Oswaldo Pessoa – Aula 2 – Definição de Conhecimento 3/3

3. Definição Prototípica de Ciência

Se a ciência for considerada uma forma de “conhecimento”, no sentido da definição tripartida, então mesmo a física newtoniana não poderia ser considerada ciência, já que ela é falsa. Uma saída seria trabalhar com uma noção de “verdade aproximada”. Outra saída seria dizer que a ciência é uma atividade que almeja o conhecimento (nesse sentido estrito).

Mesmo sem nos preocuparmos com uma definição estrita de conhecimento, tolerando uma definição mais intuitiva, fica claro que há formas de conhecimento que não são científicas, como o chamado “conhecimento pessoal”. Sei que quando a galinha cacareja, ela está botando ovo, mas tal conhecimento não é considerado científico. Por outro lado, se colocarmos um certo “fator de crescimento” no bico de um embrião de galinha, ela nascerá com dentes, revelando que seus antepassados (dinossauros) tinham dentes e que essa capacidade genética encontra-se latente nos pássaros9. Tal conhecimento é claramente científico, pois ele não é óbvio nem imediato, e foi o resultado de muito trabalho metódico e da concatenação de observações e teorias.

Assim, de maneira simplificada, podemos dizer que a ciência é uma forma de conhecimento não-imediata, e que por isso requer um método específico, mais sofisticado do que as simples observações e inferências que empregamos em nosso dia-a-dia. Além disso, o conhecimento científico que é obtido por um pesquisador deve ser verificável por outras pessoas , de forma que a ciência seja considerada “objetiva”.

Não precisamos nos preocupar com uma definição exata, “conjuntista”, de ciência, que estipularia precisamente as características necessárias e suficientes para que uma atividade seja considerada científica (associada a nomes como Aristóteles e Frege). Pelo contrário, podemos nos inspirar em um estilo de definição que podemos chamar de prototípico (inspirado na “semelhança de família” de Wittgenstein e no trabalho da psicóloga Eleonor Rosch, e descrito também pela lógica difusa ou fuzzy). Pesquisas em psicologia indicam que nossa mente não trabalha com conceitos definidos de maneira exata, mas sim com “protótipos”10. Temos um protótipo do que seja “cadeira”, um objeto que satisfaz um conjunto de propriedades: tem quatro pernas, um assento, um encosto, tem um tamanho compatível com o ser humano, pode ser usado para sentar, foi feito com a finalidade de que um ser humano nele sentasse, é rígido, etc. Se retirarmos uma dessas propriedades, continua sendo, claramente, “cadeira”. Mas se retirarmos duas, três, começaremos a ficar em dúvida. A definição prototípica incorpora a existência de zonas de transição entre diferentes protótipos, e não procura estipular de maneira arbitrária e convencional (como faria tipicamente uma “filosofia analítica” de inspiração conjuntista) uma linha de demarcação clara.

Falando em galináceos, poderíamos relembrar o infame “problema do ovo e da galinha”: quem veio primeiro? Uma estratégia conjuntista definiria de maneira exata o que seria um Gallus gallus, por exemplo a partir de uma especificação detalhada das seqüências de DNA que caracterizariam uma galinha, e das seqüências que não a caracterizam. Desta forma, na linhagem das galinhas, teria havido uma primeira galinha que nasceu de um ovo que foi posto por uma não-galinha: assim, o ovo (de galinha) teria vindo antes da primeira galinha. Por outro lado, segundo uma definição prototípica, o problema não teria solução, pois a transição da proto-galinha para a galinha é suave, sem cortes.

Busquemos então, para finalizar essa discussão, levantar uma lista de características que marcaram o surgimento da ciência, segundo o relato feito na seção anterior. Faremos isso  considerando que, para estudarmos a ciência, devemos dividir suas características em três grandes classes: teoria, experimento e social. Assim, a ciência é uma forma de teorização que se baseia na experiência e que é sustentada por uma organização social. Dos traços práticos (experimentais) mencionados neste capítulo, podemos desatacar: a observação, a construção de artefatos, e a realização de experimentos (o que envolve um método). Dos traços teóricos, há o fornecimento de explicações, e especialmente as explicações naturalistas (sem o envolvimento de deuses); entre os babilônios, havia o registro sistemático (de observações) e a realização de previsões; com os pré-socraticos, vê-se claramente a busca de generalizações (do universal, acima do particular, como por exemplo: “tudo é água”). Por fim, dentre os traços sociais, mencionamos a prática do debate público, a difusão da educação e a importância da patronagem (financiamento da pesquisa).

 

9 Maiores detalhes em: COHEN, P., “Monsters in our Midst”, New Scientist 2300, 21 julho 2001, pp. 30-33.

10 LAKOFF, G. (1987), Women, Fire and Dangerous Things. What Categories Reveal about the Mind, U. Of Chicago Press. Em português, ver BARBOSA DE OLIVEIRA, M. (1999), Da Ciência Cognitiva à Dialética, Discurso Editorial, São Paulo, caps. 7-9.

 

Oswaldo Pessoa – Aula 2 – Definição de Conhecimento 1/3

Teoria do Conhecimento e Filosofia da Ciência I – Osvaldo Pessoa Jr. – 2010

Capítulo II

DEFINIÇÃO DE CONHECIMENTO

1. Definição Tripartida de Conhecimento

Um exemplo de conhecimento adquirido nos primórdios da ciência é a atribuição de números que os pitagóricos fizeram aos sons produzidos por cordas vibrantes. Este é talvez o primeiro estudo empírico sistemático que resultou na elaboração de uma lei científica quantitativa. Estudaram a relação entre os tons musicais de uma corda vibrante e seu tamanho, encontrando que os intervalos de oitava, quarta e quinta poderiam ser expressos em termos de razões numéricas simples de comprimentos da corda, respectivamente 1:2, 2:3, 3:4. Estudaram também os sons gerados em jarros com diferentes níveis de água.

Mas o que é conhecimento? Uma definição, aceita ainda hoje, foi desenvolvida por Sócrates, e aparece em diferentes diálogos de Platão, como o Teeteto, o Mênon, a República e o Timeu. Segundo esta análise, chamada de definição tradicional ou “tripartida” do conhecimento, o conhecimento seria uma opinião verdadeira justificada. Nas palavras de Teeteto, “a opinião verdadeira acompanhada de razão é conhecimento, e, desprovida de razão, a opinião está fora da conhecimento”. No Mênon, Sócrates diz que “o conhecimento se distingue da opinião certa por seu encadeamento racional”.5

O pré-socrático Empédocles acreditava que o Cosmos tivesse sido criado em uma grande explosão (seção I.3); tal crença é verdadeira (segundo a concepção atual do big bang), mas ele não tinha justificação apropriada para tal crença (pois não tinha como observar o movimento das galáxias distantes, como Edwin Hubble faria em 1929). Assim, sua tese cosmogônica não seria conhecimento. Por outro lado, o médico helenista Erasístrato tinha justificativa para acreditar que as artérias continham ar (seção VIII.1), mas tal crença é falsa, portanto também não seria conhecimento.

Analisemos um pouco mais a fundo a definição tripartida de conhecimento. Primeiro, consideremos o gênero nesta definição, que é “opinião”. Na literatura anglofônica, prefere-se o termo “crença”, e diz-se que conhecimento implica crença (ou opinião). Alguns propõem outras alternativas: conhecimento implicaria “aceitação”, “convicção”, ou “certeza psicológica”. Outros autores, porém, argumentam que conhecimento e crença são separáveis, que um não implica o outro. Por exemplo: numa prova, chutei que a data do primeiro incêndio da biblioteca de Alexandria fora 48 a.C., mas não cria nisso; porém, de fato, eu relembrei um conhecimento que adquirira muitos anos antes.6

Em segundo lugar, consideremos a diferença do gênero: opinião “verdadeira”. O que é verdade? Platão e Aristóteles adotavam a concepção de verdade por correspondência, expressa sucintamente na frase de Aristóteles “Dizer do que é que é, e do que não é que não é, é dizer a verdade” (Metafísica, 1011b25). Deixaremos para discutir esta e outras noções de verdade na seção seguinte.

Em terceiro lugar, seria preciso discutir o que significa uma opinião ser “justificada” ou “acompanhada de razão”. Este ponto é bastante discutido por Platão, e o Teeteto termina de maneira “aporética”, sem chegar a uma conclusão sobre o que é conhecimento. Este ponto é o mais discutido pelos autores modernos: no que consiste a “evidência” em favor de uma opinião? Na ciência, um peso grande da evidência advém da observação, mas em outras formas de conhecimento, como o matemático, o critério de justificação não passa pela observação empírica. Não adentraremos aqui esta delicada questão epistemológica, mas estudaremos em nosso curso como o conhecimento científico é justificado.

A definição tripartida do conhecimento passou a ser alvo de críticas a partir de contra exemplos formulados pelo norte-americano Edmund Gettier em 1963.7 Uma ilustração de tal tipo de contra-exemplo seria o seguinte: “Alguém nesta sala de aula possui um automóvel da marca Gurgel”. Tenho esta opinião porque o aluno Diego me apresentou um certificado de registro atualizado de um Gurgel Tocantins em seu nome. Acontece, porém, que Diego estava mentindo para mim, e forjou o documento porque é um nacionalista convicto e sempre sonhou em ter um carro genuinamente brasileiro! Mesmo assim, o enunciado em questão é verdadeiro, porque há uma aluna na classe, Sueli, que de fato possui um Gurgel Carajás! Está claro que minha opinião não constituía conhecimento, mas era, sem dúvida, uma crença verdadeira e justificada.

 

 

5 PLATÃO (s/d), Teeteto ou Da Ciência, trad. F. Melro, Inquérito, Lisboa (orig.: c. 360-355 a.C.), p. 159 (201d).

PLATÃO (s/d), Mênon, in Diálogos I: Mênon, Banquete, Fedro, trad. J. Paleikat, Tecnoprint (Ediouro), Rio de

Janeiro, pp. 44-74 (orig. c. 387-380 a.C.), p. 72 (98a). Datas dos originais são estimativas apresentadas em BRICKHOUSE, T. & SMITH, N.D. (2006), “Plato”, The Internet Encyclopedia of Philosophy.

6 Uma boa introdução à análise padrão do conhecimento se encontra em CHISHOLM, R.M. (1969), Teoria do Conhecimento, trad. A. Cabral, Zahar, Rio de Janeiro (orig.: 1966). Porém, quando se lê “h está certo”, deve-se entender “é o caso que h”. Detalhes do debate epistemológico podem ser obtidos de: DANCY, J. & SOSA, E.

(orgs.) (1992), A Companion to Epistemology, Blackwell, Oxford, verbetes “knowledge and belief”, “propositional knowledge”, “Gettier problem”, etc.

Autonomia e interação

Franklin Leopoldo e Silva

A relação entre a universidade e o seu entorno sempre foi problemática. Parte desses problemas foi ocasionada pelo perfil corporativo que tomou a organização universitária, já desde o século XII. É interessante notar, e isto evitaria muitos equívocos e discussões inúteis, que a organização corporativa aparece desde o princípio como condição da autonomia universitária. Isso é constatável historicamente desde que se atente em primeiro lugar para o fato de que a universidade surge contemporaneamente à consciência da independência do intelectual, e, em segundo lugar, desde que consideremos as condições externas que cercaram a origem da universidade. Continuar lendo

Uma breve reflexão sobre o nome/função e a simbólica da luz nos mitos pré-cristão e grego; Lúcifer e Prometeu

Blacksmith e Sheaper são sobrenomes comuns na Inglaterra. O primeiro significa ferreiro, o segundo, pastor. Aqui há uma coisa interessante. Estes nomes – ou sobrenomes – são também funções, trabalhos. Assim como os Deuses da mitologia grega que têm nome/função. Por exemplo, Philia, o deus do amor que aglomera as coisas ou Neikos, a divindade da discórdia que as afasta. Conceitos usados por Empédocles.

A macieira – pelo seu nome/função – dá maçã. Mas, uns pensam, e se a macieira não der maçã, e, sim, der banana? Então como não têm a função de macieira, não a é, mas, sim, bananeira. Assim sendo, no momento em que me pergunto se a macieira der banana, entro em contradição. Pois, A deve ser igual a A (A=A), ou seja, sua função é seu nome, e assim tem de ser de acordo com esta lógica.

Aristóteles dizia que cada coisa só é a si mesma por ter em sua essência sua própria finalidade e a cumprir. Por exemplo, o homem obter a phronesis e a macieira dar maçã.

Porém, é possível expressar ainda melhor esta situação. Pois, invertemos erroneamente a situação.

  • Não é a macieira que dá maçã.
  • Não é homem que obtêm a phronesis.

E sim,

  • O que dá maçã é macieira.
  • O quem tem phronesis é homem.

Pois, o significado, a essência/finalidade, a sua função vem antes do próprio nome. Até porque em todo o mundo sabemos o que é o objeto mação objeto que dá maçã, ou seja, suas representações, independentemente dos vários nomes das várias línguas que existem.

Carregando tal pressuposto, damos um salto com o intuito de analisar de acordo  com este pensamento um nome, que aqui o pensaremos como nome/função, Lúcifer.

Satan in his Original Glory - William Blake

Todos conhecemos a história da ambição de Lúcifer para com Deus. Em suma, no que nos interessa, Lúcifer tentou infinitamente ser Deus. Brilhar como Deus. E daí o seu nome/função, pois Lúcifer (em hebraicoheilel ben-shahar, הילל בן שחר; em grego na Septuagintaheosphoros) significa o que leva a luz, representa a estrela da manhã (a estrela matutina), a estrela D’Alva, o planeta Vênus, o primeiro a brilhar antes da alvorada.

Numa segunda fase, por tentar tal ‘audácia’ num ponto de vista do senso comum, Lúcifer é expulso dos céus. Também se é tomada a idéia de que  Lúcifer, como o maior dos anjos, não quis se submeter ao ‘homem’, se revolta, assim sendo expulso dos céus e se tornando o nome/função Satã (cuja origem é o hebraico Shai’tan, que significa simplesmente adversário). Mas nenhuma passagem da bíblia diz isso. Vide “Satã, uma biografia de Henry Angar Kelly”.

E em poucas traduções portuguesas aparece aqui a tradução de Figueiredo verte Isaías 14:12: “Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante?” Como mostra o quadro de William Blake “Satã em toda sua glória” e posteriormente em sua queda a Estátua de Lúcifer na catedral Saint-Paul de Liège, na Bélgica.

Mas apresento aqui neste texto um novo ponto de vista, uma vez que tomemos Estátua de Lúcifer na catedral Saint-Paul de Liège, na Bélgicaa Deus não como uma personificação, um ser, mas como um estágio, assim como o estágio de buddha. Ou seja, iluminação, iluminado… Lúcifer.

Phillip K. Dick em seu livro, com apenas tradução para o português de Portugal, chamado ” Transmigração de Timothy Archer” nos mostra uma nova interpretação:

Mas, antes, saibamos que aqui Phillip K. Dick ou seu personagem já toma Lúcifer e Satã como uma mesma entidade. Ou, pelo menos, pormenorizadamente, Lúcifer que “enfrenta” Deus com ousadia ainda pode-se ser chamado de satã (com letra minúscula) uma vez que a palavra é comum e se remete a “adversário”.

” – Vejo a lenda de Satã de uma maneira diferente. Satã desejava conhecer Deus tão completamente quanto possível. O conhecimento mais completo seria atingido se ele se tornasse Deus, fosse ele próprio. Lutou por isso e conseguiu-o, sabendo que a punição seria o exílio permanente da companhia de Deus. Mas, ainda assim, fê-lo, porque a memória do conhecimento de Deus, de o conhecer realmente como mais ninguém o fizera ou tornaria a fazer, justificava a seus olhos a punição eterna. Agora, quem considerariam vocês que amava realmente Deus, mais do que qualquer outro que alguma vez tivesse existido? Satã aceitou de boa vontade o castigo e o exílio eternos apenas para conhecer Deus, tornando-se Deus, durante um instante. Além disso, ocorre-me que Satã conheceu verdadeiramente Deus, mas que talvez Deus não tivesse conhecido ou compreendido completamente Satã; se o tivesse compreendido, não o teria castigado. É por isso que se diz que Satã se rebelou, o que significa que Satã estava fora do controlo de Deus, fora do domínio de Deus, como se estivesse num outro universo. Mas Satã recebeu alegremente o castigo, porque ele era a prova, fornecida a si próprio, de que conhecia e amava a Deus.  De outro modo poderia ter feito o que fez apenas pela recompensa… se a houvesse. << É melhor reinar no Inferno do que servir no Céu>> é, aqui, uma saída, mas não a verdadeira: o que é a meta e a procura do saber e do ser finais: compreender total e realmente a essência de Deus, em comparação com o que tudo o resto é realmente muito pouco.”

No próximo parágrafo, depois de ouvir Timothy Archer, Kirsten, outra personagem, diz:

” – Prometeu – disse Kirsten abstractamente. Estava sentada a fumar de olhar perdido.

Tim disse:

– Prometeu significa <<Criador>>. Ele esteve envolvido na criação do Homem. Ele era também o supremo malabarista entre os deuses. Pandora foi enviada por Zeus para a Terra, como castigo para Prometeu, por ter roubado o fogo e o ter dado ao homem Além disso, Pandora puniu toda a raça humana. Epimeteu casou com ela, ele era a Compreensão Tardia. Prometeu avisou-o para que não casasse com Pandora, uma vez que Prometeu podia prever consequecias. Esse mesmo tipo de conhecimento absoluto do futuro ´ou era considerado pelos Zoroastrianos como sendo um atributo de Deus, a Mente Sábia.

– Uma águia comeu-lhe o fígado – disse Kirsten num tom longínquo.

Assetindo, Tim disse:

– Zeus puniu prometeu acorrentando-o e mandando que uma águia lhe comesse o fígado, que se regenerava continuamente. No entanto, Hércules libertou-o. Sem dúvida que Prometeu era um amigo da Humanidade. Ele era mestre artesão. Há aqui certamente uma afinidade com a lenda de Satã. Conforme o vejo, poder-se-ia dizer que Satã roubou, não o fogo, mas o verdadeiro conhecimento de Deus. No entanto, ele não o deu ao homem, conforme Prometeu fez com o fogo. Talvez o pecado capital de Satã tenha sido o de, ao adquirir esse conhecimento, o guardar para si; não o partilhou com a humanidade. Isto é interessante… por estar linha de racioncínio, poder-se-ia argumentar que pode adquirir-se o conhecimento de Deus por intermédio de Satã. Nunca vi antes ser avançada esta teoria. – Ficou em silêncio, aparentemente a ponderar o assunto. – Eras capaz de escrever isto? – perguntou a Kirsten.

– Eu lembro-me. – O tom dela era distraído e neutro.

– O homem tem de assaltar Satã e tomar-lhe o seu conhecimento. Satã não quer largar. por escondê-lo – e não tanto por tê-lo roubado – é punido. Portanto, e num certo sentido, os seres humanos podem redimir Satã, roubando-lhe à força esse conhecimento.” DICK, Philip K. “A Transmigração de Timothy Archer”. Puclicações Europa-América, Lda. F

Mas aqui avançamos no pensamento de Philip K. Dick/Timothy Archer. Vemos que o Satã que conta Timothy, pela sua função, é mais certo chamá-lo de Lúcifer – ignorarei aqui a discussão de que Satã e Lúcifer poderiam ser ‘pessoas’ diferentes. E nesta história nova vemos que o desejo e o amor de Lúcifer para com o absoluto é infinito, tanto que só ele, através deste amor, consegue iluminar um caminho para isso e tais luzes não são mero jogo de palavras. Pois, só se passa pelo caminho que se vê. Assim como retratado em outro texto sobre luz e iluminação como quando Jesus e Buddha dizem: ‘Eu sou a luz. Eu sou o caminho’. Aqui uma frase leva a outra.

Mas Philip K. Dick/Timothy Archer diz que Lúcifer guardou para si o segredo. Pelo menos o interpreta assim. Mas parece ter lhe faltado a luz para enxergar o caminho por onde seus pensamentos deveriam seguir. Prometeu ‘roubou’ ou alcançou, na m, orada do Deus, o fogo. E o fogo, como sabido  a princípio, aquece e ilumina. E, sabendo disto, vale aqui dizer que Lúcifer só tem este nome por enxergar o caminho através da luz que, no mesmo texto referido acima, ainda diz a ligação que há em tal iluminação com a claridade na mente, como quem diz: ‘agora está claro’. Mas observando que o que se ilumina está dentro de nós, vemos um relação com o místico.

Assim, segundo o Dictionnaire Étymologique de la Langue Grecque, de E. Basaicq, a palavra mystes siginifica “iniciado”, o termo mystikos quer dizer “que concerne aos mistérios” e a palavra mysterion, por sua vez, equivale a “coisa secreta ou cerimônia secreta”. Os termos derivam da raiz grega myo, que significa “fechar-se ou ser fechado”. PEREIRA. I. Aspectos Sagrados do mito e do Lógos: Poesia hesiódica e Filosofia de Empédocles. São Paulo: Educ. 2005.

Ou seja,

As doutrinas místicas são secretas, pois não se trata de crenças abstratas e frias, ou de artigos de um credo que é possível ensinar e explicar mediante processos intelectuais [ou seja, não passíveis da comunicação]… A ‘verdade’ que a mística guarda em si é algo passível de apreensão somente ao ser experimentado (pathein mathein). CORNFORD, F. M. De la Religion. Trad. Antonio Pérez Ramos. 1 ed. Barcelona: Editorial Ariel. 1984. 230.

Então, há uma relação de ambos, Lúcifer e Prometeu, para com a luz e com a chegada ao sagrado. Ainda que Lúcifer e, talvez, Prometeu representem este místico que alcança o conhecimento do Divino e não conseguem passar adiante, pois, como citado acima, ‘é algo passível de apreensão somente ao ser experimentado’, ou seja, Lúcifer não guardou para si o segredo, como diz Philip K. Dick, mas ele não tinha outra opção, não há como transmiti-lo. Havendo assim daí, a possibilidade do nome/função sair, pois, como Platão ainda diz na alegoria da caverna, aquele que alcança a luz e mostra e volta à caverna para mostrar a verdadeira face da luz aos seres da caverna, ele, o homem que saiu da caverna, seria morto por dizer tais coisas e abalar o mundo em que tanto os outros acreditavam. Ele seria, para os seres da escuridão, O Adversário. Porém, ambos foram mal intepretados, até mesmo por Deus. Lúcifer no seu amor com Deus e Prometeu para com a humanidade.

Mas desenvolvo ainda mais, Lúcifer também ajudou a humanidade.  E aqui ainda aparece mais uma similaridade com Prometeu. No Jardim do Éden com Adão e Eva, Satã aparece na aparência de cobra – não vou discutir a relação da deste mito com outros de outros povos, também citados nas ‘Máscaras de Deus’ de Joseph Campbell – e, não dá a maçã à Eva e Adão comerem, mas faz aqui uma coisa muito significativa. Assim como o fogo que, em si, pode não ser usado para nada, mas, para quem sabe usá-lo, pode fundir metais, cozinhar etc. Satã, Prometeu e até como Sócrates no Menão de Platão, não dão uma coisa para se escolher, todavia eles mostram o caminho para a verdade, que é o que eles podem, assim como se entende, no máximo transmitir. Porém, aqui, este salto de que Lúcifer seja Satã e que por sua vez seja a serpente nã consta literalmente na bíblia, vide o livrojá citado “Satã, uma biografia”.

Assim, duas coisas ficam claras, observando Prometeu e Lúcifer ou Satã:

  • No caso de Prometeu, o humanos contra os animais que tinham todas as habilidades, que não eles, os humanos, tiveram o fogo para, com ele, equilibrar a disputa natural podendo através desta alternativa criar possibilidades para a mesma.
  • E, no caso de Lúcifer ou Satã, ele mostrou que, mesmo sob um Deus, é possível fazer coisas que nem Ele tem poder, mesmo no caso de Adão e Eva com o fruto proibido do conhecimento do bem e do mal.

Assim, neste incrível movimento contra o que se acreditava de Deus e para com a humanidade, estes dois mitos nos desvelam, no próprio sentido de aléthea, em suma, duas coisas:

  1. O ser humano, assim como anjos(Lúcifer) e gigantes (Prometeu), têm livre-arbítrio que está acima do poder Divino.
  2. Temos escolhas fora dos contextos.

Mas ficam ainda algumas perguntas como mais uma curiosidade. Haverá Lúcifer ou este possível satã seu próprio Hércules, herói humano (filho de Deus) para libertá-lo? Ou Jesus vendo Satã, o kosmokrator da Terra caindo como um raio, vencendo a Morte, através da ressurreição e se intitulando como a estrela da alvorada ou, ainda, Lúcifer seja este Hércules? Mas isto talvez seja um passo grande demais para a razão e pequeno para a imaginação.

Aristóteles – “A retórica é a outra face da dialética”

Segundo Aristóteles a retórica é “a outra face da dialética; pois ambas se ocupam de questões mais ou menos ligadas ao conhecimento comum e não corresponde a nenhuma ciência em particular.” Aristóteles considera que a retórica é indispensável à política ou aos discursos políticos. Segundo Aristóteles:

“É, pois, evidente que a retórica não pertence a nenhum gênero particular e definido, antes se assemelha à dialética. É também evidente que ele é útil e que a sua função não é persuadir, mas discernir os meios de persuasão mais pertinentes a cada caso, tal como acontece em todas outras artes; de facto, não é da medicina dar saúde ao doente, mas avançar o mais possível na direcção da cura, pois também se pode cuidar bem dos que já não estão em condições de recuperar a saúde.” (Retórica, I, 1355b, 41)

A retórica, para Aristóteles, não representa um verdadeira mal, pois a injustiça de um discurso retórico político, injusto não se encontra na retórica, mas sim na política, uma vez que a retórica não corresponde a nenhuma ciência em particular:

“Dizer a política é arquitetônica com relação à retórica implica dizer que o fim da retórica sempre estará a serviço de o fim da política e, assim, como sabemos que o fim da política é o bem humano ou a vantagem comum, a retórica pode ser salva. Se ela estiver sendo utilizada injustamente, não é da competência da retórica, mas da competência da política, corrigir a situação. Para isso, só será necessário apelar para o critérios, já bem estabelecidos pelo autor na constituição correta e poder político. (ARISTÓTELES,1985). “Este, única forma legítima de poder numa cidade propriamente tal, consiste em exercer o poder em beneficio dos governados, o que, em ultima instancia, virá constituir a salvação a arte de persuadir.” (YAMIN s.d., 745)

Sombra e Luz em Platão

No texto “Sombra e Luz em Platão”, G. Lebrun diferencia a interpretação da “visão” entre Platão e Descartes. Sendo elas:

Para Platão a visão é o único sentido que se faz necessário um terceiro elemento, o Sol, assim como para chegar ao conhecimento, se faz necessário um terceiro elemento, o bem, pois se isso não ocorrer à exposição não passará de um espelhamento de saberes desconexos. Encontraremos esse paralelo entre o olho e o espírito na “analogia solar”no livro VI da republica. “A visão, como já sabemos, precisa de luz, sem a qual desaparece” (GÉRARD n.d. p. 403). Para Platão: “a visão não é um paradigma do saber. O único paradigma do saber é a luz.” (GÉRARD n.d. p. 405)

Platão luta contra o sensu comum, “Para sair da amathía[1], é preciso não apenas “virar a cabeça” e “violentar-se”, mas sobre tudo deixar que o educador use de violência. Pois não há, aqui “razão natural” à nossa disposição.Para Platão de natural só há a desrazão.é preciso obrigar aqueles que são capazes (e estes não são muitos) a olhar alhures.” (GÉRARD n.d.)

Sabedoria humana seria o foco luminoso para Descartes que se opõe à “uma tradição (Platão e Agostinho) a qual o espírito humano só é capaz de apreender seu objeto se estiver iluminado por uma luz cuja a fonte ela não traz em si, mas lhe vem de um foco luminoso transcendente (a idéia de bem, deus).” (GÉRARD n.d. p.401)

Descartes acreditará na condução do individuo, paideía, porém não declarará guerra ao sensu comum. ”O único defeito do vulgo é o de contentar-se com conhecimento sensíveis, que recebeu pela visão ou pela audição (os ensinamentos dos mestres). Mas o exercício do método porá fim a esse estado de ignorância (ágnoia) fazendo-o concentrar sua visão “nos princípios comuns e os axiomas” que ele, até agora, “não se preocupou em considerar” (GÉRARD n.d. p. 410)


[1] “Nada saber e crer que sabe”