Parmênides

 PARMENIDES

Na Roma antiga Heráclito era conhecido como o “filósofo chorão”. Contrastava-se-o ao filósofo risonho, o atomista Demócrito. O contraste seria mais apropriado se estabelecido com Parmênides, o patrono da escola italiana de filosofia no início do século V. Para a Atenas do período clássico, Heráclito era o proponente da teoria de que tudo estava em movimento, em oposição a Parmênides, para o qual nada estava em movimento. Platão e Aristóteles se empenharam, de diferentes modos, a defender a audaciosa tese de que algumas coisas estavam em movimento e algumas estavam em repouso.

Segundo Aristóteles (Met. A 5, 986b21-5), Parmênides foi um discípulo de Xenófanes, embora muito jovem para ter estudado com ele em Colofão. Tendo passado a maior parte de sua vida em Eléia, cerca de 113 quilômetros ao sul de Nápoles, pode ter sido ali que tenha encontrado Xenófanes, em uma de suas caminhadas. À semelhança de Xenófanes, era um poeta, e compôs um poema filosófico em versos duros do qual chegaram até nós 120 linhas. Ele é o primeiro dos filósofos cujos escritos chegaram até nós em fragmentos contínuos que são de fato substanciosos.

O poema que escreveu consiste de um prólogo e duas partes, uma chamada “O caminho da verdade”, a outra “O caminho da opinião que morre”. O prólogo nos apresenta o poeta em uma carruagem na companhia das filhas do Sol, deixando para trás as moradas da noite e viajando rumo à luz. Eles alcançam os portões que conduzem aos caminhos da noite e do dia – não fica claro se estes são os mesmo que conduzem à verdade e à opinião [que morre]. Seja como for, a deusa que lhe dá as boas-vindas em sua busca lhe diz que ele deve instruir-se a respeito de duas coisas:

Do âmago inabalável da verdade bem redonda,

E de opiniões de mortais, em que não há fé verdadeira.

(KRS 288, 29-30)[i]

E há somente duas possíveis rotas para o inquérito:

Os únicos caminhos de inquérito que são a pensar:

O primeiro, que é e portanto que não é não ser,

De Persuasão é o caminho (pois à verdade acompanha);

O outro, que não é e portanto que é preciso não ser.

(KRS 291, 2-5)[ii]

(Peço ao leitor que acredite que o teto grego de Parmênides é tão duro e desconcertante quando sua tradução[iii].) “O caminho da verdade” de Parmênides, assim tão enigmaticamente introduzido, marca uma época da filosofia. É o texto fundador de uma nova disciplina: a ontologia, ou metafísica, a ciência do Ser.

Tudo o que existe, tudo o que possa ser pensado, não é para Parmênides senão o Ser. O Ser é um e indispensável, não possui começo ou fim e não está sujeito ao câmbio do tempo. Quando a água de uma chaleira se evapora, isto pode ser, nas palavras de Heráclito, a morte da água e o nascimento do ar, mas para Parmênides ao é morte ou nascimento do Ser. Sejam quais forem as mudanças que possam ocorrer, elas não são mudanças do ser para o não-ser, mas são sim mudanças no Ser. Mas na verdade, para Parmênides, não há sequer mudanças. O Ser é eternamente o mesmo, e o tempo é irreal, porque o passado, o presente e o futuro são uma coisa só.

O mundo cotidiano de mudança aparente é descrito na segunda parte do poema de Parmênides, “O caminho da aparência”, que é introduzido assim por sua deusa:

Conduzo assim a um fim minha palavra e pensamento confiáveis,

Uma história da Verdade. O resto é algo de outra sorte –

Um pacote de mentiras que revelam as crenças dos homens.

(KRS 300)

Não fica claro o porquê de Parmênides ter se sentido obrigado a reproduzir as falsas noções que são acalentadas por iludidos mortais. Se tomarmos a segunda parte de seu poema fora de contexto, teremos aí uma cosmologia muito próxima da tradição dos pensadores jônicos. Aos pares de opostos conhecidos, Parmênides acrescenta a luz e a escuridão, e Aristóteles reputa a ele a introdução do Amor como a causa eficiente de tudo(Met. A 3, 984b27). “O caminho da aparência” inclui de fato duas verdades até então em geral desconhecidas:

  1. A Terra é uma esfera (DL 9,21);
  2. A Estrela da aurora [o Sol] é o mesmo que a estrela do anoitecer.

A descoberta não creditada de Parmênides iria prover os filósofos da geração posterior com um modelo para as afirmações de identidade.

KENNY, Anthony. Uma Nova História da Filosofia Ocidental. Volume I. Filosofia Antiga. Edições Loyola. PP. 41-43

 


[i] Tradução de José Cavalcante de Souza, in Pré-socráticos, São Paulo, Abril Cultural, 1973, 147 (Os pensadores I). (N.T.)

 

 

 

[ii] Ibid, 148. (N.T.)

[iii] A observação do autor quando a sua tradução dos versos de Parmênides vale também para a tradução citada. Para os que queiram conhecer a versão de Anthony Kenny, segue sua versão para o inglês: “Besisdes trustworthy truth’s unquaking heart/Learn the false fictions of poor mortals’art”; “Two ways there are of seeking how to see/One that it is, and is not to be -/That is the path of Truth’s companion Trust -/The other it is not, and not to be it must”. (N.T.)

Oswaldo Giacóia – O Impacto de Nietzsche no Séc XX – Eterno Retorno, Niilismo, Homem Superior

Oswaldo Giacóia fala sobre as idéias de Nietzsche e a confrontação com o mundo contemporâneo; diferenças entre niilismos ativo e passivo e entre homem superior e além do homem.

 

Ou pelo link direto aqui.

O simbólico divino na natureza.

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Podemos dizer que toda criação espelha o Divino, cada qual em sua própria dimensão de ser. Tudo o que existe em certo sentido serve como um veículo de expressão do Eterno. Por esse ângulo, as criaturas podem ser encaradas como símbolos ou metáforas do Divino. Uma bela figura está no livro de Salmos onde é dito: “Porque o Senhor Deus é um sol…”[1] Significa isso, que o sol seja Deus? Ou, que como este é apenas mais um dentre os milhares, talvez milhões, de sóis existentes no Universo, Deus seja apenas mais um dentre os deuses?

É muito improvável! Há maior probabilidade que signifique ser o sol uma metáfora do Divino, este imenso astro no firmamento possui (sempre guardando as devidas proporções) atributos que espelham ao seu Criador. O sol é fonte de luz e calor para nosso planeta, assim, como o Eterno é a fonte de luz a todo o aquele que Nele crê e fonte de calor nos momentos em que a frieza espiritual assalta nossa alma. Sem o sol não haveria vida, da mesma forma sem Deus não há vida, como diz o livro de Provérbios: “O temor do Senhor é fonte de vida, para desviar dos laços da morte.”[2] O sol irradia por sobre a Terra, assim como “o Eterno dos altos céus”(expressão muito usada pelos profetas) também irradia suas bênçãos sobre nós que somos terra (Adâm quer dizer, homem e humano, que provavelmente vem de uma raiz que significa vermelho ou escuro, donde temos adamáh significando pó da terra) uma referência a cor avermelhada da terra do “Crescente Fértil”. O sol tem a lua como seu satélite natural, a lua é um símbolo do feminino e não possuí luz própria, mas, reflete a luz do sol, da mesma forma, a lua representa nação de Israel, e os cristãos crêem que represente a Igreja, ambas não possuem luz própria, mas, refletem a luz de Deus, por isso no Cântico dos Cânticos é dito:

“Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército com bandeiras?”[3]

Temos então, a possibilidade de observar como os elementos criados podem nos ensinar grandes verdades sobre o Criador. É quase certo que a explicação dada a Arjuna pelo Senhor Krsna (Krishna) no Décimo capítulo do Bhagavad-Gita:

“…entre as luzes, sou o Sol radiante; …entre as estrelas, sou a Lua… e das massas de águas , sou o oceano…”[4]

Ou a palavras de Jesus no Evangelho de Tomé – O Dídimo:

“…Parti um (pedaço de) madeira, lá estou; levantai uma pedra, e ali me encontrareis.”[5]

Possam ser entendidas como uma afirmação deste princípio. O grande perigo é que confundamos o símbolo com o Simbolizado, o significante com o Significado. Há em Agostinho uma bela passagem onde indícios dessa possibilidade de confusão o assaltaram no início de sua busca pela resposta a pergunta :quem é Deus?

“Perguntei-o a terra e disse-me: – Eu não sou. E tudo o que nela existe, respondeu-me o mesmo. Interroguei o mar, os abismos e os répteis animados e vivos e responderam-me: – Não somos teu Deus; busca-o acima de nós. Perguntei aos ventos que sopram; e o ar, com seus habitantes respondeu-me: – Anaxímenes está enganado; eu não o teu Deus. Interroguei o céu, o sol, a lua, as estrelas e disseram-me: – Nós também não somos o Deus que procuras. Disse a todos os seres que me rodeiam as portas da carne: Já que não sois o meu Deus, falai-me do meu Deus, dizei-me ao menos, alguma coisa dEle. E exclamaram com voz forte: -Foi Ele quem nos criou.” [6]

Toda criação traz em si algo de seu criador, carrega os sinais que caracterizam-na como criação deste e não daquele artista. Da mesma forma:

“Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz.”[7]

Não necessitam das palavras para transmitir sua mensagem de exaltação ao Criador, pois, as palavras são formadas por conjuntos de símbolos gráficos e neste caso tudo é um símbolo e o conjunto total da criação a mensagem!

Por esta perspectiva, entende-se que o panteísmo e o animismo são contados entre nossos equívocos mais comuns, ao atentarmos para a beleza divinal da criação ou ao ouvirmos suas “vozes”, sem o devido preparo espiritual, tendemos a considerar que a criação fala de si própria e confundimos a criatura com o Criador! O Apostolo Paulo, diz dos que assim procedem:

“Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.”[8]

Essa confusão nos coloca numa situação de anômala ignorância perante Deus, e caracteriza um estado de cegueira espiritual tão acentuado que é chamado por uma palavra grega que significa “ tornar-se tolo” emwranqhsan – a tradição vedantina afirma que a causa de todos os males que nos assolam é a ignorância, “avidyã” (alguns especialistas dizem nescidade, o que nos remete ao conceito hebraico sobre a raiz do ateísmo, ou agnosticismo[9]). Portanto, uma correta apreensão espiritual do mundo e de tudo o que nele há, envolve a noção que toda perfeição, beleza, dinâmica e sabedoria, dentre outros atributos da natureza são apenas metáforas fragmentárias da Perfeição, Beleza, Dinâmica e Sabedoria do Eterno Criador e apontam na direção dos céus que anunciam a imensidão Daquele que os criou!

Temos então, a tarefa de ir além dos símbolos em direção do Verdadeiro e Único Significado de tudo que existe.


[1] Salmo. 84.11a.

[2] Provérbios.14:27.

[3] Cântico dos Cânticos. 6:10.

[4] Bhagavad-Gita. 10:21b,c; 24 b,c.

[5] Evangelho de Tomé, o Dídimo. Vs.77b.

[6] Agostinho. As Confissões. Livro 10: 6.

[7] Salmos. 19:1-3.

[8] Romanos. 1:22 e 23.

[9] Salmos. 14: 1. “Disse o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, fazem-se abomináveis em suas obras,…”

Bibliografia

AGOSTINHO, Santo. – Confissões. Livraria Apostolado da Imprensa. 4ª. Edição, Porto – Lisboa. 1952.

ALMEIDA, João Ferreira (Trad.) Bíblia Sagrada: Edição Revista e Corrigida. Imprensa Bíblica do Brasil. Rio de Janeiro, s/d.

MEYER, Marvin. – O Evangelho de Tomé: as sentenças ocultas de Jesus. Editora Imago, Rio de Janeiro, s/d.

PRABHUPÃDA, A.C. Bhaktivedanta Swami. – Bhagavad-Gitã como ele é. The Bhaktivedanta Book Trust. 4ª. Edição, São Paulo, 2006.