Mestre Shinran – a fé, misericórdia e o paraíso.

shinran

Shinran e Doguen coincidiram , no século XIII, na crença de que a salvação do mundo era impossível sem a própria salvação, e que esta era a que salvaria o mundo inteiro.

O mestre Shinran insistiu na fé absoluta em Amida, a encarnação da misericórdia budista. “Somente a fé no salvará – nos diz – uma vez que é impossível adivinhar a intenção de Amida, pois se encontra além do nosso entendimento. O bem, o mal, a verdade, a falsidade etc., são conceitos que nos impedem de entrar diretamente na fé. Abandoná-los nos fará chegar a ter um contato direto com Amida. ” Trascrevemos um parágrafo de uma de suas obras:

Se uma pessoa boa vai para o paraíso, como não pode ir para ali uma pessoa má? Comumente se diz o contrário: se uma pessoa má vai para o paraíso, como não pode ir uma pessoa boa? Mas isso não é justo, embora pareça. Uma pessoa bora, ao cerr em si mesma, não tem fé em Amida; entretanto, uma pessoa que já não crê em si mesma, mas somente na miserciórdia de Amida, é a que pode ir ao verdadeiro paraíso. Nós somos todos incapazes de nos salvar, qualquer que seja o ato que façamos p ele não nos salvará. Somos tão miseráveis que Amida tem compaixão de nós. Amida quer salvar especialmente os maus, por isso digo: se uma pessoa boa vai para o paraíso, como não poderá ir uma pessoa má? SHINRAN, Tanni-sho ( Tanny-sho é o florilégio do mestre Shinran, compilado por um de seus discípulos, Yuien, no século XIII).

OSHIMA, Hitoshi. O pensamento japonês. Editora escuta. 1992. p. 43-4

Rousseau e o Homem Moral

I) O homem moral

1) Amoralismo integral: o homem não [e então nem bom nem mau, ignora tanto as virtudes quantos os vícios. O estado de natureza é mais vantajoso para ele e lhe proporciona mais felicidade do que o estado social.

2) O primeiro princípio da moral natural: o instinto de conservação de si mesmo. O erro de Hobbes, nesse ponto, consiste em ter acreditado que, para conservar-se a si mesmo, impunha-se lutar contra os outros e matá-los ou torná-los seus escravos. Ora, a ausência da bondade não implica maldade. O direito sobre as coisas de que tem necessidade não leva o homem natural a um domínio universal. Pode-se muito bem zelar pela própria conservação sem prejudicar a de outrem. O erro de Hobbes deve-se a ter levado em consideração necessidades tardias para julgar o estado original do homem. Ora, o homem primitivo não poderia ser mai, uma vez que não sabia o que era bom e mau.

3) O segundo princípio da moral natural: a piedade.

O homem é naturalmente indulgente; a piedade é um movimento da natureza, anterior a qualquer reflexão. A prova disso pode ser encontrada no instinto maternal, nos animais e, até, nos tiranos mais cruéis, que, naturalmente, sentiam piedade pelos males que não tinham causado.

O erro de Mandeville reside em ter pensado que a piedade é uma virtude social. Ora, a piedade é mais forte no estado de natureza, onde nos identificamos espontaneamente com os infelizes, do que no estado social, no qual nos dirigimos pela reflexão. A piedade espontânea do povo, e até da canalha, é superior ao filósofo. A primeira inspira a máxima natural: “Alcança o teu bem, causando o menor mal possível a outrem”. A segunda produz a máxima razoável: “Faze a outrem o que querer que te façam”. A vantagem do segundo princípio – a piedade – é que ele equilibra o primeiro – a conservação de si mesmo – e o compensa.

4) As paixões: São mais violentas no estado de natureza. A paixão pela alimentação pode ser facilmente satisfeita e, quando isso se dá, extingue-se. A mesma coisa acontece com o mar. Tem-se de distinguir, no amor, o moral que é fictício, nascido da sociedade, inventando pelas mulheres, e o físico, que é natural: “Qualquer mulher lhe serve”. Comprovam-no, de um lado, os costumes dos selvagens, a exemplo dos caraíbas, e, de outro, os animais: os combates entre os machos só existem onde as fêmeas são menos numerosas. Ora, existem mais mulheres do que homens.

ROUSSEAU. Os Pensadores. Editora Nova Cultura. 1999. pp. 16-7