Curso de Extensão: Kant e a Crítica da Razão Pura

 

Estão abertas as inscrições para o Curso de Extensão que será ministrado por mim na Faculdade Mundial. O curso terá a carga horária de 20 horas e ocorrerá do dia 13/07/2015 até o dia 17/07/2015, de segunda a sexta. As aulas se focarão em apresentar os pressupostos teóricos e os conceitos fundamentais para a compreensão da obra “Crítica da Razão Pura” de Immanuel Kant, talvez o livro mais importante de toda a história da filosofia. As inscrições podem ser feitas pelo email: diegoazizi1@gmail.com, através dos telefones 3266-5944/3016-5944, ou pessoalmente na Faculdade Mundial, que fica localizada na Avenida Paulista (em frente ao metrô consolação, esquina com a Rua Augusta) 2.200, 12º andar. O valor do curso é de R$200,00 e pode ser pago via cheque, dinheiro ou depósito bancário. Aguardo a presença de vocês! Link para o currículo lattes do professor: http://lattes.cnpq.br/0411571979996806

Os escritos histórico-políticos de Immanuel Kant


Introdução

O presente texto tem como meta, uma breve introdução ao pensamento político kantiano (também chamado de reflexão sobre a filosofia da história), pensamento esse que, em nossa época e particularmente em nosso país, ainda é muito pouco estudado.

Kant não possui uma obra em particular, a respeito de sua concepção de filosofia da história, entretanto, esse pensamento se encontra distribuído em vários opúsculos que escreveu entre os anos de 1780 e 1790.

Nosso texto pretende ser um tipo de “mapa da mina”, onde a intenção é fornecer uma visão geral desses textos kantianos. Observamos que essa introdução (e qualquer introdução) nunca, jamais substituirá os textos originais. Portanto, nosso “mapa” é um encorajamento para se enfrentar os textos originais de frente, com paciência e rigor, pressupostos indubitavelmente necessários para compreender qualquer texto filosófico de maneira adequada e correta.

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“A contemplação de si e a Inação em Voltaire”

A contemplação de si e por si, como ato, é essencialmente imóvel. O que seria da humanidade, se não existisse um movimento dialético que superasse uma infertibilidade e uma imobilidade que condiciona o não agir objetivamente sobre uma realidade concreta?

Concebo a dialética como uma superação de imagens e conceitos falsos, que sendo sempre reafirmados, acabam por se congelar e cair em uma não ação, em um obscurantismo. O movimento dialético pressupõe assençoes e quedas, negações e afirmações em direção a um objeto supostamente verdadeiro, portanto justo ou injusto.

Voltaire, um pensador bastante polêmico (desde o século XVIII até os dias de hoje), com todo o seu cinismo e ironia, tem uma visão extremamente ativa e objetiva da filosofia, onde a inatividade e a imobilidade nao podem imperar. Em sua obra “Cartas Inglesas” afirmará o seguinte: “O que há de ser um homem que não age e que fica contemplando a si próprio? Não somente digo que seria um imbecil, inútil à sociedade, mas digo que não pode existir, pois o que contemplaria? Seu corpo, suas mãos, seus cinco sentidos? Ou seria um idiota, ou usaria tudo isso.”

Podemos perceber os movimentos dialéticos que encontramos na filosofia de Voltaire, em sua própria vida. O exemplo mais famoso dessa “ação filosófica” de Voltaire para superar as imagens e os conceitos falsos que imperavam em sua época (e ainda hoje), é o fatídico caso Calas.

O caso Calas

No dia 13 de Outubro de 1761, o senhor Calas e sua esposa encontram um de seus filhos enforcado, em uma barra de madeira, dentro de sua casa. Com a chegada da polícia, uma multidão aglomera-se do lado de fora da casa, quando alguem grita: “Marco Antonio foi enforcado por seus pais huguenotes (denominação dada ao protestantes franceses, em sua maioria calvinistas, por seus inimigos) porque se converteu ao catolicismo.”

Foi o começo dos rumores e dos falsos juízos de valor da cidade em relação ao caso. Todas as pessoas que estavam na casa foram presas e o processo foi levado até o Parlamento de Toulouse. O jovem morto começa a ser considerado um mártir dos católicos e uma paixão fanática toma conta da cidade.

Padres, civis e as irmandades religiosas exigem reparação, e sobre a pressão passional do público católico, o tribunal condena o pai à tortura e à morte, o irmão Pedro é banido da cidade e as irmãs são colocadas em um convento. Os bens da família são confiscados. A notícia chega aos ouvidos de Voltaire, que fica sem saber que partido tomar. Pede informações sobre o processo ao seu amigo D’alambert.

Voltaire fica bastante intrigado com o caso, pois reconhece sua importancia, pois se  Calas realmente for culpado, matou o filho devido ao fanatismo supersticioso, se Calas for inocente, então o tribunal nao foi neutro, laico, e agiu por motivos religiosos. O caso tomou Voltaire por completo, e através de sua investigação, conseguiu provas que indicavam que estavam diante de um gigantesco erro judiciário.

A filosofia de Voltaire sempre denunciou o fanatismo religioso, o perigo eminente das crenças supersticiosas e a cegueira dos que são tomados pelos discursos dos turiferários religiosos.

Munido de seu engajamento em relação ao desvelamento da verdade no processo jurídico, Voltaire fez um “escandalo” publicitário e voltou todas as atençoes para o caso. Chamou os membros da familia para interrogá-los, em Ferney (onde Voltaire morava na época). Escreve cartas às autoridades, mobiliza os grandes do reino, para atentarem ao fato da grande injustiça cometida.

Publica em 1762 uma “História de Calas” seguindo de uma carta com as assinaturas dos irmãos de Marco Antonio. O caso repercute-se em toda a França, e o povo de Paris começa a se movimentar. Em 1763, Voltaire publica o seu “Tratado sobre a tolerancia”, apresentando a causa dos Calas como a própria causa da humanidade. O cenário provocado por Voltaire é tão grande que o parlamento de Paris revoga a decisão do parlamento de Toulouse. Um ano se passa e o caso é julgado novamente, com a absolvição da familia, considerada inocente.

Voltaire sempre lutou, acima de tudo, pela busca da verdade e da justiça. Sua luta para “esmagar a infâmia” sempre foi concreta e ativa, afirmando os perigos da inação e do fanatismo. Conta-se que, quando o mensageiro trouxe a notícia de que a familia Calas fora inocentada das acusações, Voltaire emocionado, abraçou o mensageiro e disse: “É a filosofia sozinha que obteve essa vitória!”.

Podemos nos lembrar de outro personagem na história da filosofia, que procedeu parecidamente.

Sócrates, embora em contextos diferentes, adiquirindo seu saber negativo (pois negava os falsos conceitos que vigoravam na Pólis), e tempos depois, alcançando seu saber afirmativo (o conhece-te a ti mesmo, a teoria das idéias, a dialética alada de Eros…) ascendeu dialeticamente, rumo às formas puras e verdadeiras, como a justiça, o belo, a verdade(…). Ascenção obtida através do movimento e não da cristalização.

O movimento e a superação de falsas imagens, de sombras, é instrínseco à natureza humana, e à noção de filosofia. Algo sem movimento, não é, porque o que é, muda e o que não é, não muda. O não ser nunca será ser, e se a filosofia é alguma coisa, essa coisa é movimento.

Para compreender melhor a filosofia de Voltaire, segue bibliografia nacional:

Nascimento, Maria das Graças de Souza. Voltaire: A razão militante; São Paulo: Editora Moderna, 1993.

Nascimento, Maria das Graças de Souza. Imagens do materialismo nos contos de Voltaire,in Transformação. Publicações Unesp, vol.7, 1985.

Salinas Fortes, L. Roberto. O iluminismo e os reis filósofos. São Paulo, Brasiliense, 1981.

Chauí, Marilena. Três em uma, in Da realidade sem mistérios ao mistério do mundo (Espinosa, Voltaire, Merleau-Ponty). São Paulo, Brasiliense, 1981.

“O Problema da Crítica da Razão Pura”

Introdução

A nossa proposta ao realizar este trabalho, não se fundamenta, e tampouco procura identificar qual é a resposta definitiva de Kant em relação ao problema proposto em sua Crítica da razão pura. Nosso intuito consiste em identificar a pergunta de Kant, e seus pressupostos, tendo em vista a construção necessária do solo conceitual em que o autor estava inserido. Buscar o contexto histórico-filosófico e a influência que as ciências da época tiveram sobre o pensamento Kantiano é fundamental para a compreensão desta obra, que sem a identificação de seus pressupostos, se tornaria ininteligível.

O problema da Crítica da razão pura”

Kant, para escrever essa obra, parte de um conceito fundamental e patente em toda a sua crítica, o conceito de ciência. Na primeira metade do século XVIII, as físicas de Descartes e de Leibniz, conflitavam entre si, e nenhuma delas se sobrepujava sobre a outra. Com os estudos de Isaac Newton, e a inauguração de seu sistema sobre a física, Kant adere gradualmente a concepção mecânica de Newton, que ao seu ver é o exemplo de ciência verdadeira (a geometria de Euclides também). Ora, a metafísica também se propõe como uma ciência, e os racionalistas dogmáticos defendem a idéia de que a metafísica é sim possível como ciência. Está aí o problema crucial para Kant.

O conceito de ciência, que Leibniz e Descartes herdaram da antiguidade, e que Kant também adere, é de que conhecimento científico é universal e necessário.

Todo o conhecimento científico, universal e necessário, deve ser fundamentado sobre conhecimentos à priori. Na filosofia de Kant, vemos que existem dois tipos de conhecimentos: à priori e à posteriori, ou empíricos. Conhecimento à priori, é um conhecimento que não se funda logicamente na experiência. Conhecimento empírico (à posteriori) é aquele conhecimento cuja fundamentação está nos próprios sentidos, contudo, o conhecimento empírico não pode fundamentar um conhecimento que se propõe ser universal e necessário, pois a experiência se reduz a ações e fatos particulares, sendo impossível e irracional o salto do particular para o universalmente necessário. A mecânica de Newton “é algo mais que uma mera generalização de dados empíricos ou uma descrição matemática feliz e conveniente dos fenômenos que poderia eventualmente, ser corrigida no futuro.”1

Mas se então, a ciência não pode se fundamentar sobre dados meramente empíricos, deve se fundamentar sobre dados à priori. A mecânica newtoniana é ciência, universal e necessária, e portanto não é fundada na experiencia.

Voltando ao problema que Kant encontrou, a metafísica se propõe como ciência, pressupõe conhecimento à priori, mas falha. Porque falha? Porque o conhecimento à priori é possível na matemática e na física, mas na metafísica não? Resumindo, a ultima pergunta que podemos extrair é: conhecimento à priori é possível?

Esse questionamento em relação à metafísica, como ciência legítima, era objeto de várias discussões na época de Kant, a era do Aufklärung, do esclarecimento. Era um período onde as novas ciências estavam emergindo e se consolidando de maneira universal. A física não é concebida como mero tateio da razão, nem a matemática. Essas ciências, e suas leis, eram aceitas universalmente entre todos, pois os fatos conhecidos confirmam a necessidade e universalidade dessas leis, porém na metafísica, ninguém chegava a uma conclusão quanto às suas determinações, suas teses e seus objetos. Como disse Kant, o terreno da metafísica era “uma eterna arena de disputas”, onde os dogmáticos se contradiziam uns aos outros.

Ainda no período do iluminismo, Kant identificara que o espírito dessa época consistia em colocar todas as certezas em cheque, todos os preconceitos e dogmas eram criticados, os fundamentos de todos os níveis eram buscados, tanto na ciência como nas instituições (tanto cultural quanto social). Ora, a razão é o que fundamenta todas essas críticas, mas a própria razão não foi colocada em avaliação crítica. Diz; “é um convite à razão para de novo empreender a mais difícil de suas tarefas, a do conhecimento de si mesma e da constituição de um tribunal que lhe assegure as pretensões legítimas e, em contrapartida, possa condenar-lhe todas as presunções infundadas(…)”2.

A metafísica que Kant critica, e a que conhece, é a metafísica de Cristian Wolf, que era a metafísica racionalista, também de Descartes e Leibniz. Esses racionalistas acreditavam que a metafísica era possível como ciência, e a concebiam como ciência. Pretendiam provar que é possível, através da razão pura, o conhecimento de verdades sobre objetos conceituais que ultrapassam toda a experiência possível. Essa crença de que a metafísica fosse possível como ciência “é produto da confiança que eles tinham na razão. A confiança que eles tinham na razão, por sua vez, é produto da confiança que tinham na matemática. A matemática ocupa um lugar privilegiado no saber da época, sendo considerada modelo de solidez e rigor. Suas verdades são em si mesmas evidentes ou demonstradas a partir de verdades evidentes.(…)Quando um matemático demonstra seus teoremas, apóia-se unicamente na razão. Ora, se nas matemáticas a razão consegue produzir conhecimentos a partir de si mesma, por que ela não poderia fazer o mesmo na metafísica?”3

Mas a matemática não ultrapassa os limites da experiência possível, assim como a física, mas a metafísica sim. Devemos identificar, que para Kant, conhecimento só existe, em ultima instância, se existir uma espécie de síntese ente intuições e conceitos. Intuição, podemos definir, é uma captação imediata de um objeto singular, por meio dos sentidos. A única intuição possível é a intuição sensível, que é intuída sobre objetos espaço-temporais. Espaço e tempo, são as formas puras da intuição, e as únicas para Kant. A geometria procede mediante a construção de objetos, conceitos, através da intuição. Conceitos são regras de unificações de dados, transmitidos através das intuições.

Para um conhecimento à priori existir, então devem existir intuições à priori e conceitos à priori. Se os nossos conhecimentos se regularem unicamente pelos objetos dados, não seria possível conhecimentos à priori, mas se fizermos, como Copérnico (a famosa revolução copernicana, que Kant enfatiza como ponto crucial na ciência), uma inversão no modo de compreender os objetos, poderemos fundamentar uma possibilidade de conhecimento à priori.

Kant inverte, e coloca no sujeito, participação na construção dos objetos (que são sempre espaço-temporais, portanto empíricos). As intuições à priori, que são espaço e tempo, e os conceitos à priori, que pode ser o princípio de causalidade, ou o de quantidade, (intuições e conceitos que existem no sujeito) só se aplicam a objetos empíricos, portanto, conhecimento à priori só é possível em relação a objetos empíricos.

Todo conhecimento à priori, são conhecimentos sintéticos. A metafísica propõe juízos sintéticos à priori, mas só consegue afirmar juízos analíticos, ou seja, apenas fundamentados nos princípios lógico-formais de não-contradição.

A física e a matemática conseguem afirmar juízos sintéticos à priori, pois através de suas leis, conseguiram identificar a existência de relações universais e necessárias entre os fenômenos (objetos espaço-temporais).

A metafísica, portanto, não é possível como ciência, pois seus objetos ultrapassam qualquer possibilidade de experiência, só consegue operar mediante juízos analíticos e seus conceitos são construídos pela própria razão pura, não havendo identificação nenhuma com as formas de intuição puras e conceitos puros.

Mas apesar do ataque à metafísica, Kant observa que as perguntas feitas por ela, são racionalmente necessárias, mas não consegue responde-las. A razão, como a faculdade do incondicionado, ou seja, pergunta pelos porquês dos porquês, se vê trabalhando até o infinito, dando um salto ilegítimo, e introduzindo a idéia do incondicionado.

Em decorrência desses problemas, Kant instaura um tribunal, para determinar se as perguntas feitas pela metafísica são de fato legítimas, e esse tribunal denomina-se “A Crítica da Razão Pura”.

1Mário Ariel Gonzales Porta. A filosofia a partir de seus problemas, pág. 110. São Paulo, Ed. Loyola, 2007.

2Immanuel Kant. Crítica da razão pura. Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Pág. 5. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1985.

3Mario Ariel Gonzales Porta. A filosofia a partir de seus problemas, pág 112. São Paulo, Ed. Loyola, 2007.