Rousseau e o Homem Moral

I) O homem moral

1) Amoralismo integral: o homem não [e então nem bom nem mau, ignora tanto as virtudes quantos os vícios. O estado de natureza é mais vantajoso para ele e lhe proporciona mais felicidade do que o estado social.

2) O primeiro princípio da moral natural: o instinto de conservação de si mesmo. O erro de Hobbes, nesse ponto, consiste em ter acreditado que, para conservar-se a si mesmo, impunha-se lutar contra os outros e matá-los ou torná-los seus escravos. Ora, a ausência da bondade não implica maldade. O direito sobre as coisas de que tem necessidade não leva o homem natural a um domínio universal. Pode-se muito bem zelar pela própria conservação sem prejudicar a de outrem. O erro de Hobbes deve-se a ter levado em consideração necessidades tardias para julgar o estado original do homem. Ora, o homem primitivo não poderia ser mai, uma vez que não sabia o que era bom e mau.

3) O segundo princípio da moral natural: a piedade.

O homem é naturalmente indulgente; a piedade é um movimento da natureza, anterior a qualquer reflexão. A prova disso pode ser encontrada no instinto maternal, nos animais e, até, nos tiranos mais cruéis, que, naturalmente, sentiam piedade pelos males que não tinham causado.

O erro de Mandeville reside em ter pensado que a piedade é uma virtude social. Ora, a piedade é mais forte no estado de natureza, onde nos identificamos espontaneamente com os infelizes, do que no estado social, no qual nos dirigimos pela reflexão. A piedade espontânea do povo, e até da canalha, é superior ao filósofo. A primeira inspira a máxima natural: “Alcança o teu bem, causando o menor mal possível a outrem”. A segunda produz a máxima razoável: “Faze a outrem o que querer que te façam”. A vantagem do segundo princípio – a piedade – é que ele equilibra o primeiro – a conservação de si mesmo – e o compensa.

4) As paixões: São mais violentas no estado de natureza. A paixão pela alimentação pode ser facilmente satisfeita e, quando isso se dá, extingue-se. A mesma coisa acontece com o mar. Tem-se de distinguir, no amor, o moral que é fictício, nascido da sociedade, inventando pelas mulheres, e o físico, que é natural: “Qualquer mulher lhe serve”. Comprovam-no, de um lado, os costumes dos selvagens, a exemplo dos caraíbas, e, de outro, os animais: os combates entre os machos só existem onde as fêmeas são menos numerosas. Ora, existem mais mulheres do que homens.

ROUSSEAU. Os Pensadores. Editora Nova Cultura. 1999. pp. 16-7

Rousseau e o Homem Psicológico

I) O homem psicológico

1) O homem possui, em comum com os animais, os sentidos de onde provêm as idéias; por meio deles, percebe e sente.

2) O que o distingue do animal é, em primeiro lugar, a liberdade; por ela, o homem quer e não quer; deseja e teme. Depois, a faculdade de aperfeiçoar-se e também retrogradar; é a causa das infelicidades dos homens, que não souberam permanecer na felicidade do estado natural.

3) As faculdades intelectuais superiores nascem das faculdades inferiores.

a) A razão é posta em ação pelas paixões que, por sua vez, são suscitadas pelas necessidades. As paixões elemntares reduzem-se a três desejos e um temor:

· Desejo de nutrição

· Desejo de reprodução

· Desejo de repouso

· Temor da dor

O homem, ignorante do que seria a morte, não poderia temê-la.

b) Essa opinião pode ser comprovada, de um lado, pela história do progresso intelectual, que está condicionado pelas paixões e pelas necessidades, incessantemente aumentadas, do homem social; de outro lado, pela observação dos selvagens, que não possuem desejos ou imaginação, e vivem inteiramente no momento presente.

c) O progresso intelectual supõe trabalho, curiosidade, previdência – coisas próprias não do homem natural mas do homem social. O progresso intelectual supõe também duas condições que são as convenções sociais: a linguagem e a divisão de terras.

4) Rousseau trata do problema da origem das línguas na intenção de provar, de acordo com Condillac, que a língua supõe a sociedade e, portanto, não pôde nascer naturalmente. Rousseau, consciente da dificuldade do problema e da precariedade de todas as soluções, descreve os seguintes estágios na formação da língua:

a) O grito é a primeira linguagem natural.

b) As inflexões da voz servem, pouco a pouco, para designar os objetos.

c) Surge, por fim, a instituição dos sinais, simbolizando as articulações da voz. Limitada, a princípio, por palavras-frases, decompõ-se em infinitos e em nomes próprios, depois estende-se aos adjetivos, que são abstrações, e às idéias gerais. Compreende, então, as primeiras classificações lógicas e biológicas, como as de Aristóteles.

5) Conclusão: a sociabilidade não está inscrita na natureza humana original. O homem não tem necessidade de outrem. Não sofre nem a dor nem a miséria, que o tornariam digno de piedade. O estado de natureza caracteriza-se pela suficiência do instinto, o estado de sociedade pela suficiência da razão.

ROUSSEAU. Os Pensadores. Editora Nova Cultura. 1999. pp. 15-6