Tao – O vazio do bambu

Se o bambu tivesse o talo maciço, ele seria pesado, rígido, inflexível. Com isso, os taoístas perceberam que é o vazio que garante as qualidades do bambu. O vazio é um dos conceitos fundamentais do pensamento oriental.
Para a maior parte das pessoas, o vazio tem um sentido negativo. Significa nulidade, inexistência, zero. Para os orientais é o oposto. Se o bambu tem suas virtudes por causa do caule oco, então o vazio tem um sentido positivo. O vazio é a origem de boas qualidades, é algo que se valoriza e permite a existência das coisas. Basta pensarmos de modo inverso. Se o elevador estiver lotado, não podemos entrar. Se nossa mente estiver entulhada de preocupações, não podemos pensar direito.
É dessa forma que os sábios antigos viam o vazio. Não pela ausência, mas sim pelas possibilidades que ele abre, pelos benefícios que ele traz. É uma visão positiva e não negativa. Um antigo texto chinês, o Tao Te Ching, diz: “O vaso é feito de argila, mas é o vazio que o torna útil. Abrem-se portas e janelas nas paredes de uma casa, mas é o vazio que a torna habitável”.
O vazio é invisível. Apesar de óbvio, esse detalhe é fundamental porque mostra que as coisas mais importantes são invisíveis. Os sábios sabem que existem coisas mais profundas do que as aparências
Para os mestres orientais, o vazio é universal, onipresente. Percebiam que o Sol flutuava no céu, no vazio, que a lua flutuava no escuro da noite, no vazio. Para os mestres orientais, “universo”, “o todo” e “vazio” são conceitos correspondentes. Tudo nasce no (e do) vazio e tudo volta para o vazio. O mesmo vazio do bambu.

Trecho do livro A sabedoria da Natureza, de Roberto Otsu, Editora Ágora, S. Paulo

Heidegger – O Vazio e o Nada

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Martin Heidegger, ao criticar a metafísica clássica, critica-a pelo niilismo que ela põe ao se esquecer do ser e debruçar-se exclusivamente sobre os entes. Neste rumo, o niilismo do discurso metafísico, que encontrou seu fundamento histórico no pensamento de Parmênides de Eléia (cerca de 530-460 a.C), situa-se, para Heidegger,  nanadificação da totalidade do ser, pois tal discurso nada fala sobre o ser do ente.
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[…] pensar o ente sem pensar o ser é pensar nada do ser, pensar o ente como nada. A metafísica ocidental, sendo uma doutrina do ente sem o pensamento do ser, é no seu conjunto niilismo.
A superação do niilismo acontece na recolocação da pergunta sobre o ser (MOLINARO, 2002, p.53).
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De fato,  a alocução metafísica, esqueceu-se da pergunta filosófica: “Que é isto?”, dando margem apenas às perguntas acerca dos entes: “como é isto?”, “para que isto?”, etc., perguntas que oportunizaram o avanço da técnica científica e ao paradigma da subjetividade desde a modernidade, porém nada fala sobre o ser e ignora o conceito de nada. Quanto a essência na pergunta filosófica, escreve Heidegger:
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[…] o ‘é’ traz uma carga transitiva e designa algo assim como ‘recolhe’. O ser recolhe o ente pelo fato de que é o ente. O ser é o recolhimento […] Todo ente é no ser […] Todo mundo sabe: ente é aquilo que é. Qual a outra solução para o ente a não ser esta: ser? (HEIDEGGER, 1973, p.215).
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Márcia Schuback, no artigo “O vazio do nada: Heidegger e a questão da superação da metafísica” ressalta que para Heidegger, pensar o nada é  mesmo, pensar “a força que renova o mundo”, também enfatiza que deparamo-nos com um vazio (To Kenón) na história do discurso filosófico. Afirma:
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A virada para a filosofia que Heidegger significou para a fenomenologia pode ser caracterizada como uma virada para o vazio […] significa, em Heidegger, a possibilidade de se pensar o impensável, isto é, o nada […] pensar a força que renova o mundo (SCHUBACK apud IMAGUIRE et.al. , 2007, p.81).
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Então, este vazio representa a ausência da luz da linguagem filosófica sobre a totalidade do ser. “[…] o nada é a negação da totalidade do ente, o absolutamente não-ente. Com tal procedimento subsumimos o nada sob a determinação mais alta do negativo e, assim, do negado […] o nada é mais originário que o ‘não’ e a negação” (HEIDEGGER, 1973, p. 235).
Pensar essa nada como força renovadora é descobrir neste vácuo a possibilidade de trazer à luz a totalidade do ser ao se retornar, através do pensar, à autêntica questão filosófica – “que é isto?” – procurando o ser dos entes a fim de que  o vazio do nada seja preenchido pelo advento do ser, este que renova o mundo.
Para o discípulo de Heidegger, o filósofo japonês Keijii Nishitani (1900-1990), o espaço para o nada, contemplado no pensamento de seu mestre é como a antítese à imposição do ser, que seria a tese, no discurso clássico da Filosofia.
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Para Nishitani, o ‘campo’ do nada, entreaberto pelo pensamento de Heidegger é um nada contra o cheio da substância, sendo um conceito negativo e não inteiramente positivo do nada, o nada como nada, só seria possível segundo o filósofo japonês, numa superação da oposição entre ser e nada, entre ser e não-ser. Essa ‘superação’ pode apenas se dar, de acordo com Nishitani, sob o prisma do vazio (SCHUBACK apud IMAGUIRE et.al. , 2007, p.83).
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Nesta senda, Nishitani propõe uma síntese entre o ser e o não-ser que ocorre “sob o prisma do vazio”, dando azo à possibilidade de se determinar este vazio entre ser ou nada.
Apesar de Aristóteles ter estabelecido em sua “Física” a compreensão de vazio como “horror ao nada”, em Heidegger  este vazio é possibilidade manifestação do ser, almejando a finalidade da fenomenologia, ou seja, “as coisas, elas mesmas”. Assim, o vazio do nada é a clareira onde a manifestação do ser pode se dar no jogo velador e desvelador, conforme o movimento do devir do ser. Esta manifestação do ser acontece na linguagem que imbrica poesia e pensamento.
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A linguagem é a casa do ser. Nesta habitação do ser mora o homem. Os pensadores e os poetas são os guardas desta habitação. A guarda que exercem é o consumar a manifestação do ser, na medida em que a levam à linguagem e nela a conservam (HEIDEGGER, 1998, p.31).
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È a linguagem do pensamento que tendo se afastado e olvidado o ser, em Heidegger retorna à poesia, segundo o modelo dos perifísios dos primeiros pensadores, que buscaram o princípio do Kósmos na natureza; destes pensadores pioneiros, Heidegger adota o pensamento de Heráclito de Éfeso (cerca de 540-470 a.C.), no seu princípio do devir, representado pelo fogo. “Este mundo [Kósmos], o mesmo de todos os(seres), nenhum deus, nenhum homem o fez, mas era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se e apagando-se em medidas” (HERÁCLITO, 1999, p.90). Condizente com a linguagem poética unida ao pensamento, essa que dá azo à possibilidade de determinar-se nas fronteiras das passagens de ser ao não-ser e, deste ao ser.
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REFERÊNCIAS
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HEIDEGGER, Martin. Carta sobre o humanismo. 5. Ed. Lisboa: Gimarães Editores, 1998.
___________. Conferências e escritos filosóficos. In: Os pensadores. V. 45. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
HERÁCLITO DE ÉFESO. In: Os pensadores: os pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p.81-116.
MOLINARO, Aniceto. Metafísica: curso sistemático. São Paulo: Paulus, 2002.
SCHUBACK, Márcia Sá Cavalcante. O vazio do nada: Heidegger e a questão da superação da metafísica. In: IMAGUIRE, Guido et.al. Metafísica contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 81-99.

Zen – O sabor do zen

Minagawa Shunzaemon, célebre poeta muito apegado à rima e adepto do zen, ouviu falar num famoso mestre zen, Ikkyu, chefe do templo de Daitoku-ji, situado na região dos campos violeta. Desejando tornar-se seu discípulo, foi visitá-lo. À entrada do templo, entabularam o diálogo.
Ikkyu perguntou:
– Quem és tu?
– Um budista – respondeu Minagawa
– De onde vens?
– Da vossa província…
– Ah!… E que tem acontecido ali nos últimos dias?
– Os corvos crocitam, os pardais chilream.
– E onde crês estar agora?
– Nos campos violeta.
– Por quê?
– As flores, essas glórias da manhã… o áster, o crisântemo, o açafrão…
– E quando murcham?
– É Myiagino (campo decantado pela beleza das flores de outono)
– Que acontece nesses campos?
– Ali flui o rio, varrido pelo vento.
Estupefato ao ouvir tais palavras, que tinham o sabor do zen, Ikkyu levou-o para seu quarto e ofereceu-lhe chá. Em seguida compôs, de improviso, os seguintes versos:

” Um prato delicado eu quisera te dar,
Mas ai de mim, o zen nada pode ofertar…”

Respondeu o visitante:

” O espírito que só pode oferecer-me o nada
é o vazio original
Iguaria delicada entre as mais ”

Profundamente comovido, o mestre concluiu:
– Meu filho, aprendeste muito !!!

Texto retirado de http://contos-zen.blogspot.com/

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