UMA REFLEXÃO A PARTIR DO TEXTO “UM TROTE NO ESTILO SOKAL POR UM FILÓSOFO ANTIRELIGIOSO”.

Por: Carlos Eduardo Bernardo.

“Quem procurar sinais da presença de uma divindade irônica mexendo seus pauzinhos por trás do enorme jogo do mundo, não encontrará nenhum indício disto no gigantesco ponto de interrogação que se chama cristianismo. Veremos que a humanidade se ajoelha diante da antítese daquilo que no início era o sentido e a lei do Evangelho, que no conceito de ‘igreja’ santificou-se justamente o que o ‘mensageiro feliz’ considerava inferior e ultrapassado em relação a esse conceito; porém, procuraremos em vão uma forma maior de ironia da história mundial”.

(Friedrich W. Nietzsche, O Anticristo, 36.)

Introdução.

Diego Azizi, meu amigo, e, articulista deste blog, traduziu o artigo de Jerry A. Coyne[1], Um trote no estilo Sokal por um filósofo antireligioso [sic]. O artigo nos apresenta a faceta do Dr. Maarten Boudry, filósofo antirreligioso. O Dr. Boudry remeteu um “pós-moderno e teologicamente sofisticado […]” resumo para duas conferências de teologia, porém era um resumo “falso”, um texto no estilo Sokal.

Um texto no estilo Sokal é uma fraude acadêmica, um texto verborrágico e prolixo, mas sem sentido algum, propositalmente escrito com grande poder de sedução devido o excesso de palavras difíceis e citações aparentemente eruditas, cujo propósito é testar o rigor acadêmico e a legitimidade de instituições que se pretendem bastiões de cultura acadêmica sobre determinada disciplina[2].

Dadas características desse tipo de escrito, espera-se que nenhuma instituição acadêmica séria aprove sua publicação, todavia o escrito de

Dr. Maarten Budry

Dr. Maarten Boudry (1984). Pesquisador  e Membro Docente do Depto. de Filosofia da Universidade de Ghent (Bélgica) 

Boudry foi aprovado para as publicações.

Este episódio parece comprovar que não apenas a religião cristã, em suas expressões mais populares, mas também suas expressões mais requintadas, representadas pelo labor teológico – os seminários, as conferências, os periódicos e outros – são indignos de crédito.

A Teologia enquanto instituição cristã pretende ser um conhecimento “científico e racional das coisas divinas”, mas não consegue distinguir entre um conhecimento fundamentado de uma fraude acadêmica, na área mesma em que se pretendem especialistas.

O presente escrito pretende refletir sobre o significado da submissão a instituições de ensino e teológico de textos no estilo Sokal, e, também pretende demonstrar que a eficácia desse tipo de teste é garantida por uma defecção intrínseca à constituição do próprio cristianismo.

O Texto.

Se há realmente uma batalha entre a religião e a antirreligião, em especial entre o cristianismo e o ateísmo, é possível considerar cada argumento, cada referência, cada denúncia, cada gesto de um dos lados, em relação ao outro, como se fosse um “ataque” e a reação do outro como uma “defesa”, ou simplesmente um “contra-ataque”.

Por este ângulo a submissão de textos no estilo Sokal às instituições de divulgação e ensino teológico, aparentemente significa que os ateus e outros antirreligiosos consideram a teologia como a “última forma resistente do cristianismo”.

Desde ao advento da Modernidade (séc. XVI) o cristianismo começou a cindir-se em duas ‘instituições’, a igreja e a teologia.

Nos primórdios o cristianismo tinha na vida cotidiana e no serviço da igreja a formação espiritual e intelectual de seus fiéis, inclusive dos líderes, sendo sua ocupação de ordem prática e não teórica.

Ao longo dos séculos este modelo se manteve relativamente inalterado, apesar de, no período medievo, a educação “teológica” ter sido transferida para os mosteiros, ainda assim manteve-se intramuros da igreja.

O século XVI viu o surgimento dos primeiros seminários teológicos católicos, mas foi principalmente a partir dos meados do século XVIII, sobretudo com o advento do ‘movimento evangélico’ e o “boom” do racionalismo, que o cristianismo tomou de empréstimo os modelos seculares de formação, a universidade[3]. Estes modelos sobrepostos aos moldes do ensino teológico protestante de algumas universidades “misturaram- se” à mística da ‘religião do coração’, ensejando o ensino de uma teologia evangélica, biblicista e fundamentalista.

Esta teologia também tomou do racionalismo as categorias discursivas com objetivo de defender a fé e formar líderes competentes para a igreja.

Este é basicamente o momento histórico em que o cristianismo cindiu-se em duas ‘instituições’ diferentes: a igreja e a teologia.  A primeira seria o bastião da fé e a segunda o bastião da intelectualidade cristã.

A teologia se hipostasiou em face da igreja, assim como, o cristianismo, séculos antes, hipostasiara-se em face das comunidades dos fiéis, o que era

uma vida de simples testemunho da fé em Cristo Jesus, foi substituída gradativamente pelo assentimento intelectual num determinado conjunto de doutrinas, alicerçadas numa leitura muito questionável da Bíblia.  De igual modo o testemunho “itinerante” dos fiéis o mundo antigo, nas primeiras comunidades, fora gradativamente absorvido pela imposição de adesão a igreja como estrutura monolítico-centralizada.

Sobretudo a partir do século XIX e em parte do século XX, muitos jovens considerados fervorosos e fiéis na fé, perdiam-se ou sentiam-se fortemente abalados em suas convicções ao ingressarem nos seminários, advoga-se que isso se dava por causa da exigência do uso rigoroso da razão no exercício de análise do conteúdo da fé[4].

Porém, a divisão à qual nos referimos não trouxe benefícios aos cristãos, foi sim malévola, pois enfraqueceu suas fileiras de modo indelével.

Houve um “confinamento” da fé nas congregações, de modo que pessoas mais cultas, sobretudo os não cristãos, começaram a acreditar em um determinado estereotipo: os cristãos nas congregações são pessoas ignorantes, “burras”, estúpidas que se deixam manipular por pastores espertalhões!

Também foi criada a imagem dos teólogos como aqueles que dominam racionalmente a fé, como aqueles que são os únicos habilitados para pastorear a igreja e fazer frente ao secularismo e à crescente onda de incredulidade que “assalta” ao homem moderno.

Em consequência disto o século XX testemunhou muitos conflitos entre os teólogos e os pastores de campo; os primeiros criticavam a fé ingênua e “supersticiosa” da congregação, eles supunham que esta ingenuidade era alimentada por seus pastores, e, os últimos criticavam a atitude acentuadamente teórica dos teólogos, consideravam sua abordagem excessivamente racional, distante da realidade das congregações, além de acusarem os teólogos de se portarem diante dos demais fiéis e líderes com atitude de pretensa superioridade.

O caráter individual de muitos adeptos, suas intenções e seu testemunho não estão em causa. Todavia, analisando com rigor e imparcialidade é difícil negar que a igreja, enquanto congregação, o grupo de fiéis que busca orientar-se quase exclusivamente pela fé, entrou em colapso, e isso devido à sua própria ingenuidade, à superstição sob o título de piedade, mas, sobretudo à corrupção extrema de seus líderes; estes se envolveram no jogo de vaidades e se deixaram dominar pela ambição em conquistar o poder secular.

Esta conjuntura colocou o cristianismo em descrédito diante da sociedade secular e mesmo para muitos fiéis, o que se constata facilmente por meio dos dados de estatísticas acerca da crescente perda de fiéis a cada dia[5]. Muitos ex-adeptos do cristianismo se tornam seus mais ativos opositores, engrossando principalmente as fileiras do ateísmo; a veemência com que negam a fé cristã, estes que outrora a professavam, é proporcionalmente inversa à defesa que dantes dela faziam.

Os teólogos, e, a teologia, representada pelos seminários, aparentemente são a única frente de resistência ainda fortificada contra o secularismo e o ateísmo, ao menos assim tem sido considerado pela igreja, sobretudo em sua corrente denominada ‘evangélica’.

Posto que, a igreja perdeu sua credibilidade e não consegue fazer frente ao

Será  a teologia  o último refúgio do cristianismo?

Será a teologia o último refúgio do cristianismo?

avanço da racionalidade científica e dos ataques do ateísmo “militante”, os teólogos foram reabilitados com o objetivo principal de defender a igreja, supostamente, sobre as mesmas bases científicas e racionais.

Esta atividade teológica, de cunho apologético, tem sido constante principalmente nos Estados Unidos da América (USA), onde o fundamentalismo cristão resiste ao secularismo crescente e às inquirições do ateísmo.

Mas, se pudéssemos provar rigorosamente que as pretensões acadêmicas dos seminários e outras instituições de ensino teológico não se sustentam? Se conseguíssemos demonstrar que todas as verborrágicas obras de teologia, racionalmente justificadas, não passam de quimeras sustentadas apenas pelo envoltório de um bom discurso?  A consequência não seria a desmoralização dos seminários, e, a desarticulação do discurso teológico frente aos nossos contemporâneos?

Aparentemente este é caminho mais eficiente para a derrocada final do cristianismo.

Há tempos livros têm sido escritos e documentários produzidos com o intuito de desmascarar ou refutar teorias acerca da fé ou da religião, tanto por parte de ateus, quanto por parte de religiosos. Há muito, debates públicos entre ateus e teólogos têm sido promovidos com o propósito de “dar a vitória” a um dos lados!

O uso do estilo Sokal parece ser um modo devastador de minar a autoridade das instituições de ensino teológico, pois, seu sucesso indica que apesar de se pretenderem eruditas, não sabem distinguir entre o que seja uma fraude acadêmica e o que seja um escrito sério com fundamentos epistêmicos acerca de assuntos em que deveriam ser exímios especialistas.

A possibilidade de eficácia desta espécie de ataque ao cristianismo tem como fonte a própria natureza desta religião, conforme sua moderna configuração, ou seja, o desvio do cristianismo, enquanto instituição, sua cisão em duas instâncias na tentativa em equiparar-se ao modelo secular, é que possibilita esta investida.

A bifurcação igreja/seminário feriu o principio de unidade do Evangelho, pois dividiu a igreja em uma classe de doutos e outra de símplices[6].

A própria existência de seminários atesta a inépcia da igreja em formar seus membros no Evangelho. A preocupação da igreja jamais deveria ter se demovido da existência em testemunho vivo de Cristo, para a elaboração teórica da fé. Os lideres da igreja nos primórdios se formavam na vivência, no seio das comunidades, eram homens simples, mas envoltos em uma aura de espiritualidade e autenticados pela prática do amor ao próximo, isso de tal modo que impactavam com seu testemunho mesmo aos homens que poderiam ser considerados mais incrédulos.

É possível pensar, de acordo com as características do Evangelho, que o Sokal pode afetar frontalmente a teologia, porque a sua esfera, o seu “lugar” (gr. ho tópos) é a imanência, ela é um exercício teórico marcado pelas contingências históricas[7], assim como os que nela se exercitam. Todavia o Sokal não pode afetar o Evangelho, porque sua essência está na esfera, no “lugar” de transcendência[8]. Dizer isso é assumir que a teologia, bem como a religião, é uma construção humana, e, portanto está marcada pelas contradições que o humano carrega em si enquanto ser de agonia. Mas, esta argumentação é em si mesma uma abordagem teológica, sobre a qual não pretendemos nos debruçar.

Conclusão.

O resultado das articulações políticas de Constantino, no século IV, sofreu dobras e desdobras ao longo dos séculos, marcado por momentos históricos vergonhosos: Cruzadas, a cisão na Reforma, as Guerras da Religião, a Inquisição, o silencio diante das atrocidades do nazismo e a cínica conivência com diversos regimes autoritários e ditatoriais em diversas partes do mundo.  Com este histórico o cristianismo parece ter encontrado o fim de seus recursos.

A Europa, outrora foco disseminador do cristianismo, está tomada por uma onda de incredulidade crescente, e nas Américas as igrejas também sofrem perdas consideráveis.

Se os teólogos conseguiam, de algum modo, salvaguardar as fronteiras da cristandade, sua seriedade teórica, além de ser questionada, está sendo testada e parece não alcançar êxito em seus resultados.

Não é possível terminar este escrito sem retornar, ainda que brevemente, à citação em epígrafe. Dentre os críticos da fé cristã Nietzsche foi o mais agudo e aquele que fez o melhor diagnóstico acerca do cristianismo. Ele pode dizer

Friedrich W. Nietzsche (1844-1900). O mai agudo crítico do cristianismo.

Friedrich W. Nietzsche (1844-1900). O mais agudo crítico do cristianismo.

que no cristianismo “[…] a humanidade se ajoelha diante da antítese daquilo que no início era o sentido e a lei do Evangelho […]”. É visível que ele opõe o Jesus do Evangelho ao cristianismo e o seu Cristo, pois em sua visão, o cristianismo apresenta ao mundo um antievangelho sob o título de Evangelho, além de transformar o ‘mensageiro feliz’ e gracioso no pregador de uma mensagem de ressentimento, que noutra parte, ele, designa pelas expressões “má-nova” e desevangelho[9].

Talvez toda esta situação, a queda do cristianismo, o fim da “civilização cristã”, abra espaço para o Evangelho, para vidas transformadas que não afirmam qualquer superioridade de si, mas se doam em verdade para que todos possam realizar-se em suas possibilidades reais. Talvez, seja necessário o esvaziamento dos templos para que haja o pleroma de Cristo naqueles que realmente a Ele se entregaram e mostram isso na entrega ao outro, na linguagem cristã: na entrega ao próximo.

Da morte de Deus, constatada por Nietzsche, sobe o cheiro pútrido que contamina os ares, e, esse cheiro nada mais é que o próprio cristianismo, suas doutrinas, suas práticas, seus ritos, sua teologia, enfim, tudo o que se constitui em detrimento do Evangelho.

Se as igrejas são túmulos de Deus, suas lapides os seminários são e as teologia o seu epitáfio.

Esperamos que haja realmente “a manhã do terceiro dia”!

Bibliografia.

CLEMENTE DE ALEXANDRIA. Stromata. In: www.earlychristianwritinngs.com/clement.html

LOUREIRO, Maria Amélia Salgado. (Coord.) História das Universidades, São Paulo, Estrela Alfa Editora, S/D.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Anticristo: Maldição do Cristianismo. Rio de Janeiro, Newton Compton Brasil Ltda., 1992.

THIELICK, Helmut. Recomendações Aos Jovens Teólogos e Pastores, São Paulo, Editora SEPAL, 1990.

http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/09/25/a-sokal-style-hoax-by-an-anti-religious-philosopher-2

http://projetophronesis.com/2013/03/26/um-trote-no-estilo-sokal-por-um-filosofo-antireligioso-a-sokal-style-hoax-by-an-anti-religious-philosopher/

http://censo2010.ibge.gov.br/noticias-censo?view=noticia&id=1&idnoticia=2170&t=censo-2010-numero-catolicos-cai-aumenta-evangelicos-espiritas-sem-religiao.

http://en.wikipedia.org/wiki/Alan_Sokal

 

http://skepp.be/nl/levensbeschouwing-evolutie/vrije-universiteit-voor-schut-met-namaakartikel#.Udg9wzuorqF


[2] Sugere-se como leitura introdutória acerca do que seja o trote no estilo Sokal (Sokal hoax) a página da Wikipédia: http://en.wikipedia.org/wiki/Alan_Sokal

[3] Importante lembrar que as Universidades têm origem ligada às transformações pelos quais passaram os ‘ensinos maiores ou gerais’ (lat. studium generale), importantes conjuntos de escolas monásticas e episcopais da Idade Média. Algumas dentre as mais importantes universidades norte-americanas nasceram com objetivo de reavivar a fé cristã, Harvard (1636) e a Princeton (1896), por exemplo, porém secularizaram-se no decorrer dos séculos.

[4] Sugiro a leitura de THIELICK, Helmut. Recomendações Aos Jovens Teólogos e Pastores, São Paulo, Editora SEPAL, 1990, o livro relata este fenômeno e propõe um lenitivo ao problema, uma espécie de código de ética que gerenciasse suas primeiras experiências nos seminários, este escrito, dentre outros, indica quais eram as dimensões do problema.

[5] O quadro no Brasil é relativamente diferente, enquanto análise estatística, o Censo Demográfico 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou um crescimento na população evangélica, que passou de 15% em 2000 para 22,2% em 2010, embora a maioria religiosa no Brasil ainda se declare de fé católica. Todavia, o mesmo Censo registrou um considerável aumento no número daqueles que se declaram sem religião, em 2000 eram quase 12,5 milhões (7,3%), e, em 2010 ultrapassam os 15 milhões (8,0%). Informações adicionais que revelam o perfil daqueles que integram cada uma das fileiras podem ser obtidas em http://censo2010.ibge.gov.br/noticias-censo?view=noticia&id=1&idnoticia=2170&t=censo-2010-numero-catolicos-cai-aumenta-evangelicos-espiritas-sem-religiao.

[6] Não ignoramos que na história da igreja este tipo de classificação não é estranha, Clemente de Alexandria, por exemplo, classificava os cristãos entre dois grupos: o simples fiel e o gnóstico, cristão perfeito (Strom. IV, 21; 130,1), porém, este caso se trata de uma topologia que visa um determinado fim no contexto de uma teoria específica. Já no exemplo do cristianismo contemporâneo, se trata de uma práksis que não se presta a uma justificativa teórica, na realidade é vergonhosamente mascarada sob um discurso de igualdade que não encontra qualquer ressonância na realidade.

[7] O próprio Boundry relativiza a importância de seu hoax, ao admitir que toda disciplina científica é suscetível à uma paródia, ainda que considere a teologia como aquela que é mais suscetível.

Vide: http://skepp.be/nl/levensbeschouwing-evolutie/vrije-universiteit-voor-schut-met-namaakartikel#.Udg9wzuorqF

[8] Embora o Evangelho seja de transcendência, sua virtude é exatamente participar, enquanto logoi de Deus, para os que creem assim, da automanifestação do Divino no plano da imanência.

[9] Vide: Nietzsche, O Anticristo, 39.

Um trote no estilo Sokal por um filósofo antireligioso (A Sokal-style hoax by an anti-religious philosopher)

Por Jerry A. Coyne


Sou um grande fã do Dr. Maarten Boudry, um filósofo belga que é pesquisador-bolsista do departamento de filosofia e ciências morais da Ghent University. Boudry passou muito tempo mostrando que religião e ciência são incompatíveis, atacando a distinção entre “naturalismo metafísico” e “naturalismo metodológico” (uma distinção bastante adorada pelos acomodacionistas), e geralmente humilhando (
pwning*) “teólogos sofisticados™.”

Vocês podem encontrar minhas discussões anteriores sobre o trabalho de Boudry aqui, aqui e aqui, e se vocês estão familiarizados como o escorregadio teólogo Alvin Plantinga, certifiquem-se de ler a nova resenha de Boudry sobre o livro de Plantinga “Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism. A resenha de Boudry está disponibilizada online, começando na p. 21 da the latest newsletter from The International History, Philosophy and Science Working Group.

Mas hoje eu apresentarei algo mais: um verdadeiro trote no estilo Sokal perpetrado por Boudry. Ele me informou ontem que submeteu um falso, pós moderno e teologicamente sofisticado resumo para duas conferências sobre teologia:

A propósito, eu pensei que você pudesse achar isso engraçado. Eu escrevi um resumo fraudulento cheio de baboseira (gibberish) teológica (no estilo Sokal) e o submeti a duas conferências sobre teologia, as duas das quais aceitaram de pronto . O resumo entrou nos processos da conferência de “filosofia reformacional”. Veja Robert A. Maundy (um anagrama de meu nome) na p. 22 do programa”.

Para não dar trabalho para você, leitor, eu reproduzo abaixo, com a permissão de Boudry, o resumo de “Maundy” . Note-se que ele inventou uma faculdade, também, mas a citação de John Haught é real.

Os paradoxos da desordem darwiniana. Acerca de uma reafirmação ontológica da ordem e da transcendência.

Robert A. Maundy, College of the Holy Cross, Reno, Nevada

Na perspectiva darwiniana, a ordem não é imanente à realidade, mas sim um aspecto de auto-afirmação de realidade na medida em que é experimentada por sujeitos situados. Contudo, não é tanto a realidade que é auto-afirmativa, mas a ordem estrutural criativa da realidade que se manifesta para nós. Ser-completo, em oposição ao Ser-um, subscreve o nosso sentido fundamental de localidade e particularidade no universo. A valorização da ordem qua significativa ordem, ao invés da ordem-em-si-mesma, foi completamente objetivada na cosmovisão darwinista. Esse processo de descontextualização e reificação do significado acabaram, em última instância, por conduzir à des-ordem’ ao invés da ‘esta-ordem’(this-order). Como resultado, o materialismo darwinista confronta-nos com a erradicação do significado da experiência fenomenológica da realidade. A teologia negativa, no entanto, sugere a reavaliação da desordem como um pressuposto necessário à ordem, esta sem a qual a ordem não pode ser pensada de uma maneira ordenada. Nesse sentido, des-ordem se dissolve em manifestações de ordem transcendentes ao reino materialista. De fato, ordem se torna somente transparente qua ordem na medida em que está situada em um contexto de caos e ausência de sentido. Essa oposição binária entre ordem e des-ordem, ou entre ordem e aquilo que perturba a ordem, encarna um paradoxo central do pensamento darwinista. Como Whitehead sugere, a realidade não é composta por substâncias materiais desordenadas, mas com eventos ordenados serialmente que são experienciados em um sentido subjetivamente significativo. A questão não é o que estrutura a ordem, mas qual estrutura é imposta na nossa concepção transcendente de ordem. Através do foco estrito sobre o desordenado estado do ser-presentado, ou da “incoerência de uma multiplicidade primordial”, como John Haught bem colocou, materialistas darwinistas perdem o sentido da definitiva ordem no desdobramento do ainda-não-ser. Contrariamente ao que Dawkins afirma, se nós reformularmos nosso senso de “localicidade” da existência dentro de um espaço de contingência radical do destino espiritual, então a ordem absoluta reemerge como uma possibilidade ontológica. O discurso da des-ordem sempre já incorpora um momento criativo que permite a si próprio transcender o contexto no qual encontra a si mesmo, mas também a encontrar conforto e “respostividade” em uma ordem absoluta na qual ambos engendram e retém significado. Criação é a condição de possibilidade do discurso que, por sua vez, evoca-se como apresentando a própria criação. Discurso darwinista é, portanto, somente uma emanação do discurso absoluto da des-ordem, e não o contrário, como materialistas brutos como Dawkins sugerem.

Eu desafio vocês a entenderem o que ele está dizendo, mas claro está que isso apela para aqueles que, mergulhados na Teologia Sofisticada™, adoram muitas palavras difíceis que nada dizem/significam, mas que de alguma forma parecem criticar o materialismo enquanto afirma o divino. Não fará mal também se você humilhar Dawkins algumas vezes.

Isso mostra mais uma vez o apelo da baboseira (gibberish = palavras que nada dizem) religiosa aos crentes educados, e demonstra que organizadores de conferências também não lêem o que publicam, ou lêem e acham que, se o texto é opaco (complicado, difícil) é porque deve ser profundo.


Traduzido livremente e sem muito rigor por Diego Azizi.
Fonte: http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/09/25/a-sokal-style-hoax-by-an-anti-religious-philosopher-2/

*Pwning (de pwned) é um estrangeirismo de gíria da internet usado comumente em comunidades de jogadores. Quer dizer que uma pessoa foi humilhada por outra pessoa, ou por um grupo. É uma variação de owned, porém mais ofensiva.

A religião de Darwin

Desidério Murcho

Universidade Federal de Ouro Preto

Ocorre por vezes, nos momentos mais pretensiosos de uma conversa despretensiosa, alguém mencionar, com um ar severo, três Grandes Questões Fundamentais: “Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?” Se alguém nessa conversa tiver um saudável sentido de humor, responderá imediatamente que é o Jacinto, filho dos Gouveias, veio de Odemira e vai para Loulé amanhã por volta das sete e meia, a menos que ainda consiga boleia hoje à noitinha. Caso contrário, menciona-se com ar douto o filósofo alemão Immanuel Kant, para dar supostamente mais peso às Questões.

Todavia, como acontece em muitos outros casos em que se fazem perguntas fundamentais, cedo se descobre que, além de um certo pretensiosismo na sua formulação, muitas pessoas não estão realmente interessadas em respostas cuidadosamente pensadas. O que realmente querem é um discurso poético, místico, inspirador. O que não querem é a verdade — a menos que esta corresponda exactamente ao que querem que a verdade seja. E o que querem? Que seja comezinha e antropocêntrica: os seres humanos no centro do universo, superlativamente importantes no esquema geral das coisas.

Charles Darwin — tal como Isaac Newton, Galileu Galilei e muitos outros cientistas que eliminaram uma parte importante da nossa ignorância — é ainda hoje uma ameaça para quem tem uma mentalidade antropocêntrica. E a reacção não se faz esperar: não podemos aceitar as suas ideias porque põem em causa a nossa dignidade. Esta é uma inversão curiosa das coisas, dado que em vez de considerar a verdade — sacralizada em tantas religiões — mais importante do que a nossa suposta dignidade, considera a nossa vaga e suposta dignidade mais importante do que a verdade. É um pouco como alguém que se julgava filho do Duque de Bragança e subitamente descobre que é filho de um modesto taxista; compreende-se que fique abalado, mas não é particularmente sábio fingir que a verdade de que não é filho de quem pensava que era pode ser mudada com a força da convicção. Mas será mesmo verdade que as ideias de Darwin põem em causa a nossa dignidade? Há razões para pensar que não e é isso que procurarei mostrar.

O que nos ensina a ciência contemporânea? Para começar pelo universo, é de uma dimensão que faz qualquer religião humana parecer provinciana. Até muito recentemente — quando os europeus andavam a matar-se entre si, na segunda guerra mundial — as pessoas não sabiam sequer que a Via Láctea, a nossa galáxia, era apenas uma de entre muitas outras galáxias. O número rigoroso de galáxias é ainda desconhecido e provavelmente sê-lo-á sempre; as últimas estimativas apontam para a existência de 125 mil milhões de galáxias no universo (mas talvez haja 500 mil milhões). Isto significa que se conseguíssemos visitar uma galáxia por segundo, demoraríamos mais de 4 mil anos para percorrê-las todas. Acontece que só na nossa galáxia há pelo menos 100 mil milhões de estrelas, o que significa que para percorrer todas as estrelas da nossa galáxia, ao ritmo de uma por segundo, demoraríamos apenas ligeiramente menos de 4 mil anos.

Se o provincianismo é fundamentalmente ignorância, a ciência é um dos seus mais importantes antídotos. No entanto, quando se ouve falar das Grandes Questões, raramente se ouve falar de algo tão simples como a dimensão do universo, ou até apenas da nossa galáxia. Há pessoas que pensam que há milhares de estrelas na nossa galáxia, o que é verdade apenas no sentido em que se há 100 mil milhões delas, também logicamente há milhares delas — mas é tão enganador falar de milhares de estrelas como seria falar de dezenas de pessoas para falar da totalidade da população humana.

Quando alguém se pergunta de onde veio a humanidade, se quiser honestamente conhecer a resposta, em vez de apenas inventar palavreado reconfortante, terá de se interessar pela ciência. E é aqui que Darwin não só nos deu pistas fundamentais, como nos fez ver as coisas de um modo radicalmente diferente. O princípio filosófico fundamental, e bastante intuitivo, que Darwin nos ensinou a rejeitar é o seguinte: do menos não pode vir o mais. Um caso em que se vê este princípio a funcionar é quando se argumenta que na origem do universo tem de estar uma inteligência. A força desta ideia não resulta apenas, como por vezes se pensa, do uso que se faz dela naquilo que em filosofia se chama o argumento do desígnio: o argumento que conclui que Deus existe porque há indícios de inteligência no modo como o universo está organizado. A ideia de que o universo teve um criador porque indicia inteligência é apenas um caso particular da ideia geral segundo a qual do menos não pode vir o mais.

Uma das formulações mais transparentes deste princípio filosófico é a do filósofo e matemático francês René Descartes — o que é apropriado, pois foi também ele o responsável pela adaptação à mentalidade moderna das ideias dualistas de Platão, segundo a qual o corpo é radicalmente distinto da alma. Descartes começa por levantar a hipótese de que tudo o que julga saber não passe de ilusão, talvez provocada por um génio maligno sumamente poderoso. Depois de concluir que, por mais que o engane, o génio maligno não poderá enganá-lo se ele não existir, Descartes fica com a tarefa de reconstruir o conhecimento a partir dessa modesta base. Como fazer tal coisa?

É neste passo do seu raciocínio que Descartes introduz o princípio de que do menos não pode vir o mais. Descartes raciocina que tem em si a ideia de um ser sumamente perfeito, a que chama Deus. Mas ao mesmo tempo também sabe que ele mesmo, Descartes, erra e se engana — afinal, está precisamente a admitir que o génio maligno o poderá enganar sempre que pensa ver uma árvore, por exemplo. De modo que conclui que Deus existe porque só de Deus poderia emanar a própria ideia de Deus que Descartes descobre em si. Porquê? Porque sendo Descartes imperfeito, não poderia ter inventado por si a ideia de um ser perfeito: do menos não pode vir o mais.

Podemos pôr em causa a aplicação particular que Descartes faz do princípio geral. Mas sem Darwin não teríamos como rejeitar a sua aplicação noutros casos em que parece magia que do menos possa vir o mais: como pode um animal dotado de capacidade para a poesia e a matemática, a filosofia e a física, ter origem em organismos semelhantes às amebas, sem qualquer intencionalidade, consciência, raciocínio complexo ou escrúpulo moral?

A resposta é que é possível porque a realidade é dinâmica, e não estática. Em particular, os organismos morrem e reproduzem-se. E basta que ao longo do tempo, por mero acaso, alguns organismos respondam de modo mais eficiente ao meio ambiente para que deixem mais descendentes. Se o que lhes permite responder de modo mais eficiente ao meio ambiente se transmitir aos seus descendentes, estes acabarão por substituir completamente os que deixam menos descendentes. Assim, a maior complexidade pode surgir da menor complexidade. Na verdade, a complexidade não entra sequer na equação: é apenas um acidente. Em alguns casos, maior complexidade poderá tornar mais eficientes as respostas de um organismo ao seu meio ambiente; noutros, isso poderá não acontecer. Quando acontece, do menos vem o mais. E até parece magia.

A nossa complexidade emocional, psicológica e cognitiva pode assim ser explicada de um modo profícuo e iluminante: emergiu das respostas eficientes dos organismos nossos antepassados ao seu meio ambiente. Não precisamos de uma divindade a dar-nos uma alma imortal. Pode ser que tenhamos tal coisa e que uma divindade no-la tenha dado. Apenas não precisamos dessa hipótese para explicar de onde viemos, quem somos e para onde vamos. Viemos de organismos menos complexos do que nós, somos organismos muitíssimo complexos e, como todos os outros organismos, tendemos para a extinção — que só poderá ser atrasada por alguns séculos ou milénios se recorrermos, ironia das ironias, não às religiões, mas à ciência e à tecnologia.

O que a ciência nos permite saber de nós mesmos é fascinante. Mostra, efectivamente, a nossa profunda ligação não apenas aos outros organismos do nosso planeta, mas ao nosso próprio planeta e ao universo no seu todo. Os átomos de que somos compostos tiveram origem nas mesmas fornalhas cósmicas que estão na origem do Sol. É esta irmandade fundamental com o restante universo que a ciência nos mostra. É por isso que, num certo sentido, a ciência é a religião mais genuína: se entendermos a religião no sentido do étimo da palavra, a função da religião é religar-nos a uma realidade mais fundamental, para lá das aparências enganadoras. Mas isso é precisamente o que faz a ciência. E a biologia evolucionista, de que Darwin é um dos fundadores, ensina-nos que essa ligação fundamental não ocorre apenas no que respeita aos nossos átomos, mas também no que respeita às características biológicas que mais valorizamos: os nossos afectos e emoções, a nossa inteligência complexa e sentido moral. É por isso que quem menciona as três Grandes Questões Fundamentais ao mesmo tempo que despreza, desconhece e não procura a ciência, está a simular um interesse nessas questões que realmente não tem.

Saímos nós diminuídos ou humilhados do conhecimento de nós mesmos que nos dá a ciência? Dificilmente. Por um lado, porque qualquer ser deste imenso universo que desenvolva a complexidade suficiente para poder descobrir a imensidão do universo em que habita é, só por isso, notável. Pó de estrelas a calcular cuidadosamente quantas galáxias há no universo é uma imagem que não parece humilhante; bem pelo contrário. Filhos de deuses omnipotentes e sumamente sábios a fazer tal cálculo é que parece humilhante, pois tais deuses sabem disso sem precisar de quaisquer cálculos, supostamente — apenas as suas criaturas, diminuídas, têm de recorrer a tão prosaicos métodos, um pouco como uma criança tem de fazer contas num papel, concentradamente, para saber quanto é 16 mais 3.

Por outro lado, o suposto estatuto “superior” dos seres humanos (note-se como os termos para hierarquias sociais estão associadas a quem, numa árvore, está mais acima ou mais abaixo), relativamente aos restantes organismos, é conseguido, nas religiões, à custa do estatuto imensamente inferior dos seres humanos perante os deuses. Ora, se abandonarmos os termos sociais inadequados — “inferior,” “superior” — as diferenças objectivas entre nós e os outros animais persistem: de todos os animais do nosso planeta, só nós sabemos sequer que existimos num planeta. A nossa complexidade cognitiva, psicológica e emocional, assim como o nosso sentido moral, não ficam diminuídos pelo facto de terem uma origem biológica modesta. Afinal, os mais poderosos dirigentes religiosos ou políticos humanos tiveram origem em bebés indefesos e ignorantes, que usavam fraldas e só com muita dificuldade aprenderam a andar, e nem por isso perdem a sua dignidade. Do mesmo modo, as nossas origens biológicas modestas em nada nos diminuem.

Concluo com as palavras do poeta António Gedeão, que se aplicam na verdade a qualquer cientista: “Eu queria agradecer-te, Galileo, / a inteligência das coisas que me deste.” Todos nós, organismos biológicos inteligentes e em busca permanente da inteligência mais profunda das coisas, devemos este agradecimento a Darwin. Este cientista, e outros como ele, honram a nossa espécie biológica — e honrariam qualquer ser de qualquer galáxia — porque nos revelam a verdade e nos religam com o universo, como nenhuma religião humana o fez.

Fonte: http://criticanarede.com

Os limites da lógica tradicional, o imperativo de um desenvolvimento no rigor dedutivo em favor da matemática, e os benefícios da nova lógica na conferência O Estados Unidos e o Ressurgimento da Lógica, de W.V Quine

Texto feito pelo colaborador do Projeto Phronesis: André Luiz Avelino – Graduando em Filosofia – FFLCH – USP

Introdução

A conferência de Willard Van Ornam Quine, proferida em 3 de julho de 1942[1] na sede da União Cultural Brasil-Estados Unidos, caracteriza-se pelo desenvolvimento de uma exposição argumentativa em favor da nova lógica. Argumentação esta justificada na constatação de limites da lógica aristotélica em relação a sua aplicabilidade a análise de raciocínios complexos, e na verificação de que esta mesma lógica não permite a solução de problemas concernentes à matemática contemporânea a Quine. Sendo assim, o objetivo do atual trabalho é mostrar a linha argumentativa de Quine, e apresentar, de modo sucinto, os resultados positivos que esta nova lógica alcançara em benefício à matemática, à filosofia e às ciências em geral, até período da conferência em questão, elencados pelo próprio conferencista.

Limitação da Lógica Tradicional

Buscando cercar o campo intelectual que diz respeito à lógica, Quine, no preâmbulo de sua conferência, determina que a lógica está relacionada com o raciocínio, e subdivide-a: em um sentido amplo ela é composta pela epistemologia, pela lógica indutiva e pela lógica dedutiva; Mas, em um sentido estrito a lógica é subdividida somente em lógica indutiva e lógica dedutiva. Neste sentido, a lógica ocupa-se de maneira prática com a afirmação de princípios que objetivam direcionar e favorecer o raciocínio.

Esta característica prática da lógica estrita, para Quine, é útil às ciências exatas e, também, às ciências naturais. A parte indutiva da lógica apresenta, de certa forma, como se deve realizar-se uma “conjectura inteligente” por meio de observações de eventos, ou seja, generalizações. A parte dedutiva, por sua vez, diferentemente da indutiva não se satisfaz, meramente, com conjecturas, mas, seu âmbito prático permite o teste de tais conjecturas, é a pedra de toque, conduzindo as hipóteses “a outros enunciados que são consequências inexoráveis dos dados” (Quine, 1945, p. 270). Havendo, pois, conflito entre um enunciado e os dados, deve-se recusar a hipótese.

Quine constata que a lógica, em sua atividade prática de guiar os raciocínios, “se ocupa tanto com as estruturas gerais e abstratas que forma a base de todas as regras do raciocínio dedutivo, que a designação arte de raciocínio parece estranha” (Quine, 1945, p. 271).

São estas considerações das funções práticas da lógica, mais precisamente da lógica dedutiva, que permitem a Quine a introdução do questionamento da aplicabilidade prática da lógica Aristotélica ou tradicional.

Composta principalmente pela silogística, a lógica tradicional foi reputada por Kant como acabada e completa, diz Quine. Todavia, os raciocínios dedutivos eram efetuados “de maneira pouco relacionadas às da lógica existente” (Quine, 1945, p. 271). Continuar lendo