As Antinomias de Kant

Immanuel Kant nasceu na Prússia em 1724. Tinha 46 anos quando foi nomeado  professor titular da Universidade de Königsberg – sua cidade natal –, responsável pela  cátedra de Lógica e Metafísica. Onze anos depois, em 1781, publicou a sua obra mais importante, a Crítica da Razão Pura, que haveria de ter uma segunda edição, consideravelmente revista (e com um novo prefácio), em 1787. O objectivo principal de Kant nesta obra era investigar a possibilidade de a metafísica se constituir como uma verdadeira ciência. Nessa investigação, Kant considerou que o problema central seria o de saber como são possíveis os juízos sintéticos a priori, uma vez que é em tais juízos que o conhecimento metafísico, se for possível, se expressará.
Kant chegou a uma conclusão negativa, segundo a qual a metafísica não é possível, se a entendermos no sentido antigo (“dogmático”) do termo, enquanto conhecimento a priori das coisas em si e do supra-sensível (onde se incluem, nomeadamente, Deus, a liberdade e a imortalidade). Nós só conhecemos as coisas como fenómenos, quer dizer, enquadradas nas formas da intuição e do pensamento, como objectos de uma experiência possível. A ideia de um conhecimento metafísico transcendente, com o qual pudéssemos ultrapassar os limites da nossa experiência, constitui uma ilusão. Trata-se, no entanto, de uma ilusão inevitável, que tem origem na dialéctica natural da razão humana. Como alternativa, Kant propõe uma nova concepção da metafísica, a que também chama “filosofia transcendental”, cuja tarefa consistiria em reunir num sistema coerente todos os conceitos e todos os princípios que constituem condições a priori da
possibilidade da própria experiência.
O conhecimento humano, segundo Kant, requer a colaboração da sensibilidade – faculdade das intuições, através das quais os objectos nos são dados – com o entendimento – faculdade dos conceitos, através dos quais os objectos são pensados. “Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas. Pelo que é tão necessário tornar sensíveis os conceitos (isto é, acrescentar-lhes o objecto na intuição) como tornar compreensíveis as intuições (isto é, submetê-las aos conceitos). […] O entendimento nada pode intuir e os sentidos nada podem pensar. Só pela sua reunião se obtém conhecimento” (Kant 1985: 89). Mas, a rigor, o entendimento não é a única faculdade que opera segundo conceitos, pois isso também é verdade da razão. A distinção kantiana entre entendimento e razão parece ser sobretudo uma distinção entre dois modos de operar com conceitos (ou duas maneiras de pensar): na primeira, aplicando-os aos objectos da experiência; na segunda, formando novos conceitos, aos quais nenhum objecto de qualquer experiência possível corresponde. Homenageando Platão, Kant chama Ideias aos conceitos puros da razão, que diz serem três: a ideia de alma, a ideia do mundo como totalidade e a ideia de Deus. Estas ideias seriam geradas quando tomamos uma certa forma de inferência e tentamos torná-la absoluta, quer dizer, tentamos usá-la para chegar a uma conclusão que não dependeria já de nenhuma premissa. Seria assim, por exemplo, que formamos o conceito puro de “o mundo como um todo” (algo que nunca poderia ser dado numa experiência), a partir da simples forma das inferências causais: das relações causa-efeito entre objectos empíricos passamos à ideia do mundo como totalidade que contém em si todas as causas e todos os efeitos.
Ao pensar sobre o mundo como totalidade, a razão é inevitavelmente conduzida a antinomias. Para Kant, uma antinomia é um par de argumentos cujas conclusões são 2contraditórias (ele chama-lhes “tese” e “antítese”). São quatro as antinomias da razão pura que Kant nos apresenta. O objectivo, em todas elas, é mostrar que a razão é naturalmente levada a contradizer-se a si mesma quando pensa sobre o mundo como um todo.

1ª antinomia:
Tese: «O mundo tem um começo no tempo e é também limitado no espaço.»
Antítese: «O mundo não tem nem começo nem limites no espaço, mas é infinito tanto no tempo como no espaço.»
Uma série infinita é, diz Kant, uma série que nunca se pode completar. Não é possível, então, que já tenha existido uma série infinita de mundos. Este é o argumento a favor da Tese. Por outro lado, a Antítese é obtida pelo seguinte raciocínio: Se o mundo teve um começo, houve um momento do tempo em que ele não existia. Se considerarmos esse “tempo vazio” em que o mundo não existia, todos os seus momentos se equivalem, não há nenhuma diferença entre eles. Por isso, o mundo não pode ter começado num desses momentos, em detrimento dos outros.

2ª antinomia:
Tese: «Toda a substância composta, no mundo, é constituída por partes simples e não existe nada mais que o simples ou o composto pelo simples.»
Antítese: «Nenhuma coisa composta, no mundo, é constituída por partes simples e não existe nada no mundo que seja simples.»
O argumento para estabelecer a Tese tem a forma de uma reductio ad absurdum.
Tomemos um objecto qualquer e suponhamos que ele não é composto por partes
simples. Decomponhamo-lo em partes e, depois, decomponhamos cada uma dessas
partes, e as partes dessas partes, etc. Uma vez que não existem simples, o processo de
decomposição continuará sem fim. Mas isso implica que nada restará desse processo – o
que não é possível, pois o objecto é uma substância. Logo, a suposição é falsa e concluise que o objecto é composto por partes simples.
O argumento da Antítese começa por supor que existe uma parte simples. Essa parte ocupará um certo espaço e este, como todo o espaço, será divisível. Mas então aquela parte simples também será divisível – o que não é possível. Logo, a suposição é falsa e conclui-se que não existem partes simples.
Kant chama “antinomias matemáticas” a estas duas primeiras e considera que, em ambas, tanto a Tese como a Antítese são falsas. O erro que está na base de todos os argumentos apresentados é a ideia de um todo cósmico, à qual nenhum objecto poderia corresponder na experiência.

3ª antinomia:
Tese: «A causalidade segundo as leis da natureza não é a única de onde podem ser derivados os fenómenos do mundo no seu conjunto. Há ainda uma causalidade pela liberdade que é necessário admitir para os explicar.»
Antítese: «Não há liberdade, mas tudo no mundo acontece unicamente em virtude das leis da natureza.» 3
O argumento a favor da Tese é: Suponhamos que a cadeia de causas de um certo acontecimento não tem um primeiro membro. Então, ela será infinita e, por isso, o acontecimento não terá nenhuma causa suficiente – o que é impossível. Logo, a suposição é falsa e conclui-se que há uma primeira causa de cada acontecimento.
O argumento a favor da Antítese é: Suponhamos que a cadeia de causas de um acontecimento tem um primeiro membro. Então, este primeiro membro não foi causalmente determinado por nada. Mas, pela lei da causalidade, sabemos que todo o acontecimento tem uma causa. Logo, a suposição é falsa e conclui-se que nenhuma cadeia causal tem um primeiro membro.

4ª antinomia:
Tese: «Ao mundo pertence qualquer coisa que, seja como sua parte, seja como sua causa, é um ser absolutamente necessário.»
Antítese: «Não há em parte alguma um ser absolutamente necessário, nem no mundo, nem fora do mundo, que seja a sua causa.»
A quarta antinomia diz respeito à existência de um ser necessário. Este ser necessário é considerado como causa do mundo, mas tanto a tese como a antítese contemplam a possibilidade de ele pertencer ao mundo, como sua parte (ou, talvez, de ser idêntico ao próprio mundo). O que está aqui em causa é a relação de dependência em que cada causa contingente está com outras causas que a antecedem: deverá esta dependência terminar numa causa que exista necessariamente? Nas palavras de Kant (1985: 412-4):

“O mundo sensível, como conjunto de todos os fenómenos, contém ao mesmo tempo uma série de mudanças. […] Mas toda a mudança está sujeita a uma condição que a precede no tempo e que a torna necessária. Ora, todo o condicionado que é dado supõe, relativamente à sua existência, uma série completa de condições até ao incondicionado, que é o único que é absolutamente necessário. Portanto, deve existir algo absolutamente necessário, para que uma mudança exista como sua consequência. […] Eis porque no mundo há algo de absolutamente necessário, quer seja a própria série inteira do mundo, quer uma parte dela.”

Este é o argumento em defesa da Tese. Kant fala de “mudanças”, mas é evidente que o que tem em vista é a circunstância em que um objecto depende para existir de outro que o precede. Essa relação de dependência gera uma cadeia de objectos, cujo limite é ou o primeiro membro da cadeia (o qual haveria de ser causalmente independente) ou a própria totalidade da cadeia (“a série inteira do mundo”). Quer num caso quer noutro, esse limite não dependerá ele próprio de nenhuma condição e, por isso, terá uma existência necessária.
Contra isto, o argumento da Antítese diz que, se o limite for a própria série inteira, ele não poderá ser necessário, uma vez que nenhuma parte dele é necessária; e, se for o primeiro membro da série, será um objecto que faz parte do mundo e que, por isso, terá de depender de alguma outra coisa para existir.
Kant adopta uma atitude diferente relativamente às duas últimas antinomias, uma vez que considera que na terceira está em causa a existência de livre arbítrio e que a quarta diz respeito à existência de Deus. A solução que propõe consiste em dizer que, nestas duas antinomias, a tese e a antítese podem ser ambas verdadeiras e que a contradição 4entre elas é apenas aparente, ficando a dever-se a uma desconsideração da distinção entre fenómenos (objectos dados na sensibilidade) e númenos (objectos do pensamento). É apelando para esta distinção, e recuperando num certo sentido a distinção platónica entre mundo sensível e mundo inteligível, que Kant pretende mostrar que a liberdade é compatível com o determinismo. Ele defende que o homem é dotado de uma vontade livre, capaz de auto-determinar-se a agir. As acções que resultam do exercício dessa liberdade são, ao mesmo tempo, efeitos de uma causa inteligível (de um ponto de vista, que é o da vontade enquanto númeno e do homem enquanto ser racional) e parte da cadeia de causas e efeitos sensíveis que obedecem às leis da natureza (de outro ponto de vista, que é o das acções humanas enquanto fenómenos no mundo natural).
Nos Prolegómenos a toda a Metafísica Futura (obra publicada em 1783 com o propósito de dar maior divulgação às ideias apresentadas na mais extensa e difícil Crítica da Razão Pura), Kant expõe assim a maneira como deve resolver-se o conflito da razão consigo mesma que está presente na quarta antinomia: “[…] se se distinguir a causa no fenómeno da causa dos fenómenos, na medida em que ela pode ser concebida como coisa em si, as duas proposições podem bem subsistir uma ao lado da outra, a saber, que não existe causa do mundo sensível (segundo leis similares da causalidade) cuja existência seja absolutamente necessária e que, por outro lado, este mundo está, no entanto, ligado a um ser necessário como sua causa (mas causa de um género diferente e segundo uma outra lei); a incompatibilidade destas duas proposições baseia-se unicamente no mal-entendido em estender o que vale apenas para os fenómenos às coisas em si e, em geral, em misturar estas duas coisas num só conceito” (1982: 136-7).
A Tese desta quarta antinomia, segundo a qual há uma causa do mundo cuja existência é necessária, só teria de ser vista como falsa se a considerássemos do ponto de vista dos fenómenos. Pois em nenhuma experiência nos poderá ser dado observar uma mudança não causada por nada ou um ser cuja existência seja absolutamente independente de todos os outros. Mas se considerarmos esse ser necessário como simples objecto de pensamento, não há nenhuma contradição em supormos a sua existência. Não podemos é pretender, como faz o argumento da Antítese, aplicar-lhe o mesmo princípio da causalidade que aplicamos aos fenómenos.

Bibliografia
Bayne, S. M., 2004, Kant on Causation: On the Fivefold Routes to the Principle of Causation, Albany: State University of New York Press.
Bennett, J., 1974, Kant’s Dialectic, Cambridge: Cambridge University Press.
Guyer, P. (ed.), 2010, The Cambridge Companion to Kant’s Critique of Pure Reason, Cambridge: Cambridge University Press.
Kant, I., 1982, Prolegómenos a toda a Metafísica Futura, tradução de A. Morão, Lisboa: Edições 70.
Kant, I., 1985, Crítica da Razão Pura, tradução de M. P. dos Santos e A. F. Morujão, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
Kemp Smith, N., 1923, Commentary to Kant’s Critique of Pure Reason, 2ª ed., London: Macmillan.
Priest, G., 2002, Beyond the Limits of Thought, Oxford: Clarendon Press.
Wike, V. S., 1982, Kant’s Antinomies of Reason: Their Origin and Resolution,
Washington, D.C.: University Press of America.
Wood, A. W., “The Antinomies of Pure Reason”, in Guyer (ed.) 2010, pp. 245-265.
 2011
Ricardo Santos
Universidade de Évora

Resumo – Aristóteles – Metafísica – Livro I – Cap. I

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Outro resumo da Metafísica e até mais completo no post “O método da Metafísica”

Metafísica – Livro I – Cap. I

Todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer[1].

E a razão é o que melhor nos faz conhecer.

A memória, a capacidade de recordar a experiência, é o que diferencia o homem das abelhas e dos animais, do mais inteligente do menos.

Pois,

Aristóteles discrimina três graus no conhecimento sensível dos irracionais, que com Fonseca se podem designar de: ínfimo, médio e superior. O ínfimo é próprio dos animais que somente vivem a experiência presente; o médio, dos que podem conservar a experiência passada mas não ouvem, e o superior, dos que ouvem, possuem memória e podem ser adestrados.[2]

Mas a espécie humana tem também a arte e o raciocínio.

A arte aparece quando, de um complexo de noções experimentadas, se exprime um único juízo universal dos [casos] semelhantes[3]. Sendo aqui, a memória necessária para tal feito apenas humano.

Mas na prática a experiência então nada parece diferir da arte. “E isto é porque a experiência é conhecimento dos singulares, e a arte, dos universais[4]; e, por outro lado, porque o geral sempre diz respeito ao singular.

Exemplo: Não é o Homem a quem o médico cura, mas a Sócrates que por acaso é homem. Ou seja, cura-se o singular e não o geral, mas através do conhecimento do geral.

Portanto, quem possua a noção sem a experiência, e conheça o universal ignorando o particular nele contido, enganar-se-á muitas vezes no tratamento, porque o objeto da cura é, de preferência, o singular[5].

Os empíricos sabem o “quê”, os outros, os artistas – no sentido de techné -, o “porquê”. E, por isso, que a arte é vista como mais sábia, pois, como numa obra de uma casa, vê a causa do que faz, já os empíricos, não.

Logo, a teoria é o que os diferencia e torna o mestre-de-obras superior. E, uma vez que sabe a teoria, a pode ensinar.

Não julgamos ser a sensação que constitua uma ciência, embora constitua um conhecimento seguro dos singulares.

O motivo que nos leva a discorrer é este: que  a chamada filosofia é por todos concebida como tendo por objeto as causas primeiras e os princípios; de maneira que, como acima se notou, o empírico parece ser mais sábio que o ente que unicamente possui uma sensação qualquer, o homem de arte mais do que os empíricos, o mestre-de-obras mais do que o operário, e as ciências teoréticas mais que as práticas. Que a filosofia seja a ciência de certas causas e de certos princípios é evidente.[6]

Este capítulo tem por fim mostrar que o desejo de sabe é natural; que há graus diversos de conhecimento – sensação, memória, experiência, arte, ciência – e que a  verdadeira ciência é a que resulta do conhecimento teorético, especulativo, não-prático, cujo objeto é o saber das causas ou razão de ser. A ciência deste saber constitui a sabedoria ou filosofia. [7]

Continua no Capítulo II.


[1] ARISTÓTELES. Metafísica. 1973. Editora Abril. São Paulo. P. 211

[2] Idem, nota de rodapé.

[3] Ibidem.

[4] Ibidem., p.212

[5] Ibidem.

[6] Ibidem, p.213.

[7] Ibidem, p.211, nota de rodapé.

Uma breve reflexão sobre o nome/função e a simbólica da luz nos mitos pré-cristão e grego; Lúcifer e Prometeu

Blacksmith e Sheaper são sobrenomes comuns na Inglaterra. O primeiro significa ferreiro, o segundo, pastor. Aqui há uma coisa interessante. Estes nomes – ou sobrenomes – são também funções, trabalhos. Assim como os Deuses da mitologia grega que têm nome/função. Por exemplo, Philia, o deus do amor que aglomera as coisas ou Neikos, a divindade da discórdia que as afasta. Conceitos usados por Empédocles.

A macieira – pelo seu nome/função – dá maçã. Mas, uns pensam, e se a macieira não der maçã, e, sim, der banana? Então como não têm a função de macieira, não a é, mas, sim, bananeira. Assim sendo, no momento em que me pergunto se a macieira der banana, entro em contradição. Pois, A deve ser igual a A (A=A), ou seja, sua função é seu nome, e assim tem de ser de acordo com esta lógica.

Aristóteles dizia que cada coisa só é a si mesma por ter em sua essência sua própria finalidade e a cumprir. Por exemplo, o homem obter a phronesis e a macieira dar maçã.

Porém, é possível expressar ainda melhor esta situação. Pois, invertemos erroneamente a situação.

  • Não é a macieira que dá maçã.
  • Não é homem que obtêm a phronesis.

E sim,

  • O que dá maçã é macieira.
  • O quem tem phronesis é homem.

Pois, o significado, a essência/finalidade, a sua função vem antes do próprio nome. Até porque em todo o mundo sabemos o que é o objeto mação objeto que dá maçã, ou seja, suas representações, independentemente dos vários nomes das várias línguas que existem.

Carregando tal pressuposto, damos um salto com o intuito de analisar de acordo  com este pensamento um nome, que aqui o pensaremos como nome/função, Lúcifer.

Satan in his Original Glory - William Blake

Todos conhecemos a história da ambição de Lúcifer para com Deus. Em suma, no que nos interessa, Lúcifer tentou infinitamente ser Deus. Brilhar como Deus. E daí o seu nome/função, pois Lúcifer (em hebraicoheilel ben-shahar, הילל בן שחר; em grego na Septuagintaheosphoros) significa o que leva a luz, representa a estrela da manhã (a estrela matutina), a estrela D’Alva, o planeta Vênus, o primeiro a brilhar antes da alvorada.

Numa segunda fase, por tentar tal ‘audácia’ num ponto de vista do senso comum, Lúcifer é expulso dos céus. Também se é tomada a idéia de que  Lúcifer, como o maior dos anjos, não quis se submeter ao ‘homem’, se revolta, assim sendo expulso dos céus e se tornando o nome/função Satã (cuja origem é o hebraico Shai’tan, que significa simplesmente adversário). Mas nenhuma passagem da bíblia diz isso. Vide “Satã, uma biografia de Henry Angar Kelly”.

E em poucas traduções portuguesas aparece aqui a tradução de Figueiredo verte Isaías 14:12: “Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante?” Como mostra o quadro de William Blake “Satã em toda sua glória” e posteriormente em sua queda a Estátua de Lúcifer na catedral Saint-Paul de Liège, na Bélgica.

Mas apresento aqui neste texto um novo ponto de vista, uma vez que tomemos Estátua de Lúcifer na catedral Saint-Paul de Liège, na Bélgicaa Deus não como uma personificação, um ser, mas como um estágio, assim como o estágio de buddha. Ou seja, iluminação, iluminado… Lúcifer.

Phillip K. Dick em seu livro, com apenas tradução para o português de Portugal, chamado ” Transmigração de Timothy Archer” nos mostra uma nova interpretação:

Mas, antes, saibamos que aqui Phillip K. Dick ou seu personagem já toma Lúcifer e Satã como uma mesma entidade. Ou, pelo menos, pormenorizadamente, Lúcifer que “enfrenta” Deus com ousadia ainda pode-se ser chamado de satã (com letra minúscula) uma vez que a palavra é comum e se remete a “adversário”.

” – Vejo a lenda de Satã de uma maneira diferente. Satã desejava conhecer Deus tão completamente quanto possível. O conhecimento mais completo seria atingido se ele se tornasse Deus, fosse ele próprio. Lutou por isso e conseguiu-o, sabendo que a punição seria o exílio permanente da companhia de Deus. Mas, ainda assim, fê-lo, porque a memória do conhecimento de Deus, de o conhecer realmente como mais ninguém o fizera ou tornaria a fazer, justificava a seus olhos a punição eterna. Agora, quem considerariam vocês que amava realmente Deus, mais do que qualquer outro que alguma vez tivesse existido? Satã aceitou de boa vontade o castigo e o exílio eternos apenas para conhecer Deus, tornando-se Deus, durante um instante. Além disso, ocorre-me que Satã conheceu verdadeiramente Deus, mas que talvez Deus não tivesse conhecido ou compreendido completamente Satã; se o tivesse compreendido, não o teria castigado. É por isso que se diz que Satã se rebelou, o que significa que Satã estava fora do controlo de Deus, fora do domínio de Deus, como se estivesse num outro universo. Mas Satã recebeu alegremente o castigo, porque ele era a prova, fornecida a si próprio, de que conhecia e amava a Deus.  De outro modo poderia ter feito o que fez apenas pela recompensa… se a houvesse. << É melhor reinar no Inferno do que servir no Céu>> é, aqui, uma saída, mas não a verdadeira: o que é a meta e a procura do saber e do ser finais: compreender total e realmente a essência de Deus, em comparação com o que tudo o resto é realmente muito pouco.”

No próximo parágrafo, depois de ouvir Timothy Archer, Kirsten, outra personagem, diz:

” – Prometeu – disse Kirsten abstractamente. Estava sentada a fumar de olhar perdido.

Tim disse:

– Prometeu significa <<Criador>>. Ele esteve envolvido na criação do Homem. Ele era também o supremo malabarista entre os deuses. Pandora foi enviada por Zeus para a Terra, como castigo para Prometeu, por ter roubado o fogo e o ter dado ao homem Além disso, Pandora puniu toda a raça humana. Epimeteu casou com ela, ele era a Compreensão Tardia. Prometeu avisou-o para que não casasse com Pandora, uma vez que Prometeu podia prever consequecias. Esse mesmo tipo de conhecimento absoluto do futuro ´ou era considerado pelos Zoroastrianos como sendo um atributo de Deus, a Mente Sábia.

– Uma águia comeu-lhe o fígado – disse Kirsten num tom longínquo.

Assetindo, Tim disse:

– Zeus puniu prometeu acorrentando-o e mandando que uma águia lhe comesse o fígado, que se regenerava continuamente. No entanto, Hércules libertou-o. Sem dúvida que Prometeu era um amigo da Humanidade. Ele era mestre artesão. Há aqui certamente uma afinidade com a lenda de Satã. Conforme o vejo, poder-se-ia dizer que Satã roubou, não o fogo, mas o verdadeiro conhecimento de Deus. No entanto, ele não o deu ao homem, conforme Prometeu fez com o fogo. Talvez o pecado capital de Satã tenha sido o de, ao adquirir esse conhecimento, o guardar para si; não o partilhou com a humanidade. Isto é interessante… por estar linha de racioncínio, poder-se-ia argumentar que pode adquirir-se o conhecimento de Deus por intermédio de Satã. Nunca vi antes ser avançada esta teoria. – Ficou em silêncio, aparentemente a ponderar o assunto. – Eras capaz de escrever isto? – perguntou a Kirsten.

– Eu lembro-me. – O tom dela era distraído e neutro.

– O homem tem de assaltar Satã e tomar-lhe o seu conhecimento. Satã não quer largar. por escondê-lo – e não tanto por tê-lo roubado – é punido. Portanto, e num certo sentido, os seres humanos podem redimir Satã, roubando-lhe à força esse conhecimento.” DICK, Philip K. “A Transmigração de Timothy Archer”. Puclicações Europa-América, Lda. F

Mas aqui avançamos no pensamento de Philip K. Dick/Timothy Archer. Vemos que o Satã que conta Timothy, pela sua função, é mais certo chamá-lo de Lúcifer – ignorarei aqui a discussão de que Satã e Lúcifer poderiam ser ‘pessoas’ diferentes. E nesta história nova vemos que o desejo e o amor de Lúcifer para com o absoluto é infinito, tanto que só ele, através deste amor, consegue iluminar um caminho para isso e tais luzes não são mero jogo de palavras. Pois, só se passa pelo caminho que se vê. Assim como retratado em outro texto sobre luz e iluminação como quando Jesus e Buddha dizem: ‘Eu sou a luz. Eu sou o caminho’. Aqui uma frase leva a outra.

Mas Philip K. Dick/Timothy Archer diz que Lúcifer guardou para si o segredo. Pelo menos o interpreta assim. Mas parece ter lhe faltado a luz para enxergar o caminho por onde seus pensamentos deveriam seguir. Prometeu ‘roubou’ ou alcançou, na m, orada do Deus, o fogo. E o fogo, como sabido  a princípio, aquece e ilumina. E, sabendo disto, vale aqui dizer que Lúcifer só tem este nome por enxergar o caminho através da luz que, no mesmo texto referido acima, ainda diz a ligação que há em tal iluminação com a claridade na mente, como quem diz: ‘agora está claro’. Mas observando que o que se ilumina está dentro de nós, vemos um relação com o místico.

Assim, segundo o Dictionnaire Étymologique de la Langue Grecque, de E. Basaicq, a palavra mystes siginifica “iniciado”, o termo mystikos quer dizer “que concerne aos mistérios” e a palavra mysterion, por sua vez, equivale a “coisa secreta ou cerimônia secreta”. Os termos derivam da raiz grega myo, que significa “fechar-se ou ser fechado”. PEREIRA. I. Aspectos Sagrados do mito e do Lógos: Poesia hesiódica e Filosofia de Empédocles. São Paulo: Educ. 2005.

Ou seja,

As doutrinas místicas são secretas, pois não se trata de crenças abstratas e frias, ou de artigos de um credo que é possível ensinar e explicar mediante processos intelectuais [ou seja, não passíveis da comunicação]… A ‘verdade’ que a mística guarda em si é algo passível de apreensão somente ao ser experimentado (pathein mathein). CORNFORD, F. M. De la Religion. Trad. Antonio Pérez Ramos. 1 ed. Barcelona: Editorial Ariel. 1984. 230.

Então, há uma relação de ambos, Lúcifer e Prometeu, para com a luz e com a chegada ao sagrado. Ainda que Lúcifer e, talvez, Prometeu representem este místico que alcança o conhecimento do Divino e não conseguem passar adiante, pois, como citado acima, ‘é algo passível de apreensão somente ao ser experimentado’, ou seja, Lúcifer não guardou para si o segredo, como diz Philip K. Dick, mas ele não tinha outra opção, não há como transmiti-lo. Havendo assim daí, a possibilidade do nome/função sair, pois, como Platão ainda diz na alegoria da caverna, aquele que alcança a luz e mostra e volta à caverna para mostrar a verdadeira face da luz aos seres da caverna, ele, o homem que saiu da caverna, seria morto por dizer tais coisas e abalar o mundo em que tanto os outros acreditavam. Ele seria, para os seres da escuridão, O Adversário. Porém, ambos foram mal intepretados, até mesmo por Deus. Lúcifer no seu amor com Deus e Prometeu para com a humanidade.

Mas desenvolvo ainda mais, Lúcifer também ajudou a humanidade.  E aqui ainda aparece mais uma similaridade com Prometeu. No Jardim do Éden com Adão e Eva, Satã aparece na aparência de cobra – não vou discutir a relação da deste mito com outros de outros povos, também citados nas ‘Máscaras de Deus’ de Joseph Campbell – e, não dá a maçã à Eva e Adão comerem, mas faz aqui uma coisa muito significativa. Assim como o fogo que, em si, pode não ser usado para nada, mas, para quem sabe usá-lo, pode fundir metais, cozinhar etc. Satã, Prometeu e até como Sócrates no Menão de Platão, não dão uma coisa para se escolher, todavia eles mostram o caminho para a verdade, que é o que eles podem, assim como se entende, no máximo transmitir. Porém, aqui, este salto de que Lúcifer seja Satã e que por sua vez seja a serpente nã consta literalmente na bíblia, vide o livrojá citado “Satã, uma biografia”.

Assim, duas coisas ficam claras, observando Prometeu e Lúcifer ou Satã:

  • No caso de Prometeu, o humanos contra os animais que tinham todas as habilidades, que não eles, os humanos, tiveram o fogo para, com ele, equilibrar a disputa natural podendo através desta alternativa criar possibilidades para a mesma.
  • E, no caso de Lúcifer ou Satã, ele mostrou que, mesmo sob um Deus, é possível fazer coisas que nem Ele tem poder, mesmo no caso de Adão e Eva com o fruto proibido do conhecimento do bem e do mal.

Assim, neste incrível movimento contra o que se acreditava de Deus e para com a humanidade, estes dois mitos nos desvelam, no próprio sentido de aléthea, em suma, duas coisas:

  1. O ser humano, assim como anjos(Lúcifer) e gigantes (Prometeu), têm livre-arbítrio que está acima do poder Divino.
  2. Temos escolhas fora dos contextos.

Mas ficam ainda algumas perguntas como mais uma curiosidade. Haverá Lúcifer ou este possível satã seu próprio Hércules, herói humano (filho de Deus) para libertá-lo? Ou Jesus vendo Satã, o kosmokrator da Terra caindo como um raio, vencendo a Morte, através da ressurreição e se intitulando como a estrela da alvorada ou, ainda, Lúcifer seja este Hércules? Mas isto talvez seja um passo grande demais para a razão e pequeno para a imaginação.

Locke e a critica ao inatismo

John Locke nos apresenta em seu livro “Ensaio acerca do entendimento humano” uma critica à idéia de inatismo, conhecimento que precede a experiência, para Locke o conhecimento, de forma alguma, poderia preceder a experiência, a fonte de todo o conhecimento é a própria experiência, sendo que essa experiência pode ser externa(sensação) ou interna (reflexão). Para Locke a alma é um tabula rasa que aos poucos vai sendo preenchido pela experiência.

As experiências são de dois tipos, externas e internas; as experiência externa são as sensações que provem de objetos sensíveis externos; já a experiência interna são as operações internas do nosso espírito e os movimentos da nossa alma.

As idéias estão presente na mente do homem, porém para que isso aconteça fora há alguma coisa que tenha o poder de produzi-las na mente. O termo utilizado por Locke para esse poder é qualidades que são divididas em primaria e secundárias. As qualidades primárias se encontram nos próprios corpos (extensão, solidez, a figura, o numero) são qualidades objetivas. As qualidades secundárias, são as qualidades subjetivas (cor, sabor, odor e etc.).

“As qualidades primárias são qualidades dos próprios corpos, ao passo que as secundárias deriva do encontro dos objetos com o sujeito, mas tendo sempre as suas raízes no objeto” (REALE e ANTISERI 1990, 512)

As idéias se dividem em idéias simples e complexas, segundo Hessen:

“Os conteudos das experiencias são as idéias ou representações, algumas simples e outras complexas. Estas são formadas a parir de idéias simples. A essas idéias simpres pertencem as qualidades sensiveis primarias e secundárias. Uma idéia complexa é, por exemplo a idéia de uma coisa ou substancia.” (HESSEN 1999, 56)

Recebemos as idéias simples de forma passiva, mas após as idéias simples temos o poder de “operar de varios modos sobre elas”, realizando as combinações entre si, separanda-as, formando assim as idéias complexas que se distingue em tres grupos: Ideias de Modo, Idéias de substancia e idéias de relações.

Portanto para Locke a fonte de todo o conhecimento são as experiências, sendo assim as idéias nunca poderiam ser idéias a – priori e sim sempre serão posteriores há uma experiência, criticando assim o conceito de idéias inatas.

Francis Bacon – A formiga, a aranha e a abelha.

Bacon afirma que os que se dedicaram à ciência pensaram como formigas e aranhas.

“Os empiristas seguem o exemplo da formiga, amontoam os fatos e apenas usam a experiência adquirida”, ou seja, buscam conhecimento pela indução e simples enumeração. Já para os racionalistas, ou dogmáticos faz analogia à aranha que “de si mesmos extraem o que lhes serve para a teia”, sendo, este, o método dedutivo, “tecem quadros a partir da sua imaginação”, ou seja, o seu conhecimento não tem qualquer fundamento real.

“A abelha representa a posição intermediária: recolhe a matéria-prima das flores do jardim e do campo e com seus próprios recursos a transforma e digere. Não é diferente o labor da verdadeira filosofia, que se não serve unicamente das forças da mente, nem tampouco se limita ao material fornecido pela história natural ou pelas artes mecânicas, conservado intato na memória. Mas ele deve ser modificado e elaborado pelo intelecto. Por isso, muito se deve esperar da aliança estreita e sólida entre essas duas faculdades, a experimental e a racional.”

Assim, para ele devíamos seguir o modelo da abelha para obter conhecimento científico, pois a abelha “colhe o suco do seu mel nas flores dos campos… mas sabe, ao mesmo tempo, prepará-lo e o digerir com uma habilidade admirável”, ou seja, deveríamos colher o conhecimento da experiência e trabalhá-lo com a razão de modo a podermos chegar à verdade.

BACON, Francis. Novum organum, XCV.