Agostinho e a Vida Feliz – O Meio-Termo e o Caminho da Felicidade.

Por: Carlos Eduardo Bernardo

        Quase dispenso a convenção em introduzir ao leitor em breves aspectos biográficos e bibliográficos da personagem de quem versa este texto. Afinal, quem jamais ouviu falar de Santo Agostinho?

Santo Agostinho, O Mestre do Ocidente (354-430).

       Nascido em Tagasta, Numídia, região da África romana, em 354; filho de pai pagão e mãe cristã, tendo formação como retor ele foi aderente das escolas céticas, maniqueísta, e, platônicaneo-platonismo, via Plotino (205?-270) – e se tornou um dos maiores pensadores do Cristianismo. As respostas teológicas que Agostinho elaborou para as grandes questões que se lhe apresentaram se tornaram as mais poderosas forças propulsoras da Teologia, e, também das polêmicas no seio do Cristianismo.

        Dentre suas obras destacam-se As Confissões (399), Retratações (426-427), Contra os Acadêmicos (386), A Trindade (399-419), O Livre-Arbítrio (388-395), A Cidade de Deus (413-426) e a Vida Feliz (386). Sobre esta última pretendemos discorrer, brevemente, a seguir.

 A Vida Feliz (De beata vita)

        Este é o título da reprodução escrita de um diálogo que ocorre durante um banquete oferecido por Agostinho por ocasião da comemoração de seu natalício, a festa se desenrola por dois dias e utiliza metáforas e figuras hauridas da “gastronomia” que, num movimento dialógico, nos conduzem à compreensão de que a verdadeira felicidade só pode ser encontrada na verdade divina em união com Deus.

        Agostinho em sua obra As Confissões reconstrói sua trajetória intelectual e espiritual até o Cristianismo. Destaca-se nesta trajetória seu envolvimento com o maniqueísmo, doutrina dos seguidores de Mani, que concebe o mundo como resultado do embate de duas forças, ou princípios, eternos: o bem e o mal, o reino das trevas e o reino da luz, portanto toda criação seria herdeira do Príncipe das Trevas e do Príncipe de Luz.

        No Livro VII, das Confissões, Agostinho acertará contas com esse dualismo, ele lhe fará oposição usando a tradição platônica, neo-platonismo, e a tradição cristã. Ainda figura em seu pensamento uma dicotomia básica que põe em oposição este mundo imperfeito, e um mundo perfeito, no platonismo temos o mundo sensível e o mundo inteligível, Agostinho dirá mundo carnal e mundo espiritual.

         Todas as coisas efêmeras estão aqui, e todas as coisas verdadeiras estão lá, muitas dicotomias podem ser, e realmente são extraídas deste raciocínio.

        Mas, se é assim, por que Agostinho não é maniqueísta?

        A fora o fato que Agostinho, aliado à tradição cristã, rejeita a concepção maniqueísta da existência co-eterna dos dois princípios antagônicos, colocando sobre o mal todo o ônus de ausência de uma substancialidade própria e inerente, a reflexão no diálogo A Vida Feliz fornece subsídios para que entendamos a razão maior de não podermos contá-lo entre os maniqueístas. Pensando a felicidade como saciedade, Agostinho oporá aqueles que possuem o supremo bem (verdadeira felicidade) àqueles que não o possuem, portanto são infelizes.

        Felicidade é a posse do supremo bem, o supremo bem é Deus, logo a saciedade só é encontrada na posse de Deus, quem O encontra vive bem, pois que possui o supremo bem, aqui Agostinho, no primeiro dia do banquete, estabelece um consenso junto a seus interlocutores. Em conseqüência os céticos são tidos como os mais infelizes dos homens, pois renunciam a qualquer posse, estando sempre à procura de algo.

Exemplar Nº 11 na Coleção Patrística, São Paulo, Editora Paulus. Consta de duas obras de Santo Agostinho, Solilóquios, e, A Vida Feliz. Tradução: Adaury Fiorotti & Irmã Nair de Assis Oliveira.

       No segundo dia do banquete, Agostinho faz com que os consensos obtidos na véspera sejam postos contra os próprios concordantes.

        Pois, os leva a admitir que o próprio Deus queira que os homens O identifiquem com o supremo bem e O busquem. Portanto, viver bem ou viver conforme a vontade de Deus significa buscar a Deus.

        Mas, como isso pode ser o mesmo que à posse de Deus?

       Já que aquele que procura o faz porque ainda não possui. Mas, se fazer a vontade de Deus equivale a viver bem e viver bem é buscar a Deus, e, todavia quem busca ainda não possui então viver bem é o mesmo que não possuir a Deus.

       Ora, os céticos procuram, logo fazem a vontade de Deus. Mas, se fazem a vontade de Deus, por que os consideramos como infelizes?

        Deste impasse, Agostinho extrairá duas importantes teses:

        1ª. É necessário distinguir entre aquele que é feliz e o que não é feliz.

        Entre os que não são felizes há aqueles que são infelizes e também aqueles que não são felizes. Na presente dispensação há aqueles que sofrem de inanição e aqueles que se alimentam visando à plena saciedade que se vislumbra no horizonte escatológico.

        2ª. Sempre fazendo uso da linguagem gastronômica, Agostinho proporá um meio-termo entre a saciedade e a inanição. E esse meio-termo é a virtude da moderação (comedimento). Alimentando-se de acordo com o que necessita, e, de acordo com o que é possível, a busca deverá se equilibrar sobre uma justa medida. Já no pensamento platônico a questão de se estabelecer uma mediatriz assume certa relevância devido ao conceito de metaxý, todavia, aparentemente, Agostinho toma de empréstimo concepção aristotélica da mesothés[1] sob a perspectiva de uma dentre as características do fruto do Espírito (Gl.5,22), a temperança, o autocontrole (gr. enkrateia), mencionada pelo apóstolo S. Paulo numa de suas epístolas.

        A introdução desta justa medida, deste meio-termo, leva Agostinho a considerar que neste mundo o homem não está apenas no mundo inferior em oposição ao superior, mas ele está no mundo inferior em direção ao superior. Não há apenas a posse de Deus e a perdição, mas também uma possibilidade da virtude, por meio da que se pode seguir gradativamente em direção a Deus.

          Portanto, buscar a felicidade é reconhecer a ausência, a busca é o estigma daquele que se reconhece como não possuidor, mas isso não implica necessariamente em mera infelicidade (estática, definitiva), mas talvez, implique numa infelicidade que peregrina em direção à felicidade.


[1] Mesothés é a concepção de justa medida desenvolvida por Aristóteles a partir, provavelmente, do conceito da metaxý platônica.

Uma Fome Nuclear: Um bilhão de pessoas em risco.

Artigo retirado do site da CNN.

Editor’s note: Jayantha Dhanapala is a former ambassador to the United States from Sri Lanka, U.N. under-secretary general for disarmament and chairman of the 1995 Non-Proliferation Treaty Review and Extension Conference. Ira Helfand is the past president of Physicians for Social Responsibility and current North American vice president of the International Physicians for the Prevention of Nuclear War.

(CNN) — Recent ballistic missile tests by India, Pakistan and North Korea — which has ominously threatened to “reduce to ashes” the South Korean military “in minutes” — are once again focusing the world’s attention on the dangers of nuclear war.

This concern was dramatically underscored in a new report released at the Nobel Peace Laureates Summit in Chicago. Titled “Nuclear Famine: A Billion People at Risk” (PDF), the study shows that even a limited nuclear war, involving less than half of 1% of the world’s nuclear arsenals, would cause climate disruption that could set off a global famine.

The study, prepared by International Physicians for the Prevention of Nuclear War and its U.S. affiliate, Physicians for Social Responsibility, used a scenario of 100 Hiroshima-sized bombs exploded in a war between India and Pakistan. If there were such a war, the study estimated that 1 billion people, one-sixth of the human race, could starve over the following decade.

Along with recent events, these findings require a fundamental change in our thinking about nuclear weapons.

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O artigo cita India e Paquistão, que têm bombas atômicas, como ponto de ignição de uma possível Guerra Nuclear. Quanto à Corea do Norte, ela sim está ameaçando a Corea do Sul e ainda o Japão – o que deixam de citar e, ainda por cima, deixam ambíguo que India e Paquistão estejam ameaçando também a Corea do Sul no começo do artigo.
Em resumo, físicos ao redor do mundo se unem para evitar uma Guerra Nuclear que poderia matar um bilhão de pessoas de fome apenas na década seguite aos ataques.

O problema está em pontos como: EUA, na América. Rússia, na Ásia e Leste Europeu. Coreas e Japão, no extremo Leste. Paquistão e India, no sul da Ásia. E – por que não? – Irã no meio do Oriente Médio. Se algo em escala global acontecesse, talvez apenas a África, a América Latina e a Austrália pudessem estar “livres” de uma destruição imediata, mas a fome passaria por todos. E, ainda com os submarinos americanos e russos, e suas numerosas reservas de bombas da Guerra Fria… tudo pode virar às avessas rapidamente.

O artigo continua…

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