Anaximandro de Mileto

Anaximandro

É mais fácil aceitarmos a cosmologia do conterrâneo mais jovem de Tales, Anaximandro de Mileto ( c. 547 a. C.). Sabemos mais a respeito de seus pontos de vista porque ele deixou um livro intitulado “Sobre a natureza”, escrito em prosa, um estilo que apenas começava a se firmar. À semelhança de Tales, credita-se a ele uma série de feitos científicos originais: o primeiro mapa-mundi, a primeira carta-celeste, o primeiro relógio de sol grego e até mesmo um relógio caseiro. Ele ensinava que a Terra tinha forma cilíndrica, como um pedaço de coluna cuja altura era três vezes maior que sua largura. Em redor do mundo havia tubos gigantescos repletos de fogo, cada um deles com um buraco por ondeAnaximandro mapa-mundi se podia enxergar o fogo a partir do exterior, os buracos sendo o sol, a lua e as estrelas. Julgava que as obstruções nos buracos eram eclipses do sol e fases da lua. O fogo celestial, hoje totalmente oculto, foi em certa ocasião uma grande bola de fogo que circundava a terra em seu princípio. Quando essa bola explodiu, dos fragmentos cresceram os tubos com cascas de árvores em torno de si.

A Anaximadro impressionava muito a maneira como as árvores cresciam e como suas cascas se desprendiam. Ele empregou a mesma analogia para explicar a origem do seres humanos. Os outros animais, ele ressaltou, podem cuidar de si mesmo logo após o nascimento, mas os humanos necessitam de um aleitamento prolongado, e é por isso que o seres humanos não teriam sobrevivido se sua natureza tivesse sido sempre tal como ela é agora. Em um primeiro momento, conjecturou, os seres humanos passavam sua infância envoltos por uma casca espinhosa, de modo que se assemelhavam a peixes e viviam na água. Com a chegada da puberdade ele rompiam sua casaca e partiam em direção à terra seca, para um ambiente em que poderiam cuidar de si próprios. Era por isso que Anaximandro, embora não fosse vegetariano, recomendava que evitássemos comer peixe, pois estes eram os antepassados da raça humana (KRS 133-7).

A cosmologia de Anaximandro é variadamente mais elaborada que a de Tales. Para começar, ele não busca algo que sustente a Terra: ela permanece onde está devido à sua eqüidistância de tudo o mais e não há razão pela qual ela devesse s mover para qualquer direção específica em vez de para uma outra (DK 12 A11; Aristóteles, Cael. II, 13, 295b10).

Depois, ele julga ser um erro relacionar o elemento primeiro do universo com quaisquer dos elementos que podemos ver a nosso redor no mundo atual, como a água e o fogo. O princípio fundamental das coisas, ele afirma, deve ser ilimitado ou indefinido (apeíron). O termo grego utilizado por Anaximandro é normalmente traduzido como “ o Infinito”, mas isso o faz soar muito grande. Ele pode ou não ter julgado que seu princípio se estendia para sempre no espaço, mas o que sabemos é que ele pensava que este não tinha nem começo nem fim no tempo e que não pertencia a nenhum tipo ou classe particular de coisas. “Matéria eterna” seria provavelmente a paráfrase mais aproximada que poderíamos almejar. Aristóteles iria posteriormente refinar a noção em seu conceito de matéria-prima.

Por fim, Anaximandro oferece um relato da origem do mundo atual, e explica quais forças agiram para trazê-lo à existência, investigando, como diria Aristóteles, tanto a causa eficiente como a material. Ele via o universo como um campo de contrários em competição: quente e frio, úmido e seco. Algumas vezes um desses pares de opostos é dominante, outras vezes o outro; eles avançam um sobre o outro e depois recuam, intercâmbio que é governado pelo princípio da reciprocidade. Como definido de forma poética por Anaximandro em seu último fragmento preservado, “eles concedem justiça e deferência uns aos outros pela injustiça, segundo a ordenação do tempo” (DK 12 B1). Assim, pode-se alegar, no inverno o quente e o seco oferecem compensação ao frio e ao úmido pela agressão que cometeram no verão. O calor e o frio foram os primeiros contrários a surgir, separando-se de um ovo cósmico primevo contendo algo indeterminado e eterno. A partir deles se desenvolveram o fogo e a terra, que, como vimos, estavam na origem de nosso presente cosmos.

KENNY, Anthony. Uma Nova História da Filosofia Ocidental. Volume I. Filosofia Antiga. Edições Loyola. PP. 29-32

Análise Da Estrutura Lógica Do Texto Fédon De Platão

Por: André Luíz Avelino

1 – Argumento à imortalidade da alma: teoria dos contrários.

P1 – Se é verdade que as almas dos que morrem estão ou não no Hades (o invisível) e se regressam a este mundo para renascerem dos mortos, devemos pensar que as almas existem no além. Elas não poderiam renascer se não existissem. (XV)

P2 – Todas as coisas contrárias nascem das que lhes são contrárias: o belo nasce do feio, o justo do injusto, o fraco do mais forte, o pior do melhor. (XV)

P3 – Viver tem um contrário, assim como o contrário de acordado é o contrário de dormir. Se existisse o dormir e não lhe correspondesse o acordar parece que tudo estaria mergulhado no sono. Do mesmo modo que se tudo quanto participa da vida morresse e se conservasse depois na morte, nada existiria com vida. (XVI)

P4 – Estar morto é o contrário de viver e estes estados se originam um do outro. O que está morto nasce, então, do que está vivo. Os vivos nascem dos mortos e estes dos vivos. (XVI)

C1 –  Então, é verdade que a alma dos que morrem estão no Hades e regressam a este mundo para renascerem dos mortos, devemos pensar que as almas existem no além. Elas não poderiam renascer se não existissem. Podemos concluir que as almas dos mortos subsistem. (XVI)

2 – Argumento à pré-existência da alma: teoria das reminiscências.

P1 – Para que alguém se lembre de alguma coisa, é indispensável que a tivesse sabido no passado. A sabedoria é reminiscência quando se produz em nós de um modo determinado. Reminiscência é o fato de alguém se recordar de alguma coisa quando está em presença de outra. A reminiscência procede não só de coisas semelhantes, mas até das dessemelhantes. (XIX)

P2 – O conceito de igualdade é diferente da igualdade existente entre os objetos, o que significa existência da igualdade em sí. Os objetos iguais, ainda que sua igualdade seja diferente da igualdade em si, permitem-nos conceber a idéia e o seu conhecimento, e isto só é possível pela reminiscência. Quando se vê uma coisa, é-se obrigado a pensar noutra, quer seja igual, quer seja diferente, o que se produz é, necessariamente, uma reminiscência. (XIX)

P3 – Alguém, ao ver uma coisa, pensa que aquilo que vê aspira a ser igual a outro objeto, sendo, no entanto, inferior a ele. Podemos concluir que é necessário ter-se visto já o objeto que serve de modelo. É preciso que tenhamos visto a igualdade num tempo anterior àquele em que vemos um objeto para que possamos dizer que há semelhança entre eles. (XIX)

P4 – Está reflexão (da reminiscência) só é possível porque se origina nos orgãos sensoriais, mas antes de nos servirmos dos sentidos, é necessário que tenhamos adquirido o conhecimento da igualdade em si para, com ela, podermos comparar as igualdade percebidas pelos sentidos. (XIX)

P5 – Quando nascemos começamos a utilizar os orgãos sensoriais, no entanto, foi necessário ter adquirido o conhecimento do igual em si, e é forçoso concluir que tenhamos adquirido antes do nascimento. (XIX)

P6 – Se nascemos com este conhecimento, podemos admitir que toda a realidade pura nasce conosco, quer trate do belo, do bom ou do justo e de todas as essências deste gênero. (XIX)

P7 – Certamente nossas almas não adquirem o conhecimento das essências depois do nascimento, pois há identidade das nossas almas com as essências (vide argumento à natureza da alma). Significa que as almas existiam separadas dos corpos e aptas a pensarem antes de revestirem forma humana. (XIX)

C2 – Se todas as essências existêm em nós (o argumento demostra que existe), é forçoso concluir que também as nossas almas existem antes de nascermos, porque é tão necessária a existência das essências como das nossas almas. A não existência das primeiras implica a não existência das segundas. (XXII)

3 – Argumento à natureza da alma: simplicidade da alma e sua identidade com os objetos ideais.

P1 – Só perece o que é composto, o que sempre permanece isento de composição. Ora, as essências, tal como o belo em si e toda a qualidade pura, não sofrem alterações, são uniformes. Tudo que é particular e visível só pelos sentidos é apreensível, nunca permanece na identidade, está submetido à mudança. (XXV)

P2 – A alma, quando se serve do corpo para examinar alguma coisa é arrastada para a relatividade, mas quando se dirige para o que é puro, eterno e imortal, permanece sempre a mesma e igual àquilo que contempla e é a isso que se chama conhecimento. (XXVII)

P3 – A alma é semelhante ao divino, é imortal, inteligível, uniforme, indissolúvel. O corpo decompõe-se porque é composto, e a alma permanece. (XXVIII)

C3 – Pode afirmar-se que o que permanece sempre idêntico, o que é invisível, não pode ser apreendido pelos sentidos, mas só pelo pensamento. O corpo indentifica-se com o visível e a alma com o invisível. (XXVIII – Conclusão implícita)

4 – Argumento à imortalidade da alma e natureza da alma: desenvolvimento à teoria dos contrários.

P1 – Os contrários não podem subsistir simultaneamente, a grandeza em sí não consente ser grande e pequena ao mesmo tempo. O que agora se afirma não colide com o que se demostrou no primeito argumento dos contrários, isto é, que o maior nasce do mais pequeno e este do maior e que a verdadeira origem dos contrários são os seus contrários. (LI)

P2 – Afirmar que de uma coisa contrária nasce outra contrária é diferente de afirmar que o próprio contrário não pode ser contrário de si mesmo, quer no homem quer na natureza. O corpo humano passa da vida à morte, mas isso não significa que a vida como essência se torne no seu contrário, ou seja, na morte. (LI)

P3 – A natureza do ser quente nunca se transformou na natureza do ser frio, o dia nunca se transforma na noite, a natureza da vida na natureza da morte e a do par na do ímpar. (LII)

P4 – Cada um dos contrários permanece sempre exatamente o que é. (LIII)

P5 – Quando a morte se aproxima do homem, morre só o que nele há de mortal, o imortal permanece ileso à destruição. (LV)

C4 – A essência da alma é ser vida e exclui o seu contrário que é morte. A alma identifica com as essências imortais, as idéias, é da mesma natureza, logo é imortal e indestrutível. (LVI)

CONCLUSÃO GERAL ESTRUTURAL LÓGICA

PC1 –  Então, é verdade que a alma dos que morrem estão no Hades e regressam a este mundo para renascerem dos mortos, devemos pensar que as almas existem no além. Elas não poderiam renascer se não existissem. Podemos concluir que as almas dos mortos subsistem.

PC2 – Se todas as essências existêm em nós (o argumento demostra que existe), é forçoso concluir que também as nossas almas existem antes de nascermos, porque é tão necessário a existência das essências como das nossas almas. A não existência das primeiras implica a não existência das segundas.

PC3 – Pode afirmar-se que o que permanece sempre idêntico, o que é invisível, não pode ser apreendido pelos sentidos, mas só pelo pensamento. O corpo indentifica-se com o visível e a alma com o invisível.

PC4 – A essência da alma é ser vida e exclui o seu contrário que é morte. A alma identifica com as essências imortais, as idéias, é da mesma natureza, logo é imortal e indestrutível.

CGERAL- Essencialmente a alma consiste em ser vida e exclui a morte que é o contrário de vida (PC1); A alma é imortal e participa do imortal que é imperecível, portanto, a alma é imortal e imperecível (PC2); A alma é imortal porque é da mesma natureza das idéias, que são eternas (PC3); A impericibilidade da alma é deduzida  da sua essência, porque o conceito de alma exclui intrinsecamente, o atributo mortal (PC4); Portanto, a alma humana é capaz de conhecer coisas imutáveis e eternas, e para poder conhecer coisas imutáveis e eternas, ela dever possuir uma natureza dotada de afinidade com essas coisas. Caso contrário estas coisas ultrapassam as capacidades da alma. Conseqüentemente, como as coisas que a alma conhece são imutáveis e eternas, a alma também precisa ser eterna e imutável.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PLATÃO. Fedão, Versão eletrônica. Trad. Carlos Alberto Nunes. Créditos da digitalização: Membros do grupo Acrópolis (Filosofia). Disponível em:< http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/fedon.pdf>