Kierkegaard & Nietzsche. Repetição a Novidade Categorial da História e da Fé.

Kierkegaard

Introdução.

                                                                                                            

Nietzsche

Carlos Eduardo Bernardo

Na memorável tese “Diferença e Repetição” (1968), o filósofo Gilles Deleuze (1925-1995) propõe diversas leituras ousadas acerca do pensamento de Kierkegaard (1813-1855), Nietzsche (1844-1900) e Peguy (1873-1914) e outros – que não intentamos abordar neste escrito, mas que são igualmente gigantes do pensamento Ocidental. Naturalmente muito do que está posto nesta obra de Deleuze não é aceito de modo unânime por vários filósofos e, sobretudo por aqueles que têm se dedicado ao estudo das obras dos dois primeiros aqui mencionados, antes sua tese sofreu e sofre ataque constante em alguns dos principais elementos que a compõe, destacando-se a necessidade inerente de localizar e explicitar uma divisão ternária no pensamento e nos escritos dos autores, excetuando Kierkegaard, tal empreendimento requer um esforço intelectual, e ainda mais imaginativo – diriam alguns de seus críticos – que põe em lume à originalidade do autor. Outro ponto crítico é a prevalência dada por Deleuze ao tempo

Não ousaremos neste breve escrito aprofundar na rica e variada tese de Deleuze e tampouco nos afastaremos demasiadamente de suas linhas mestras gerais, nosso intuito é de pensar, de modo breve, um problema proposto no movimento O trágico e o cômico, a história, a fé do ponto de vista da repetição no eterno retorno[1]. Neste contexto o problema está na explicitação da novidade categorial da história e da na obra de Kierkegaard e Nietzsche, considerando suas semelhanças e dessemelhanças, assim como as vê Deleuze.

A Repetição na tese de Deleuze.

Deleuze faz da Repetição um tema central, para tanto propõe que esta seja tratada numa estrutura ternária, ou seja, constituída ou efetuada em três momentos que ele assim identifica: (1º) Trágico; (2º) Cômico Grotesco – & (3º) Drama. Correspondendo esta tríplice à clássica divisão temporal Passado; Presente & Futuro. Suas justificativas fundamentais para tal divisão não são oriundas da Filosofia ou da História, antes, são retiradas do âmbito da Arte. Deleuze, de modo semelhante a Hegel (1770-1831), faz uso do Teatro com seus principais componentes – o cenário, os atores, os atos e os gêneros teatrais – e através destes perfila a história da Repetição no âmbito da humanidade extraindo nas obras dos filósofos supra as bases conjecturais de sua tese.

Faz-se necessário apontar um dado que é muito interessante, porém não muito explorado, o problema da tríade na tese de Deleuze parece imiscuir-se no âmbito filosófico tendo como pano de fundo um conceito teológico, a saber, a Trindade; essa possibilidade de leitura, da obra deleuziana, se insinua ao observador atento à referência feita ao pensador Joachim de Fiore (1135-1202).

Dado as figuras usadas por Deleuze para abordar os três momentos da Repetição podemos detectar em sua teoria uma priorização o Tempo e a oposição entre a generalidade e a particularidade que joga com o valor da novidade inerente a cada Instante. Neste ponto temos que nos reportar a Kierkegaard não apenas como aquele que introduziu a Repetição no âmbito da reflexão filosófica existencial – ou Existencialista –, mas, sobretudo, como aquele que valorizou a novidade do Instante como núcleo de resistência à generalização.

Kierkegaard e o tema da Repetição.

            O filósofo dinamarquês tem o mérito de ser considerado o precursor das mais variadas correntes filosóficas de caráter existencial. Como é notório Kierkegaard propõe um itinerário espiritual ao homem em três estádios: o Estético, o Ético e o Religioso. Cada estádio caracteriza-se do modo que lhe é peculiar.

            Kierkegaard nos apresenta a Repetição nos estádios, condenando a repetição estética, pois, segundo ele, esta seria uma repetição da natureza, o esteta não conseguiria escapar ao poder de suas determinações instintivas[2].

A significação da Repetição para Kierkegaard está relacionada com a imutabilidade e a necessidade do ser, por este motivo Kierkegaard a aproximou da expressão aristotélica quod quid erat esse aquilo que o ser era[3] – ou seja, sua Repetição.

A Repetição ética se contrapõe a repetição estética no sentido de que esta põe ao individuo a possibilidade de escolha repetida de sua tarefa, escolha essa cujo emblema, o símbolo é o matrimônio.

 

 

 

 

Nietzsche e a Repetição além dos círculos do conhecido.

Duas concepções de Repetição ligadas à idéia do eterno retorno eram comuns nos dias de Nietzsche: (1º) repetição mecânica, simbolizada pela fala do anão (2º) a repetição cósmica, aquela da natureza, simbolizada pela fala dos animais. Nietzsche se opõe à ambas, sua proposta enigmática aponta para uma a Repetição que funda uma nova era, uma nova forma de viver no mundo, uma nova filosofia. Neste ponto partilhamos com Deleuze da noção de que esta Repetição, ou o eterno retorno é seletivo, somente aquilo que extravasa, que ultrapassa, que sobeja aquilo que é mais – ümber – é que retorna.

Por isto vemos no Prólogo[4] do Zaratustra a afirmação do retorno dos homens que são qualificados como ümbermensch – além homem.

Ora, essa Repetição ultrapassa o âmbito do conhecido, falar da Repetição nestes termos é falar de modo diferente e desconhecido dos homens de uma determinada época, Zaratustra veio cedo demais, Nietzsche igualmente!

 

Leitura do movimento: O trágico e o cômico, a história, a fé do ponto de vista da repetição no eterno retorno.

Como sabemos Deleuze propõe um movimento tríplice para a Repetição, o trágico correspondendo a primeira repetição, o cômico correspondendo a segunda e sua grande inovação, o drama correspondendo à terceira.  O trágico corresponde ao passado, o cômico corresponde ao presente, mas o drama corresponde ao futuro, a primeira síntese do tempo tem seu núcleo no hábito que relaciona os tempos passado e futuro numa dependência fundamental para sua efetivação no presente vivido.  A síntese seguinte, a segunda, da memória coloca no passado a limpidez que o qualifica enquanto algo puro. Já a terceira síntese opera como um ator ou autor, pois como este introduz no futuro a categoria da própria Repetição que já se pronunciara nas sínteses anteriores.

Bem, segundo Deleuze, o problema da Repetição coincide em Kierkegaard e Nietzsche, supondo haver em ambos a introdução de novidades categoriais que, embora distintas e diferentes, trazem algo analogamente novo.

Qual é o terreno palmilhado por Deleuze na elaboração desta perspectiva?

Ele não supõe qualquer identificação entre o Deus de Kierkegaard e o Dioniso de Nietzsche, mas supõe, baseado nas características intrínsecas ao pensamento de ambos, que as suas filosofias, na verdade, se constituem em ultrapassagens da própria filosofia, para ambos sua filosofia seria uma superação da filosofia.

Na crítica kierkegaardeana à concepção de Repetição presente em Hegel, está contida a afirmação contundente da necessidade do movimento real, para Kierkegaard o movimento dialético tão enfatizado nos círculos do hegelianismo era um movimento ilusório, um falso movimento. É fundamental também para Nietzsche a ultrapassagem deste movimento que em Kant (1724-1804) se caracterizará como movimento lógico. O problema destas duas concepções é que ferem o movimento ao transferi-lo para o âmbito metafísico, ele – o movimento – perde sua realidade e, portanto, não toca o homem naquilo que realmente é mais importante, sua alma – espírito. As concepções criticadas imiscuem o homem no âmbito da generalidade, por exemplo, por mais que ela se afirme ela não se põe ao nível do individuo, necessita, pois de uma mediação, Kierkegaard e Nietzsche põem a Repetição no âmbito do individuo. O geral é aquele que norteia as velhas concepções do antigo mundo Oriental, o sacrifício do primogênito era uma concepção geral à qual Abraão aparentemente submetera-se, todavia.

[…] O paradoxo da fé perdeu a instância do intermediário, o geral. Por um lado, a fé é a expressão do supremo egoísmo: realiza o terrificante, realiza-o por amor de si próprio; por outro lado é a expressão do mais absoluto abandono, actua por amor a Deus […] o cavaleiro da fé não encontra absolutamente nenhuma expressão do geral (concebido como moral) capaz de o salvar […]

(Kierkegaard, 1990,pp.92-93&96)

            No esquema de Deleuze, a categoria da fé, proposta por Kierkegaard, se opõe à repetição do hábito, correspondente ao passado e ao estádio estético, posto que este tenha por hábito a repetição de sua ação “livre” de busca por novos prazeres.  A fé também se opõe à repetição da memória, correspondente ao estádio ético, posto esta insere o homem no dever de sempre lembrar os preceitos morais e de viver sob a égide desta moral do gênero. A fé lança os dados no futuro, ela transvasa a própria Repetição, pondo-se como uma categoria a realizar-se escatológicamente.

Esta repetição suprema como categoria do futuro era por eles confiada à fé. Ora sem dúvida, a fé tem suficiente força para desfazer o hábito e a reminiscência, o eu dos hábitos e o deus das reminiscências, a fundação e o fundamento do tempo.

(Deleuze, 1988, p.163)

Já o problema em Nietzsche toma rumos um pouco diferentes, pois a categoria historial, segundo Deleuze, não poderá ser fundada na fé, antes encontra outro móbil que não está devidamente explicitado nos escritos de Nietzsche, já que, ainda conforme Deleuze, ele jamais chegou a escrever o terceiro ato.

Esse terceiro ato traria a lume o resultado do processo seletivo do eterno retorno, resultado que, em certo sentido, fora prognosticado por Zaratustra nas suas críticas às concepções comuns do mesmo. Todavia, o encontro entre o pastor e o anticristo é marcado por uma visada ao futuro, à inauguração de um novo teatro, de uma nova filosofia de um movimento que Kierkegaard diria ser o saltar ao qual Nietzsche certamente oporia o dançar.

Bibliografia

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia, São Paulo, Editora Martins Fontes, 1999.

DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição, Rio de Janeiro, Editora Graal, 1988.

KIERKEGAARD, Soeren Abye. Temor e Tremor. Lisboa, Guimarães Editores, 1990.   

NIETZSCHE, Friedrich W. Assim Falava Zaratustra – Um Livro para Todos e Para Ninguém. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1995.

 


[1]Vide in: Deleuze. Diferença e Repetição. Capítulo II – A Repetição para si mesma.

[2] Instintivas: Fazemos uso de um termo que, até onde sabemos não figura na obra de Kierkegaard.

[3] Devemos esta observação a Abbagnano – Dicionário de Filosofia. Verbete: Repetição.

[4] Temos em mente, principalmente o Prólogo 4º e 5º – Assim Falava Zaratustra.