Jameson, pós-modernismo e capitalismo.

Por: Paulo Abe

 

Esta nova fase do capitalismo, a qual Jameson se refere na citação, é o período pós-guerra, isto é, os anos 40 e 50. Esse período foi marcado sob muitos aspectos, sendo os anos 50 uma década chave de transição, “um período em que a nova ordem internacional não só se funda como, simultaneamente, se conturba e é abalada por suas próprias contradições internas e pela oposição externa.”[1] Estes anos também foram marcados pelo seu forte crescimento econômico, pela emergência de um novo tipo de vida social e uma nova ordem econômica. No entanto, antes aprofundaremos na relação específica que o pós-moderno começa a obter com o espaço e o tempo. Respectivamente, o pastiche e a esquizofrenia.

Uma das características mais importantes do pós-modernismo é o pastiche. Este tende à imitação assim como a paródia. Ambos se utilizam de um mimetismo de estilos particulares, de seus maneirismos e tiques. Pois, devido ao modernismo, nasceram estilos tão distintos uns dos outros que se tornaram inconfundíveis e uma vez utilizados não por seus criadores, obtinham outro tom. Desta maneira, apesar de serem dois os traços mais importantes do pós-modernismo, este trabalho começará pela noção de paródia.

A paródia tem em sua imitação uma simulação do original. Não que “o impulso satírico seja deliberado em todas as formas de paródia (…) [pois] um bom parodista precisa ter uma certa simpatia tácita pelo original (…) Todavia, o efeito geral da paródia é ridicularizar a natureza privada destes maneirismos estilísticos bem como seu exagero e sua excentricidade em relação ao modo como as pessoas normalmente falam e escrevem. Assim, subjaz à paródia o sentimento de que existe uma norma lingüística, pro oposição à qual os estilos dos grandes modernistas podem ser arremadados.”[2]

No entanto, Jameson se pergunta: e se ninguém acreditar nesta norma da linguagem? Pois, a literatura moderna foi marcada por uma fragmentação e privatizações de estilos, um boom de tiques e maneirismos pré-configurando uma sociedade por vir. De grupos para grupos menores, de grupos menores para os indivíduos. Todos enfim se tornam uma ilha lingüística. “Se este for o caso, a própria possibilidade de uma norma lingüística por meio da qual pudéssemos escarnecer as linguagens privadas e os estilos idiossincráticos teria sumido, e só disporíamos então da diversidade e da heterogeneidade estilísticas.”[3] A prática da paródia então se torna impossível.

O pastiche toma lugar na prática do mimetismo estilístico. Porém, seu tom é diferente da paródia: não há graça; não há sátira; há apenas uma neutralidade. O sentimento da norma lingüística, a qual se deve imitar, se perde, pois há apenas uma multiplicidade lingüística agora. Utilizando a metáfora anterior, há apenas um grande arquipélago, um conjunto de ilhas já que o continente se perdeu para se ter uma referência. Neste momento, o pastiche se apresenta como a paródia sem senso de humor; uma “paródia vazia”[4].

 Entretanto, no capitalismo avançado do homem corporativo que dá abertura ao pós-modernismo, um novo pensamento veio a se opor à estética da modernidade sobre a concepção de um eu singular, uma identidade privada inconfundível. Esta idéia é a que chama de a “morte do sujeito”. Daí Jameson mostra que duas posições emergem sobre a questão:

A primeira se contenta em afirmar: sim, em tempos idos, na era clássica do capitalismo competitivo, no apogeu da família nuclear e na ascensão da burguesia como classe social hegemônica, existia isso que se chama individualismo, existiam sujeitos individuais. Mas hoje, na era do capitalismo corporativo, do assim chamado homem da organização, das burocracias empresariais e estatais, da explosão demográfica – hoje não existe o velho sujeito individual burguês.

Há também uma segunda posição, a mais radical, que pode ser considerada a posição pós-estruturalista. Acrescenta: o sujeito individual burguês não é somente coisa do passado como também não passa de um mito, antes de mais nada ele nunca existiu realmente; nunca existiram sujeitos autônomos desse tipo. Este construto não passaria, mais precisamente, de uma mistificação filosófica e cultural que procurava persuadir as pessoas de que elas “tinham” sujeitos individuais e possuíam tal identidade pessoal singular.[5]

            Jameson não toma partido, mas foca-se no dilema estético que desta questão advém: está esgotada a experiência e a ideologia do eu singular, uma experiência e uma ideologia que sustentavam a prática estilística da modernidade clássica? Visto que os modelos antigos não funcionam mais e que o sujeito e seu mundo privado não têm mais um estilo para expressá-lo, o autor em questão responde à pergunta: “há mais uma razão pela qual os artistas e os escritores do presente não conseguirão mais inventar novos estilos e mundos – é que todos estes já foram inventados; o número de combinações possíveis é restrito; os estilos mais singulares já foram concebidos. Assim, a influência da tradição estética de modernidade – agora morta – ‘pesa com um pesadelo sobre o cérebro dos vivos’, como dizia Marx em outro contexto.”[6]

            Desta maneira, o pastiche se torna a única opção de uma arte que tenta apenas sobreviver, imitando estilos mortos, nunca revelando sua verdadeira face. “A ficção tornou-se seu domínio por excelência(…)podia baralhar não apenas estilos mas também as próprias épocas à vontade, revolvendo e emendando passados ‘artificiais’, misturando o documental com o fantástico, fazendo proliferar anacronismos.”[7] Para isto, Jameson conclui: “Mas isto significa que a arte pós-moderna ou contemporânea deverá ser arte sobre arte de um novo modo; mais ainda, isto significa que uma de suas mensagens essenciais implicará necessariamente a falência da estética e da arte, a falência do novo, o encarceramento no passado.”[8] Isto tudo, ainda afirma Jameson, nos dá uma sensação de arcaísmo, assim como nos filmes de nostalgia, que também invadem até filmes atuais com cenários contemporâneos, dando a entender que ficamos incapazes de nos focar em nosso próprio presente. Assim, a problemática espacial do pós-moderno, o pastiche, não consegue deixar de influenciar  nossa experiência com o tempo, que será abordado mais profundamente a partir de agora.

            A esquizofrenia é a específica relação com o tempo que o pós-modernismo possui e aqui Jameson se apropria da definição de Lacan para o termo:

(…) uma desordem de linguagem associada a toda uma teoria da aquisição da linguagem como elo esquecido da concepção freudiana da formação do psiquismo adulto (…) A esquizofrenia é caracterizada como um distúrbio do relacionamento entre significantes. (…) O esquizofrênico não chega a conhecer a articulação da linguagem, nem consegue ter a nossa experiência de continuidade temporal tampouco, estando condenado, portanto a viver em um presente perpétuo, com o qual os diversos momentos de seu passado apresentam pouca conexão e no qual não se vislumbra nenhum futuro no horizonte. [9]

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