Razão, Fé e Ciência – Assunto Fascinante, Relações Conflituosas.

Por: Carlos Eduardo Bernardo.

Para Um Bom Começo.

Todas as pessoas têm naturalmente certa compreensão do que se quer dizer quando se fala sobre fé; ainda que tenham dificuldade em conceituá-la dificilmente irão dissociar a fé das noções que têm acerca de religião, Deus ou mundo espiritual. Certamente essa é a primeira associação que se faz com o conceito de fé: a fé religiosa.

Todavia, esse senso comum acerca da “fé religiosa” está marcado por certa incipiência e esta o aproxima da idéia mais geral de crença. Mas crença não

Paul Tillich (1886-1965). Teólogo protestante de perspectiva existencial. "[...] fé é a preocupação última  de todo ser humano".

Paul Tillich (1886-1965). Teólogo protestante de perspectiva existencial. “[…] fé é a preocupação última de todo ser humano”.

implica necessariamente a dimensão religiosa, pode-se crer nas instituições, nas pessoas ou em esperanças que têm as mais variadas origens, e, neste sentido é possível falar de fé política, fé antropocêntrica, fé institucional e assim por diante.

Não é tarefa fácil definir “fé”, pois muitas definições são possíveis, mas neste contexto se toma por referência a contribuição de Karl Rhaner (1904-1984) e Paul Tillich (1886-1965), pois parece que elementos que compõe suas

Karl Rahner (1904-1984)Importante teólogo católico e sua contribuição com a leitura existencial da fé

Karl Rahner (1904-1984)
Importante teólogo católico e sua contribuição com a leitura existencial da fé

respectivas definições podem ser atribuídos a todo exercício de fé, independente da religião. A presente reflexão trata da fé em sua dimensão mais especificamente religiosa, no entanto convém clarificar qual seja a concepção – conceito – de fé religiosa visado neste texto. A fé religiosa é aqui entendida como a disposição de “abertura subjetiva e ilimitada do sujeito” (RHANER, 1989, p.32) para com aquele que “é último em ser e em sentido” (TILLICH, 1987, p.485), o transcendente que tem em si prerrogativas que possibilitam a relação, a religação (lat. religio).

Por que temos que escolher entre a fé e a razão? Porque supomos que elas são instâncias mutuamente excludentes? Por que supomos que se alguém “crê não pensa e se pensa não crê”?

Estas questões não são colocadas com objetivo polêmico ou apologético, mas, simplesmente em caráter reflexivo. Pois é fácil encontrar diversos textos que, de um modo, ou de outro, fazem apologética da fé ou da razão, ou apenas polêmica desta temática.

Quando resolvemos uma equação não usamos o sentimento, quando apreciamos Quinta de Beethoven não fazemos racionalmente, embora não estejamos despojados dos sentimentos ou da racionalidade nos dois casos, e, por vezes fazemos uso seletivo de nossos atributos de acordo com o objetivo a que nos propomos. Nada impede que se faça uma análise matemática da Quinta referindo-se a sua métrica, ou que resolvamos apaixonadamente uma equação de segundo grau, mas, isso não é o que se espera de todos e não é que fazemos com maior freqüência.

Ao ultrapassar a fase da vida em que se tem uma visão mágica do mundo, crer na existência do Papai Noel, ou noutras fábulas, é tão ingênuo quanto à tentativa em “calcular quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete”; mesmo que se provasse a existência dos anjos jamais poderíamos fazer tal cálculo, porque essa existência ultrapassaria o âmbito de tudo que é de competência da razão.

A racionalidade procura o objeto que lhe é próprio, assim como fé também o faz. Colocar os objetos da fé na esteira da razão ou os objetos da razão na esteira da fé só ocasiona equívoco e problemas para o desenvolvimento da humanidade nos dois aspectos. Quando falamos das descobertas de Albert Einstein (1879-1955) pensamos em Ciência e não em religião, ainda que se possa advogar que num sentido muito peculiar Einstein foi um homem profundamente religioso, quando falamos de Paul Tillich pensamos em religião e não em Ciência, embora Tillich demonstre um conhecimento profícuo de assuntos científicos.

O fiel interessado em saber acerca da formação geológica da Terra procura informações num livro de Ciências, mais especificamente de Geologia, um aluno universitário que queira saber o crê um cristão começa pela leitura dos Evangelhos. Não se espera encontrar descrições dos aspectos constitutivos da litosfera, ou da hidrosfera na Bíblia, ou nos Evangelhos, assim como não esperamos encontrar no Tratado de Geologia Geral a narrativa do nascimento virginal de Jesus Cristo.

Ao não fortalecer a fé do indivíduo a Ciência em nada é diminuída, porque este não é seu objetivo; de igual modo a Religião não é menos importante por não nos enriquecer em conhecimentos sobre os fenômenos naturais, pois seu objetivo não é este. Porém a Religião será sempre diminuída se for evocada com propósito a obstruir o avanço da Ciência e certamente seus argumentos não serão nem um pouco religiosos, já a Ciência é sempre diminuída quando evocada com o puro propósito de destruir a fé, ou substituir a religião[1].

Stephen Jay Gould (1941-2002), talvez, o mais destacado evolucionista do século passado, desenvolveu uma descrição apropriada da capacidade de abrangência tanto da ciência, quanto da religião, ele a chamou “Teoria dos Magistérios Não-Interferentes”. Sua teoria propõe que as duas instâncias são magistérios – serviços – distintos, cujo campo de atuação não se permite interferir, pois, seus objetos e objetivos são de naturezas totalmente díspares, a ciência tem como objeto a Natureza e trabalha com explicações naturalísticas, o que coloca fora de seu alcance tanto os “objetos” da religião, quanto da moral.

A religião, por outro lado, objetiva a salvação – ou emancipação – espiritual da humanidade, ela cuida de questões sobre o relacionamento com Deus – ou com os deuses – no seu escopo estão inseridos assuntos relativos a espíritos, anjos, demônios, Deus e divindades, destino eterno da humanidade ou do indivíduo. Portanto, suas “explicações” jamais serão naturalísticas, e, seu objeto jamais será a Natureza – a menos que defendamos tratar-se da Natureza Oculta das Coisas, o que não inferimos neste contexto.

Os campos da religião e da ciência são distintos e dependem de instâncias de juízo, ou valorativas diferentes, a religião está submetida à instância da fé, e a ciência à instância da razão que se debruça sobre evidências dadas nos objetos da natureza, buscando corroboração para suas teorias na experiência.

Muitos cristãos ficaram indignados com a definição de fé dada por Richard Dawkins (1941): “[…] uma confiança cega, na ausência de evidências, até mesmo nos dentes das evidências”. Mas, não há motivos para tanta indignação. É possível que o adjetivo “cego” quanto ligado ao substantivo “fé”, seja o motivo principal de tal reação, porém, essa é a única forma como se pode qualificá-la em face da ciência e da razão, pois, seus objetos são invisíveis para estas instâncias e o cristão não deveria ofender-se com o cético quando ele afirma que a situação que se lhe apresenta no mundo da fé é como uma cegueira, pois ela o é realmente, e, isso do ponto de vista em que se coloca o homem “sem fé”, mesmo o homem de fé se posiciona ante o seu alvo como quem pode vê-lo, ainda que este lhe seja invisível como Moisés que ficou firme como se visse o invisível ou quando Paulo disse que Deus é invisível, e, é este o sentido da impossibilidade em ser visto, enquanto objeto da fé[2], ainda o homem de fé se move ante o que seja evidente como que lhe atribuindo menor importância, comparado ao homem sem fé, ou até mesmo ignorando as coisas visíveis, porque não são elas quem o orienta.

O homem de fé pode igualmente dizer que a atitude do homem sem fé, ao tratar racionalmente das “coisas espirituais”, é uma “racionalidade cega”, e, os homens que não creem não devem ficar indignados com isso, pois, podem perceber que o tratamento das coisas da fé com os olhos da razão não consegue chegar a assentir o objetivo da fé. É algo como tentar sentir o cheiro de uma flor com os olhos, ou o gosto da maçã com a ponta dos dedos, em ambos os casos são necessários os sentidos adequados, o olfato para o aroma e o paladar para o gosto. Igualmente, a razão para os cálculos e a fé para se aceitar um evento sobrenatural. Continuar lendo

Tillich e a “Introdução” de sua “Teologia Sistemática”.

Por: Carlos Eduardo Bernardo.

A teologia, como função da igreja cristã, deve servir às necessidades da igreja. Um sistema teológico deve satisfazer duas necessidades básicas: a afirmação da verdade da mensagem cristã e a interpretação desta verdade para cada nova geração. (TILLICH, 1987, p.13)

É muito importante destacar estas palavras introdutórias do Dr. Tillich à sua “Teologia Sistemática”, pois sua afirmação inicial já estabelece um princípio diretivo para toda a reflexão ulterior. Não é com qualquer teologia que Tillich

Sexta edição, em língua portuguesa, da obra magistral de Paul Tillich, Teologia Sistemática. Fonte da Imagem: www.erdos.com.br

Sexta edição, em língua portuguesa, da obra magistral de Paul Tillich, Teologia Sistemática. Fonte da Imagem: http://www.erdos.com.br

pretende se ocupar, mas com a teologia enquanto “função da igreja cristã”, posto isto, está justificada a sua afirmação quanto à “servilidade” da teologia em relação às necessidades da igreja.

Desdobrando esta afirmação é possível compreender que para Tillich a teologia, no sentido em que aqui se sustenta, tem sua razão de ser e seu significado, quando sua origem e seu exercício se encontram na reflexão cotidiana da igreja e em sua atividade ministerial. Portanto, é natural que o autor, com este princípio em mente, tenha escrito sua obra mor, aspirando que esta fosse útil à Igreja dentro de sua esfera existencial, e, não se constituindo em mais um compêndio frio para consultas esporádicas.

Também é provável que Tillich tenha vislumbrado certa defecção na vivência eclesial, caracterizada pela existência de “instituições” voltadas à formação especificamente teológica; não significa isto que ele fosse contrário à existência destas instituições, mas ele se opunha à sua sobrevalorização. Ele se colocava contra a atitude destas instituições e de seus representantes que pretendiam “ditar regras” à igreja e exigiam que ela apenas se dignasse em obedecer. Para Tillich a teologia e os teólogos devem reportar-se à Igreja, reconhecendo sua obediência a esta que é […] coluna e baluarte da verdade[1]; a igreja tem existido autonomamente em relação a essas instituições, mas estas são contingentes à existência da Igreja.

É necessário o reconhecimento do que foi dito acima, cabe aos teólogos validar tanto na teoria, quanto na práxis, o seguinte princípio: servir às necessidades da igreja deve ser o objetivo da teologia.

Mas, a partir deste ponto, Tillich aprofunda esta proposição e a amplia. A igreja padece de inúmeras necessidades, quais delas podem ser supridas pela teologia?

Tillich aponta duas[2] necessidades consideradas fundamentais: 1ª) a afirmação da verdade da mensagem cristã. 2ª) a interpretação dessa verdade para cada nova geração.


[1][1] I Tm. 3,15

[2] Infelizmente na edição em língua portuguesa, que tenho em mãos, há u m erro tipográfico que faz Tillich dizer “suas necessidades […]”, onde no original se lê “two basics needs: […]”, portanto “duas necessidades […]” conforme traduzimos acima. Vide: http://books.google.com.br/books?id=WIyz0mYxAwkC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_book_other_versions#v=onepage&q&f=false

Filosofia e Teologia – Paul Tilich

O autor.

Paul JohannesTillich (1886-1965) Teólogo e Filosofo alemão, defendeu tese em Tübingen e em Halle, “de 1919 a 1924 foi livre docente em Berlim; em 1924/25 foi professor em Marburg; de 1925 a 1929, em Dresden e Leipzig de 1929 a 1933, em Frankfurt. Entrando em conflito com o nazismo imperante, foi demitido da cátedra, tendo sido o primeiro professor não-judeu a sofrer essa vexação”[1]. foi expulso de seu país nos primórdios do nazismo, estabeleceu-se nos Estados Unidos da América em 1933, foi professor na Universidade de Harvard  e no Seminário Unido de Nova York, manteve diálogo constante com teólogos e filósofos de sua época. Tão grande a riqueza de seu pensamento e a profundidade de suas obras que ele foi classificado por alguns como teólogo dialético, por outros, neo-ortodoxo, mesmo liberal e por muitos foi chamado de herege. Todavia, Tillich sempre se colocou a serviço da Igreja, nunca abandonou suas funções como Ministro Luterano, e de sua “auto-interpretação”.

Uma breve palavra introdutória.

Tillich é um pensador demasiadamente produtivo, o assunto aqui tratado é muito bem delineado em sua “Teologia Sistemática” (Vol I, Introdução B. tópicos 6 e 7 & Parte I ). É necessário destacar que toda sua reflexão tem como eixo um determinado princípio hermenêutico chamado por Tillich “princípio de correlação”, Mondin assim explica este princípio.

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