O Coração Do Filósofo Cristão – Ou Um Conto… Biográfico!

Fonte da Imagem: plus.google.comFolheando os livros mais antigos de minhas prateleiras surpreendi-me quando encontrei uma carta de meu falecido pai dentro de um belo exemplar encadernado do livro “Nekroi Diálogoi”, de Luciano , cujo título em dourado destacava-se em autorelevo na lombada; carta esta endereçada a mim. Sim, meu pai que não conheci enquanto vivo e que me deixou uma pequena herança em livros, poucos realmente, cerca de trezentos, mas muito valiosos em conteúdo.
Não sei se ele escrevera-me e tencionava dar-me num encontro determinado, mas se esquecera onde colocara a carta, ou se a teria deixado premeditadamente no opúsculo de título sugestivo pressagiando que seria lida apenas após seu passamento!
Abri lentamente o belo envelope preto e aveludado e li silenciosamente o título que encabeçava seu escrito: “O CORAÇÃO DO FILÓSOFO CRISTÃO”!
E é este o testamento de suas palavras que transcrevo a seguir:

“Meu filho.

Sei que é um jovem e afinado com as novas tecnologias, duas prerrogativas que intuo lhe impelirão a publicar o que lhe escrevo no ambiente que chamam de cyberespaço!

Mesmo assim escrevo porque sei que poucos lerão minhas palavras, pois em nossos dias qualquer texto que seja “postado”, como vocês dizem, deve necessariamente ter no máximo quatro ou cinco linhas, caso ultrapasse este limite dificilmente será lido (por inteiro). 

Logo me dirão os especialistas na analise dos fenômenos sociais, que a culpa não é dos leitores, posto que a “Web” seja um ambiente de informações rápidas, dinâmicas e fluidas!

Admito esta réplica, mas sustento que um animal leitor é leitor em qualquer ambiente; o fato é que temos hoje uma geração preguiçosa e indolente que já não sabe apreciar o valor das boas letras, que não aprecia os clássicos, que não gosta de qualquer coisa que lhes provoque, que lhes desafie ao pensar!

Espero que não seja um dos tais, pois apesar de não ter podido ficar com sua mãe, posto que nosso amor fora-nos proibido; pedi-lhe e ela prometeu-me que não o deixaria abandonar os estudos e lho ensinaria amar as boas letras!

Para isso deixei-lhe um pouco daquilo que de melhor havia em meu acervo particular. Dos mitos, de Homero à Tolkien; das tragédias, de SófoclesShakespeare; dos filósofos, de Demócrito a Deleuze; dos romances, de Balzac a Saramago!

Selecionei os que me eram mais caros, caros não em valor do vil metal, pelo qual se matam uns aos outros os nossos semelhantes, porém caros naquilo que os homens tanto precisam e menos procuram: o conhecimento e o afeto. Meu filho, se os buscares não é certo que serás feliz, mas ao menos, viverás bem contigo mesmo!

Mas, não escrevo para falar de ti e tampouco para falar dos outros, mas escrevo para falar sobre mim. Ou, antes, para falar sobre quem acredito que sou; ou ainda mesmo sobre quem os outros acreditam que eu seja. Pois, é notório que os outros sabem mais sobre nós, do que nós mesmos!

Quando as pessoas vêem meu perfil nas redes sociais ou meu currículo lattes, pensam que sou feliz, realizado e que tenho uma vida próspera. Porém, nada poderia estar mais longe da verdade!

Não sou feliz e tampouco realizado, à vezes estou feliz e noutras vezes estou infeliz, triste e angustiado. Os momentos de felicidade cada vez se tornam mais raros!

Afinal, como ser feliz num mundo em que grassa tanta infelicidade? Como ser feliz enquanto milhões morrem de fome, ou são mortos pela estupidez e ganância de seus semelhantes?

Muitas pessoas pensam que alguns reconhecimentos acadêmicos e publicações me concedem algum prestígio, e, assim o prazer duradouro da “autorrealização profissional”. Mas, tudo isso é enganoso, estas coisas apenas alimentam meu ego, e, não são eficazes para transformar a dimensão mais profunda de meu ser que clama por atenção, além disso, minha frustração está em que apesar de todo este aparente reconhecimento, à duras penas consigo saldar minhas dívidas e colocar o alimento em minha mesa.

Porque, por mais que eu odeie admitir, vivo num mundo do capital, onde o dinheiro vale mais que as pessoas e onde todos são medidos por aquilo que têm e não por aquilo que são!

Talvez alguns me digam: “Mas e o cristianismo? Esse sim é robusto em sua vida e sabemos que nutre a tua alma com muitas e preciosas certezas”. Quisera eu que isso fosse fato!

Para mim, a era das convicções já passou; já não posso mais dar-me ao luxo de arvorar a convicção de minha “cristaneidade”. Pois todos os dias ao olhar-me no espelho, no espelho de minha alma, pergunto-me: “que monstro abjeto eu sou”? Como posso aparentar beleza de uma alma pura em palavras, e, ao mesmo tempo nutrir no coração desejos tão contraditórios e eivados de concupiscência?

Eu até tento, ‘dia a dia’, ser melhor; parecer melhor e para muitos até pareço. Mas, só eu sei o quão perverso é meu coração, egoísta e vaidoso!

Proclamo virtudes que não tenho, prego uma doutrina que não sigo, falo de um bem que não pratico. Essa não é uma boa definição do hipócrita?

Enquanto conheço muitas pessoas de quem se pode dizer, e, dizem, ‘são cristãos’. Eu duvido de minha fé até a sua raiz. Não há proposição de meu ‘cristianismo’ da qual eu não duvide. Não há qualquer ‘dogma’ de minha fé que eu não ponha em questão!

Outros me perguntam: “por que, sendo você filósofo reflete e escreve tanto sobre a fé ou a religião”? Certamente, dirão outros, “é porque sabes muito sobre estes assuntos e tens de dividir o que sabes com os outros”. Eis, outros juízos equivocados.

O que não compreendem é que sou egoísta, escrevo por ensaio, por tentativa em fixar novos conhecimentos obtidos, em revisitar velhos conhecimentos, escrevo para melhor ordenar minhas idéias, e, quem sabe (?), convencer-me das verdades com as quais tenho lidado.

Portanto, sou egoísta, pois que não escrevo para os outros, escrevo para mim mesmo, por isso nunca escrevo tudo o que eu poderia escrever sobre determinado assunto, guardo para mim (e às vezes para poucos) o que eu acredito que seja mais essencial, mais valioso, ou simplesmente, o que me cause mais prazer!

 Vejo a religião como uma construção humana, todo rito, gesto e palavra religiosa se inserem no âmbito das ações desesperadas do animal religioso, o animal cioso de transcendência. 

Invejo aqueles que têm fé robusta, que conseguem crer sem hesitar. Mas, não sou um dos tais!

Penso que se há Deus o abismo ontológico entre Ele e a criatura é tão imenso que todos os gestos religiosos caem no vazio. Penso também que o abismo jamais é transposto num movimento ascendente, mas apenas num movimento descendente!

Imagino um leitor perguntando-me:

“Mas, se você vê tudo e a si mesmo de forma tão desesperadora, qual é o valor têm para ti as Escrituras?”

A mensagem das Escrituras tem um valor imensurável. Elas também mostram este mesmo quadro desesperador da condição humana, também nos apresentam homens tão iguais ou até piores que eu mesmo.

Entretanto, as Escrituras também falam que o movimento para transpor o abismo já foi realizado, que ele é fundamentalmente descendente e por isso eu posso ser alcançado por ele, e, em verdade eu fui, bem como, você!

Neste ponto, meu filho, reside o enigma da fé: fé não como o assentimento intelectual de um corpo de doutrinas inacreditáveis, mas como a aceitação de que somos aceitos por Ele, por mais paradoxal que isso pareça. Paradoxal exatamente por sabermos existencialmente qual é nossa condição.  

Todavia, se isso se passa realmente assim, eu posso dizer que tenho fé, ainda que ela seja, em mim, quase imperceptível, como um filete de águas cristalinas entre as pedras num dia de sol.

Pois, se aquele que tem a fé do tamanho de um grão de mostarda é capaz de transportar os montes. O que é possível para aquele cuja fé flui, escoa lentamente num fluxo rumo ao infinito?

Deste modo se encerra sua epístola, do exato modo como eu imaginava que se encerraria um diálogo com meu pai, um homem que tinha um coração de filósofo e que agora pude saber também que tinha um coração cristão, porém filosófico, sim, pois findara este escrito do bom e velho modo filosófico, com uma questão!

Desejo mimético: Girard e Kierkegaard (parte 2)

Kierkegaard:

Na filosofia de Girard, o termo mímesis tem um objeto que é o desejo de um modelo escolhido pelo sujeito imitador. Já em Kierkegaard pode-se dizer que as cartas são as mesmas, mas o jogo é diferente.

Kierkegaard em sua obra “A doença mortal” tem um ponto de vista diferenciado de Girard para este desejo imitador do sujeito. O indivíduo, para ele, é um ser de relações para consigo, com os outros e com Deus; é uma síntese inacabada das relações de finito e infinito, de temporal e eterno, de liberdade e necessidade. Mas que contêm uma finalidade na sua existência: operar a síntese entre estas relações de opostos através do salto da fé, a relação com Deus, pois “a existência significa o próprio sentido da vida “.[1]

Mas este caminho a esta finalidade da existência não pode ser sem sofrimento. E, para alcançar tal façanha, o desespero, a discordância da síntese é necessária. Pois, a síntese, a constituição do eu, o Indivíduo, o si-mesmo só pode ser sequer pensada quando o espírito é acordado do seu sono a partir do sofrimento e do desespero.Ademais, porque é uma forma de progredir na existência.

Desta forma, usaremos o desespero para explicar um “mecanismo mimético” que possamos achar na filosofia kierkegaardiana. Uma maneira de demonstrá-lo é conceitualizando a “doença mortal”:

No começo de sua obra homônima, o sentido de “doença mortal” fica empregado apenas como fraqueza de espírito e que, para o cristão, sendo a alma imortal, a própria morte é passagem para outra vida. Assim, o termo “mortal” não tem expressão certa. “Mas uma ‘doença mortal’ no sentido estrito quer dizer um mal que termina pela morte, sem que após subsista qualquer coisa. E é isto, definitivamente, o desespero[2].

Kierkegaard ainda dá outro sentido para a “doença mortal”, o de, longe de poder morrer, o seu mal estar em sua tortura, sua agonia; de estar mortalmente doente.

Assim, estar mortalmente doente é não poder morrer, mas neste caso a vida não permite esperança, e a desesperança é a impossibilidade da última esperança, a impossibilidade de [sequer] morrer. Enquanto ela é o supremo risco, tem-se confiança na vida; mas quando se descobre o infinito do outro perigo, tem-se confiança na vida; mas quando se descobre o infinito do outro perigo, tem-se confiança na morte. E quando o perigo cresce a ponto de a morte se tornar esperança, o desespero é o desesperar de nem sequer poder morrer[3].

E continua Kierkegaard:

No desespero, o morrer continuamente se transforma em viver. Quem desespera não pode morrer; assim como um punhal não serve para matar pensamentos, assim também o desespero, verme imortal[4], fogo inextinguível, não devora a eternidade do eu, que é o seu próprio sustentáculo [a fonte do desespero[5]]. Mas esta destruição de si próprio, que é o desespero, é impotente e não consegue os seus fins.

A partir daqui a vontade assassina de ser outro, uma possível mímesis, se dissipa e, no retorno a si próprio ela já é outra:

A sua vontade própria é destruir-se, mas é o que ela não pode fazer, e a própria impotência é uma segunda forma de destruição do eu; é, pelo contrário, uma acumulação de ser, ou a própria lei dessa acumulação. Eis o ácido, a gangrena do desespero, esse suplício cuja ponta, dirigida sobre o interior, nos afunda cada vez mais numa autodestruição impotente. Bem longe de consolar o desesperado, pelo contrário, o insucesso do seu desespero em destruí-lo é uma tortura, reanimada pelo seu rancor; porque é acumulando sem cessar, no presente, o desespero pretérito que ele desespera por não poder devorar-se nem libertar-se do seu eu, nem aniquilar-se. Tal é a fórmula de acumulação do desespero, o crescer da febre nesta doença do eu.[6]

O homem que desespera tem um motivo de desespero”[7], um desejo. E só desejamos o que não temos ou não somos, isto é, podemos desejar o objeto de outro, o desejo de outro ou, como sim mostra Kierkegaard, desejar ou querer em desespero ser outro. “Desesperando duma coisa, o homem desespera de si, e logo em seguida quer libertar-se do seu eu”[8]. Mas, antes de desesperar de alguma coisa, na verdade, já desesperava de si, já não conseguia encarar si-mesmo, ou melhor, já não conseguia encarar-se para se tornar si-mesmo. E, neste desejo de se tornar outro, investe sua fuga assassina de si para a ilusão de atravessar a barreira existencial do eu ao outro. O desesperado que não suporta a si mesmo e deseja ser outro, nada mais faz que negar o querer ser si-mesmo, a constituição do espírito. Porém, não conseguindo efetuar sua tarefa – ser outro -, surge o verdadeiro rosto do desespero, o desesperar de si próprio. O homem nesta forma de desespero desespera do eu que não deveio, de não poder se libertar do seu eu. “Na sua essência, o seu desespero não varia, pois não possui o seu eu, não é ele próprio”[9]. Contudo, nem que se conseguisse ser outro, se poderia dizer que destruiu o seu eu. “Porque é justamente aquilo de que, para seu desespero, para seu suplício, ele é incapaz, visto que o desesperado lançou fogo àquilo que nele é refratório, indestrutível: o eu”[10]. Assim, eis o homem que encara os olhos abertos do verdadeiro desespero, encara a si próprio.

Desesperar de uma coisa é, ainda, desesperar sobre uma não-realidade, desta forma, uma ilusão. Mas não é ainda o verdadeiro desespero, pois este, como vimos, é apenas sobre si próprio. Olhando por um certo ponto de vista, o desesperado sempre desespera sobre si, porém o foco do desespero é o que não se debruça sempre de si-mesmo. O desespero funciona numa linearidade. Inicialmente, o desesperado tem o foco de seu desespero sobre si mesmo, quer, desesperadamente, libertar-se de si próprio, e, não agüentando encarar seus próprios olhos, tenta ser outro; tenta achar seu próprio eu em outra pessoa. Este desespero que se foca em outro é a fuga do eu ainda não formado. O outro é exatamente onde este ser desesperado encontra refúgio; encontra apoio. Todavia, não sabe este ser que o eu só pode formular-se a partir si próprio e que todo o querer ser outro não passará de uma imitação barata, pois seu desejo está cravado na alma.

Este eu, que o desesperado quer ver, é um eu que ele não é (pois querer ser o eu que se é verdadeiramente é o contrário do desespero), o que ele quer, com efeito, é separar-se de seu Autor. Mas aqui ele falha, não obstante desesperar, e apesar de todos os esforços do desespero, este Autor permanece o mais forte e constrange-o a ser o eu que ele não quer ser. [11]

Ele desespera infinitamente em direção ao outro, não encontrando um fim, sua própria finalidade. Assim, vendo a falha em sua fuga, refúgio e imitação, o outro, no qual se apoiava, deixa-o e, sem apoio, sofre uma queda rumo a uma tristeza, um abominável vazio, impulsionado por este novo abandono. Deste modo, ele encontra o seu “suplício: não pode libertar-se de si próprio[12]. A existência deste ser desesperado toca pela segunda vez o refrão de se desesperar de si mas, agora, sabendo que não conseguiu ser outro, com consciência de sua falha; de que não conseguiu, sequer, ser si mesmo. “Tentai dizer-lhe: ‘Estás a matar-te’, logo verei como responde: ‘Ai de mim! Não, a minha pena, precisamente é não o conseguir”[13]. Esta pena é estar mortalmente doente.

No momento em que a alma procura libertar-se tanto de si que nada fique, ainda há sua eternidade que fará despertar o desespero, retendo-o no seu eu. Esta é a garantia que o homem não se pode perder inteiramente; a garantia que todo caminho que não leve à construção do eu através de Deus, seja doloroso e desesperador. Assim, a existência humana, como exposto anteriormente, é este fim que garante o espírito, mas que, para o devir, precisa, antes, errar o caminho no tortuoso chão do desespero, calejar seus pés e descobrir, no salto da fé, a negação da possibilidade de desespero, a síntese das relações de oposição da existência humana.

Assim, este “desejo mimético”, que na filosofia de Kierkegaard se figura como o “querer em desespero ser outro”, é sim um desejo, porém um desejo que nunca se realizará. O eu, como visto antes, nunca irá advir do outro, uma vez que a barreira existencial do eu nunca poderá ser ultrapassada até este outro que se quer ser. Desta maneira, esta “mímesis” em Kierkegaard é falha, mas o tem de ser para o alvo do desespero recair novamente à sua primeira e, de certa forma, única vítima: o eu.  E, então, finalmente poder estar mais próximo da negação da possibilidade de desespero, a constituição do espírito ou Indivíduo.


[1] FARAGO, France. Compreender Kierkegaard. 2006. Editora Vozes. P. 75-6

[2] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 341

[3] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P.341

[4] Na tradução em inglês: KIERKEGAARD, Soren. The sickness unto death. Editora: Penguin Books great ideas. 2008. p.16 “whose worm dieth not” que pode ser traduzido por “verme faminto” ou “verme insaciável”.

[5] Na tradução em inglês: KIERKEGAARD, Soren. The sickness unto death. Editora: Penguin Books great ideas. 2008. p.16 “source of despair”.

[6] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P.341-2

[7] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 342

[8] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 342

[9] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 342

[10] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 342

[11] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 342-3

[12] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 343

[13] KIERKEGAARD, Soren. O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 342

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Uma breve reflexão sobre o nome/função e a simbólica da luz nos mitos pré-cristão e grego; Lúcifer e Prometeu

Blacksmith e Sheaper são sobrenomes comuns na Inglaterra. O primeiro significa ferreiro, o segundo, pastor. Aqui há uma coisa interessante. Estes nomes – ou sobrenomes – são também funções, trabalhos. Assim como os Deuses da mitologia grega que têm nome/função. Por exemplo, Philia, o deus do amor que aglomera as coisas ou Neikos, a divindade da discórdia que as afasta. Conceitos usados por Empédocles.

A macieira – pelo seu nome/função – dá maçã. Mas, uns pensam, e se a macieira não der maçã, e, sim, der banana? Então como não têm a função de macieira, não a é, mas, sim, bananeira. Assim sendo, no momento em que me pergunto se a macieira der banana, entro em contradição. Pois, A deve ser igual a A (A=A), ou seja, sua função é seu nome, e assim tem de ser de acordo com esta lógica.

Aristóteles dizia que cada coisa só é a si mesma por ter em sua essência sua própria finalidade e a cumprir. Por exemplo, o homem obter a phronesis e a macieira dar maçã.

Porém, é possível expressar ainda melhor esta situação. Pois, invertemos erroneamente a situação.

  • Não é a macieira que dá maçã.
  • Não é homem que obtêm a phronesis.

E sim,

  • O que dá maçã é macieira.
  • O quem tem phronesis é homem.

Pois, o significado, a essência/finalidade, a sua função vem antes do próprio nome. Até porque em todo o mundo sabemos o que é o objeto mação objeto que dá maçã, ou seja, suas representações, independentemente dos vários nomes das várias línguas que existem.

Carregando tal pressuposto, damos um salto com o intuito de analisar de acordo  com este pensamento um nome, que aqui o pensaremos como nome/função, Lúcifer.

Satan in his Original Glory - William Blake

Todos conhecemos a história da ambição de Lúcifer para com Deus. Em suma, no que nos interessa, Lúcifer tentou infinitamente ser Deus. Brilhar como Deus. E daí o seu nome/função, pois Lúcifer (em hebraicoheilel ben-shahar, הילל בן שחר; em grego na Septuagintaheosphoros) significa o que leva a luz, representa a estrela da manhã (a estrela matutina), a estrela D’Alva, o planeta Vênus, o primeiro a brilhar antes da alvorada.

Numa segunda fase, por tentar tal ‘audácia’ num ponto de vista do senso comum, Lúcifer é expulso dos céus. Também se é tomada a idéia de que  Lúcifer, como o maior dos anjos, não quis se submeter ao ‘homem’, se revolta, assim sendo expulso dos céus e se tornando o nome/função Satã (cuja origem é o hebraico Shai’tan, que significa simplesmente adversário). Mas nenhuma passagem da bíblia diz isso. Vide “Satã, uma biografia de Henry Angar Kelly”.

E em poucas traduções portuguesas aparece aqui a tradução de Figueiredo verte Isaías 14:12: “Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante?” Como mostra o quadro de William Blake “Satã em toda sua glória” e posteriormente em sua queda a Estátua de Lúcifer na catedral Saint-Paul de Liège, na Bélgica.

Mas apresento aqui neste texto um novo ponto de vista, uma vez que tomemos Estátua de Lúcifer na catedral Saint-Paul de Liège, na Bélgicaa Deus não como uma personificação, um ser, mas como um estágio, assim como o estágio de buddha. Ou seja, iluminação, iluminado… Lúcifer.

Phillip K. Dick em seu livro, com apenas tradução para o português de Portugal, chamado ” Transmigração de Timothy Archer” nos mostra uma nova interpretação:

Mas, antes, saibamos que aqui Phillip K. Dick ou seu personagem já toma Lúcifer e Satã como uma mesma entidade. Ou, pelo menos, pormenorizadamente, Lúcifer que “enfrenta” Deus com ousadia ainda pode-se ser chamado de satã (com letra minúscula) uma vez que a palavra é comum e se remete a “adversário”.

” – Vejo a lenda de Satã de uma maneira diferente. Satã desejava conhecer Deus tão completamente quanto possível. O conhecimento mais completo seria atingido se ele se tornasse Deus, fosse ele próprio. Lutou por isso e conseguiu-o, sabendo que a punição seria o exílio permanente da companhia de Deus. Mas, ainda assim, fê-lo, porque a memória do conhecimento de Deus, de o conhecer realmente como mais ninguém o fizera ou tornaria a fazer, justificava a seus olhos a punição eterna. Agora, quem considerariam vocês que amava realmente Deus, mais do que qualquer outro que alguma vez tivesse existido? Satã aceitou de boa vontade o castigo e o exílio eternos apenas para conhecer Deus, tornando-se Deus, durante um instante. Além disso, ocorre-me que Satã conheceu verdadeiramente Deus, mas que talvez Deus não tivesse conhecido ou compreendido completamente Satã; se o tivesse compreendido, não o teria castigado. É por isso que se diz que Satã se rebelou, o que significa que Satã estava fora do controlo de Deus, fora do domínio de Deus, como se estivesse num outro universo. Mas Satã recebeu alegremente o castigo, porque ele era a prova, fornecida a si próprio, de que conhecia e amava a Deus.  De outro modo poderia ter feito o que fez apenas pela recompensa… se a houvesse. << É melhor reinar no Inferno do que servir no Céu>> é, aqui, uma saída, mas não a verdadeira: o que é a meta e a procura do saber e do ser finais: compreender total e realmente a essência de Deus, em comparação com o que tudo o resto é realmente muito pouco.”

No próximo parágrafo, depois de ouvir Timothy Archer, Kirsten, outra personagem, diz:

” – Prometeu – disse Kirsten abstractamente. Estava sentada a fumar de olhar perdido.

Tim disse:

– Prometeu significa <<Criador>>. Ele esteve envolvido na criação do Homem. Ele era também o supremo malabarista entre os deuses. Pandora foi enviada por Zeus para a Terra, como castigo para Prometeu, por ter roubado o fogo e o ter dado ao homem Além disso, Pandora puniu toda a raça humana. Epimeteu casou com ela, ele era a Compreensão Tardia. Prometeu avisou-o para que não casasse com Pandora, uma vez que Prometeu podia prever consequecias. Esse mesmo tipo de conhecimento absoluto do futuro ´ou era considerado pelos Zoroastrianos como sendo um atributo de Deus, a Mente Sábia.

– Uma águia comeu-lhe o fígado – disse Kirsten num tom longínquo.

Assetindo, Tim disse:

– Zeus puniu prometeu acorrentando-o e mandando que uma águia lhe comesse o fígado, que se regenerava continuamente. No entanto, Hércules libertou-o. Sem dúvida que Prometeu era um amigo da Humanidade. Ele era mestre artesão. Há aqui certamente uma afinidade com a lenda de Satã. Conforme o vejo, poder-se-ia dizer que Satã roubou, não o fogo, mas o verdadeiro conhecimento de Deus. No entanto, ele não o deu ao homem, conforme Prometeu fez com o fogo. Talvez o pecado capital de Satã tenha sido o de, ao adquirir esse conhecimento, o guardar para si; não o partilhou com a humanidade. Isto é interessante… por estar linha de racioncínio, poder-se-ia argumentar que pode adquirir-se o conhecimento de Deus por intermédio de Satã. Nunca vi antes ser avançada esta teoria. – Ficou em silêncio, aparentemente a ponderar o assunto. – Eras capaz de escrever isto? – perguntou a Kirsten.

– Eu lembro-me. – O tom dela era distraído e neutro.

– O homem tem de assaltar Satã e tomar-lhe o seu conhecimento. Satã não quer largar. por escondê-lo – e não tanto por tê-lo roubado – é punido. Portanto, e num certo sentido, os seres humanos podem redimir Satã, roubando-lhe à força esse conhecimento.” DICK, Philip K. “A Transmigração de Timothy Archer”. Puclicações Europa-América, Lda. F

Mas aqui avançamos no pensamento de Philip K. Dick/Timothy Archer. Vemos que o Satã que conta Timothy, pela sua função, é mais certo chamá-lo de Lúcifer – ignorarei aqui a discussão de que Satã e Lúcifer poderiam ser ‘pessoas’ diferentes. E nesta história nova vemos que o desejo e o amor de Lúcifer para com o absoluto é infinito, tanto que só ele, através deste amor, consegue iluminar um caminho para isso e tais luzes não são mero jogo de palavras. Pois, só se passa pelo caminho que se vê. Assim como retratado em outro texto sobre luz e iluminação como quando Jesus e Buddha dizem: ‘Eu sou a luz. Eu sou o caminho’. Aqui uma frase leva a outra.

Mas Philip K. Dick/Timothy Archer diz que Lúcifer guardou para si o segredo. Pelo menos o interpreta assim. Mas parece ter lhe faltado a luz para enxergar o caminho por onde seus pensamentos deveriam seguir. Prometeu ‘roubou’ ou alcançou, na m, orada do Deus, o fogo. E o fogo, como sabido  a princípio, aquece e ilumina. E, sabendo disto, vale aqui dizer que Lúcifer só tem este nome por enxergar o caminho através da luz que, no mesmo texto referido acima, ainda diz a ligação que há em tal iluminação com a claridade na mente, como quem diz: ‘agora está claro’. Mas observando que o que se ilumina está dentro de nós, vemos um relação com o místico.

Assim, segundo o Dictionnaire Étymologique de la Langue Grecque, de E. Basaicq, a palavra mystes siginifica “iniciado”, o termo mystikos quer dizer “que concerne aos mistérios” e a palavra mysterion, por sua vez, equivale a “coisa secreta ou cerimônia secreta”. Os termos derivam da raiz grega myo, que significa “fechar-se ou ser fechado”. PEREIRA. I. Aspectos Sagrados do mito e do Lógos: Poesia hesiódica e Filosofia de Empédocles. São Paulo: Educ. 2005.

Ou seja,

As doutrinas místicas são secretas, pois não se trata de crenças abstratas e frias, ou de artigos de um credo que é possível ensinar e explicar mediante processos intelectuais [ou seja, não passíveis da comunicação]… A ‘verdade’ que a mística guarda em si é algo passível de apreensão somente ao ser experimentado (pathein mathein). CORNFORD, F. M. De la Religion. Trad. Antonio Pérez Ramos. 1 ed. Barcelona: Editorial Ariel. 1984. 230.

Então, há uma relação de ambos, Lúcifer e Prometeu, para com a luz e com a chegada ao sagrado. Ainda que Lúcifer e, talvez, Prometeu representem este místico que alcança o conhecimento do Divino e não conseguem passar adiante, pois, como citado acima, ‘é algo passível de apreensão somente ao ser experimentado’, ou seja, Lúcifer não guardou para si o segredo, como diz Philip K. Dick, mas ele não tinha outra opção, não há como transmiti-lo. Havendo assim daí, a possibilidade do nome/função sair, pois, como Platão ainda diz na alegoria da caverna, aquele que alcança a luz e mostra e volta à caverna para mostrar a verdadeira face da luz aos seres da caverna, ele, o homem que saiu da caverna, seria morto por dizer tais coisas e abalar o mundo em que tanto os outros acreditavam. Ele seria, para os seres da escuridão, O Adversário. Porém, ambos foram mal intepretados, até mesmo por Deus. Lúcifer no seu amor com Deus e Prometeu para com a humanidade.

Mas desenvolvo ainda mais, Lúcifer também ajudou a humanidade.  E aqui ainda aparece mais uma similaridade com Prometeu. No Jardim do Éden com Adão e Eva, Satã aparece na aparência de cobra – não vou discutir a relação da deste mito com outros de outros povos, também citados nas ‘Máscaras de Deus’ de Joseph Campbell – e, não dá a maçã à Eva e Adão comerem, mas faz aqui uma coisa muito significativa. Assim como o fogo que, em si, pode não ser usado para nada, mas, para quem sabe usá-lo, pode fundir metais, cozinhar etc. Satã, Prometeu e até como Sócrates no Menão de Platão, não dão uma coisa para se escolher, todavia eles mostram o caminho para a verdade, que é o que eles podem, assim como se entende, no máximo transmitir. Porém, aqui, este salto de que Lúcifer seja Satã e que por sua vez seja a serpente nã consta literalmente na bíblia, vide o livrojá citado “Satã, uma biografia”.

Assim, duas coisas ficam claras, observando Prometeu e Lúcifer ou Satã:

  • No caso de Prometeu, o humanos contra os animais que tinham todas as habilidades, que não eles, os humanos, tiveram o fogo para, com ele, equilibrar a disputa natural podendo através desta alternativa criar possibilidades para a mesma.
  • E, no caso de Lúcifer ou Satã, ele mostrou que, mesmo sob um Deus, é possível fazer coisas que nem Ele tem poder, mesmo no caso de Adão e Eva com o fruto proibido do conhecimento do bem e do mal.

Assim, neste incrível movimento contra o que se acreditava de Deus e para com a humanidade, estes dois mitos nos desvelam, no próprio sentido de aléthea, em suma, duas coisas:

  1. O ser humano, assim como anjos(Lúcifer) e gigantes (Prometeu), têm livre-arbítrio que está acima do poder Divino.
  2. Temos escolhas fora dos contextos.

Mas ficam ainda algumas perguntas como mais uma curiosidade. Haverá Lúcifer ou este possível satã seu próprio Hércules, herói humano (filho de Deus) para libertá-lo? Ou Jesus vendo Satã, o kosmokrator da Terra caindo como um raio, vencendo a Morte, através da ressurreição e se intitulando como a estrela da alvorada ou, ainda, Lúcifer seja este Hércules? Mas isto talvez seja um passo grande demais para a razão e pequeno para a imaginação.