O Coração Do Filósofo Cristão – Ou Um Conto… Biográfico!

Fonte da Imagem: plus.google.comFolheando os livros mais antigos de minhas prateleiras surpreendi-me quando encontrei uma carta de meu falecido pai dentro de um belo exemplar encadernado do livro “Nekroi Diálogoi”, de Luciano , cujo título em dourado destacava-se em autorelevo na lombada; carta esta endereçada a mim. Sim, meu pai que não conheci enquanto vivo e que me deixou uma pequena herança em livros, poucos realmente, cerca de trezentos, mas muito valiosos em conteúdo.
Não sei se ele escrevera-me e tencionava dar-me num encontro determinado, mas se esquecera onde colocara a carta, ou se a teria deixado premeditadamente no opúsculo de título sugestivo pressagiando que seria lida apenas após seu passamento!
Abri lentamente o belo envelope preto e aveludado e li silenciosamente o título que encabeçava seu escrito: “O CORAÇÃO DO FILÓSOFO CRISTÃO”!
E é este o testamento de suas palavras que transcrevo a seguir:

“Meu filho.

Sei que é um jovem e afinado com as novas tecnologias, duas prerrogativas que intuo lhe impelirão a publicar o que lhe escrevo no ambiente que chamam de cyberespaço!

Mesmo assim escrevo porque sei que poucos lerão minhas palavras, pois em nossos dias qualquer texto que seja “postado”, como vocês dizem, deve necessariamente ter no máximo quatro ou cinco linhas, caso ultrapasse este limite dificilmente será lido (por inteiro). 

Logo me dirão os especialistas na analise dos fenômenos sociais, que a culpa não é dos leitores, posto que a “Web” seja um ambiente de informações rápidas, dinâmicas e fluidas!

Admito esta réplica, mas sustento que um animal leitor é leitor em qualquer ambiente; o fato é que temos hoje uma geração preguiçosa e indolente que já não sabe apreciar o valor das boas letras, que não aprecia os clássicos, que não gosta de qualquer coisa que lhes provoque, que lhes desafie ao pensar!

Espero que não seja um dos tais, pois apesar de não ter podido ficar com sua mãe, posto que nosso amor fora-nos proibido; pedi-lhe e ela prometeu-me que não o deixaria abandonar os estudos e lho ensinaria amar as boas letras!

Para isso deixei-lhe um pouco daquilo que de melhor havia em meu acervo particular. Dos mitos, de Homero à Tolkien; das tragédias, de SófoclesShakespeare; dos filósofos, de Demócrito a Deleuze; dos romances, de Balzac a Saramago!

Selecionei os que me eram mais caros, caros não em valor do vil metal, pelo qual se matam uns aos outros os nossos semelhantes, porém caros naquilo que os homens tanto precisam e menos procuram: o conhecimento e o afeto. Meu filho, se os buscares não é certo que serás feliz, mas ao menos, viverás bem contigo mesmo!

Mas, não escrevo para falar de ti e tampouco para falar dos outros, mas escrevo para falar sobre mim. Ou, antes, para falar sobre quem acredito que sou; ou ainda mesmo sobre quem os outros acreditam que eu seja. Pois, é notório que os outros sabem mais sobre nós, do que nós mesmos!

Quando as pessoas vêem meu perfil nas redes sociais ou meu currículo lattes, pensam que sou feliz, realizado e que tenho uma vida próspera. Porém, nada poderia estar mais longe da verdade!

Não sou feliz e tampouco realizado, à vezes estou feliz e noutras vezes estou infeliz, triste e angustiado. Os momentos de felicidade cada vez se tornam mais raros!

Afinal, como ser feliz num mundo em que grassa tanta infelicidade? Como ser feliz enquanto milhões morrem de fome, ou são mortos pela estupidez e ganância de seus semelhantes?

Muitas pessoas pensam que alguns reconhecimentos acadêmicos e publicações me concedem algum prestígio, e, assim o prazer duradouro da “autorrealização profissional”. Mas, tudo isso é enganoso, estas coisas apenas alimentam meu ego, e, não são eficazes para transformar a dimensão mais profunda de meu ser que clama por atenção, além disso, minha frustração está em que apesar de todo este aparente reconhecimento, à duras penas consigo saldar minhas dívidas e colocar o alimento em minha mesa.

Porque, por mais que eu odeie admitir, vivo num mundo do capital, onde o dinheiro vale mais que as pessoas e onde todos são medidos por aquilo que têm e não por aquilo que são!

Talvez alguns me digam: “Mas e o cristianismo? Esse sim é robusto em sua vida e sabemos que nutre a tua alma com muitas e preciosas certezas”. Quisera eu que isso fosse fato!

Para mim, a era das convicções já passou; já não posso mais dar-me ao luxo de arvorar a convicção de minha “cristaneidade”. Pois todos os dias ao olhar-me no espelho, no espelho de minha alma, pergunto-me: “que monstro abjeto eu sou”? Como posso aparentar beleza de uma alma pura em palavras, e, ao mesmo tempo nutrir no coração desejos tão contraditórios e eivados de concupiscência?

Eu até tento, ‘dia a dia’, ser melhor; parecer melhor e para muitos até pareço. Mas, só eu sei o quão perverso é meu coração, egoísta e vaidoso!

Proclamo virtudes que não tenho, prego uma doutrina que não sigo, falo de um bem que não pratico. Essa não é uma boa definição do hipócrita?

Enquanto conheço muitas pessoas de quem se pode dizer, e, dizem, ‘são cristãos’. Eu duvido de minha fé até a sua raiz. Não há proposição de meu ‘cristianismo’ da qual eu não duvide. Não há qualquer ‘dogma’ de minha fé que eu não ponha em questão!

Outros me perguntam: “por que, sendo você filósofo reflete e escreve tanto sobre a fé ou a religião”? Certamente, dirão outros, “é porque sabes muito sobre estes assuntos e tens de dividir o que sabes com os outros”. Eis, outros juízos equivocados.

O que não compreendem é que sou egoísta, escrevo por ensaio, por tentativa em fixar novos conhecimentos obtidos, em revisitar velhos conhecimentos, escrevo para melhor ordenar minhas idéias, e, quem sabe (?), convencer-me das verdades com as quais tenho lidado.

Portanto, sou egoísta, pois que não escrevo para os outros, escrevo para mim mesmo, por isso nunca escrevo tudo o que eu poderia escrever sobre determinado assunto, guardo para mim (e às vezes para poucos) o que eu acredito que seja mais essencial, mais valioso, ou simplesmente, o que me cause mais prazer!

 Vejo a religião como uma construção humana, todo rito, gesto e palavra religiosa se inserem no âmbito das ações desesperadas do animal religioso, o animal cioso de transcendência. 

Invejo aqueles que têm fé robusta, que conseguem crer sem hesitar. Mas, não sou um dos tais!

Penso que se há Deus o abismo ontológico entre Ele e a criatura é tão imenso que todos os gestos religiosos caem no vazio. Penso também que o abismo jamais é transposto num movimento ascendente, mas apenas num movimento descendente!

Imagino um leitor perguntando-me:

“Mas, se você vê tudo e a si mesmo de forma tão desesperadora, qual é o valor têm para ti as Escrituras?”

A mensagem das Escrituras tem um valor imensurável. Elas também mostram este mesmo quadro desesperador da condição humana, também nos apresentam homens tão iguais ou até piores que eu mesmo.

Entretanto, as Escrituras também falam que o movimento para transpor o abismo já foi realizado, que ele é fundamentalmente descendente e por isso eu posso ser alcançado por ele, e, em verdade eu fui, bem como, você!

Neste ponto, meu filho, reside o enigma da fé: fé não como o assentimento intelectual de um corpo de doutrinas inacreditáveis, mas como a aceitação de que somos aceitos por Ele, por mais paradoxal que isso pareça. Paradoxal exatamente por sabermos existencialmente qual é nossa condição.  

Todavia, se isso se passa realmente assim, eu posso dizer que tenho fé, ainda que ela seja, em mim, quase imperceptível, como um filete de águas cristalinas entre as pedras num dia de sol.

Pois, se aquele que tem a fé do tamanho de um grão de mostarda é capaz de transportar os montes. O que é possível para aquele cuja fé flui, escoa lentamente num fluxo rumo ao infinito?

Deste modo se encerra sua epístola, do exato modo como eu imaginava que se encerraria um diálogo com meu pai, um homem que tinha um coração de filósofo e que agora pude saber também que tinha um coração cristão, porém filosófico, sim, pois findara este escrito do bom e velho modo filosófico, com uma questão!

Agostinho e a Vida Feliz – O Meio-Termo e o Caminho da Felicidade.

Por: Carlos Eduardo Bernardo

        Quase dispenso a convenção em introduzir ao leitor em breves aspectos biográficos e bibliográficos da personagem de quem versa este texto. Afinal, quem jamais ouviu falar de Santo Agostinho?

Santo Agostinho, O Mestre do Ocidente (354-430).

       Nascido em Tagasta, Numídia, região da África romana, em 354; filho de pai pagão e mãe cristã, tendo formação como retor ele foi aderente das escolas céticas, maniqueísta, e, platônicaneo-platonismo, via Plotino (205?-270) – e se tornou um dos maiores pensadores do Cristianismo. As respostas teológicas que Agostinho elaborou para as grandes questões que se lhe apresentaram se tornaram as mais poderosas forças propulsoras da Teologia, e, também das polêmicas no seio do Cristianismo.

        Dentre suas obras destacam-se As Confissões (399), Retratações (426-427), Contra os Acadêmicos (386), A Trindade (399-419), O Livre-Arbítrio (388-395), A Cidade de Deus (413-426) e a Vida Feliz (386). Sobre esta última pretendemos discorrer, brevemente, a seguir.

 A Vida Feliz (De beata vita)

        Este é o título da reprodução escrita de um diálogo que ocorre durante um banquete oferecido por Agostinho por ocasião da comemoração de seu natalício, a festa se desenrola por dois dias e utiliza metáforas e figuras hauridas da “gastronomia” que, num movimento dialógico, nos conduzem à compreensão de que a verdadeira felicidade só pode ser encontrada na verdade divina em união com Deus.

        Agostinho em sua obra As Confissões reconstrói sua trajetória intelectual e espiritual até o Cristianismo. Destaca-se nesta trajetória seu envolvimento com o maniqueísmo, doutrina dos seguidores de Mani, que concebe o mundo como resultado do embate de duas forças, ou princípios, eternos: o bem e o mal, o reino das trevas e o reino da luz, portanto toda criação seria herdeira do Príncipe das Trevas e do Príncipe de Luz.

        No Livro VII, das Confissões, Agostinho acertará contas com esse dualismo, ele lhe fará oposição usando a tradição platônica, neo-platonismo, e a tradição cristã. Ainda figura em seu pensamento uma dicotomia básica que põe em oposição este mundo imperfeito, e um mundo perfeito, no platonismo temos o mundo sensível e o mundo inteligível, Agostinho dirá mundo carnal e mundo espiritual.

         Todas as coisas efêmeras estão aqui, e todas as coisas verdadeiras estão lá, muitas dicotomias podem ser, e realmente são extraídas deste raciocínio.

        Mas, se é assim, por que Agostinho não é maniqueísta?

        A fora o fato que Agostinho, aliado à tradição cristã, rejeita a concepção maniqueísta da existência co-eterna dos dois princípios antagônicos, colocando sobre o mal todo o ônus de ausência de uma substancialidade própria e inerente, a reflexão no diálogo A Vida Feliz fornece subsídios para que entendamos a razão maior de não podermos contá-lo entre os maniqueístas. Pensando a felicidade como saciedade, Agostinho oporá aqueles que possuem o supremo bem (verdadeira felicidade) àqueles que não o possuem, portanto são infelizes.

        Felicidade é a posse do supremo bem, o supremo bem é Deus, logo a saciedade só é encontrada na posse de Deus, quem O encontra vive bem, pois que possui o supremo bem, aqui Agostinho, no primeiro dia do banquete, estabelece um consenso junto a seus interlocutores. Em conseqüência os céticos são tidos como os mais infelizes dos homens, pois renunciam a qualquer posse, estando sempre à procura de algo.

Exemplar Nº 11 na Coleção Patrística, São Paulo, Editora Paulus. Consta de duas obras de Santo Agostinho, Solilóquios, e, A Vida Feliz. Tradução: Adaury Fiorotti & Irmã Nair de Assis Oliveira.

       No segundo dia do banquete, Agostinho faz com que os consensos obtidos na véspera sejam postos contra os próprios concordantes.

        Pois, os leva a admitir que o próprio Deus queira que os homens O identifiquem com o supremo bem e O busquem. Portanto, viver bem ou viver conforme a vontade de Deus significa buscar a Deus.

        Mas, como isso pode ser o mesmo que à posse de Deus?

       Já que aquele que procura o faz porque ainda não possui. Mas, se fazer a vontade de Deus equivale a viver bem e viver bem é buscar a Deus, e, todavia quem busca ainda não possui então viver bem é o mesmo que não possuir a Deus.

       Ora, os céticos procuram, logo fazem a vontade de Deus. Mas, se fazem a vontade de Deus, por que os consideramos como infelizes?

        Deste impasse, Agostinho extrairá duas importantes teses:

        1ª. É necessário distinguir entre aquele que é feliz e o que não é feliz.

        Entre os que não são felizes há aqueles que são infelizes e também aqueles que não são felizes. Na presente dispensação há aqueles que sofrem de inanição e aqueles que se alimentam visando à plena saciedade que se vislumbra no horizonte escatológico.

        2ª. Sempre fazendo uso da linguagem gastronômica, Agostinho proporá um meio-termo entre a saciedade e a inanição. E esse meio-termo é a virtude da moderação (comedimento). Alimentando-se de acordo com o que necessita, e, de acordo com o que é possível, a busca deverá se equilibrar sobre uma justa medida. Já no pensamento platônico a questão de se estabelecer uma mediatriz assume certa relevância devido ao conceito de metaxý, todavia, aparentemente, Agostinho toma de empréstimo concepção aristotélica da mesothés[1] sob a perspectiva de uma dentre as características do fruto do Espírito (Gl.5,22), a temperança, o autocontrole (gr. enkrateia), mencionada pelo apóstolo S. Paulo numa de suas epístolas.

        A introdução desta justa medida, deste meio-termo, leva Agostinho a considerar que neste mundo o homem não está apenas no mundo inferior em oposição ao superior, mas ele está no mundo inferior em direção ao superior. Não há apenas a posse de Deus e a perdição, mas também uma possibilidade da virtude, por meio da que se pode seguir gradativamente em direção a Deus.

          Portanto, buscar a felicidade é reconhecer a ausência, a busca é o estigma daquele que se reconhece como não possuidor, mas isso não implica necessariamente em mera infelicidade (estática, definitiva), mas talvez, implique numa infelicidade que peregrina em direção à felicidade.


[1] Mesothés é a concepção de justa medida desenvolvida por Aristóteles a partir, provavelmente, do conceito da metaxý platônica.