Os escritos histórico-políticos de Immanuel Kant


Introdução

O presente texto tem como meta, uma breve introdução ao pensamento político kantiano (também chamado de reflexão sobre a filosofia da história), pensamento esse que, em nossa época e particularmente em nosso país, ainda é muito pouco estudado.

Kant não possui uma obra em particular, a respeito de sua concepção de filosofia da história, entretanto, esse pensamento se encontra distribuído em vários opúsculos que escreveu entre os anos de 1780 e 1790.

Nosso texto pretende ser um tipo de “mapa da mina”, onde a intenção é fornecer uma visão geral desses textos kantianos. Observamos que essa introdução (e qualquer introdução) nunca, jamais substituirá os textos originais. Portanto, nosso “mapa” é um encorajamento para se enfrentar os textos originais de frente, com paciência e rigor, pressupostos indubitavelmente necessários para compreender qualquer texto filosófico de maneira adequada e correta.

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Entre a loucura e sua história – Descartes e Montaigne na História da Loucura

Introdução

Nosso trabalho tem, como primeiro objetivo, estruturar dois textos de dois autores diferentes (Michel de Montaigne e René Descartes), e esclarecer as idéias ali contidas.

Um segundo objetivo será, identificar as relações entre loucura e razão, verdade e falsidade e possibilidades e limitações do conhecimento humano, nas obras desses dois autores.

E por último, o terceiro objetivo será relacionar os dois autores, encontrando, se possível, pontos de contato e diferenças, através de uma ótica foucaultiana dentro da história da loucura.

Montaigne e a “loucura da razão”

Montaigne começa seu ensaio, intitulado “Da loucura de opinar acerca do verdadeiro e do falso unicamente de acordo com a razão”, relacionando a simplicidade e a ignorância à nossa facilidade em acreditar e em nos deixar persuadir externamente, pois “acreditar é por assim dizer o resultado de uma espécie de impressão sobre a nossa alma, a qual recebe tanto melhor quanto mais tenra e de menor resistência”.[1] Ora, quanto mais vazia é a alma e quanto menos intelecto possuem os indivíduos, diz Montaigne, mais fácil é se deixar levar através da opinião de outrem. Contudo, seria presunção de nossa parte condenar as opiniões inverossímeis, os fenômenos que nossa razão não consegue explicar, etc…, pois isso caracteriza um “defeito comum aos que estimam ser mais dotados de razão que o homem normal”.[2]

A razão, por vezes, nos condiciona a rejeitar de maneira absoluta aquilo que para ela é inverossímil e digna de dúvida, e seria um passo ilegítimo, diz Montaigne, atuar desse modo. “O maior sintoma de loucura no mundo é reduzir essa vontade e essa força à medida de nossa capacidade e de nossa inteligência”.[3]

É apenas através do hábito, que consideramos a veracidade ou a falsidade de alguma coisa. Se nos deparássemos sempre com fenômenos “sobrenaturais”, por exemplo, com fatos que para nós parecem inverossímeis, não os julgaríamos tal como julgamos, e eles perderiam seu signo de “maravilhas”. Montaigne nos exemplifica isso com uma passagem de Lucrécio que diz: “familiarizados com as coisas que cotidianamente vemos , não as admiramos mais e não procuramos entender as causas disso”.[4]

Seguindo o texto de Montaigne, parece-nos que através da nossa crença em alguém digno de confiança, fatos inverossímeis possam ser verdadeiros. Contudo, “se seus testemunhos não bastam para nos convencer, sejamos ao menos prudentes em nosso julgamento, pois considerá-las impossíveis é vangloriar-se de saber até onde vão a possibilidade e a impossibilidade, o que, sem dúvida, é presunção exagerada”.[5] Portanto, acreditar que unicamente nossa razão e nosso intelecto possam nos levar ao verdadeiro e o falso, é acreditar que o crivo da razão é irrefutável e absoluto, o que para Montaigne, é uma loucura. A razão, por si só, não nos conduz simplesmente ao conhecido, mas também nega o desconhecido, o transformando em dúvida e também em falsidade.

Mais uma vez, parece-nos, que para Montaigne, a confiança e a crença em pessoas que possuem autoridade e respeito, não por serem somente  virtuosas e piedosas mas também inteligentes e capacitadas, devem ser levadas em conta, pois, “ainda que não trouxessem nenhum argumento razoável, eles me persuadiriam com a sua autoridade”.[6]

Montaigne, ainda nos lembra, que nosso julgamento já caiu inúmeras vezes em contradição, e o que antes era tido como absolutamente verdadeiro (como artigos de fé, por exemplo), hoje não passam de fábulas, ou seja, o julgamento da razão pode ( e efetivamente é) ser tão falho quanto qualquer outro.

Portanto, fiar-se unicamente na razão, segundo Montaigne, é limitar nossas possibilidades de conhecer, determinando o falso e o verdadeiro, o possível e o impossível de maneira arbitrária e caindo desse modo no erro, ou mais, na ignorância daquilo que nos ultrapassa e não conseguimos capturar e nem compreender.

Descartes e a “insensatez irracional”

Descartes inicia sua primeira meditação, na obra “Meditações”, afirmando que lhe era necessário se livrar de todas as opiniões que  dava crédito e começar a reconstruir desde os fundamentos “se quisesse estabelecer algo de firme e de constante nas ciências”[7], ou seja, no conhecimento humano. Diferente de uma dúvida vulgar, essa dúvida de Descartes consiste em uma decisão, da qual todos os homens dotados de razão podem, e deve ter.

Para tal “reconstrução”, Descartes se baseará unicamente naquilo que   lhe chegará através da razão, “uma vez que a razão já me persuade de que não devo menos cuidadosamente impedir-me de dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e indubitáveis, do que às que nos parecem manifestamente ser falsas, o menor motivo de dúvida que eu nelas encontrar bastará para me levar a rejeitar todas”.[8]

Porém, comparando o conhecimento à um edifício, Descartes não examinará cada dúvida em particular, pois o trabalho seria extremamente dispendioso, e se limitará a examinar os fundamentos, os alicerces desse “edifício científico”, tendo em vista que se os fundamentos não se sustentarem, todo o conhecimento desabará, como se o material utilizado para sustentar a construção fosse de péssima qualidade.

No caminho da dúvida, Descartes, no interior de seu método, desabilitará a confiança nos sentidos como forma de se adquirir um conhecimento verdadeiro e sólido: “Tudo o que recebi, até presentemente, como mais verdadeiro e seguro, aprendi-o dos sentidos ou pelos sentidos : ora, experimentei algumas vezes que esses sentidos eram enganosos, e é de prudencia nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou alguma vez”.[9]

Ora, o argumento do erro dos sentidos, e posteriormente da ilusão dos sonhos, fazem parte do caminho da dúvida, que no final, desembocará nas certezas (em última instância, na certeza da existência do “eu”). Portanto, esse caminho, utilizando o argumento do erro (dos sentidos) e o da ilusão (dos sonhos), nos levará, segundo Descartes, à certeza do cogito e a recuperar a verdade objetiva das coisas, postas em dúvida pela razão.

Contudo, em Descartes, há um desequilíbrio fundamental entre o erro e a ilusão de um lado, e a loucura de outro. A loucura é considerada de um modo totalmente diferente, ela atinge de imediato a verdade objetiva, não das coisas mesmas, mas do próprio eu pensante. Os sentidos podem nos enganar, porém, encontramos muitas coisas das quais não podemos duvidar, embora as conheçamos por intermédio deles, um exemplo é a existência de noso próprio corpo[10].

Os sonhos também podem nos enganar, entretanto, “é preciso ao menos confessar que as coisas que nos são apresentadas durante o sono são como quadros e pinturas, que não podem ser formados senão à semelhança de algo real e verdadeiro; e que assim, pelo menos, essas coisas gerais, a saber, olhos, cabeça, mãos e todo o resto do corpo, não são coisas imaginárias, mas verdadeiras e existentes”[11]. Portanto, sentidos e ilusões não atingem de fato a verdade objetiva, essencial das coisas.

A verdade mais clara e distinta, para Descartes, a primeira que fundamenta todas as outras, é a verdade do cogito, do eu pensante, o “penso, logo existo”. Essa confiança no pensamento, na razão, é indubitável. A dúvida reafirma a existência do eu pensante. Duvidar da verdade do cogito e não confiar inteiramente na razão (claro, utilizando o reto caminho e o método cartesiano) seria loucura descabida. O eu penso possui estatuto ontológico, vem seguido da afirmação da existência da subjetividade, sem a qual não posso conhecer nada, nem a mim mesmo.

Portanto, a linha entre a verdade e a falsidade das coisas, situa-se no escopo da razão e do método, sem o qual a razão não possui direção correta, e a possibilidade (ou impossibilidade) do nosso conhecimento não é limitada pelo pensamento, e sim pelos sentidos e pela falta de direção do espírito. Se pensamos, não podemos ser loucos, mas, se pelo contrário, não pensamos, nem sequer existimos.

Razão cartesiana e desrazão montaigniana em Foucault

No século XVI, a loucura possuía um estatuto diferente, em relação ao século XVII. Um exemplo, é a filosofia de Montaigne, onde o ser louco e o não ser louco não era tido como uma certeza. Não havia a certeza sólida da loucura e da desrazão dos homens, todos poderiam ser e não se ao mesmo tempo, loucos e sensatos. Não existe cisão definitiva. “Entre todas as outras formas de ilusão, a loucura traça um dos caminhos da dúvida dos mais freqüentados pelo século XVI. Nunca se tem certeza de não estar sonhando, nunca existe uma certeza de não ser louco”.[12]

Em Descartes, já no século XVII, essa cisão acontece. “A loucura implica a si própria”, e se exclui da razão. Loucura e razão se negam, pois, se sou louco, não penso e nem existo, e se penso, existo e não sou louco. A loucura não diz respeito à razão, (não mais) e se exclui do caminho da dúvida, que leva ao conhecimento. Mais uma vez, se duvido, não sou louco.

Se com Montaigne, fiar-se unicamente na razão como forma de descobrir a verdade era insensatez, com Descartes ocorre o oposto. É necessário guiar nossos conhecimentos unicamente através do crivo da razão, do pensamento, que determina quem eu sou e, em última instância, se sou realmente.

Com Descartes, então, há uma reviravolta, há uma fronteira explícita onde os racionais e os desarrazoados não possuem contatos, são antagônicos e não fazem parte nem de um e nem de outro simultaneamente, estão fadados a distanciarem-se para nunca mais se encontrar. A condição de possibilidade de um discurso sobre a loucura, portanto, está dada, para na modernidade (metado do séc. XVIII até hoje, para Foucault), e também para a concepção de loucura como doença mental.


[1] MONTAIGNE, M. Ensaios. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Abril Cultural, 1972, p. 93.

[2] Id. Ibidem.

[3] Idem. p. 94.

[4] Id. Ibidem.

[5] Id. Ibidem

[6] Montaigne, citando Cícero. p. 95

[7] Descartes, R. Meditações. Tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Junior. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 92.

[8] Id. Ibidem.

[9] Id. Ibidem.

[10] id. Ibidem. Ver p. 94, o argumento dos sentidos.

[11] id. Ibidem. Ver. p. 94, o argumento dos sonhos.

[12] Foucault, M. História da Loucura. Tradução de José Teixeira Coelho Neto. São Paulo: Perspectiva, 2008. p. 47.

Foucault: paralelo entre a “loucura” em Montaigne e Descartes (parte 2)

continuação da parte 1.

Descartes: o juízo de acordo unicamente com a razão e a loucura.

Descartes vendo quantos princípios mal fundamentados já havia estabelecido desde sua infância, se propõe seriamente a começar tudo de novo: se livrar das opiniões e a partir dos fundamentos estabelecer algo sólido e duradouro nas ciências.

Encontrando seu espírito livre depois de certos anos passados, se propõe a “demolir em geral todas as opiniões[1], não que se consiga provar que todas são falsas, “porém, contanto que a razão já me convence de que não devo com menor zelo evitar de dar crédito às coisas que não são totalmente seguras e incontestáveis, do que àquelas que nos aparecem claramente falsas, o menor indício de dúvida que eu nelas encontrar será suficiente para impelir-me a repelir todas”.[2] O que é necessário aqui é destruir “apenas” os alicerces que todas as outras cairão por conseqüência; todas as “antigas opiniões”.

Tudo o que considerou verdadeiro, aprendeu-o dos sentidos ou por intermédio deles. Mas se já nos enganou algumas vezes, é prudente jamais confiá-los novamente totalmente. Todavia, mesmo que todas as opiniões formadas por meio dos sentidos sejam duvidáveis ou inseguras, há outras que não podemos em sã consciência duvidar como, por exemplo, quando Descartes diz: “que eu me encontre aqui, sentado perto do fogo” ou que “eu poderia negar que estas mãos e este corpo sejam meus?” A resposta de Descartes é categórica: só dementes (loucos) não enxergariam tal evidência clara e distinta.[3]

Contudo, no sonho, temos as mesmas coisas que esses loucos. Nada parece ser tão claro nem tão inconfundível no universo dos sonhos. Muitas vezes Descartes diz ter sido enganado por ilusões análogas à realidade. E tanto é seu assombro sobre isto, pois não acha distinção nítida do que é vigília e do que é sono. Afinal, qual a certeza de se estar acordado, se tantas vezes nos enganamos? E, se este estado de sono é semelhante ao de um louco ou demente, o que nos faz dicernir que não estamos sonhando… quero dizer, que não estamos loucos?

A reposta não é definitiva, mas esclarece alguns pontos: mesmo que tudo que vivemos não seja como vemos, não passe de ilusões, o que sonhamos são “como quadros e pinturas”, e tem de haver uma semelhança ou representação da coisa real e verdadeira. Assim sendo, as coisas gerais, isto é, cabeças, mãos, o robe não são coisas imaginárias, e sim verdadeiras e existentes. Mas mesmo que possam ser fantásticas em algum sonho, ainda há coisas mais simples e universais que podemos afirmar verdadeiras – ao contrário das compostas. “Desse gênero de coisas é a natureza corpórea em geral, e sua extensão; juntamente com a figura das coisas extensas, sua quantidade, ou grandeza, e seu número; como também o lugar em que se encontram, o tempo que mede sua duração e outras coisas análogas”.[4][5]

Descartes tem antigas e habituais opiniões que sempre lhe voltam como a do Deus que lhe faz ter esse engano quanto ao claro e o evidente e, talvez, o fazendo errar a mera adição de dois números. Tendo o equívoco como uma forma de imperfeição, o autor estaria também imperfeito uma vez que toda alma vem Dele. Mas estes caminhos devem ser deixados de lado ou tomados com mais prudência, caso contrário, poderia apenas se enganar mais. Ele procura balancear tanto seus preconceitos a alcançar o conhecimento da verdade. “Portanto, tenho certeza de que, a despeito disso, não pode existir perigo nem equívoco neste caminho e de que não poderia hoje concordar em demasia com a minha desconfiança, já que no momento não se trata de agir, mas apenas de ponderar e de conhecer”.[6]

Mas, retomando a temática de Deus, presume ser ele um gênio maligno, poderoso e enganador, que dedica-se a enganar o ser humano sobre a evidência ou a verdade de todas as coisas, deixando dotar-se apenas da falsa crença ou juízo de possuir todas as coisas, como a mão, a cabeça, o robe, isto é, Deus nos faria todos loucos ou dementes e, uma vez que não se poderá dicernir se Deus nos engana ou não, como saberemos se vivemos a verdade ou a falsidade? Qual linha podemos julgar dividir os racionais dos loucos? Pois, se por essa falsa crença de realidade, diz Descartes, “não está meu poder chegar ao conhecimento de qualquer verdade, ao menos está ao meu alcance suspender meu juízo. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade, e prepararei tão bem meu espírito contra todas as artimanhas desse grande enganador que, por poderoso e enganador que seja, jamais poderá impor-me alguma coisa”.[7]

Enfim, Descartes temendo ao ser acordado desta ilusão em que descansava agradavelmente, em vez de alguma luz no conhecimento da verdade, encontrou uma luz pálida que não clareou a absoluta escuridão das dificuldades que acaba de agitar nesta Primeira Meditação. Mas que se recuperará através do cogito na Segunda Meditação, trazendo a certeza do próprio pensamento.

Paralelos: Montaigne e Descartes

Em Descartes, segundo Foucault, “A loucura afeta a verdade objetiva do sujeito que é sujeito pensante. Se penso, existo; se sou louco, não penso; portanto, se penso não sou louco e se sou louco nem penso nem existo”.[8] Sonho e loucura se diferenciam porque quanto ao homem que sonha “é possível supor que se está sonhando e identificar-se com o sujeito sonhador a fim de encontrar uma ‘razão qualquer para duvidar’”[9], o que o louco não pode, pois não pensa, “nem existe”. E a maior garantia para não se tornar este louco que não pensa é ter a primeira certeza das Meditações: cogito ergo sum. Assim, a razão será o fator crucial que separará o louco do são.

Em contrapartida, Montaigne tem a loucura como uma atitude de presunção e desmedida. O homem que pensa que pode responder a todas as perguntas apenas de acordo com a razão, para Montaigne, se encontra atuando como um louco. Em seus Ensaios, afirma ser prudente saber o limite em que se pode usar a razão e o juízo sobre o que é verdade e falso. Há coisas que não podemos ter juízo, que temos que ter apenas crença. Sendo este o lugar onde a razão não se encontra.

Assim, em uma disputa entre as duas idéias, Montaigne claramente diria que a atitude de Descartes é presunçosa, portanto, louca de não enxergar limite para o conhecimento da verdade pela razão. Enquanto Descartes pensaria ser Montaigne apenas um filósofo não provido do Método para distinguir a primeira certeza, o cogito, como  elemento de contraposição à loucura e meio para se conhecer a verdade.


[1] DESCARTES, René, “Meditação Primeira”. Em Meditações, trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, Col. “Os Pensadores”, S. Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 249

[2] DESCARTES, René, “Meditação Primeira”. Em Meditações, trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, Col. “Os Pensadores”, S. Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 250

[3] Nota de louco: O termo loucos corresponde ao latim amentes, ou seja, pessoas despossuídas de mente ou espírito, em suma, de pensamento, justo o que Descartes encontrará de mais verdadeiro em si mesmo; extravagante traduz demens, aquele que perdeu a mente, afastou-se dela. O latim joga ainda com o termo cucúrbita, que designa um cântaro ou uma ventosa geralmente feita de vidro, associando-o semanticamente a uma frase interior, não traduzida em francês, “ter cabeça feita de argila” (caput habere fictile); segundo os dicionários cucurbitœ caput, cabeça de cântaro, ou de ventosa, era expressão que indicava uma cabeça sem cérebro, oca por dentro; uma boa tradução, seguindo a conhecida expressão, seria”cabeça-de-vento”. Uma interessante interpretação desta passagem é dada por Michel Foucault. Em sua História da loucura, ele sustenta que a firme rejeição da hipótese da loucura do filósofo e do guiar-se pelo exemplo do louco que ocorre porque  mesmo no processo de dúvida, abundante em erros e ilusões, resta sempre um “resíduo de verdade”: não ser louco é condição de impossibilidade do pensamento”. A passagem das Meditações seria um exemplar maior do modo como o pensamento clássico considerou a loucura: pura negatividade, outro da razão que não participaria de modo algum do seu jogo, mesmo que dubitativo. O louco, a hipótese do Deus enganador, que logo aparecerá, eram as ameaças que deviam ser afastadas pela razão, possuída pelo sujeito que pensa. Cf. História da loucura na idade clássica, são Paulo, Perspectiva, 1991, parte I, cap. 2.

[4] DESCARTES, René, “Meditação Primeira”. Em Meditações, trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, Col. “Os Pensadores”, S. Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 252

[5] Daí ser certo dizer que as ciências dependentes da consideração de coisas compostas são incertas, como física e medicina. Já a aritmética e a geometria lidam com coisas simples e gerais, não se preocupando se seus objetos existem ou não.

[6] DESCARTES, René, “Meditação Primeira”. Em Meditações, trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, Col. “Os Pensadores”, S. Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 255

[7] DESCARTES, René, “Meditação Primeira”. Em Meditações, trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, Col. “Os Pensadores”, S. Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 255

[8] TANNUS, Salma. Foucault e a história da filosofia. P. 17

[9] FOUCAULT, Michel. História da loucura. Editora Perspectiva. P. 46