Husserl – Investigações Lógicas – Capítulo 4 – Item 6/6 – Tradução Alianza Editorial

Significações “em si” e significações expressas.

Até agora temos preferentemente de significações que, como já disse o sentido normalmente relativo da palavra significação, são significações de expressões. Porém, não existe em si uma conexão necessária entre as unidades ideais, que de fato funcionam como significantes, e os signos a que estão unidas, isto é, mediante os quais se realizam na vida da alma humana. Não podemos, pois, afirmar tão pouco que todas as unidades ideais dessa espécie sejam significações expressas. Cada caso de nova formação que nunca antes fora realizada. Assim como os números – no sentido ideal pressuposto pela aritmética – não ascem e perecem com o ato de enumerar; assim como, por tanto, a série infinita dos números representa um conjunto de objetos gerais objetivamente fixo, rigorosamente delimitado por uma lei ideal, assim também sucede com as unidades ideais, puramente lógicas, os conceitos, as proposições, as verdades, em suma, as significações lógicas. Estas formam um conjunto – ideal e cerrado – de objetos genéricos, a dos quais lhes é acidental o ser pensados e expressados. Há, pois,  incontáveis significações que no sentido corrente relativo da palavra são significações meramente possíveis, não chegando nunca à expressão e incluso não podendo chegar nunca à expressão, a causa das limitações das forças cognitivas no homem.

HUSSERL, Edmund. Investigaciones lógicas. Alianza Editorial. pp. 291

Tradução: Paulo Abe

Publicado em:  on Novembro 22, 2009 at 5:15 pm Comentários (1)
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Husserl – Investigações Lógicas – Capítulo 4 – Item 5/6 – Tradução Alianza Editorial

No Ato de significar, a significação não é consciente objetivamente.

À significação unitária cprresponde – dizíamos – na vivência atual de significação um rasgo individual, como caso singular dessa espécie; do mesmo modo que à diferença específica vermelho corresponde o momento de vermelho no objeto vermelho. Se levarmos a cabo o ato e vivemos, por dizer-lo assim, nele, mencionamos naturalmente seu sujeito e não sua significação. Quando, por exemplo, fazemos um enunciado, julgamos sobre a coisa em questão e não sobre a significação da proposição enunciativa, não sobre o juízo no sentido lógico. Este não se nos faz objetivo até que verificamos um ato mental reflexivo, no qual não só reportamos à vista sobre o enunciado levado a cabo, sem que executamos a necessária abstração (ou melhor dito idealização). Esta reflexão não é um ato que tenha lugar de baixas condições artificais, isto é, por modo excepcional; sem que é um elemento normal de pensar lógico. O que caracteriza este é a conexão teorética e a consideração teorética, a ela endereçada, que se verifica em reflexões escalonadas sobre os conteúdos dos atos mentais executados. Pode servir-nos de exemplo uma forma muito vulgar de consideração mental: “É S P? Poderia ser. Porém desta proposição se seguiria que M é. Isto, “empero”, não pode ser. Logo tem que ser falso que o que ao principio considerei possível, a saber: que S foi P… etc., etc.” Atenta o leitor às palavras subtraídas e às idealizações nelas expressadas. Essa proposição – que S é P -, que como tema atravessa toda a consideração, não é notoriamente só o efêmero momento significativo no primeiro ato mental, quando por vez primeira se nos ocorreu o pensamento, sem que a reflexão lógica é levada a cabo em ulteriores passos e sem cessar segue sendo mencionada a significação da proposição, significação que no conexo mental unitário concebemos em idealização e identificação como sendo a mesma e constituindo uma unidade. E o mesmo acontece quando se desenvolve uma fundamentação unitária teorética. Não podemos pronunciar nunca a palavra logo, sem reportar a olhada sobre o conteúdo de significação que tem as premissas. Ao julgar as premissas, não só vivemos no juízos, sem que reflitamos sobre os conteúdos deles; só com referência a estes conteúdos aparece motivada a conclusão. Assim e só assim pode a mesma forma lógica das premissas (que desde logo não chega a receber essa acentuação geral conceitual que acha sua expressão nas fórmulas dos raciocínio) chegar a determinar intelectivamente a dedução da conclusão.

HUSSERL, Edmund. Investigaciones lógicas. Alianza Editorial. pp. 290

Tradução: Paulo Abe

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Husserl – Investigações Lógicas – Capítulo 4 – Item 4/6 – Tradução Alianza Editorial

Os conceitos “significação” e “conceito”, no sentido de espécie, não coincidem.

As significações formam, dizíamos, uma classe de “objetos gerais” ou espécies. Sem dúvida cada espécie, se queremos falar dela, supõe uma dignificação na qual está representada; e esta significação é, a sua vez, uma espécie. Porém, não deve crer-se que a significação, em que uma espécie está pensada, e seu objeto, a espécie mesma, sejam um e o mesmo. Assim como no terreno do individual distinguimos, por exemplo, entre Bismarck mesmo e as representações deste (por exemplo, Bismarck, o maior estadista alemão, etc.), também no terreno do específico distinguimos, por exemplo, entre o número 4 mesmo e as representações (isto é, significações) que tem como objeto o 4, por exemplo: o número 4, o segundo número par na série dos números, etc. Assim, pois, a universalidade que pensamos não se dissolve na universalidade das significações nas quais a pensamos. As significações, sem prejuízo de ser, como tais, objetos gerais, se dividem, com respeito aos objetos a que referem, em individuais e específicas ou – como por motivos verbais facilmente compreensíveis preferiremos dizer – genéricas. Assim, por exemplo, as representações individuais, como unidades significativas, são generalia: em troca seus objetos são individualia.

HUSSERL, Edmund. Investigaciones lógicas. Alianza Editorial. pp. 289-290

Tradução: Paulo Abe

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Husserl – Investigações Lógicas – Capítulo 4 – Item 3/6 – Tradução Alianza Editorial

A idealidade das significações não é uma idealidade no sentido normativo.

A idealidade das significações é um caso particular da idealidade do específico no geral. Não tem, pois, em maneira alguma o sentido de idealidade normativa, como se se tratasse de um ideal de percepção, de um valor limite ideal, que estivesse contraposto aos casos singulares de sua realização mais ou menos aproximada. Sem dúvida, o conceito lógico, é dizer, o término, no sentido da lógica normativa, é um ideal com respeito a seu significar. Pois a exigência da arte do conhecimento diz: “emprega as palavras em significação absolutamente idêntica: exclui toda hesitação das significações; diferencia as significações e cuida de conservar sua diferenciação no pensar enunciativo mediante signos sensivelmente diferenciados com rigor”. Pois este preceito se refere ao único que pode submetesse a um  preceito; se refere à informação de términos significativos, ao cuidado na distinção subjetiva e na expressão dos pensamentos. As significações “em si”, hesite ou não hesite o significar, são, como já temos explicado, unidades específicas; porém, não são elas mesmas uns ideais. A idealidade, no sentido corrente, normativo, não exclui a realidade. O ideal é um modelo concreto que incluso pode existir como coisa real e estar ante nossos olhos; como quando um artista incipiente toma por ideais as obras de um grande maestro, obras que ele revive e atrás as quais vão vontade em seu trabalho de criação. E mesmo quando o ideal não é realizável, segue sendo um indivíduo, pelo menos na intenção representativa. A idealidade do específico é, em troca, o oposto exclusivo à realidade ou individualidade; não é um fim de possível aspiração, sua idealidade é a de a “unidade da multiplicidade”. Não a mesma espécie, sem o singular que cai de baixo dela é eventualmente um ideal prático.

HUSSERL, Edmund. Investigaciones lógicas. Alianza Editorial. pp. 288-9

Tradução: Paulo Abe

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Husserl – Investigações Lógicas – Capítulo 4 – Item 2/6 – Tradução Alianza Editorial

O caráter do ato que tem o significar. A significação é ideal e uma.

Assinalar este elemento psicológico comum, frente ao elemento psicológico varável, não é, “empero”, dar a conhecera diferença que queríamos mostrar nas expressões e respectivamente nos atos de expressão, isto é, a diferença entre seu conteúdo psicológico e seu conteúdo lógico. Porque ao conteúdo psicológico pertence, claro está, o que permanece igual de caso em caso, no menos que o que cambia. E em efeito, a doutrina nossa não quer dizer que o caráter do ato – caráter que permanece sempre igual – seja já a significação. Por exemplo, o que disse a proposição enunciativa: (letra ilegível) é um número transcendente, o que ao ler entendemos por isto ou ao falar recordamos, não é um rasgo individual, bem que sempre repetido, de nossa vivencia mental. Em cada caso é este rasgo, sem dúvida, individualmente distinto, enquanto que o sentido da preposição enunciativa é idêntico. Se nós, ou qualquer outra pessoa, repita a mesma proposição com igual intenção, cada uma tem seus fenômenos, suas palavras e seus momentos de compreensão. Porém, frente a esta ilimitada multiplicidade de vivências individuais, o que nelas é expresso pe em todo caso algo idêntico: é o mesmo, no sentido mais estrito da palavra. Com o número das pessoas e dos atos não se há multiplicado a significação da proposição; o juízo, no sentido lógico ideal, é uno.

Se defendemos aqui a estrita idealidade da significação e a distinguimos de esse caráter psíquico constante do dignificar, ele obedece não a uma predileção subjetiva pelas distinções sutis, sem a convicção teorética segura de que só dessa maneira respondemos a situação real, que é fundamental para a compreensão da lógica. Tão pouco se trata de uma mera hipótese que se justifique por sua eficácia explicativa, sem que a consideramos como uma verdade imediatamente apreensível, seguindo nele a suprema autoridade em todas as questões do conhecimento: a evidência. Vejo com intelecção que, em repetidos atos de representar e julgar, menciono – ou posso mencionar – identicamente o mesmo, o mesmo conceito, a mesma proposição. Vejo intelectivamente que, se se trata da proposição ou da verdade: (mesma letra ilegível) é um número transcendente, não me refiro para nada à vivência individual ou ao momento da vivência de uma pessoa. Vejo intelectivamente que este discurso reflexivo tem realmente como objeto o que no discurso direto constitui a significação. Por último, vejo intelectivamente que o que na citada proposição menciono ou – se a ouço – apreendo como sua significação, é identicamente o que é, penso eu e exista e existem em geral pessoas e atos pensantes, ou não. E o mesmo pode se dizer de qualquer significação de sujeito, significações de predicado, significações de referencia e de enlace, etc. Pode se dizer sobre todo das determinações ideais, que primeiramente só convém a significações. Entre elas – para recordar algumas especialmente importantes -, os predicados verdadeiro e falso, possível e impossível, geral e singular, determinado e indeterminado, etc.

Esta verdadeira identidade que aqui afirmamos, não é outra que a identidade da espécie. Assim e só assim pode abraçar como unidade ideal a multiplicidade das singularidades  individuais. As múltiplas singularidades com respeito a significação ideal e uma são naturalmente o correspondentes momentos do ato de significar, das intenções significativas. A significação mantém, pois, com os atos de significar (e a representação lógica com os atos de representar e o juízo lógico com os atos de julgar e o raciocínio  lógico com os atos de raciocinar) a mesma relação que, por exemplo, a espécie vermelha com as linhas (rayas) que vejo neste papel, linhas que tem todas esse mesmo vermelho. Cada linha tem, ademais, de outros momentos constitutivos (extensão, forma, etc), seu vermelho individual, é dizer, seu caso singular dessa espécie cromática, a qual, pór sua parte, não existe realmente nem nem linha nem em parte alguma desse mundo; nem tão pouco “em nosso pensamento” enquanto que este pertence igualmente a esfera de ser real, à esfera da temporalidade.

As significações constituem – podemos dizer também – uma classe de conceitos no sentido de “objetos universais”. Não por isso são objetos que existem, já que não em uma parte do “mundo”, ao menos num lugar celeste ou no espírito divino: pois semelhante hipotasis metafísica foi absurda. Quem se tem acostumado a entender por ser somente o ser “real” e por objetos objetos reais, haverá (habrá) de considerar radicalmente errôneo o falar de objetos universais e seu ser. Em troca, não verá nada de estranho nele que tome essas expressões, por de pronto, simplesmente como signos da validez de certos juízos, a saber: juízos onde se julga sobre números, proposições, figuras geométricas, etc.; e se pergunte se neste, como em todo, não haverá de conceder-se evidentemente o título de “objeto que verdadeiramente é” ao correlato da validez do juízo, a aquilo de que se julga. Em efeito: considerado logicamente, os sete corpos regulares são sete objetos, o mesmo que os sete sábios e o teorema do paralelogramo das forças é um objeto, o mesmo que a cidade de Paris.

HUSSERL, Edmund. Investigaciones lógicas. Alianza Editorial. pp. 287-8

Tradução: Paulo Abe

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Husserl – Investigações Lógicas – Capítulo 4 – Item 1/6 – Tradução Alianza Editorial

O conteúdo fenomenológico e ideal das vivências de significação.

O conteúdo da vivência expressiva no sentido psicológico e seu conteúdo no sentido da significação unitária.

A essência da significação não a vemos, pois na vivencia que da significação, sem o conteúdo desta, conteúdo que representa uma unidade intencional idêntica, frente à dispersa multiplicidade das vivencias reais ou possíveis do que fala e do que pensa. “Conteúdo” da vivencia de significação, neste sentido ideal, não tem nada que ver com o que a psicologia entende por conteúdo, isto é, alguma parte real ou algum aspecto de uma vivência. Quando compreendemos um nome – não importa que dito nome nomeie algo individual ou algo geral, algo físico ou algo psíquico, algo que é ou algo que não é, algo possível ou algo impossível – ou quando compreendemos um enunciado – não importa que este enunciado seja por seu conteúdo verdadeiro ou falso, congruente ou contra-sentido, julgado ou fingido -, o que uma ou outra expressão disse (em uma palavra: a significação que constitui o conteúdo lógico e que em conexões puramente lógicas é designada diretamente como representação ou conceito, como juízo ou proposição, etc.), não é nada que no sentido real posa valer como parte do ato correspondente de compreensão. Esta vivência tem, naturalmente, também seus componentes psicológicos; é um conteúdo e consta de conteúdos, no sentido psicológico corrente. A estes pertencem, sobre todo, os elementos sensíveis da vivência, os fenômenos verbais em seus conteúdos puramente visuais, acústicos, motores e assim mesmo os atos da interpretação objetiva, que ordena as palavras no espaço e tempo. O conteúdo psicológico é neste respeito conhecidamente variável e notavelmente cambiante de individuo em individuo: também troca para o mesmo individuo em diferentes tempos e ele com respeito a “uma e a mesma palavra”. Que nas representações verbais, que acompanham meu pensar silencioso, fantasio eu palavras faladas pela minha voz? Que as vezes me aparecem os signos gráficos de minha estrutura taquigráfica ou normal, etc? Todas estas são propriedades individuais minhas, que pertencem ao conteúdo psicológico de uma vivência de representação. Ao conteúdo no sentido psicológico  múltiplas diferenças – não sempre fáceis de apreender descritivamente – referentes ao caráter de ato que constitui a menção e representativamente a compreensão da palavra, no significado unitário, completamente indiferente o que eu me representei na fantasia ao homem insigne com chapéu mole e capa ou com uniforme de “coracero”, segundo a pauta de uma ou outra imagem conhecida. É mais: a circunstância mesma de que existam ou não imagens intuitivas da fantasia ou imagens que indiretamente vivifiquem a consciência da significação, não ´pe de nenhuma importância.

Em luta contra uma concepção muito difundida temos demonstrado que a essência do expressar reside na intenção significativa e não nas imaginações mais ou menos perfeitas, mais próximas ou mais remotas, que podem adicionar-se para cumprimento da dita intenção. Porém, se tais imaginações existem, estão intimamente fundidas com a intenção significativa. E por isso se concebe que a vivencia unitária da expressão – expressão que funcione conforme o sentido p , considerada de caso em caso, mostre também pelo lado da significação notáveis diferenciações psicológicas, permanecendo, “empero”, sua significação inalteradamente a mesma. Também temos mostrado que a essa identidade da significação no atos pertinentes, corresponde realmente algo determinado; que, por tanto, o que chamamos intenção significativa não é um caráter indistinto que se diferencia só pela conexão com as intuições “impletivas”, isto é, exteriormente. Mais bem diremos que às diferentes significações, e respectivamente às expressões que funcionam com diferente significação, pertencem também no conteúdo intenções significativas caracterizadas de diferente modo; enquanto isso que todas as expressões compreendidas em igual sentido estão previstas da mesma intenção significativa, como caráter psíquico igualmente determinado. E por isto é pelo que as vivências de expressão, que se diferenciam tão notavelmente em seu conteúdo psicológico, se convertem em vivencias da mesma significação. É notório que a hesitação do significar condiciona aqui certas limitações, que não cambiam em nada a essência da coisa.

HUSSERL, Edmund. Investigaciones lógicas. Alianza Editorial. pp. 285-6

Tradução: Paulo Abe


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Hume e a Geometria

O segundo princípio que me propus observar diz respeito à Geometria. Tendo negado a divisibilidade infinita da extensão, nosso autor sente-se obrigado a refutar aqueles argumentos matemáticos apresentados a favor daquela tese; tais argumentos, de fato, são os únicos que têm algum peso. Para refutá-los, nega que a Geometria seja uma ciência suficientemente exata para admitir conclusões tão sutis como as que dizem respeito à divisibilidade infinita. Seus argumentos podem ser expostos assim: toda a Geometria está fundada nas noções de igualdade e desigualdade, e logo, a própria ciência terá menor ou maior exatidão, conforme tivermos ou não um padrão mais ou menos exato dessa relação. Ora, existe um padrão exato de igualdade, supondo-se que a quantidade é composta de pontos indivisíveis. Duas linhas são iguais quando os números de pontos que as compõem são iguais, e quando cada ponto de uma corresponde a cada ponto da outra. Mas, mesmo que esse padrão seja exato, é inútil, pois jamais conseguimos contar o número de pontos em nenhuma linha. Além disso, isto se funda na suposição da divisibilidade finita, e, portanto, não pode fornecer qualquer conclusão contra ela. Se rejeitarmos esse padrão de igualdade, não temos outro que possua quaisquer pretensões de exatidão. Posso exemplificar com dois padrões comumente usados. Duas linhas sobre unia jarda, por exemplo, são consideradas iguais quando contêm qualquer quantidade inferior, como uma polegada, o mesmo número de vezes. Mas isso é um círculo vicioso. Pois a quantidade que chamamos de polegada, em uma das linhas, é supostamente igual à que chamamos de polegada na outra. E a questão ainda é: por que padrão procede-mos quando as julgamos iguais: ou, com outras palavras, que queremos dizer quando dizemos que elas são iguais. Se tomarmos quantidades ainda menores, seguiremos assim in infinitum. Logo, não é nenhum padrão de igualdade. Os filósofos, em sua maioria, quando perguntados sobre o que entendem por igualdade, respondem que a palavra não admite definições, e que basta colocar diante de nós dois corpos iguais, tais como dois diâmetros de um círculo, para fazer-nos entender esse termo. Ora, isso é tomar a aparência geral dos objetos como padrão dessa proporção, e entregar à nossa ima- ginação e aos nossos sentidos o último julgamento sobre ela. Mas, tal padrão não admite nenhuma exatidão e não consegue fornecer conclusão contrária à imaginação e aos sentidos. Se a questão é válida ou não, o mundo dos sábios deverá julgar. Seria certamente desejável que se descobrisse algum expediente para reconciliar a filosofia com o senso comum, os quais, no que concerne a questão da divisibilidade infinita, sustentaram guerras muito cruéis.[1]


[1] HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. P. 101-9

Hume e a alma

a alma, até onde somos capazes de concebê-la, não passa de um sistema, ou sucessão de diferentes percepções, as de calor e de frio, amor e ira, pensamentos e sensações, tudo interligado, mas sem nenhuma simplicidade perfeita ou identidade. Descartes sustentava que o pensamento é a essência da mente; não este ou aquele pensamento, mas o pensamento em geral: e, portanto, devem ser nossas várias percepções particulares que compõem a mente. Digo compõem a mente, e não pertencem a ela. A mente não é uma substância na qual as percepções são inerentes. Essa noção é tão ininteligível quanto a cartesiana, segundo a qual o pensamento, ou a percepção em geral, é a essência da mente. Não temos nenhuma idéia de substância, de qualquer espécie, uma vez que não temos nenhuma idéia que não derive de alguma impressão, e não temos nenhuma impressão de qualquer substância, seja material ou espiritual. Nada conhecemos além de qualidades particulares e percepções. Como nossa idéia de qualquer corpo, um pêssego, por exemplo, é somente a de um gosto particular, cor, forma, tamanho, consistência, etc. Assim, nossa idéia de mente é apenas a de percepções específicas, sem a noção de nada que chamamos substância, seja simples ou composta.

HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. P. 99-101

Publicado em:  on Outubro 29, 2009 at 12:05 am Deixe um comentário
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Hume e a associação de ideias


Ao longo de todo este livro, há grandes pretensões de novas descobertas em filosofia; mas se qualquer coisa pode conferir ao autor um título tão glorioso como o de inventor, é o uso que ele faz do princípio da associação de idéias, que perpassa a maior parte de sua filosofia. Nossa imaginação tem grande ascendência sobre nossas idéias; e não há idéias, distintas umas das outras, que ela não seja capaz de separar, juntar e compor em todas as variedades da ficção. Mas apesar do império da imaginação, existe um elo secreto ou união entre idéias específicas, que determina a mente a juntá-las mais freqüentemente, e faz com que uma, ao surgir, introduza a outra. Daí advém o que chamamos apropos do discurso; daí a conexão da escrita. E daí aquela linha, ou cadeia de pensamento, que um homem naturalmente sustenta, mesmo na mais vaga réverie. Esses princípios de associação reduzem a três, quais sejam, Semelhança: um retrato faz-nos naturalmente pensar no homem que foi retratado; Contigüidade: quando St. Denis é mencionado, a idéia de Paris ocorre naturalmente; Causa: quando pensamos no filho, estamos aptos a transferir nossa atenção para o pai. Será fácil conceber de quão vastas conseqüências devem ser esses princípios na ciência da natureza humana, se considerarmos que, no que diz respeito à mente, são esses os únicos elos que atam entre si as partes do universo, ou que nos ligam com qualquer pessoa ou objeto exterior a nós. Pois, sendo apenas por meio do pensamento que qualquer coisa opera sobre nossas paixões, e como esses são os únicos laços de nossos pensamentos, eles são realmente, para nós, o cimento do universo, e todas as operações da mente, em grande medida, devem deles depender. [1]


[1] HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. P. 119-125

Publicado em:  on Outubro 26, 2009 at 11:15 am Deixe um comentário
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Hume e a Poesia

“A poesia, com toda a sua arte, jamais pode causar uma paixão, como as da vida real. Falha na concepção original de seus objetos, que nunca se fazem sentir do mesmo modo que aqueles que comandam nossa crença e opinião.”

HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. P. 85

Publicado em:  on Outubro 25, 2009 at 9:59 pm Deixe um comentário
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