Empédocles

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O mais extravagante dos primeiros filósofos da Itália grega foi Empédocles,  que surgiu na metade do século V. Nasceu em Acragas, cidade costeira ao sulda Sicília, atual Agrigento. O porto desta cidade foi batizado de Porto Empédocles, embora isto não seja um sinal de uma perene veneração ao filósofo, mas antes à paixão, no Risorgimento italiano, de rebatizar locais em homenagem às glórias passadas da Itália.

Empédocles nasceu em uma família aristocrática que possuía um haverás de cavalos premiados. Na política, todavia, possui a fama de ter sido um democrata, do qual se conta ter frustrado um plano para tornar a cidade uma ditadura. Conta a história que os agradecidos cidadãos quiseram fazê-lo rei, mas ele teria declinado do cargo, preferindo seu modo de vida frugal como médico e conselheiro (DL 8, 63). A sua ausência de ambição não era contudo sinal de falta de vaidade. Em um de seus poemas ele se jacta de que onde quer que vá homens e mulheres o pressionam em busca de aconselhamento e tratamento. Ele afirmava possuir drogas para retardar a velhice, além de conhecer alguns encantamentos para controlar o clima. No mesmo poema, de modo franco, ele diz ter alcançado a condição de divindade (DL 8, 66).

Muitas tradições bibliográficas, nem todas possíveis do ponto de vista cronológico, fazem de Empédocles em  

discípulo de Pitágoras, de Xenófanes e de Parmênides. É certo que ele imitou Parmênides ao escrever um poema em forma hexametral, “Sobre a natureza”. Este poema, dedicado a seu amigo Pausanias, continha cerca de duas mil linhas, das quais chegou até nós apenas uma quinta parte. Ele também escreveu um poema religioso, “Purificações”, do qual muito menos se preservou. Os estudiosos não chegaram a um consenso sobre a qual dos dois poemas devem ser agregadas a maior parte das citações dispersas que sobreviveram – alguns, na verdade, julgam que os dois poemas sejam fragmentos pertencentes a uma única obra. Peças adicionais desse quebra-cabeça textual foram recuperadas quando quarenta fragmentos de papiro foram identificados nos arquivos da Universidade de Estrasburgo em 1994. Como poeta, Empédocles era mais fluente que Parmênides, alem de mais versátil. Segundo Aristóteles, ele teria escrito um épico sobre a invasão da Grécia por Xerxes, e de acordo co

m outras tradições teria o autor de muitas tragédias (DL 8, 57).

A filosofia da natureza de Empédocles pode ser considerada, de certo ponto de vista, uma síntese do pensamento dos filósofos Jônicos. Como vimos, cada um deles havia escolhido certa substância como princípio básico ou dominante do universo: Tales havia privilegiad

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o a água, Anaxímenes o ar, Xenófanes a terra e Heráclito o fogo. Para Empédocles, todas essas quatro substâncias mantinham-se em iguais condições como ingredientes fundamentais, ou “raízes”, como ele dizia, do universo. Essas raízes sempre existiram, ele declarava, mas elas se misturaram entre si em proporções variadas, de modo a produzir o desenho familiar do mundo assim como as coisas do céu.

 

Dessas quatro saiu tudo o que foi, é e sempre será:

Árvores, animais e seres humanos, machos e fêmeas todos,

Pássaros do ar e peixes gerados pela água brilhante;

Os envelhecidos deuses também, de há muito louvados nas alturas.

Estes quatro são tudo o que há, cada um se entranhando no outro

E, ao misturar-se, variedade ao mundo dando.

(KRS 355)

O que Empédocles denominava “raízes” era aquilo que Platão e pensadores gregos posteriores chamavamstoitheia, uma palavra utilizada para denominar as silabas de uma palavra. A tradução latina, elementum, da qual deriva nossa palavra “elemento”, compara as raízes não a silabas, mas às letras do alfabeto: um elemntum é um LMNto. Filósofos e cientistas atribuíram ao quarteto de elementos de Empédocles um papel fundamental na física e na química até o advento de Boyle, no século XVII. Na verdade, pode-se alegar que ele ainda permanece conosco, numa forma alterada. Empédocles pensava seus quatro elementos como quatro tipos diferentes de matéria; nós consideramos o sólido, o líquido e o gasoso os três estados da matéria. Gelo, água e vapor poderiam ser, para Empédocles, instancias específicas de terra, água e ar, enquanto para nós eles são três estados da mesma substância; H2O. Não é irracional pensar no fogo, e especialmente no fogo do sol, como um quarto elemento de igual importância. Alguém poderia dizer que o surgimento no século XX da ciência da física do plasma, que estuda as propriedades da matéria a temperaturas solares, recuperou a paridade do quarto elemento de Empédocles aos outros três.

 

Empédocles Elementos 01

Aristóteles louvava Empédocles por ter percebido que uma teoria do cosmos não poderia apenas identificar os elementos do universo, mas deveria atribuir causas para o desenvolvimento e a mistura dos elementos para formar os componentes vivos e inanimados do mundo real. Empédocles atribuiu esse papel ao Amor [Philia] e ao Ódio [Neikos]; O Amor combinando os elementos, e o Ódio separando-os. Em determinado momento as raízes crescem para ser uma entre muitas, em outra ocasião dividem-se para ser muitas a partir de uma. Estas coisas, ele afirmou, jamais cessam esse intercâmbio contínuo, unindo-se às vezes por força do Amor, separando-se depois umas das outras pela força do Ódio.

O Amor e o Ódio são os antepassados pitorescos das forças de atração e repulsão que figuraram na teoria da física através dos séculos. Para Empédocles, a história é um ciclo em que algumas vezes o Amor é dominante, e em outras é o Ódio. Sob a influência do Amor, os elementos se combinam em uma esfera homogênea [sphairos], harmoniosa e resplandecente, herdeira do univeso de Parmênides. Sob a influência do Ódio, os elementos separam, mas assim que o Amor começa a ganhar o território que havia perdido aparecem todas as diferentes espécies de seres vivos (KRS 360). Todos os seres compostos, como os  animais, as aves e os peixes, são criaturas temporárias que surgem e partem; somente os elementos são eternos, e somente o ciclo cósmico continua sempre.

Para explicar a origem das espécies vivas, Empédocles concebeu uma notável teoria da evolução a partir da sobrevivência do mais apto. No início, carne e osso surgiram como composições químicas de elementos, a carne sendo constituída de fogo, ar e água em partes iguais, o osso constituindo-se de duas partes de água, duas de terra e quatro de fogo. A partir desses constituintes, formaram-se membros e órgãos do corpo não unidos; olhos fora das cavidades, braços sem ombros e rostos sem pescoços (KRS 375-6). Estes órgãos vagaram por aí até encontrar pares ao acaso; fizeram uniões, que nessa primeira fase resultaram com freqüência não muito adequadas. Disso resultaram várias monstruosidades: homens com cabeça de boi, bois com cabeça de homem, criaturas andróginas com rostos e seios na frente e nas costas (KRS 379). A maioria desses organismos do acaso eram frágeis ou estéreis e somente as estruturas mais bem adaptadas sobreviveram para tornar-se o homem e as espécies animais que conhecemos. Sua capacidade de reproduzir foi algo devido ao acaso, não a um plano (Aristóteles, Fis. 2, 8, 198b29).

Aristóteles prestou tributo a Empédocles por ter sido o primeiro a notar o importante princípio biológico de que diferentes partes do organismos vivos não assemelhados podem possuir funções homologas, a saber, azeitonas e ovos, folhas e penas (Aristóteles, GA 1, 23, 731a4). Mas ele demonstrava desprezar a tentativa de Empédocles de reduzir a teleologia ao acaso, e por muitos séculos os biólogos nisso acompanharam Aristóteles e não Empédocles, o qual riu por último quando Darwin o saudou por “retirar das sombras o princípio da seleção natural”[i].

Empedocles

Empédocles empregou seu quarteto de elementos para oferecer uma explicação da senso-percepção, baseado no princípio de que o semelhante é reconhecido pelo semelhante. Em seu poema “Purificações” ele combinou sua teoria da matéria com a doutrina pitagórica da metempsicose. Os pecadores – sejam divinos ou humanos – são punidos quando o Ódio aprisiona suas almas em diferentes tipos de criaturas na terra e no mar. Um ciclo de reencarnação oferece a esperança de um eventual deificação para classes privilegiadas de homens: videntes, bardos, doutores e príncipes (KRS 409). Naturalmente, Empédocles alegava identificar-se com todas essas profissões.

Em sua escrita, Empédocles move-se erraticamente entre um estilo austeramente mecânico e um outro de caráter critico-religioso. Algumas vezes ele faz uso de nome divinos para seus quatro elementos (Zeus, Hera, Hades e Nestis) e identifica o seu Amor com a deusa Afrodite,  a quem ele homenageia em termos que antecipa a frente “Ode à alegria” de Schiller (KRS 349). Sem dúvida, sua afirmação da própria divindade pode ser reduzida da mesma maneira pela qual ele demitologiza os deuses Olímpicos, embora tenha sido o que chamou a atenção de seus pósteros, especialmente na lenda sobre sua morte.

Conta a história que uma mulher chamada Pantéia, declarada morta pelos médicos, foi milagrosamente restituída à vida por Empédocles. Para comemorar, ele ofereceu um banquete sacrificial a oitenta convidados na casa de um homem rico aos pés do Etna. Quando os outros convidados se recolheram para dormir, Empédocles ouviu chamaram seu nome dos céus. Ele dirigiu-se rapidamente ao cume do vulcão, quando então, nas palavras de Milton,

Para ser considerado

Um Deus, saltou imprudente nas chamas do Etna.

(Paraíso perdido, III, 470)

Matthew Arnold dramatizou essa história em seu Empédocles no Etna, em que faz o filósofo pronunciar estes versos à beira da cratera:

Este coração não mais brilhará; sua condição

Não mais será a de um homem vivo, Empédocles!

Nada senão uma consumidora chama de pensamento –

Mas mente nua somente, incansável na eternidade!

Para os elementos dos quais veio

Tudo irá retornar

Nossos corpos à terra,

Nosso sangue à água.

O calor ao fogo,

O fôlego ao ar.

Estes nasceram de fato, serão de fato enterrados –

Mas a mente?

(linhas 326-338)

Arnold concede ao filósofo, antes de seu mergulho final, a esperança de que, como recompensa por seu amor à verdade, sua mente jamais perecerá totalmente.

KENNY, Anthony. Uma Nova História da Filosofia Ocidental. Volume I. Filosofia Antiga. Edições Loyola. pp.45-49

 


[i] Charles DARWIN, Apêndice à sexta edição de The Origin of Species, apud. A. GOTTLIEB, The Dream of Reason: A history of western philosophy frmo the greeks to the renaissance, London, Allen Lane, 2000, 80.

Melisso

Melisso

Parmênides teve um discípulo, Melisso, que veio de Samos, a ilha de Pitágoras, e que dizia  ter estudado também com Heráclito. Tinha atuação política e ascendeu à patente de almirante da Armada de Samos. No ano de 441 a.C., Samos foi atacada por Atenas, e embora Atenas tenha saído da guerra com a vitória consta que Melisso inflingiu duas derrotas à Armada de Péricles (Plutarco, Péricles 166c-d; DL 9, 4).

Melisso expôs a filosofia do poema de Parmênides em presa, argumentando que o universo era ilimitado, inalterável, inamovível, indivisível e homogêneo. Ele é lembrado por haver extraído duas conseqüências dessa visão monista:

  1. A dor não é real, porque isto implicaria (impossivelmente) uma deficiência no ser;
  2. Não há algo como o vácuo, já que ele teria de ser um pedaço de Não-ser. O movimento localizado seria portanto impossível, pois s corpos que ocupam espaço não teriam espaço para onde mover-se (KRS 534).

KENNY, Anthony. Uma Nova História da Filosofia Ocidental. Volume I. Filosofia Antiga. Edições Loyola. PP. 44

Heráclito

Heraclito 01

 

Heráclito foi o último, e o mais célebre, dos primeiros filósofos Jônicos. Era provavelmente trinta anos mais novo que Xenófanes, já que se diz que estava em sua meia-idade ao termino do século VI a. C.(DL 9,1). Viveu na grande metrópole de Éfeso, a mio caminho de Mileto e Colofão. Chegou a nós uma porção substancialmente maior de sua obra que a de qualquer filósofo a ele anterior, mas isso não significa que o achemos mais fácil de entender. Seus fragmentos assumem a forma de concisos, agudos aforismo em prosa, frequentemente obscuros e algumas vezes deliberadamente ambíguos. Heráclito não argumenta, ele pontifica. Seu estilo délfico pode ter sido uma imitação do oráculo de Apolo, o qual, nas palavras de Heráclito, “ nem diz, nem oculta, mas dá sinais” (KRS 244). Os muitos filósofos de séculos posteriores que admiraram Heráclito foram capazes de acrescentar cor própria a seus paradoxais e camaleônicos ditos.

Mesmo na Antiguidade Heráclito era considerado difícil. Foi apelidado “o Enigmático” e “Heráclito, o Obscuro” (DL 9, 6). Ele escreveu um tratado de filosofia em três volumes – todos eles desaparecidos – e o depositou no grande tempo de Ártemis (a “Diana dos efésios” mencionada por são Paulo). Seus contemporâneos não podiam atinar se era um texto de física ou um tratado político. “O que disso entendi é excelente”, afirma-se ter dito Sócrates. “O que não entendi pode do mesmo modo ser excelente, mas seria preciso um mergulhador para chegar a suas bases” (DL 2, 22).  Hegel, o idealista alemão do século XIX, um grande admirador de Heráclito, fez uso da mesma metáfora marinha para expressar um juízo oposto. Quando chegamos a Heráclito após as flutuantes especulações dos primeiros pré-socráticos, afirmou Hegel, ao menos enxergamos a terra. E prosseguiu, acrescentando com orgulho:

 

 “Não existe frase de Heráclito que eu não tenha integrado em minha Lógica”.

 

À semelhança de Descartes e Kant em épocas posteriores, Heráclito via a si como o iniciador de um tempo completamente novo para a filosofia. Considerava a obra dos pensadores que o antecederam inútil: Homero seria desclassificado nas eliminatórias de qualquer competição poética, e Hesíodo, Pitágoras e Xenófanes não passaram de polímatas sem real significado (DL 9,1). Mas, de novo à semelhança de Descartes e Kant, Heráclito teria sofrido mais influências de seus predecessores do que imaginava. Heráclito também era, como Xenófanes, altamente critico em relação à religião popular: oferecer sacrifícios de sangue para purgar alguém do derramamento de sangue era como tentar limpar lama com lama. Orar a estátuas era como sussurrar numa casa vazia, as procissões fálicas e os ritos dionisíacos eram simplesmente abjetos (KRS 241, 243).

Também como Xenófanes, Heráclito acreditava que o Sol era novo a cada dia (Aristóteles, Mete. 2,2, 355b13-14), e assim como Anaximandro ele julgava ser o sol constrangido por um princípio cósmico de reparação (KRS 226). Esta efêmera teoria do sol, na verdade, evoluiu com Heráclito em uma doutrina do fluxo universal. Tudo, afirmou, está em movimento, nada permanece imóvel; o mundo é como uma correnteza. Se entrarmos em um mesmo rio duas vezes, não poderemos pôr nossos pés duas vezes na mesma água, dado que a água não é a mesma nesses dois momentos (KRS 214). Isso parece convincente, mas a partir daí Heráclito foi muito longe ao afirmar que nem mesmo poderíamos pisar duas vezes no mesmo rio (Platão, Crát. 402a). Tomada ao pé da letra, a proposição parece falsa, a não ser que consideremos que o critério de identidade de um rio seja a água que ele contem e não o curso pelo qual ela flui. Tomada alegoricamente, é presumivelmente uma afirmação de que tudo no mundo é formado de componentes em constante mudança: se for este o significado da afirmação de Heráclito, disse Aristóteles, as mudanças seriam do tipo imperceptível (Fís., 8, 3, 253b9ss.). Talvez seja isso o que sugere o aforismo de Heráclito  de que a harmonia oculta é melhor que a harmonia manifesta – entendida a harmonia como o ritmo subjacente ao universo em fluxo (KRS 207). O que quer que Heráclito tenha querido dizer com seu aforismo, este teria uma longa história à sua frente na filosofia grega posterior.

Um fogo consumidor, mais que um corrente fluida, é um modelo de mudança constante, sempre se consumindo, sempre revigorado. Heráclito disse uma vez que o mundo era um fogo sempre vivo, o mar e a Terra as cinzas dessa fogueira eterna. O fogo é como o ouro: pode-se trocar o ouro por todo tipo de bens, e o fogo pode render cada um dos elementos (KRS 217-19). Este mundo flamejante é o único mundo que há, e não é governado por deuses ou homens, mas por meio do Logos. Seria absurdo, ele argumentava, pensar que este glorioso cosmos fosse apenas um depósito empilhado de lixo (DK 22 B124).  “Logos” é o termo grego usual para qualquer palavra escrita ou falada, mas a partir de Heráclito quase todo filósofo grego deu a ele um ou mais de vários profundos significados. É frequentemente traduzido como “razão” – seja em referencia à capacidade de raciocínio dos seres humanos, seja a algum princípio mais cósmico elevado de ordem e beleza. O termo encontrou seu lugar na teologia cristã quando o autor do quarto evangelho proclamou: “No princípio era o Logos [Verbo], e o Logos estava em Deus, e o Logos era Deus” (Jô 1, 1).

Este Logos universal, afirma Heráclito, é difícil de assimilar, e a maioria dos homens jamais o consegue. Comparando-os com alguém que despertou para o Logos, eles são como pessoas que dormem, enoveladas em seu próprio mundo de sonhos, em vez de encarar a verdade simples e universal (SE, M. 7, 132). Os homens se dividem em três classes, situadas a diferentes distancias do fogo racional que governa o universo. Um filósofo como Heráclito está mais próximo do flamejante Logos e recebe desde mais calor; depois dele, as pessoas comuns, quando açodam [ para o Logos], usufruem de sua luz quando fazem uso de suas próprias faculdades racionais; por fim, aqueles que dormem [para o Logos] têm as janelas de suas almas fechadas e mantêm contato com a natureza somente através da respiração (SE, M. 7, 129-130)1. Será o Logos Deus? Heráclito, tipicamente, deu uma resposta evasiva:

A única coisa que por si só é verdadeiramente sábia é ao mesmo tempo desmerecedora e merecedora de ser chamada pelo nome de Zeus.

 

Presume-se que ele queria dizer que o Logos era divino, mas não deveria ser identificado com nenhum dos deuses do Olimpo.

A própria alma humana é fogo: Heráclito por vezes enumera a alma junto com a terra e a água, como três elementos. Dado que a água extingue o fogo, a melhor alma é uma alma seca, devendo-se mantê-la livre de qualquer mistura. É difícil apreender exatamente o que contaria como mistura nesse contexto, mas o álcool certamente conta, pois um bêbado, afirma Heráclito, é um homem conduzido por uma criança (KRS 229-31). Mas o uso que Heráclito faz de “molhado” parece também próximo ao moderno sentido vulgar do termo: homens de bravura e força que morrem em batalha, por exemplo, possuem almas secas que não sofrem a morte aguada mas vão juntar-se ao fogo cósmico (KRS 237).

O que em Heráclito causava mais admiração a Hegel era sua insistência na coincidência dos opostos, como a de que o universo é ao mesmo tempo divisível e indivisível, gerado e não-gerado, mortal e imortal. Em algumas ocasiões essas identificações de opostos são afirmativas diretas de relatividade de certos predicados. A mais famosa delas, “A rota para cima e para baixo é uma e a mesma”, soa muito profunda. Contudo, não necessariamente significa mais do que quando, ao descer tranquilamente uma montanha, e encontrar você esforçando-se no sentido contrario, estamos no mesmo plano. Coisas diferentes são atraentes em ocasiões diversas: a comida quando se tem fome, a cama quando se tem sono (KRS 201). Coisas diferentes atraem espécies diferentes: a água do oceano é tudo para os peixes, mas veneno para os homens; os jumentos preferem entulho a ouro (KRS 199).

Nem todos os pares de coincidentes opostos propostos por Heráclito encontram fácil solução por via da relatividade, e mesmo os aparentemente mais inofensivos deles podem guardar um profundo significado. Assim, Diógenes Laércio afirma que a sequencia fogo-ar-água-terra é a rota para baixo, e que a sequencia terra-água-ar-fogo é a rota para cima (DL 9, 9-11). Estas duas rotas podem ser consideradas as mesmas comente se vistas como duas etapas de um contínuo e temporalmente infinito progresso cósmico. Heráclito acreditava de fato que o fogo cósmico passa por estágios de combustão e resfriamento (KRS 217). É presumivelmente neste mesmo sentido que devemos compreender a afirmação de que o universo é ao mesmo tempo gerado e não-gerado, mortal e imortal (DK 22 B50). O processo a isto subjacente não tem começo nem fim, mas cada ciclo de combustão e resfriamento é um mundo particular que entra e sai da existência.

Em que pesem relatos dando conta da atividade política de vários dos pré-socráticos, Heráclito apresenta certa precedência, com base em seus fragmentos, quanto a ter sido o primeiro a ter produzido uma filosofia política. Ele não se interessava de fato pela prática política – aristocrata com direito de governar, ele abdicou de seu direito e passou seus bens a seu irmão. Dele se diz que afirmava preferir brincar com crianças a discutir com os políticos. Mas foi ele talvez o primeiro filósofo a falar de uma lei divina – não uma lei física, mas uma lei prescrita – que presidia sobre todas as leis humanas.

Há um trecho famosos de uma peça de Robert Bolt sobre Thomas More, O homem que não vendeu sua alma. More é pressionado por seu genro, Roper, a prender um espião ao arrepio d alei. More se recusa a fazê-lo: “Conheço o que é legal, não o que é certo, e fico com o que é legal”. Em sua resposta a Roper, More se nega a pôr a lei dos homens acima da lei de Deus. “Eu não sou Deus”, afirma, “mas das coisas da Lei, destas sou guardião”. Roper diz que jogaria fora todas as leis da Inglaterra para pegar o Demônio. More responde: “ E quando a última lei fosse rasgada, e o Diabo o embocasse – onde você se esconderia, Roper, com todas as leis agora por terra?”2

É difícil encontrar uma reprodução literal dessa discussão, seja nos escritos de More ou em relatos de terceiros. Mas dois fragmentos de Heráclito dão voz aos sentimentos do genro e do sogro. “O povo deve lutar em defesa da lei como o faria pela sua cidade” (KRS 249). Mas embora uma cidade deva confiar em  sua lei, ela deve pôr sua confiança absoluta na lei universal comum a todos. “Todas as leis dos homens se alimentam de uma única lei, a lei divina” (KRS 250).

O que restou de Heráclito Chega a não mais que 15 mil palavras. A enorme influência que ele exerceu em filósofos antigos e modernos é algo digno de admiração. Há qualquer coisa de adequado quando a seu lugar no afresco de Rafael na sala do Vaticano, A Escola de Atenas. Nesse monumento painel, que contem retratos imaginários de muitos filósofos gregos, Platão e Aristóteles, como é certo e direito, ocupam o centro. Mas a figura que atrai de imediato os olhares assim que se entra na sala é a de uma adição posterior ao afresco, a de um Heráclito calçado, pensativo, em profunda meditação no nível mais inferior da pintura.

KENNY, Anthony. Uma Nova História da Filosofia Ocidental. Volume I. Filosofia Antiga. Edições Loyola. PP. 37-41


1 Os leitores de Platão frequentemente se surpreendem com a antecipação da alegoria da caverna na República.

 

2 Robert BOLT, A man for all sensons, London, Heinemann, 1960, 39. [O homem que não vendeu a sua alma foi o titulo brasileiro do filme baseado na peça de Bolt, cujo texto, salvo engano, jamais foi publicado no Brasil (N.T.)].

Pitágoras

 Pitágoras recomendando o vegetarianismo

Na Antiguidade, Pitágoras dividiu com Tales o crédito pela introdução da filosofia no mundo grego. Nascido em Samos, um ilha da costa da Ásia Menor, por volta de 570 a. C., ao quarenta anos emigrou para Crotona, no extremo da Itália, onde teve papel destacado na vida política da cidade até ser banido em meio a uma violenta revolução por volta de 510 a. C. Mudou-se para uma localidade vizinha a Metaponto, onde morreu na virada do século. No período em que viveu em Crotona, Pitágoras fundou uma comunidade semi-religiosa que sobreviveu a seu fundador e se dispersou por volta de 450 a. C. Atribui-se a ele a invenção da palavra “filósofo”, na ocasião em que, em vez de declarar-se um sábio, ou homem de saber (sophos), ele disse com modéstia ser apenas um amante da sabedoria (philosophos) (DL 8,8). Os detalhes sobre sua vida estão submersos em lendas, mas não restam dúvidas sobre ter ele sido um praticante tanto da matemática como do misticismo.  Nestes dois campos sua influência intelectual, reconhecida ou implícita, foi forte durante a Antiguidade, de Platão a Porfírio.

A descoberta dos pitagóricos de que havia uma relação entre os intervalo musicais e as razões numéricas resultou na crença de que o estudo da matemática era a chave para o entendimento da estrutura e da ordem do universo. A astronomia e a harmonia, diziam, eram ciências irmãs, uma para os olhos e a outra para os ouvidos (Platão, Rep. 530d). Contudo, apenas dois mil anos depois Galileu e seus seguidores demonstraram em que sentido era verdade que o livro do universo é escrito em números. No mundo antigo a aritmética estava por demais vinculada á numerologia para que pudesse promover o progresso científico, e os autênticos avanços científicos do período ( como a zoologia de Aristóteles ou a medicina de Galeno) foram conquistados sem o concurso da matemática.

A comunidade de Pitágoras em Crotona foi o protótipo de muitas instituições similares: a ela seguiu-se a Academia de Platão, o Liceu de Aristóteles, o Jardim de Epicuro e muitas outras. Algumas dessas comunidades eram instituições legais, outras menos formais; algumas se assemelhavam a um moderno instituto de pesquisas, outras eram mais próximas de mosteiros. Os seguidores de Pitágoras dividiam sua propriedade e viviam sob a égide de regras ascéticas e cerimoniais, como manter o silêncio, não partir o pão, não recolher os farelos, não atiçar o fogo com uma espada, calçar sempre o pé direito antes do esquerdo, e assim por diante. Os pitagóricos não eram, para início de conversa, vegetarianos radicais, embora evitassem certos tipos de carne, peixe e aves. A mais conhecida de suas restrições era a proibição de comer feijão (KRS 271-2, 275-6).

As regras relativas à dieta eram atribuídas às crenças de Pitágoras sobre a alma, que, segundo ele, não morria com o corpo, mas migrava para algum outro lugar, talvez um animal de uma outra espécie. Alguns pitagóricos desenvolveram essa regra transformando-a na crença em um ciclo cósmico de três mil anos: uma alma humana, apos a morte (do corpo), entraria, morte apos morte, em todo tipo de criatura da terra, do mar ou do ar, para finalmente retornar a um corpo humano a fim de que o ciclo tornasse a se repetir (Heródoto 2, 123; KRS 285). Em relação a Pitágoras, contudo, seus seguidores acreditavam que ele se tornara um deus apos morrer. Escreveram a seu respeito biografias repletas de maravilhas, atribuindo a ele uma segunda visão e o dom da bilocação; diziam que tinha uma coxa de ouro e era filho de Apolo. Numa feição mais prosaica, a expressão Ipse dixit ( ele próprio disse ) teria sido concebida em sua homenagem.

 

KENNY, Anthony. Uma Nova História da Filosofia Ocidental. Volume I. Filosofia Antiga. Edições Loyola. PP. 31-33

O simbólico divino na natureza.

ponto-de-fuga-do-divino

Podemos dizer que toda criação espelha o Divino, cada qual em sua própria dimensão de ser. Tudo o que existe em certo sentido serve como um veículo de expressão do Eterno. Por esse ângulo, as criaturas podem ser encaradas como símbolos ou metáforas do Divino. Uma bela figura está no livro de Salmos onde é dito: “Porque o Senhor Deus é um sol…”[1] Significa isso, que o sol seja Deus? Ou, que como este é apenas mais um dentre os milhares, talvez milhões, de sóis existentes no Universo, Deus seja apenas mais um dentre os deuses?

É muito improvável! Há maior probabilidade que signifique ser o sol uma metáfora do Divino, este imenso astro no firmamento possui (sempre guardando as devidas proporções) atributos que espelham ao seu Criador. O sol é fonte de luz e calor para nosso planeta, assim, como o Eterno é a fonte de luz a todo o aquele que Nele crê e fonte de calor nos momentos em que a frieza espiritual assalta nossa alma. Sem o sol não haveria vida, da mesma forma sem Deus não há vida, como diz o livro de Provérbios: “O temor do Senhor é fonte de vida, para desviar dos laços da morte.”[2] O sol irradia por sobre a Terra, assim como “o Eterno dos altos céus”(expressão muito usada pelos profetas) também irradia suas bênçãos sobre nós que somos terra (Adâm quer dizer, homem e humano, que provavelmente vem de uma raiz que significa vermelho ou escuro, donde temos adamáh significando pó da terra) uma referência a cor avermelhada da terra do “Crescente Fértil”. O sol tem a lua como seu satélite natural, a lua é um símbolo do feminino e não possuí luz própria, mas, reflete a luz do sol, da mesma forma, a lua representa nação de Israel, e os cristãos crêem que represente a Igreja, ambas não possuem luz própria, mas, refletem a luz de Deus, por isso no Cântico dos Cânticos é dito:

“Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército com bandeiras?”[3]

Temos então, a possibilidade de observar como os elementos criados podem nos ensinar grandes verdades sobre o Criador. É quase certo que a explicação dada a Arjuna pelo Senhor Krsna (Krishna) no Décimo capítulo do Bhagavad-Gita:

“…entre as luzes, sou o Sol radiante; …entre as estrelas, sou a Lua… e das massas de águas , sou o oceano…”[4]

Ou a palavras de Jesus no Evangelho de Tomé – O Dídimo:

“…Parti um (pedaço de) madeira, lá estou; levantai uma pedra, e ali me encontrareis.”[5]

Possam ser entendidas como uma afirmação deste princípio. O grande perigo é que confundamos o símbolo com o Simbolizado, o significante com o Significado. Há em Agostinho uma bela passagem onde indícios dessa possibilidade de confusão o assaltaram no início de sua busca pela resposta a pergunta :quem é Deus?

“Perguntei-o a terra e disse-me: – Eu não sou. E tudo o que nela existe, respondeu-me o mesmo. Interroguei o mar, os abismos e os répteis animados e vivos e responderam-me: – Não somos teu Deus; busca-o acima de nós. Perguntei aos ventos que sopram; e o ar, com seus habitantes respondeu-me: – Anaxímenes está enganado; eu não o teu Deus. Interroguei o céu, o sol, a lua, as estrelas e disseram-me: – Nós também não somos o Deus que procuras. Disse a todos os seres que me rodeiam as portas da carne: Já que não sois o meu Deus, falai-me do meu Deus, dizei-me ao menos, alguma coisa dEle. E exclamaram com voz forte: -Foi Ele quem nos criou.” [6]

Toda criação traz em si algo de seu criador, carrega os sinais que caracterizam-na como criação deste e não daquele artista. Da mesma forma:

“Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz.”[7]

Não necessitam das palavras para transmitir sua mensagem de exaltação ao Criador, pois, as palavras são formadas por conjuntos de símbolos gráficos e neste caso tudo é um símbolo e o conjunto total da criação a mensagem!

Por esta perspectiva, entende-se que o panteísmo e o animismo são contados entre nossos equívocos mais comuns, ao atentarmos para a beleza divinal da criação ou ao ouvirmos suas “vozes”, sem o devido preparo espiritual, tendemos a considerar que a criação fala de si própria e confundimos a criatura com o Criador! O Apostolo Paulo, diz dos que assim procedem:

“Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.”[8]

Essa confusão nos coloca numa situação de anômala ignorância perante Deus, e caracteriza um estado de cegueira espiritual tão acentuado que é chamado por uma palavra grega que significa “ tornar-se tolo” emwranqhsan – a tradição vedantina afirma que a causa de todos os males que nos assolam é a ignorância, “avidyã” (alguns especialistas dizem nescidade, o que nos remete ao conceito hebraico sobre a raiz do ateísmo, ou agnosticismo[9]). Portanto, uma correta apreensão espiritual do mundo e de tudo o que nele há, envolve a noção que toda perfeição, beleza, dinâmica e sabedoria, dentre outros atributos da natureza são apenas metáforas fragmentárias da Perfeição, Beleza, Dinâmica e Sabedoria do Eterno Criador e apontam na direção dos céus que anunciam a imensidão Daquele que os criou!

Temos então, a tarefa de ir além dos símbolos em direção do Verdadeiro e Único Significado de tudo que existe.


[1] Salmo. 84.11a.

[2] Provérbios.14:27.

[3] Cântico dos Cânticos. 6:10.

[4] Bhagavad-Gita. 10:21b,c; 24 b,c.

[5] Evangelho de Tomé, o Dídimo. Vs.77b.

[6] Agostinho. As Confissões. Livro 10: 6.

[7] Salmos. 19:1-3.

[8] Romanos. 1:22 e 23.

[9] Salmos. 14: 1. “Disse o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, fazem-se abomináveis em suas obras,…”

Bibliografia

AGOSTINHO, Santo. – Confissões. Livraria Apostolado da Imprensa. 4ª. Edição, Porto – Lisboa. 1952.

ALMEIDA, João Ferreira (Trad.) Bíblia Sagrada: Edição Revista e Corrigida. Imprensa Bíblica do Brasil. Rio de Janeiro, s/d.

MEYER, Marvin. – O Evangelho de Tomé: as sentenças ocultas de Jesus. Editora Imago, Rio de Janeiro, s/d.

PRABHUPÃDA, A.C. Bhaktivedanta Swami. – Bhagavad-Gitã como ele é. The Bhaktivedanta Book Trust. 4ª. Edição, São Paulo, 2006.