Heráclito

Heraclito 01

 

Heráclito foi o último, e o mais célebre, dos primeiros filósofos Jônicos. Era provavelmente trinta anos mais novo que Xenófanes, já que se diz que estava em sua meia-idade ao termino do século VI a. C.(DL 9,1). Viveu na grande metrópole de Éfeso, a mio caminho de Mileto e Colofão. Chegou a nós uma porção substancialmente maior de sua obra que a de qualquer filósofo a ele anterior, mas isso não significa que o achemos mais fácil de entender. Seus fragmentos assumem a forma de concisos, agudos aforismo em prosa, frequentemente obscuros e algumas vezes deliberadamente ambíguos. Heráclito não argumenta, ele pontifica. Seu estilo délfico pode ter sido uma imitação do oráculo de Apolo, o qual, nas palavras de Heráclito, “ nem diz, nem oculta, mas dá sinais” (KRS 244). Os muitos filósofos de séculos posteriores que admiraram Heráclito foram capazes de acrescentar cor própria a seus paradoxais e camaleônicos ditos.

Mesmo na Antiguidade Heráclito era considerado difícil. Foi apelidado “o Enigmático” e “Heráclito, o Obscuro” (DL 9, 6). Ele escreveu um tratado de filosofia em três volumes – todos eles desaparecidos – e o depositou no grande tempo de Ártemis (a “Diana dos efésios” mencionada por são Paulo). Seus contemporâneos não podiam atinar se era um texto de física ou um tratado político. “O que disso entendi é excelente”, afirma-se ter dito Sócrates. “O que não entendi pode do mesmo modo ser excelente, mas seria preciso um mergulhador para chegar a suas bases” (DL 2, 22).  Hegel, o idealista alemão do século XIX, um grande admirador de Heráclito, fez uso da mesma metáfora marinha para expressar um juízo oposto. Quando chegamos a Heráclito após as flutuantes especulações dos primeiros pré-socráticos, afirmou Hegel, ao menos enxergamos a terra. E prosseguiu, acrescentando com orgulho:

 

 “Não existe frase de Heráclito que eu não tenha integrado em minha Lógica”.

 

À semelhança de Descartes e Kant em épocas posteriores, Heráclito via a si como o iniciador de um tempo completamente novo para a filosofia. Considerava a obra dos pensadores que o antecederam inútil: Homero seria desclassificado nas eliminatórias de qualquer competição poética, e Hesíodo, Pitágoras e Xenófanes não passaram de polímatas sem real significado (DL 9,1). Mas, de novo à semelhança de Descartes e Kant, Heráclito teria sofrido mais influências de seus predecessores do que imaginava. Heráclito também era, como Xenófanes, altamente critico em relação à religião popular: oferecer sacrifícios de sangue para purgar alguém do derramamento de sangue era como tentar limpar lama com lama. Orar a estátuas era como sussurrar numa casa vazia, as procissões fálicas e os ritos dionisíacos eram simplesmente abjetos (KRS 241, 243).

Também como Xenófanes, Heráclito acreditava que o Sol era novo a cada dia (Aristóteles, Mete. 2,2, 355b13-14), e assim como Anaximandro ele julgava ser o sol constrangido por um princípio cósmico de reparação (KRS 226). Esta efêmera teoria do sol, na verdade, evoluiu com Heráclito em uma doutrina do fluxo universal. Tudo, afirmou, está em movimento, nada permanece imóvel; o mundo é como uma correnteza. Se entrarmos em um mesmo rio duas vezes, não poderemos pôr nossos pés duas vezes na mesma água, dado que a água não é a mesma nesses dois momentos (KRS 214). Isso parece convincente, mas a partir daí Heráclito foi muito longe ao afirmar que nem mesmo poderíamos pisar duas vezes no mesmo rio (Platão, Crát. 402a). Tomada ao pé da letra, a proposição parece falsa, a não ser que consideremos que o critério de identidade de um rio seja a água que ele contem e não o curso pelo qual ela flui. Tomada alegoricamente, é presumivelmente uma afirmação de que tudo no mundo é formado de componentes em constante mudança: se for este o significado da afirmação de Heráclito, disse Aristóteles, as mudanças seriam do tipo imperceptível (Fís., 8, 3, 253b9ss.). Talvez seja isso o que sugere o aforismo de Heráclito  de que a harmonia oculta é melhor que a harmonia manifesta – entendida a harmonia como o ritmo subjacente ao universo em fluxo (KRS 207). O que quer que Heráclito tenha querido dizer com seu aforismo, este teria uma longa história à sua frente na filosofia grega posterior.

Um fogo consumidor, mais que um corrente fluida, é um modelo de mudança constante, sempre se consumindo, sempre revigorado. Heráclito disse uma vez que o mundo era um fogo sempre vivo, o mar e a Terra as cinzas dessa fogueira eterna. O fogo é como o ouro: pode-se trocar o ouro por todo tipo de bens, e o fogo pode render cada um dos elementos (KRS 217-19). Este mundo flamejante é o único mundo que há, e não é governado por deuses ou homens, mas por meio do Logos. Seria absurdo, ele argumentava, pensar que este glorioso cosmos fosse apenas um depósito empilhado de lixo (DK 22 B124).  “Logos” é o termo grego usual para qualquer palavra escrita ou falada, mas a partir de Heráclito quase todo filósofo grego deu a ele um ou mais de vários profundos significados. É frequentemente traduzido como “razão” – seja em referencia à capacidade de raciocínio dos seres humanos, seja a algum princípio mais cósmico elevado de ordem e beleza. O termo encontrou seu lugar na teologia cristã quando o autor do quarto evangelho proclamou: “No princípio era o Logos [Verbo], e o Logos estava em Deus, e o Logos era Deus” (Jô 1, 1).

Este Logos universal, afirma Heráclito, é difícil de assimilar, e a maioria dos homens jamais o consegue. Comparando-os com alguém que despertou para o Logos, eles são como pessoas que dormem, enoveladas em seu próprio mundo de sonhos, em vez de encarar a verdade simples e universal (SE, M. 7, 132). Os homens se dividem em três classes, situadas a diferentes distancias do fogo racional que governa o universo. Um filósofo como Heráclito está mais próximo do flamejante Logos e recebe desde mais calor; depois dele, as pessoas comuns, quando açodam [ para o Logos], usufruem de sua luz quando fazem uso de suas próprias faculdades racionais; por fim, aqueles que dormem [para o Logos] têm as janelas de suas almas fechadas e mantêm contato com a natureza somente através da respiração (SE, M. 7, 129-130)1. Será o Logos Deus? Heráclito, tipicamente, deu uma resposta evasiva:

A única coisa que por si só é verdadeiramente sábia é ao mesmo tempo desmerecedora e merecedora de ser chamada pelo nome de Zeus.

 

Presume-se que ele queria dizer que o Logos era divino, mas não deveria ser identificado com nenhum dos deuses do Olimpo.

A própria alma humana é fogo: Heráclito por vezes enumera a alma junto com a terra e a água, como três elementos. Dado que a água extingue o fogo, a melhor alma é uma alma seca, devendo-se mantê-la livre de qualquer mistura. É difícil apreender exatamente o que contaria como mistura nesse contexto, mas o álcool certamente conta, pois um bêbado, afirma Heráclito, é um homem conduzido por uma criança (KRS 229-31). Mas o uso que Heráclito faz de “molhado” parece também próximo ao moderno sentido vulgar do termo: homens de bravura e força que morrem em batalha, por exemplo, possuem almas secas que não sofrem a morte aguada mas vão juntar-se ao fogo cósmico (KRS 237).

O que em Heráclito causava mais admiração a Hegel era sua insistência na coincidência dos opostos, como a de que o universo é ao mesmo tempo divisível e indivisível, gerado e não-gerado, mortal e imortal. Em algumas ocasiões essas identificações de opostos são afirmativas diretas de relatividade de certos predicados. A mais famosa delas, “A rota para cima e para baixo é uma e a mesma”, soa muito profunda. Contudo, não necessariamente significa mais do que quando, ao descer tranquilamente uma montanha, e encontrar você esforçando-se no sentido contrario, estamos no mesmo plano. Coisas diferentes são atraentes em ocasiões diversas: a comida quando se tem fome, a cama quando se tem sono (KRS 201). Coisas diferentes atraem espécies diferentes: a água do oceano é tudo para os peixes, mas veneno para os homens; os jumentos preferem entulho a ouro (KRS 199).

Nem todos os pares de coincidentes opostos propostos por Heráclito encontram fácil solução por via da relatividade, e mesmo os aparentemente mais inofensivos deles podem guardar um profundo significado. Assim, Diógenes Laércio afirma que a sequencia fogo-ar-água-terra é a rota para baixo, e que a sequencia terra-água-ar-fogo é a rota para cima (DL 9, 9-11). Estas duas rotas podem ser consideradas as mesmas comente se vistas como duas etapas de um contínuo e temporalmente infinito progresso cósmico. Heráclito acreditava de fato que o fogo cósmico passa por estágios de combustão e resfriamento (KRS 217). É presumivelmente neste mesmo sentido que devemos compreender a afirmação de que o universo é ao mesmo tempo gerado e não-gerado, mortal e imortal (DK 22 B50). O processo a isto subjacente não tem começo nem fim, mas cada ciclo de combustão e resfriamento é um mundo particular que entra e sai da existência.

Em que pesem relatos dando conta da atividade política de vários dos pré-socráticos, Heráclito apresenta certa precedência, com base em seus fragmentos, quanto a ter sido o primeiro a ter produzido uma filosofia política. Ele não se interessava de fato pela prática política – aristocrata com direito de governar, ele abdicou de seu direito e passou seus bens a seu irmão. Dele se diz que afirmava preferir brincar com crianças a discutir com os políticos. Mas foi ele talvez o primeiro filósofo a falar de uma lei divina – não uma lei física, mas uma lei prescrita – que presidia sobre todas as leis humanas.

Há um trecho famosos de uma peça de Robert Bolt sobre Thomas More, O homem que não vendeu sua alma. More é pressionado por seu genro, Roper, a prender um espião ao arrepio d alei. More se recusa a fazê-lo: “Conheço o que é legal, não o que é certo, e fico com o que é legal”. Em sua resposta a Roper, More se nega a pôr a lei dos homens acima da lei de Deus. “Eu não sou Deus”, afirma, “mas das coisas da Lei, destas sou guardião”. Roper diz que jogaria fora todas as leis da Inglaterra para pegar o Demônio. More responde: “ E quando a última lei fosse rasgada, e o Diabo o embocasse – onde você se esconderia, Roper, com todas as leis agora por terra?”2

É difícil encontrar uma reprodução literal dessa discussão, seja nos escritos de More ou em relatos de terceiros. Mas dois fragmentos de Heráclito dão voz aos sentimentos do genro e do sogro. “O povo deve lutar em defesa da lei como o faria pela sua cidade” (KRS 249). Mas embora uma cidade deva confiar em  sua lei, ela deve pôr sua confiança absoluta na lei universal comum a todos. “Todas as leis dos homens se alimentam de uma única lei, a lei divina” (KRS 250).

O que restou de Heráclito Chega a não mais que 15 mil palavras. A enorme influência que ele exerceu em filósofos antigos e modernos é algo digno de admiração. Há qualquer coisa de adequado quando a seu lugar no afresco de Rafael na sala do Vaticano, A Escola de Atenas. Nesse monumento painel, que contem retratos imaginários de muitos filósofos gregos, Platão e Aristóteles, como é certo e direito, ocupam o centro. Mas a figura que atrai de imediato os olhares assim que se entra na sala é a de uma adição posterior ao afresco, a de um Heráclito calçado, pensativo, em profunda meditação no nível mais inferior da pintura.

KENNY, Anthony. Uma Nova História da Filosofia Ocidental. Volume I. Filosofia Antiga. Edições Loyola. PP. 37-41


1 Os leitores de Platão frequentemente se surpreendem com a antecipação da alegoria da caverna na República.

 

2 Robert BOLT, A man for all sensons, London, Heinemann, 1960, 39. [O homem que não vendeu a sua alma foi o titulo brasileiro do filme baseado na peça de Bolt, cujo texto, salvo engano, jamais foi publicado no Brasil (N.T.)].

Oswaldo Giacóia – O Impacto de Nietzsche no Séc XX – Catástrofe, Suicídio do Fundamento

Oswaldo Giacóia fala sobre as idéias de Nietzsche e a confrontação com o mundo contemporâneo; nesse trecho, análise da Catástrofe segundo sua raiz grega, o fundamentalismo e a imanência do suicídio do fundamento.

 

 

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