, equivale a “coisa secreta ou cerimônia secreta”. Os termos derivam da raiz grega myo, que significa “fechar-se ou ser fechado”. PEREIRA. I. Aspectos Sagrados do mito e do Lógos: Poesia hesiódica e Filosofia de Empédocles. São Paulo: Educ. 2005.

Ou seja,

As doutrinas místicas são secretas, pois não se trata de crenças abstratas e frias, ou de artigos de um credo que é possível ensinar e explicar mediante processos intelectuais [ou seja, não passíveis da comunicação]… A ‘verdade’ que a mística guarda em si é algo passível de apreensão somente ao ser experimentado (pathein mathein). CORNFORD, F. M. De la Religion. Trad. Antonio Pérez Ramos. 1 ed. Barcelona: Editorial Ariel. 1984. 230.

Então, há uma relação de ambos, Lúcifer e Prometeu, para com a luz e com a chegada ao sagrado. Ainda que Lúcifer e, talvez, Prometeu representem este místico que alcança o conhecimento do Divino e não conseguem passar adiante, pois, como citado acima, ‘é algo passível de apreensão somente ao ser experimentado’, ou seja, Lúcifer não guardou para si o segredo, como diz Philip K. Dick, mas ele não tinha outra opção, não há como transmiti-lo. Havendo assim daí, a possibilidade do nome/função sair, pois, como Platão ainda diz na alegoria da caverna, aquele que alcança a luz e mostra e volta à caverna para mostrar a verdadeira face da luz aos seres da caverna, ele, o homem que saiu da caverna, seria morto por dizer tais coisas e abalar o mundo em que tanto os outros acreditavam. Ele seria, para os seres da escuridão, O Adversário. Porém, ambos foram mal intepretados, até mesmo por Deus. Lúcifer no seu amor com Deus e Prometeu para com a humanidade.

Mas desenvolvo ainda mais, Lúcifer também ajudou a humanidade.  E aqui ainda aparece mais uma similaridade com Prometeu. No Jardim do Éden com Adão e Eva, Satã aparece na aparência de cobra – não vou discutir a relação da deste mito com outros de outros povos, também citados nas ‘Máscaras de Deus’ de Joseph Campbell – e, não dá a maçã à Eva e Adão comerem, mas faz aqui uma coisa muito significativa. Assim como o fogo que, em si, pode não ser usado para nada, mas, para quem sabe usá-lo, pode fundir metais, cozinhar etc. Satã, Prometeu e até como Sócrates no Menão de Platão, não dão uma coisa para se escolher, todavia eles mostram o caminho para a verdade, que é o que eles podem, assim como se entende, no máximo transmitir. Porém, aqui, este salto de que Lúcifer seja Satã e que por sua vez seja a serpente nã consta literalmente na bíblia, vide o livrojá citado “Satã, uma biografia”.

Assim, duas coisas ficam claras, observando Prometeu e Lúcifer ou Satã:

  • No caso de Prometeu, o humanos contra os animais que tinham todas as habilidades, que não eles, os humanos, tiveram o fogo para, com ele, equilibrar a disputa natural podendo através desta alternativa criar possibilidades para a mesma.
  • E, no caso de Lúcifer ou Satã, ele mostrou que, mesmo sob um Deus, é possível fazer coisas que nem Ele tem poder, mesmo no caso de Adão e Eva com o fruto proibido do conhecimento do bem e do mal.

Assim, neste incrível movimento contra o que se acreditava de Deus e para com a humanidade, estes dois mitos nos desvelam, no próprio sentido de aléthea, em suma, duas coisas:

  1. O ser humano, assim como anjos(Lúcifer) e gigantes (Prometeu), têm livre-arbítrio que está acima do poder Divino.
  2. Temos escolhas fora dos contextos.

Mas ficam ainda algumas perguntas como mais uma curiosidade. Haverá Lúcifer ou este possível satã seu próprio Hércules, herói humano (filho de Deus) para libertá-lo? Ou Jesus vendo Satã, o kosmokrator da Terra caindo como um raio, vencendo a Morte, através da ressurreição e se intitulando como a estrela da alvorada ou, ainda, Lúcifer seja este Hércules? Mas isto talvez seja um passo grande demais para a razão e pequeno para a imaginação.