Conto Zen – A morte da xícara de chá

Era uma vez um grande mestre do Zen, uma escola de ensinamentos do Buda que tem uma maneira muito realista de encarar as coisas da vida. Esse grande mestre chamava-se Ikkyu. Desde pequeno mostrava grande inteligência e sempre encontrava uma maneira de resolver seus problemas.

Um dia, o menino estava brincando e deixou cair uma xícara de chá, que foi ao chão e se despedaçou. Acontece que a xícara pertencia ao mestre de Ikkyu. Era muito antiga e preciosa, e o mestre do menino a estimava muito. Preocupado com o acidente, Ikkyu ouviu o mestre chegar e, muito depressa, escondeu os pedaços da xícara atrás das costas. Quando o mestre apareceu, Ikkyu perguntou:

– Por que as pessoas morrem?

– É algo natural — respondeu o mestre. — Tudo tem um tempo de vida e depois morre.

Depois dessas palavras do mestre, Ikkyu lhe mostrou os pedaços da xícara quebrada.

Este conto faz parte do livro de coletânea Contos Budistas, recontados por Sherab Chödzin e Alexandra Kohn,  ilustrados por Marie Cameron, editado no Brasil pela Editora Martins Fontes, tradução de Monica Stahel, São Paulo, 2003

retirado do blog para ser zen

Publicado em:  on janeiro 30, 2010 at 2:37 pm Deixe um comentário
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Foucault: paralelo entre a “loucura” em Montaigne e Descartes (parte 2)

continuação da parte 1.

Descartes: o juízo de acordo unicamente com a razão e a loucura.

Descartes vendo quantos princípios mal fundamentados já havia estabelecido desde sua infância, se propõe seriamente a começar tudo de novo: se livrar das opiniões e a partir dos fundamentos estabelecer algo sólido e duradouro nas ciências.

Encontrando seu espírito livre depois de certos anos passados, se propõe a “demolir em geral todas as opiniões[1], não que se consiga provar que todas são falsas, “porém, contanto que a razão já me convence de que não devo com menor zelo evitar de dar crédito às coisas que não são totalmente seguras e incontestáveis, do que àquelas que nos aparecem claramente falsas, o menor indício de dúvida que eu nelas encontrar será suficiente para impelir-me a repelir todas”.[2] O que é necessário aqui é destruir “apenas” os alicerces que todas as outras cairão por conseqüência; todas as “antigas opiniões”.

Tudo o que considerou verdadeiro, aprendeu-o dos sentidos ou por intermédio deles. Mas se já nos enganou algumas vezes, é prudente jamais confiá-los novamente totalmente. Todavia, mesmo que todas as opiniões formadas por meio dos sentidos sejam duvidáveis ou inseguras, há outras que não podemos em sã consciência duvidar como, por exemplo, quando Descartes diz: “que eu me encontre aqui, sentado perto do fogo” ou que “eu poderia negar que estas mãos e este corpo sejam meus?” A resposta de Descartes é categórica: só dementes (loucos) não enxergariam tal evidência clara e distinta.[3]

Contudo, no sonho, temos as mesmas coisas que esses loucos. Nada parece ser tão claro nem tão inconfundível no universo dos sonhos. Muitas vezes Descartes diz ter sido enganado por ilusões análogas à realidade. E tanto é seu assombro sobre isto, pois não acha distinção nítida do que é vigília e do que é sono. Afinal, qual a certeza de se estar acordado, se tantas vezes nos enganamos? E, se este estado de sono é semelhante ao de um louco ou demente, o que nos faz dicernir que não estamos sonhando… quero dizer, que não estamos loucos?

A reposta não é definitiva, mas esclarece alguns pontos: mesmo que tudo que vivemos não seja como vemos, não passe de ilusões, o que sonhamos são “como quadros e pinturas”, e tem de haver uma semelhança ou representação da coisa real e verdadeira. Assim sendo, as coisas gerais, isto é, cabeças, mãos, o robe não são coisas imaginárias, e sim verdadeiras e existentes. Mas mesmo que possam ser fantásticas em algum sonho, ainda há coisas mais simples e universais que podemos afirmar verdadeiras – ao contrário das compostas. “Desse gênero de coisas é a natureza corpórea em geral, e sua extensão; juntamente com a figura das coisas extensas, sua quantidade, ou grandeza, e seu número; como também o lugar em que se encontram, o tempo que mede sua duração e outras coisas análogas”.[4][5]

Descartes tem antigas e habituais opiniões que sempre lhe voltam como a do Deus que lhe faz ter esse engano quanto ao claro e o evidente e, talvez, o fazendo errar a mera adição de dois números. Tendo o equívoco como uma forma de imperfeição, o autor estaria também imperfeito uma vez que toda alma vem Dele. Mas estes caminhos devem ser deixados de lado ou tomados com mais prudência, caso contrário, poderia apenas se enganar mais. Ele procura balancear tanto seus preconceitos a alcançar o conhecimento da verdade. “Portanto, tenho certeza de que, a despeito disso, não pode existir perigo nem equívoco neste caminho e de que não poderia hoje concordar em demasia com a minha desconfiança, já que no momento não se trata de agir, mas apenas de ponderar e de conhecer”.[6]

Mas, retomando a temática de Deus, presume ser ele um gênio maligno, poderoso e enganador, que dedica-se a enganar o ser humano sobre a evidência ou a verdade de todas as coisas, deixando dotar-se apenas da falsa crença ou juízo de possuir todas as coisas, como a mão, a cabeça, o robe, isto é, Deus nos faria todos loucos ou dementes e, uma vez que não se poderá dicernir se Deus nos engana ou não, como saberemos se vivemos a verdade ou a falsidade? Qual linha podemos julgar dividir os racionais dos loucos? Pois, se por essa falsa crença de realidade, diz Descartes, “não está meu poder chegar ao conhecimento de qualquer verdade, ao menos está ao meu alcance suspender meu juízo. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade, e prepararei tão bem meu espírito contra todas as artimanhas desse grande enganador que, por poderoso e enganador que seja, jamais poderá impor-me alguma coisa”.[7]

Enfim, Descartes temendo ao ser acordado desta ilusão em que descansava agradavelmente, em vez de alguma luz no conhecimento da verdade, encontrou uma luz pálida que não clareou a absoluta escuridão das dificuldades que acaba de agitar nesta Primeira Meditação. Mas que se recuperará através do cogito na Segunda Meditação, trazendo a certeza do próprio pensamento.

Paralelos: Montaigne e Descartes

Em Descartes, segundo Foucault, “A loucura afeta a verdade objetiva do sujeito que é sujeito pensante. Se penso, existo; se sou louco, não penso; portanto, se penso não sou louco e se sou louco nem penso nem existo”.[8] Sonho e loucura se diferenciam porque quanto ao homem que sonha “é possível supor que se está sonhando e identificar-se com o sujeito sonhador a fim de encontrar uma ‘razão qualquer para duvidar’”[9], o que o louco não pode, pois não pensa, “nem existe”. E a maior garantia para não se tornar este louco que não pensa é ter a primeira certeza das Meditações: cogito ergo sum. Assim, a razão será o fator crucial que separará o louco do são.

Em contrapartida, Montaigne tem a loucura como uma atitude de presunção e desmedida. O homem que pensa que pode responder a todas as perguntas apenas de acordo com a razão, para Montaigne, se encontra atuando como um louco. Em seus Ensaios, afirma ser prudente saber o limite em que se pode usar a razão e o juízo sobre o que é verdade e falso. Há coisas que não podemos ter juízo, que temos que ter apenas crença. Sendo este o lugar onde a razão não se encontra.

Assim, em uma disputa entre as duas idéias, Montaigne claramente diria que a atitude de Descartes é presunçosa, portanto, louca de não enxergar limite para o conhecimento da verdade pela razão. Enquanto Descartes pensaria ser Montaigne apenas um filósofo não provido do Método para distinguir a primeira certeza, o cogito, como  elemento de contraposição à loucura e meio para se conhecer a verdade.


[1] DESCARTES, René, “Meditação Primeira”. Em Meditações, trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, Col. “Os Pensadores”, S. Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 249

[2] DESCARTES, René, “Meditação Primeira”. Em Meditações, trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, Col. “Os Pensadores”, S. Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 250

[3] Nota de louco: O termo loucos corresponde ao latim amentes, ou seja, pessoas despossuídas de mente ou espírito, em suma, de pensamento, justo o que Descartes encontrará de mais verdadeiro em si mesmo; extravagante traduz demens, aquele que perdeu a mente, afastou-se dela. O latim joga ainda com o termo cucúrbita, que designa um cântaro ou uma ventosa geralmente feita de vidro, associando-o semanticamente a uma frase interior, não traduzida em francês, “ter cabeça feita de argila” (caput habere fictile); segundo os dicionários cucurbitœ caput, cabeça de cântaro, ou de ventosa, era expressão que indicava uma cabeça sem cérebro, oca por dentro; uma boa tradução, seguindo a conhecida expressão, seria”cabeça-de-vento”. Uma interessante interpretação desta passagem é dada por Michel Foucault. Em sua História da loucura, ele sustenta que a firme rejeição da hipótese da loucura do filósofo e do guiar-se pelo exemplo do louco que ocorre porque  mesmo no processo de dúvida, abundante em erros e ilusões, resta sempre um “resíduo de verdade”: não ser louco é condição de impossibilidade do pensamento”. A passagem das Meditações seria um exemplar maior do modo como o pensamento clássico considerou a loucura: pura negatividade, outro da razão que não participaria de modo algum do seu jogo, mesmo que dubitativo. O louco, a hipótese do Deus enganador, que logo aparecerá, eram as ameaças que deviam ser afastadas pela razão, possuída pelo sujeito que pensa. Cf. História da loucura na idade clássica, são Paulo, Perspectiva, 1991, parte I, cap. 2.

[4] DESCARTES, René, “Meditação Primeira”. Em Meditações, trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, Col. “Os Pensadores”, S. Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 252

[5] Daí ser certo dizer que as ciências dependentes da consideração de coisas compostas são incertas, como física e medicina. Já a aritmética e a geometria lidam com coisas simples e gerais, não se preocupando se seus objetos existem ou não.

[6] DESCARTES, René, “Meditação Primeira”. Em Meditações, trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, Col. “Os Pensadores”, S. Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 255

[7] DESCARTES, René, “Meditação Primeira”. Em Meditações, trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, Col. “Os Pensadores”, S. Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 255

[8] TANNUS, Salma. Foucault e a história da filosofia. P. 17

[9] FOUCAULT, Michel. História da loucura. Editora Perspectiva. P. 46

Foucault: paralelo entre a “loucura” em Montaigne e Descartes (parte 1)


Introdução:

Neste trabalho, é desenvolvido a temática da loucura da obra de Foucault, “A História da Loucura”. Mas não prolongando excessivamente, o foco aqui é o paralelo entre Montaigne e Descartes no assunto. Primeiramente, em Montaigne é explorado seu capítulo “da loucura de opinar acerca do verdadeiro e do falso unicamente de acordo com a razão”. Posteriormente, em Descartes, a primeira meditação. E, como conclusão, o paralelo no olhar de Foucault com ênfase no segundo capítulo em seu livro já citado.

Montaigne: juízo, razão e loucura.

Não é sem motivo que atribuímos à simplicidade e à ignorância a facilidade com que certas pessoas acreditam e se deixam persuadir, pois”[1], Montaigne pensa que “acreditar [que uma coisa é verdadeira] é por assim dizer o resultado de uma espécie de impressão sobre a alma(…) Quanto mais a alma é vazia e nada tem como contrapeso, tanto mais ela cede facilmente à carga das primeiras impressões”.[2] Por outro lado, classifica de tolo o ato de condenar como falso o que não parece verossímil, o que diz ser comum aos que pensam ter mais razão que o homem normal – ele mesmo confessa ter já sentido pena destes que acreditavam nestes, que julgava, “absurdos” ou “falsidades”.

A experiência, diz Montaigne, acrescenta algo a suas primeiras convicções, embora ele tenha procurado verificar as crenças que recusava, mas sua razão o “impeliu a reconhecer que condenar uma coisa de maneira absoluta é ultrapassar os limites que podem atingir a vontade de Deus[3] e a força da natureza; “e que o maior sintoma de loucura no mundo é reduzir essa vontade e essa força à medida de nossa capacidade e nossa inteligência[4]”. E, para ilustrar o assunto, exemplifica: “quem nunca viu um riacho, ao deparar com o primeiro, pensou que fosse o oceano; as coisas maiores entre as que conhecemos, nós as estimamos as maiores em seu gênero[5]. Citando Cícero argumenta que nós “familiarizados com as coisas que cotidianamente vemos, não as admiramos mais e não procuramos entender as causas disso[6]. Daí considerarmos que as coisas que não nos são absurdas ou inexplicáveis serem consideradas naturais mais por hábito do que por ciência. “O infinito poder da natureza deve ser julgado com mais deferência e tendo em conta nossa ignorância e nossa fraqueza”, ou seja, o limite de nossa razão. Montaigne diz que observaríamos a regra do “nada de mais” que Quílon recomenda se: “aprendêssemos com exatidão a diferença entre uma coisa e outra, entre o que está contra a ordem e a natureza, e o que se situa simplesmente fora do que admitimos comumente, entre não acreditar cegamente e não duvidar com facilidade.[7] Pois, presunção exagerada é julgar impossíveis coisas pouco verossímeis a que nos são contadas, pois prudente tem de ser este julgar e não o é “vangloriar-se de saber até onde vão a possibilidade e a impossibilidade”.[8]

Mas, e quanto aos milagres, que se lêem e se ouvem, se tratam de ignorantes e de simples de espírito, ou de perversos e impostores? Sobre os grandes autores destes milagres, entre eles Santo Agostinho e Santo Hilário, diz, citando Cícero, que: “ainda que não trouxessem nenhum argumento razoável, eles me persuadiriam com a sua autoridade”.[9] Sendo, assim, é muito perigoso, para Montaigne, desprezar o que não compreendemos. Mesmo que não apresentem nenhuma prova, a não ser seu testemunho, singular presunção ou loucura seria opinar sobre o verdadeiro e o falso unicamente de acordo com a razão.

Assim, a seu ver, “o que acarreta tanta confusão em nossas consciências, nestes tempos de perturbações religiosas, é esse abandono parcial que fazem os católicos de sua fé[10]. “Ora, é necessário, em tudo, submetermo-nos aos poderes eclesiásticos que reconhecemos; ou tudo lhe recusamos”.[11]A glória e a curiosidade são dois flagelos de nossa alma; esta nos impele a meter o nariz em tudo; aquela nos proíbe deixar seja o que for sem decisão ou solução.[12] Mas, como se busca à prudência antes à loucura, se deve evitar pretender saber mais da verdade que o pode nossa razão e, desta mesma maneira, não julgar falso o que também não podemos julgar de acordo com a razão. Pois, aqui, verificamos o limite de nosso juízo ou opinar sobre as coisas e conseguimos dicernir que: loucura é o fato de pretendermos ir além deste limite para onde a razão não tem lugar e só resta acreditar ou não acreditar.

continua na parte 2.


[1] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 93

[2] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 93

[3] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 94

[4] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 94

[5] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 94

[6] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 94

[7] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 94

[8] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 94

[9] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 95

[10] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 95

[11] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 95

[12] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 95

Publicado em:  on janeiro 27, 2010 at 6:58 pm Comentários (1)
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Desejo mimético: Girard e Kierkegaard (parte 2)

Kierkegaard:

Na filosofia de Girard, o termo mímesis tem um objeto que é o desejo de um modelo escolhido pelo sujeito imitador. Já em Kierkegaard pode-se dizer que as cartas são as mesmas, mas o jogo é diferente.

Kierkegaard em sua obra “A doença mortal” tem um ponto de vista diferenciado de Girard para este desejo imitador do sujeito. O indivíduo, para ele, é um ser de relações para consigo, com os outros e com Deus; é uma síntese inacabada das relações de finito e infinito, de temporal e eterno, de liberdade e necessidade. Mas que contêm uma finalidade na sua existência: operar a síntese entre estas relações de opostos através do salto da fé, a relação com Deus, pois “a existência significa o próprio sentido da vida “.[1]

Mas este caminho a esta finalidade da existência não pode ser sem sofrimento. E, para alcançar tal façanha, o desespero, a discordância da síntese é necessária. Pois, a síntese, a constituição do eu, o Indivíduo, o si-mesmo só pode ser sequer pensada quando o espírito é acordado do seu sono a partir do sofrimento e do desespero.Ademais, porque é uma forma de progredir na existência.

Desta forma, usaremos o desespero para explicar um “mecanismo mimético” que possamos achar na filosofia kierkegaardiana. Uma maneira de demonstrá-lo é conceitualizando a “doença mortal”:

No começo de sua obra homônima, o sentido de “doença mortal” fica empregado apenas como fraqueza de espírito e que, para o cristão, sendo a alma imortal, a própria morte é passagem para outra vida. Assim, o termo “mortal” não tem expressão certa. “Mas uma ‘doença mortal’ no sentido estrito quer dizer um mal que termina pela morte, sem que após subsista qualquer coisa. E é isto, definitivamente, o desespero[2].

Kierkegaard ainda dá outro sentido para a “doença mortal”, o de, longe de poder morrer, o seu mal estar em sua tortura, sua agonia; de estar mortalmente doente.

Assim, estar mortalmente doente é não poder morrer, mas neste caso a vida não permite esperança, e a desesperança é a impossibilidade da última esperança, a impossibilidade de [sequer] morrer. Enquanto ela é o supremo risco, tem-se confiança na vida; mas quando se descobre o infinito do outro perigo, tem-se confiança na vida; mas quando se descobre o infinito do outro perigo, tem-se confiança na morte. E quando o perigo cresce a ponto de a morte se tornar esperança, o desespero é o desesperar de nem sequer poder morrer[3].

E continua Kierkegaard:

No desespero, o morrer continuamente se transforma em viver. Quem desespera não pode morrer; assim como um punhal não serve para matar pensamentos, assim também o desespero, verme imortal[4], fogo inextinguível, não devora a eternidade do eu, que é o seu próprio sustentáculo [a fonte do desespero[5]]. Mas esta destruição de si próprio, que é o desespero, é impotente e não consegue os seus fins.

A partir daqui a vontade assassina de ser outro, uma possível mímesis, se dissipa e, no retorno a si próprio ela já é outra:

A sua vontade própria é destruir-se, mas é o que ela não pode fazer, e a própria impotência é uma segunda forma de destruição do eu; é, pelo contrário, uma acumulação de ser, ou a própria lei dessa acumulação. Eis o ácido, a gangrena do desespero, esse suplício cuja ponta, dirigida sobre o interior, nos afunda cada vez mais numa autodestruição impotente. Bem longe de consolar o desesperado, pelo contrário, o insucesso do seu desespero em destruí-lo é uma tortura, reanimada pelo seu rancor; porque é acumulando sem cessar, no presente, o desespero pretérito que ele desespera por não poder devorar-se nem libertar-se do seu eu, nem aniquilar-se. Tal é a fórmula de acumulação do desespero, o crescer da febre nesta doença do eu.[6]

O homem que desespera tem um motivo de desespero”[7], um desejo. E só desejamos o que não temos ou não somos, isto é, podemos desejar o objeto de outro, o desejo de outro ou, como sim mostra Kierkegaard, desejar ou querer em desespero ser outro. “Desesperando duma coisa, o homem desespera de si, e logo em seguida quer libertar-se do seu eu”[8]. Mas, antes de desesperar de alguma coisa, na verdade, já desesperava de si, já não conseguia encarar si-mesmo, ou melhor, já não conseguia encarar-se para se tornar si-mesmo. E, neste desejo de se tornar outro, investe sua fuga assassina de si para a ilusão de atravessar a barreira existencial do eu ao outro. O desesperado que não suporta a si mesmo e deseja ser outro, nada mais faz que negar o querer ser si-mesmo, a constituição do espírito. Porém, não conseguindo efetuar sua tarefa – ser outro -, surge o verdadeiro rosto do desespero, o desesperar de si próprio. O homem nesta forma de desespero desespera do eu que não deveio, de não poder se libertar do seu eu. “Na sua essência, o seu desespero não varia, pois não possui o seu eu, não é ele próprio”[9]. Contudo, nem que se conseguisse ser outro, se poderia dizer que destruiu o seu eu. “Porque é justamente aquilo de que, para seu desespero, para seu suplício, ele é incapaz, visto que o desesperado lançou fogo àquilo que nele é refratório, indestrutível: o eu”[10]. Assim, eis o homem que encara os olhos abertos do verdadeiro desespero, encara a si próprio.

Desesperar de uma coisa é, ainda, desesperar sobre uma não-realidade, desta forma, uma ilusão. Mas não é ainda o verdadeiro desespero, pois este, como vimos, é apenas sobre si próprio. Olhando por um certo ponto de vista, o desesperado sempre desespera sobre si, porém o foco do desespero é o que não se debruça sempre de si-mesmo. O desespero funciona numa linearidade. Inicialmente, o desesperado tem o foco de seu desespero sobre si mesmo, quer, desesperadamente, libertar-se de si próprio, e, não agüentando encarar seus próprios olhos, tenta ser outro; tenta achar seu próprio eu em outra pessoa. Este desespero que se foca em outro é a fuga do eu ainda não formado. O outro é exatamente onde este ser desesperado encontra refúgio; encontra apoio. Todavia, não sabe este ser que o eu só pode formular-se a partir si próprio e que todo o querer ser outro não passará de uma imitação barata, pois seu desejo está cravado na alma.

Este eu, que o desesperado quer ver, é um eu que ele não é (pois querer ser o eu que se é verdadeiramente é o contrário do desespero), o que ele quer, com efeito, é separar-se de seu Autor. Mas aqui ele falha, não obstante desesperar, e apesar de todos os esforços do desespero, este Autor permanece o mais forte e constrange-o a ser o eu que ele não quer ser. [11]

Ele desespera infinitamente em direção ao outro, não encontrando um fim, sua própria finalidade. Assim, vendo a falha em sua fuga, refúgio e imitação, o outro, no qual se apoiava, deixa-o e, sem apoio, sofre uma queda rumo a uma tristeza, um abominável vazio, impulsionado por este novo abandono. Deste modo, ele encontra o seu “suplício: não pode libertar-se de si próprio[12]. A existência deste ser desesperado toca pela segunda vez o refrão de se desesperar de si mas, agora, sabendo que não conseguiu ser outro, com consciência de sua falha; de que não conseguiu, sequer, ser si mesmo. “Tentai dizer-lhe: ‘Estás a matar-te’, logo verei como responde: ‘Ai de mim! Não, a minha pena, precisamente é não o conseguir”[13]. Esta pena é estar mortalmente doente.

No momento em que a alma procura libertar-se tanto de si que nada fique, ainda há sua eternidade que fará despertar o desespero, retendo-o no seu eu. Esta é a garantia que o homem não se pode perder inteiramente; a garantia que todo caminho que não leve à construção do eu através de Deus, seja doloroso e desesperador. Assim, a existência humana, como exposto anteriormente, é este fim que garante o espírito, mas que, para o devir, precisa, antes, errar o caminho no tortuoso chão do desespero, calejar seus pés e descobrir, no salto da fé, a negação da possibilidade de desespero, a síntese das relações de oposição da existência humana.

Assim, este “desejo mimético”, que na filosofia de Kierkegaard se figura como o “querer em desespero ser outro”, é sim um desejo, porém um desejo que nunca se realizará. O eu, como visto antes, nunca irá advir do outro, uma vez que a barreira existencial do eu nunca poderá ser ultrapassada até este outro que se quer ser. Desta maneira, esta “mímesis” em Kierkegaard é falha, mas o tem de ser para o alvo do desespero recair novamente à sua primeira e, de certa forma, única vítima: o eu.  E, então, finalmente poder estar mais próximo da negação da possibilidade de desespero, a constituição do espírito ou Indivíduo.


[1] FARAGO, France. Compreender Kierkegaard. 2006. Editora Vozes. P. 75-6

[2] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 341

[3] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P.341

[4] Na tradução em inglês: KIERKEGAARD, Soren. The sickness unto death. Editora: Penguin Books great ideas. 2008. p.16 “whose worm dieth not” que pode ser traduzido por “verme faminto” ou “verme insaciável”.

[5] Na tradução em inglês: KIERKEGAARD, Soren. The sickness unto death. Editora: Penguin Books great ideas. 2008. p.16 “source of despair”.

[6] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P.341-2

[7] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 342

[8] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 342

[9] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 342

[10] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 342

[11] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 342-3

[12] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 343

[13] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 342

Desejo mimético: Girard e Kierkegaard (parte 1)

Introdução:

Neste trabalho mostrarei primeiramente na filosofia de Girard, o que é e como se dá o desejo mimético dentro do “mecanismo mimético” para, assim, como alvo central de reflexão tentar na medida do possível um equivalente na filosofia de Kierkegaard, em específico será usada sua obra intitulada de “Doença mortal”.

Girard:

Através de estudos sobre os mecanismos fisiológicos da violência, Girard descobre que tais mecanismos pouco variam de pessoa para pessoa ou cultura para cultura.

Esta violência apenas dorme no ser humano e, só quando despertada, precisa de uma válvula de escape para o homem violento encontrar sua serenidade temporária novamente. Como na análise de Girard sobre os ritos, que continham uma crise que deveria ser solucionada por meio da violência coletiva, isto é, o assassinato de um bode expiatório. Mas de onde advém a crise?

Para saber responder esta questão, teremos que nos aprofundar no conceito de desejo mimético girardiano. Em suas próprias palavras: “A expressão ‘desejo mimético’ refere-se apenas ao desejo que é sugerido por um modelo. Para mim, o desejo mimético é o desejo ‘real’ (…) a presença do modelo é o elemento decisivo na decisão do desejo mimético”[1]

Contudo, o que vem a ser desejo depende de como prosseguiremos agora. Se o desejo é individualizado, é pessoal e único. Mas se for fixo, não haverá diferença entre desejo e instinto. Assim sendo, o desejo é da qualidade de espécie e não indivíduo.

Todavia, “a mobilidade do desejo, em contraste com a fixidez dos apetites ou instintos, decorre da imitação. Aí reside a grande diferença: todos tempos sempre um modelo que imitamos. Só o desejo mimético pode ser livre, ser de fato desejo, pois tem de escolher um modelo”.[2] Assim, o sujeito nunca escolhe o que ele próprio quer, mas sim o que um outro – o modelo – deseja de objeto.

Desta maneira, como Santo Agostinho também observou em suas Confissões, do ato de desejar o desejo do outro, acaba que alguns desejam o mesmo objeto criando-se uma rivalidade mimética. Esta rivalidade não se baseia em apenas alcançar o que se quer para si, mas também em não deixar nada para o seu rival, seu par nessa corrida pelo objeto que desejam. E é esta rivalidade mimética que Girard vê ser proibida dentro dos dez mandamentos do Antigo Testamento: “o limite é o próximo”.

Em contrapartida, quando os mandamentos que nos limitam quanto ao próximo não são respeitados, temos a rivalidade. E, de tão pequena a proximidade de modelo e imitador, pois ambos desejam o mesmo objeto, cria-se uma indiferenciação entre eles. Desta forma, a produção de duplos é eminente e a rivalidade nesta altura só se faz aumentar.

Em tal situação, caminha-se sempre para uma simetria maior e, conseqüentemente, para mais conflito, já que a simetria só pode produzir duplos. Os duplos surgem com o desaparecimento do objeto, e, no calor da rivalidade, os rivais se tornam cada vez mais indiferenciados, idênticos.[3]

Assim, obtemos a crise mimética.

E a tendência é essa energia propagar-se em todas as direções, porque, uma vez em marcha, o mecanismo mimético só se torna mais atraente para os observadores: se duas pessoas estão disputando um mesmo objeto, então, deve tratar-se de alguma coisa pela qual vale a pena lutar, pensam os observadores, a quem tal objeto fica parecendo mais valioso. O objeto valorizado tende a provocar mais e mais cobiça, e, ao fazê-lo, a sua atratividade mimética somente cresce. Enquanto isso acontece, o objeto também tende a desaparecer, a ser dilacerado e destruído no conflito. Para que a mímesis se torne puramente antagonística, o objeto precisa desaparecer”.[4]

Desta forma, os números de membros de uma comunidade envolvidos neste antagonismo se torna tão cumulativa que é necessário um único “sacrificável” para ser a válvula de escape de sua violência. Numa descrição esquemática, Girard expõe o mecanismo mimético mais claramente:

O mecanismo expiratório encerra a crise, já que a culpa é transferida unanimemente para o bode expiatório. A importância desse mecanismo reside no fato de direcionar a violência coletiva contra um único mesmo da comunidade arbitrariamente escolhido. Essa última vítima se converte no inimigo comum da comunidade, que então se reconcilia em virtude da canalização da violência contra a vítima.[5]

Assim, explicitamos a ampla expressão de “mecanismo mimético”: “usada para designar o processo como um todo, o que inclui o desejo mimético e a rivalidade mimética, a crise mimética e a sua resolução pelo bode expiatório”.[6]

Para ir à discussão do desejo mimético em Kierkegaard clique aqui.


[1] GIRARD, René. Um longo argumento do princípio ao fim.Vilar. TOPBOOKS, P.84.

[2] GIRARD, René. Um longo argumento do princípio ao fim Vilar. TOPBOOKS, P.84-5.

[3] GIRARD, René. Um longo argumento do princípio ao fim.Vilar. TOPBOOKS, P.87

[4] GIRARD, René. Um longo argumento do princípio ao fim Vilar. TOPBOOKS, P.87

[5] GIRARD, René. Um longo argumento do princípio ao fim Vilar. TOPBOOKS, P.88

[6] GIRARD, René. Um longo argumento do princípio ao fim Vilar. TOPBOOKS, P.84.

Zen – O sabor do zen

Minagawa Shunzaemon, célebre poeta muito apegado à rima e adepto do zen, ouviu falar num famoso mestre zen, Ikkyu, chefe do templo de Daitoku-ji, situado na região dos campos violeta. Desejando tornar-se seu discípulo, foi visitá-lo. À entrada do templo, entabularam o diálogo.
Ikkyu perguntou:
- Quem és tu?
- Um budista – respondeu Minagawa
- De onde vens?
- Da vossa província…
- Ah!… E que tem acontecido ali nos últimos dias?
- Os corvos crocitam, os pardais chilream.
- E onde crês estar agora?
- Nos campos violeta.
- Por quê?
- As flores, essas glórias da manhã… o áster, o crisântemo, o açafrão…
- E quando murcham?
- É Myiagino (campo decantado pela beleza das flores de outono)
- Que acontece nesses campos?
- Ali flui o rio, varrido pelo vento.
Estupefato ao ouvir tais palavras, que tinham o sabor do zen, Ikkyu levou-o para seu quarto e ofereceu-lhe chá. Em seguida compôs, de improviso, os seguintes versos:

” Um prato delicado eu quisera te dar,
Mas ai de mim, o zen nada pode ofertar…”

Respondeu o visitante:

” O espírito que só pode oferecer-me o nada
é o vazio original
Iguaria delicada entre as mais “

Profundamente comovido, o mestre concluiu:
- Meu filho, aprendeste muito !!!

Texto retirado de http://contos-zen.blogspot.com/

Publicado em:  on dezembro 9, 2009 at 10:41 pm Deixe um comentário
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Zen – O som do calhau, o som do bambu

Um dia em que Kyogen varria o jardim à frente do eremitério, rolou montanha abaixo um calhauzinho que foi bater num bambu. O som fê-lo despertar e ele, assim, obteve o satori perfeito.
No rinzai, é costume dizer que o satori chega de repente. Mas o que é o satori? Antes dessa experiência, ele alimentara sempre uma dúvida. Dia após dia, não se sentia satisfeito. Seu mestre, Issan, lhe dizia:
- És inteligente mas leste sutras em demasia. Tua inteligência do zen provém da memória dos sutras! Não podes obter o shiho (a transmissão, a certificação do mestre ao discípulo). Procura retornar ao período do teu nascimento, quando não podias compreender em que direção ficavam o leste e o oeste, e volta a falar-me nisso.
Ele queimou incontinenti todos os seus livros, seus sutras, seus cadernos. Chorou. Deixou o dojo do mestre, foi para a montanha e passou a viver sozinho. Fez zazen sozinho durante um ano, dois anos. Um dia, escutando o som do bambu ferido por uma pedra, despertou de todo e suas dúvidas tiveram fim: “Fui estúpido até hoje”. Compôs um poema: ” Tudo esqueci. Dei cabo das idéias que me atochavam o espírito. Minhas complicações tiveram fim.”
Fez sampai na direção do mestre, Issan, e queimou incenso. Enviou o poema ao mestre, que disse: “Esse rapaz, meu discípulo, compreendeu”.
E concedeu-lhe o shiho.
Inspirado nessa história, Deichi fez um poema:
“Pelo som de um choque
Ele esqueceu todo seu saber”.

texto retirado de: http://contos-zen.blogspot.com/

Koan – Bom gosto

Outro koan. Um mestre oferece um melão a um discípulo.
- Que te parece o melão? – pergunta-lhe. – Tem bom gosto?
- Sim, sim ! Muito bom gosto! – ouve o discípulo.
O mestre faz então outra pergunta:
- O que é que tem bom gosto, o melão ou a língua?

(Para virar um koan, recortei o começo de um conto retirado de

http://contos-zen.blogspot.com/)

A fenomenologia de Husserl – o caminho até sua ciência.

Introdução:

Neste trabalho me proponho a mostrar ao leitor um percurso diferente de demonstração da fenomenologia. Primeiramente, mostro um aspecto geral da fenomenologia de Husserl, a ciência das essências. E, como ponto de reflexão principal, exponho o “desenvolver histórico”, como Descartes, os empiristas, em especial Hume, e até Kant deram, de várias formas, motivos para se aproximar ou manter a devida distância para, então, se construir a fenomenologia husserliana que conhecemos.

Aspectos gerais da fenomenologia de Husserl.

O movimento de pensamento conhecido como fenomenológico está ligado estreitamente a seu principal representante Edmund Husserl (1859-1938). Este pensamento é posto no interior da rediscussão das concepções filosóficas positivistas, e atentos ao desenvolvimento do positivismo, da matéria e das ciências histórico-sociais, eles, os fenomenólogos, os submetem à crítica sua epistemologia e sua confiança pela ciência[1].

A fenomenologia tem por palavra-de-ordem o retorno às próprias coisas, se propõe a ir além dos sistemas construídos no ar.

A expressão ´fenomenológica´ significa antes de mais nada um conceito de método (…). O termo expressa um lema que poderia ser assim formulado: voltemos às próprias coisas! E isso em contraposição às construções desfeitas no ar e às descobertas casuais, em contraposição à aceitação de conceitos só aparentemente justificados e aos problemas aparentes que se impõem de uma geração à outra como verdadeiros problemas.[2]

Esta filosofia se sustenta partindo da base de dados indubitáveis para neles construir o edifício filosófico. “Sem evidência, não há ciência” diria Husserl nas Investigações lógicas, então na fenomenologia se procura evidências estáveis. Os limites da evidência apodítica representam os limites do nosso saber. Assim, é preciso buscar coisas manifestas, fenômenos tão evidentes que não possam ser negados”[3].

Portanto, a fenomenologia ainda procura tais coisas manifestas ou evidentes através da descrição dos “fenômenos” que se anunciam e apresentam à consciência depois da epoché. E este ponto de aproximação da epoché dos fenomenólogos, o resíduo fenomenológico, é encontrado na consciência: “a existência da consciência é imediatamente evidente”[4] .

A fenomenologia, a partir dessa evidência, já que é uma ciência de essências e não de fatos, pretende descrever os modos típicos como as coisas e os fatos se apresentam à consciência, ou seja, as essências eidéticas. Naturalmente, esta fenomenologia é a ciência das essências.

Eis, portanto, o que a fenomenologia pretende ser: ciência, fundamentada estavelmente, voltada à análise e à descrição das essências. Com base nisso, podemos compreender como a fenomenologia se distingue da análise sicológica ou da análise científica. Diferentemente do psicólogo, o fenomenólogo não manipula dados de fato, mas essências; não estuda fatos particulares, senão idéias universais.[5]

A fenomenologia não se importa pelos casos particulares como atitudes morais desta ou daquela pessoa, mas sobre a essência da moral. A consciência é sempre consciência de alguma coisa – ou seja, é “intencional”[6] – que se apresenta de modo típico – a essência eidética.

Neste ponto, esta ciência das essências poderia tomar dois rumos: o idealismo ou o realismo. Husserl, sobretudo o último Husserl, tomará o caminho do idealismo. “Assim, o pensador que estabeleceu como programa da fenomenologia o do retorno às próprias coisas, no fim se encontrará com a realidade única que é a consciência”[7].

Mas, quais foram as influências que sofreu Husserl?

Isto desenvolveremos a partir de agora.

A origem; o desenvolver histórico; e a construção da fenomenologia:

Em suas Meditações cartesianas, Husserl diz aos ouvintes de sua conferência em homenagem à filosofia francesa que “a fenomenologia quase poderia ser chamada de um neocartesianismo”. Quase a não ser o fato de que a fenomenologia “se viu obrigada a rejeitar quase todo o conteúdo doutrinal conhecido do cartesianismo, pela razão mesma de que deu um desenvolvimento radical a certos temas cartesianos”[8]. Husserl tem para com Descartes uma admiração, julgando ser o francês, pai fundador do “subjetivismo transcendental” inaugurado nas Meditações. Descartes descobre o ego cogito e se ele se interroga acerca da natureza desse ego, é para responder se: “sou uma mente ou inteligência ou intelecto”, quer dizer, para interpreta-lo como um “fragmento do mundo”. As Meditações são uma reconquista do “fora” a partir do “dentro. Mas Descartes com pressa demais em pôr o “mundo objetivo” ao abrigo do ceticismo, não pressentiu isso e de sua filosofia só resta a convicção de que é preciso “voltar aos fundamentos originários de todo conhecimento na subjetividade transcendental”[9].

Husserl não poupa elogios aos racionalistas modernos, que herdaram a idéia de Wissenchaft, herdada dos platonismo. Mas pouca coisa ajuda com aquilo que lhe falta: uma teoria do conhecimento digna desse nome. O que faz Husserl se perguntar: “como falar, com efeito, em teoria do conhecimento, quando os produtos do saber. Qualquer que seja o estágio em que se situem (juízos empíricos, ciências, proposições a priori etc.), são considerados simplesmente como dados – de tal modo que o sentido deles não requer nenhuma elucidação sistemática?”[10] Se prevalecia  a ideia de que todas essas formações já estavam disponíveis, não se atentavam a levar em conta que esses fenômenos deveriam ser estudados como fenômenos.[11] Kant tão pouco mostrou luz sobre os prodigiosos recursos metodológicos do ego cogito, pois está demasiado ocupado com as ciências positivistas em seu direito, para só dedicar seu tempo a seu respeito enquanto são configurações de conhecimento.


Os problemas transcendentais dele , em sua forma historicamente condicionada, não se assentam, como a claridade última do problema aqui o exige, sobre a base primitiva de toda investigação transcendental: sobre a base da subjetividade fenomenológica.[12]

Aí se mostra a distância entre o pensamento de Husserl e o de Kant. O tutor de Kant ainda diria que o pensamento do discípulo nada tem a ver com a inspiração fenomenológica e que o ele inicia é um “subjetivismo transcendental de uma nova espécie”[13].

Esta cegueira à “esfera egológica” impede cada vez mais a fundação sistemática do saber. De Descartes a Kant a despeito de sua exigência de rigor, continua-se aquém da tarefa que Platão atribuiu à dialética: “não admitir nenhum saber do qual não seja possível  prestar contas (Rechenschaft geben) em virtude de princípios originários primeiros e perfeitamente evidentes”.[14] Mas não seria exato dizer que o racionalismo não alcançou tal tarefa: a verdade é que não se interessou por ele seriamente (à exceção, talvez, de Leibniz). Porém, o racionalismo apenas pôde ser aparente ao fato de fundar uma ciência, tendo como “fundar” justificar integralmente suas pretensões.  De Descartes a Kant não se vê o ensinamento de que maneira as idealidades e seus encadeamentos se oferecem e impõe a nós. Este é o efeito do segundo bloqueio que atinge o racionalismo moderno.

Em primeiro lugar, esse racionalismo desconhece o ego cogito como única fonte possível de toda validação. Em segundo lugar, ele não sente necessidade de validar a objetividade como tal e por todos os seus tipos.[15]

O Ser-objeto é algo evidentemente “bem conhecido” e, por isso, não é alvo de maiores investigações. Assim, impede-se toda fundação no sentido da clarificação última e integral, que Husserl chama de objetivismo e traça a divisão da filosofia moderna.

No seu sentido original, toda a filosofia moderna, como ciência universal de fundação última, é, ao menos depois de Kant e Hume, um único combate entre duas idéias da ciência: a ideia de uma filosofia objetivista no solo do mundo dado de antemão (vorgegebene Welt) e a de uma filosofia no solo de uma subjetividade absoluta, transcendental [...].[16]

Mas de onde está a causa de toda esta falta de curiosidade? Husserl responde: da inatenção à objetividade dos elementos ideais. O mesmo ocorre com Kant quanto à exposição que traça da lógica formal, que o faz escapar do problema de como as objetividades ideais obtêm o sentido-de-ser de objetos (den Seinssinn von “Objekten” gewinnen), diante da contingência dos atos e dos sujeitos. Daí outras questões se fará Husserl com a necessidade de tematizar o objeto como cogitatum para decifrar o sentido-de-ser que lhe é próprio. Mas para chegar lá “é preciso ainda, decerto, ter reconhecido que há objetos idéias: eis a preliminar indispensável”[17], e eis porque as suas Investigações lógicas não alçaram vôo “de maneira contingente” e, ainda, em razão da forte corrente “antiplatônica”[18].

O preço deste preconceito foi o Seinssinn “Objekt”, a presença de algo como “mundo objetivo” não ser nenhum enigma. Nem Descartes abalou tal concepção, tendo, segundo Husserl, depois de milhares de anos, só Berkeley e Hume, o empirista e o cético, sendo os pioneiros da fundação radical. Aqui Husserl reconhece sua dívida para com seus antecessores.

Porém, a ideia de fenomenologia, para Husserl, estará sempre ligada a Descartes e Platão. Os empiristas nunca receberiam o título que Descartes recebe, o de que suas Meditações são “o primeiro esboço de uma fenomenologia puta, embora sob a forma de uma fenomenologia puramente sensualista e empírica”.[19] Só com Locke que a filosofia começa a se tornar tecnicamente fenomenologia; só então que ela tenta “interpretar concretamente, numa universalidade sistemática, aquilo que tinha vindo à luz, embora fugidiamente, nas Meditações”.[20] Vê-se, assim, “a tendência em direção a um método imanente” do empirismo inglês.

[Locke] é o primeiro a procurar, partindo do cogito cartesiano, o caminho que leva a uma ciência do cogito [...] ele é o primeiro a compreender que é preciso reconduzir todo conhecimento às fontes intuitivas originárias na consciência, na experiência interna, e que é preciso elucida-lo a partir destas.[21]

A egologia de Locke se apresenta com uma história da “alma” (entendida como região mundana). Ele admite a transcendência de um mundo  substancial, pondo de antemão a validade objetiva,, validade que ele deveria deixar se constituir unicamente na esfera do ego cogitans.[22]Esse parti-pris metafísico rapidamente aparece como incompatível com o método delineado pelo Ensaio – e cabe a Berkeley limitar expressamente a investigação acerca das transcendências ao campo dos dados imediatos: aos fenômenos”[23]. Desta forma, “legitima permanentemente o empirismo” (das bleibende Recht dês Empirismus):[24] o esforço de ajuste à evidência, a vontade de descrever a coisa percebida como ela se dá”[25][26]. Neste momento, se pode perdoar, ao menos um pouco, a “incurável miopia do empirismo”[27].

Husserl defende o empirismo surpreendentemente, mas não se contradiz. Sua critica nas Investigações lógicas é do empirismo que trai o sentido específico dos conteúdos de conhecimento. Não é o método que desencaminha o empirismo, mas a infidelidade com ele, por isso Husserl procura defendê-lo dele mesmo[28]. O empirismo se mostra aparência dele mesmo, pois “é somente em aparência que ele respeita seu princípio de não enunciar nada que não tenha tirado da intuição”;[29] é somente em aparência que ele diz o sentido daquilo que vê, porque decidiu restringir o sentido a uma região do ente, e sua fenomenologia é filtrada por uma ontologia mutiladora”.[30]

No entanto, trata-se de fenomenologia. O cogito enfim está aberto como campo de imanência e nada impede mais a interrogação sobre o sentido-de-ser das diferentes objetividades graças ao preconceito sensualista de Berkeley: confundir a “coisa” visada como sendo “idêntica” aos perfis sensoriais por meio das quais se anuncia.

Em Kant seria em vão buscar uma subjetividade absoluta. Mas, se for preciso escolher entre o “naturalismo imanente” (Hume) e o “objetivismo” (Kant), que impede a filosofia transcendental de se tornar fenomenologia, antes o primeiro.  “Hume dissolve o “eu idêntico” que Berkeley ainda conservava: no lugar de um ego mudanizado”.[31] A Segunda Meditação mostra o desligamento de seu substrato metafísico.

[Hume] foi o primeiro a levar a sério a atitude de Descartes, de se voltar para a interioridade pura desembaraçando radicalmente a alma, desde o início, de tudo o que dá a ela uma significação real mundana e pressupondo-a puramente como campo de percepções, impressões e idéias [...].[32]

e continua…

Ele foi o primeiro a compreender o problema concreto universal da filosofia transcendental [...]; foi o primeiro a ver a necessidade de estudar precisamente essas afirmações objetivas como formações de sua gênese, a fim de tornar compreensível, pelas suas origens últimas, o exato sentido-de-ser de tudo aquilo que existe para nós [...].

O Tratado foi visto como uma investigação empírica, ninguém observou até o nascimento da fenomenologia os eventos que ocorriam nas esferas das percepções.

No fim do Primeiro Livro, Hume, de certa forma, confessa seu fracasso como fenomenólogo.  Mas Husserl diz que era necessário que o projeto de Descartes fosse pervertido em solipsismo e que também o era que Hume fosse conduzido a essa “conseqüência monstruosa (ungehewerliche Konsequenz)”.[33] Mas por que Hume não pôde ser um fenomenólogo?

Na Segunda Lição de A idéia de Fenomenologia (1907), talvez indique a resposta. Husserl quer provar que quando se descobre um enigma, o novo saber se encarregará de evitar os obstáculos de Hume, no caso, isto é, o “objetivismo” e o uso do transcendente como “já dado”.

Sem dúvida, eu sei desde sempre que possuo um saber do transcendente – e “nenhum homem sensato duvidará da existência do mundo”. Mas esse factum (Daß) deve permanecer, no caso presente, inteiramente fora do jogo, pois ele não poderia instruir-me acerca da possibilidade, acerca do como (Wie) desse conhecimento[34](…) mas é precisamente essa possibilidade que é e sempre será enigmática, a menos que se torne patente, na clareza da evidência, que faz parte do conhecimento “alcançar um ser transcendente”.[35]

Tal é a solução de Hume, com consciência dos seus riscos. Mas, uma vez que Hume constata sua falência, lhe resta apenas voltar à ingenuidade pré-filosófica? Não.

Se alguém [diz Hume] se acostumou a fazer considerações críticas sobre a incerteza e os estreitos limites da razão, ele não as esquecerá inteiramente quando voltar sua reflexão para outros assuntos: em todos os seus princípios e seus raciocínios filosóficos (não ouso dizer em sua conduta corrente) ele se mostrará diferente [...].[36]

Tradução de Husserl: aquele que deixou o Daß (factum) de lado para buscar sem nenhum proveito o Wie (como)

Deveria, se é conseqüente, renunciar também ao seu ponto de partida: ele deveria reconhecer que, nessa situação, o conhecimento do transcendente é impossível, que seu pretenso saber a esse respeito é um preconceito. O problema então já não será: como o conhecimento transcendente é possível? – mas como se pode explicar o preconceito que atribui ao conhecimento uma operação transcendente (transzendente Leistung): este é precisamente o caminho de Hume.[37]

Mas, sobre isso, que é este cético? O cético é aquele que coloca as transcendências fora de circuito e as converte em niilismo, por incapacidade de fundar seu saber. Manter a devida distância será de extrema importância para o fenomenólogo.   Uma vez que só encontra no cético um precursor técnico, invoca uma linhagem espiritual

O pensamento que rompe com o “objetivismo”, o empirismo, não pode se manter à altura do projeto transcendental. “O “objetivismo” sanciona a indiferença perante o problema seguinte: de que maneita algo que é o produto de uma constituição de sentido pode no entanto valer como “objeto”?  E esse problema só pode ser motivado pelo reconhecimento da objetividade ideal: foi por falta de atenção a esta, e de reflexão sobre seu estatuto, que os filósofos permaneceram insensíveis ao enigma que é a transcendência em geral”.[38]

Nenhum filosofia nega mais ferozmente os objetos ideais que o empirismo. De nenhuma experiência a “idéia abstrata” nos seria dada, segundo tipo de filósofo. Jamais teríamos consciência de uma idéia geral das coisas; de uma consciência-do-geral. Desconhece o fato de que o geral pode ser objeto de uma intuição evidente imediata. Para isto, sustenta que “a exigência de evidência só é satisfeita pelo recurso a um dado sensível. Ele vai, portanto, reclamar o indubitável de um evento ou encontro. E toda verificação de uma idéia seguirá o passo de reduzir-se à impressão, seu “ens certum”. Mas como tal impressão é vivida? O que nos ensina ela sobre si mesma? Como se faz para que seja nela que encontramos o dado-em-pessoa? O empirista, para isto, tem um silêncio ou um absurdo: a impressão é mais forte que a idéia, mais vívida. Daí não sabemos o que faz da impressão, uma “impressão”.

De que lhe serve então, então, considerar os fenômenos, se não consegue sequer se interrogar sobre o sentido que especifica cada representação? Se já transformou esses fenômenos em coisas “que são, mas nada significam, nada visam, nada trazem em si de sentido (tragen nichts in sich non Sinn)”. [39]Assim, a investigação fenomenológica que não chega a acontecer é substituída por uma descrição fenomenista.[40]

É perdoável a naturalização da vida da consciência, mas não o erro de tematizar os fenômenos e, em contra partida, julgar ter acertado tratá-los como eventos. Um momento que Husserl acusa  Hume de inconseqüência é quando: “levado por seu ardor nominalista, Hume, para se fechar melhor em seu sensualismo, teria decidido passar em silêncio a problemática do sentido e descrever os fenômenos sem se interessar por aquilo que eles apresentam e pela maneira como a apresentam”.[41] Indo contra a noção de phaínesthai (fenomenologia). O operador, para o empirista, é desprovido de valor. O que há são conexões entre conteúdos indiferentes, ou seja,

O empirista não aceita a distinção inaugural das Logische Untersuchungen (Investigações Lógicos) entre os dois modos do ser-signo: o índice (Anzeige) e a expressão ou signo significante (Ausdruck, bedeutsame Zeichen), pela qual “exponho algo de maneira expressiva” a um receptor que não precisa senão ouvir e não interpretar (deuten).[42]No universo empirista, nada há além de índices (mesmo o retrato que vejo é índice de meu amigo ausente, da mesma maneira que “o estigma é o signo do escravo; a bandeira, o signo da nação”), e não se faz outra coisa senão interpretar. Jamais existe o momento em que o dado “já não vale por si mesmo”, mas não faz outra coisa que “tornar representável (vorstelling machen) um objeto diferente”.[43]

E a melhor prova de que a absorção do signo no índice pertence à essência do empirismo é esta:

Onde dizemos que um estado-de-coisas A é um indicação de um estado-de-coisas B, que o ser de um indica que o outro também existe, nós podemos, em nossa expectativa de encontrar realmente também esse último, ter uma certeza inteira. Mas, falando dessa maneira, não queremos dizer que haja uma relação de conexão evidente (einsichtig), objetivamente necessária, entre A e B; aqui, os conteúdos de juízo não se encontram para nós numa relação de premissas a conclusões.[44]

Estas linhas determinam admiravelmente a relação de ‘causação’ em Hume, isto é, determinam o único sentido que o empirismo pode admitir para a idéia de ‘conexão necessária”.[45] Assim, por não reconhecer que um significado pertença por essência a um signo, jamais há de se encontrar, para estabelecer sua conexão com outro conteúdo, algo que por natureza se anteciparia ou projetaria na impressão.[46] Dadas tais condições Hume reconheceria que a “subjetividade” de Husserl faz falta ao “sujeito” do qual ele fala: esta é a condição de seu empirismo. “A experiência é, portanto, bem exatamente o meio que substitui a subjetividade constituinte – o horizonte sob o qual os signos são por princípio liberados de toda função representativa. Em compensação, a ilusão representativa pretende nos dispensar da experiência, criando ligações-de-essência das quais a subjetividade constituinte pretende dar uma leitura sistemática”.[47]

Por ter a noção de sujeito pouco característica do idealismo fenomenológico, Husserl critica Hume por ter reconstruído o ego como ficção, mas não por tê-lo feito desaparecer como substância. Este foi, na realidade, seu lance de gênio: “ter reduzido o ego a um fluxo de vivências, a transições de percepções (…) Foi graças a isso que restituiu o verdadeiro sentido à “interioridade” cartesiana e tornou possível uma fundação radical”.[48]

Ainda diz-nos Husserl sobre Hume:

Havia preenchido a condição indispensável para que fosse empreendida um investigação, sem preconceitos, dos fenômenos. Esta requer, porém, uma outra coisa: é preciso ainda saber que o ego cogito é o único espaço no qual se pode desenvolver uma ciência eidética pura.[49] A convicção de que o ego não seja nem uma alma, nem qualquer figura do sujeito insular, representa um progresso essencial – mas com a condição de que se determine essa não-coisa como um código de legalidades e de constrangimentos essenciais que governe todas as figuras da objetividade.[50]

A fundação absoluta do conhecimento só se é possível com os caracteres essenciais gerais (Wesenseigenheiten), as legalidades essenciais (Wesensgesetzlichkeiten) como princípios de todas as elucidações ulteriores.[51] Este phaínesthai não é de longe um efeito de superfície, “ele é expressivo de ponta a ponta e desde sempre – que ele é, por definição, um conjunto de signos significantes -, o “abecedário”, como gosta de dizer Husserl, de tudo aquilo que jamais poderemos saber”.[52]

Assim, apesar das desavenças, Hume permaneceu para Husserl um ancestral excêntrico, no qual jamais entreviu o inimigo mortal da “ratio”. Os limites de Hume e seus absurdos foram uma aula para onde Husserl deveria se distanciar para fundar sua filosofia da essência. Mas “sem dúvida, como saber radicalmente novo, anti-objetivista, como recomeço integral, a fenomenologia pode aceitar esse “aliado objetivo”, que lhe iguala em arrojo. Mas, como fenômeno-logia, em que extravagante companhia ela se acha colocada”.[53]


[1] Por isto,  o certo contato da fenomenologia com o neokantismo, o historicismo e a filosofia da vida.

[2] HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. In: REALE, Giovanni. História da Filosofia. Livro 3 p. 554

[3] REALE, Giovanni. História da Filosofia. Livro 3. p. 554

[4] REALE, Giovanni. História da Filosofia. Livro 3. p. 554

[5] REALE, Giovanni. História da Filosofia. Livro 3. p. 555

[6] O caráter intencional da consciência é primeiramente citado em “A psicologia do ponto de vista empírico” de 1874, escrito pelo padre católico Brentano, professor de Husserl em Viena.

[7] REALE, Giovanni. História da Filosofia. Livro 3. p. 555-6

[8] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 253

[9] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 254

[10] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 254

[11]Nada de surpreendente nisso, já que o racionalismo, seguindo Descartes, transformava subitamente numa psiché justaposta às outra sregiões do ente aquilo que é, na realidade, o campo da única tópica capaz de clarificar, em última estância, todos os conteúdos do conhecimento.” LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 254

[12] HUSSERL, E, Formale und transzendentale Logik (FTL) [Lógica formal e lógica transcendental]. Halle: Max Niemeyer, 1929, p. 2234; rtad. Fesa Suzanne Bachelard. Paris: PUF, 1957, p. 353.

[13] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 255

[14] HUSSERL, E, Formale und transzendentale Logik (FTL) [Lógica formal e lógica transcendental]. Halle: Max Niemeyer, 1929, p. 3; trad. Fesa Suzanne Bachelard. Paris: PUF, 1957, p. 7.

[15] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 256

[16] HUSSERL, E, Formale und transzendentale Logik (FTL) [Lógica formal e lógica transcendental]. Halle: Max Niemeyer, 1929, p. 212; trad. Fesa Suzanne Bachelard. Paris: PUF, 1957, p. 235.

[17] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 257

[18] HUSSERL, E, Formale und transzendentale Logik (FTL) [Lógica formal e lógica transcendental]. Halle: Max Niemeyer, 1929, p. 228-9; trad. Fesa Suzanne Bachelard. Paris: PUF, 1957, p. 345.

[19] HUSSERL, E.Erste Philosophie (Eph) [Filosofia Primeira], I, in Husserliana. Haia: M. Nijhoff, 1956, V. VII, p. 157; trad. Francesa A. L. Kelkel. Paris: PUF, 1970, p. 225.

[20] HUSSERL, E. Die Krisis der europäischen Wissenschafy un die transzendentale Phënomenalogie (Krisis) [A crise da ciência europeia e a fenomenologia transcendetal], in Husserliana. Haia: M. Nijhoff, 1962, v. 6, p. 437; trad. Francesa G. Granel. Paris: Gallimard, 9162, p.484.

[21] HUSSERL, E.Erste Philosophie (Eph) [Filosofia Primeira], I, in Husserliana. Haia: M. Nijhoff, 1956, V. VII, p. 144; trad. Francesa A. L. Kelkel. Paris: PUF, 1970, p. 208.

[22] HUSSERL, E.Erste Philosophie (Eph) [Filosofia Primeira], I, in Husserliana. Haia: M. Nijhoff, 1956, V. VII, p. 95-97; trad. Francesa A. L. Kelkel. Paris: PUF, 1970, p. 135-7.

[23] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 259

[24] HUSSERL, E.Erste Philosophie (Eph) [Filosofia Primeira], I, in Husserliana. Haia: M. Nijhoff, 1956, V. VII, p. 146; trad. Francesa A. L. Kelkel. Paris: PUF, 1970, p. 211

[25] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 259

[26] Ou seja, não fazer com que a aparência do sensível fosse uma imagem enfraquecida de algo fora.

[27] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 259

[28] HUSSERL, E.Erste Philosophie (Eph) [Filosofia Primeira], I, in Husserliana. Haia: M. Nijhoff, 1956, V. VII, p. 148; trad. Francesa A. L. Kelkel. Paris: PUF, 1970, p. 213

[29] HUSSERL, E.Erste Philosophie (Eph) [Filosofia Primeira], I, in Husserliana. Haia: M. Nijhoff, 1956, V. VII, p. 136; trad. Francesa A. L. Kelkel. Paris: PUF, 1970, p. 194

[30] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 260

[31] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 260

[32] HUSSERL, E.Erste Philosophie (Eph) [Filosofia Primeira], I, in Husserliana. Haia: M. Nijhoff, 1956, V. VII, p. 158; trad. Francesa A. L. Kelkel. Paris: PUF, 1970, p. 342

[33] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 262

[34] HUSSERL, E.Erste Philosophie (Eph) [Filosofia Primeira], I, in Husserliana. Haia: M. Nijhoff, 1956, V. VII, p. 168; trad. Francesa A. L. Kelkel. Paris: PUF, 1970, p. 242

[35] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 263

[36] HUME, D., Diálogos sobre a religião natural. Primeira Parte [Utiliza-se aqui a tradução para o português de José de Almeida Marques. São Paulo: Martins Fontes, 1992, PP. 15-6 (N.T.)]

[37] E. Husserl, Die Idee der Phanomenologie, p. 38; trad. Cit., p. 63.

[38] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 265

[39] HUSSERL, E.Erste Philosophie (Eph) [Filosofia Primeira], I, in Husserliana. Haia: M. Nijhoff, 1956, V. VII, p. 163; trad. Francesa A. L. Kelkel. Paris: PUF, 1970, p. 235.

[40] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 266

[41] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 267

[42] HUSSERL, E.Erste Philosophie (Eph) [Filosofia Primeira], I, in Husserliana. Haia: M. Nijhoff, 1956, V. VII, p. 163; trad. Francesa A. L. Kelkel. Paris: PUF, 1970, p. 235 § 4

[43] HUSSERL, E. Logische Untersunchungen, Primeira Investigação, § 5.

[44] HUSSERL, E. Logische Untersunchungen, Primeira Investigação, § 3.

[45] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 268

[46] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 269

[47] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 269

[48] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 270

[49] HUSSERL, E.Erste Philosophie (Eph) [Filosofia Primeira], I, in Husserliana. Haia: M. Nijhoff, 1956, V. VII, p. 139-40; trad. Francesa A. L. Kelkel. Paris: PUF, 1970, p. 198

[50] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 271

[51] HUSSERL, E.Erste Philosophie (Eph) [Filosofia Primeira], I, in Husserliana. Haia: M. Nijhoff, 1956, V. VII, p. 170; trad. Francesa A. L. Kelkel. Paris: PUF, 1970, p. 244

[52] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 272

[53] LEBRUN, Gerard. A filosofia e sua história. Editora Cosacnaify. P. 272

Descartes – Os 4 preceitos da lógica do Método

Em lugar do grande número de preceitos que compõe a lógica, achei que me seriam suficientes os quatro seguintes, uma vez que tomasse a firme e inalterável resolução de não deixar uma só vez de observá-los.

  1. 1. O primeiro era o de nunca aceitar algo como verdadeiro que eu não conhecesse claramente como tal; ou seja, de evitar cuidadosamente a pressa e a prevenção, e de nada fazer constar de meus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito que eu não tivesse motivo algum de duvidar.
  2. 2. O segundo, o de repartir cada uma das dificuldades que eu analisasse em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias a fim de melhor solucioná-las.
  3. 3. O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de reconhecer, para elevar-me, pouco a pouco, como galgando degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e presumindo até mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros.
  4. 4. E o último, o de efetuar em toda parte relações metódicas tão completas e revisões tão gerais nas quais eu tivesse a certeza de nada omitir.

Essas longas séries de razões, todas simples e fáceis, que os geômetras costumam utilizar para chegar às suas mais difíceis demonstrações, tinham-me dado a oportunidade de imaginar que todas as coisas com a possibilidade de serem conhecidas pelos homens seguem0se umas às outras do mesmo modo e que, ma vez que nos abstenhamos apenas de aceitar por verdadeira qualquer uma que não o seja, e que observemos sempre a ordem necessária para deduzi-las umas das outras, não pode existir nenhuma delas tão afastada a que não se chegue no final, nem tão escondida não se descubra.

Recorte feito de: DESCARTES, René. Discurso do método, Editora Nova Cultural. P. 49-50