Hume e a Poesia

“A poesia, com toda a sua arte, jamais pode causar uma paixão, como as da vida real. Falha na concepção original de seus objetos, que nunca se fazem sentir do mesmo modo que aqueles que comandam nossa crença e opinião.”

HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. P. 85

Hume e a crença, o novo modo de conceber a ideia

Hume e a crença, o novo modo de conceber a ideia

Nenhuma questão de fato pode ser provada senão a partir de sua causa ou de seu efeito. Nada pode ser conhecido como sendo causa de outra coisa senão pela experiência. Não podemos apresentar razão alguma para estender ao futuro nossa experiência do passado; mas somos inteiramente determinados pelo costume quando concebemos um efeito seguindo-se a sua causa habitual. Mas também cremos que um efeito se segue, ao mesmo tempo que o concebemos.- Tal crença não acrescenta nenhuma idéia nova à concepção. Apenas modifica a maneira de conceber e produz uma diferença para a sensibilidade ou sentimento. A crença, portanto, em todas as questões de fato, brota apenas do costume, e é uma idéia concebida de um modo peculiar. [1]

Hume também chama esta crença de concepção forte ou vívida, mas que, independente do nome que se dê, este sentir, alerta-nos, deve ser conscientizado em nosso íntimo. Não acrescenta nenhuma idéia nova. A diferença está no modo de conceber que, uma vez a causa presente, “a mente, pelo hábito, passa imediatamente à concepção e crença no efeito costumeiro[1]. Assim, é o hábito, e não a razão, que determina o padrão de nossos julgamentos. “Quase todos os raciocínios são aí reduzidos à experiência; e a crença, que acompanha a experiência, é explicada como não sendo senão um sentimento peculiar, ou uma vívida concepção produzida pelo hábito.”


[1] HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. P. 89


[1] HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. P. 81-3

Hume: Adão e o Hábito

Para Hume, uma vez que vemos uma bola de bilhar em velocidade se chocar com outra em repouso, vemos a causa-e-efeito da experiência, e a bola que estava em repouso se movimenta com o choque, mas, de maneira inversa, a que estava em movimentao agora, repousa. Porém, “segue-se que todos os raciocínios relativos a causa e efeito são fundados na experiência, .e que todos os raciocínios advindos da experiência são fundados no pressuposto de que o curso da natureza continuará uniformemente o mesmo. Concluímos que causas semelhantes, em semelhantes circunstâncias, produzirão sempre efeitos semelhantes[1].

É evidente que um Adão sem experiência nenhuma, apenas com a razão nãopoderia induzir que sempre que uma bola de bilhar em movimento se chocasse com outra em repouso aconteceria a mesma coisa.

Somos determinados exclusivamente pelo Hábito a supor o futuro conforme ao passado. Quando vejo uma bola de bilhar movendo-se em direção a outra, minha mente é imediatamente levada pelo hábito ao efeito costumeiro, e antecipa minha visão, concebendo a segunda bola em movimento. Nada há, nesses objetos, considerados abstrata e independentemente da experiência, que me leve a tal conclusão. E mesmo depois de eu ter tido a experiência de muitos efeitos dessa espécie, nenhum argumento me determina a supor que o efeito será conforme à experiência passada. As forças pelas qi tais os corpos agem são inteiramente desconhecidas. Percebemos apenas suas qualidades sensíveis: e que razão temos para pensar que as mesmas forças hão de aparecer sempre unidas às mesmas qualidades sensíveis?

Não é, pois, a razão que conduz a vida, mas o hábito. Apenas ele determina a mente, em todas as circunstâncias, a supor que o futuro é conforme ao passado. Por mais simples que este passo possa parecer, nem em toda a eternidade a razão seria capaz de dá-lo. [2]

Pelo hábito, inferimos, antes de ver um nova bola de bilhar se chocar a outra em repouso, uma relação de causa-e-efeito. O hábito antecipa a própria visão de movimento. ‘Sabemos’ o movimento antes de vê-lo. E esta crença de que a bola se movimentará antes mesmo do choque é uma das inovações que é discutida por Hume.


[1] HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. P. 65-7

[2] HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. P. 69-71

Hume: a causa-e-efeito e suas três circustâncias

“É evidente que todos os raciocínios a respeito da realidade se fundam na relação de causa e efeito, e que nunca podemos inferir a existência de um objeto de outro objeto, a menos que estejam interligados mediata ou imediatamente. Para compreender estes raciocínios, portanto, devemos olhar à nossa volta para encontrar alguma coisa que seja a causa de outra.

Eis uma bola de bilhar pousada sobre a mesa, e outra que se move na direção da primeira, com rapidez. As bolas se chocam; e a que antes se encontrava em repouso adquire agora um movimento. Este é um exemplo tão perfeito da relação de causa e efeito como qualquer outro conhemento tivesse se comunicado, e que não houve intervalo entre o choque e o movimento. Contigüidade no tempo e no espaço é, portanto, unia circunstância requerida à operação de todas as causas. É igualmente evidente que o movimento que foi a causa, é anterior ao movimento que foi o efeito. Prioridade no tempo é, portanto, outra circunstância requerida em qualquer causa. Mas isso não é tudo. Se experimentarmos quaisquer outras bolas do mesmo tipo, em situação semelhante, verificaremos sempre que o impulso de uma produz movimento na outra. Eis, então, uma terceira circunstância, isto é, a da conjunção constante entre a causa e o efeito. Todo objeto como causa produz sempre algum objeto como efeito. Além dessas três circunstâncias: contigüidade, prioridade e conjunção constante, não há nada que eu possa descobrir nessa causa. A primeira bola está em movimento; encosta na segunda; imediatamente, a segunda entra em movimento. E quando faço a experiência com a mesma bola, ou com outras semelhantes, em circunstâncias idênticas ou semelhantes, verifico que a partir do movimento e toque de uma bola, segue-se sempre um movimento da outra. Não posso encontrar nada além disso, por mais que examine a questão sob vários pontconjunção constante, não há nada que eu possa descobrir nessa causa. A primeira bola está em movimento; encosta na segunda; imediatamente, a segunda entra em movimento. E quando faço a experiência com a mesma bola, ou com outras semelhantes, em circunstâncias idênticas ou semelhantes, verifico que a partir do movimento e toque de uma bola, segue-se sempre um movimento da outra. Não posso encontrar nada além disso, por mais que examine a questão sob vários pontos de vista. “

HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. 53-59

Hume e a Percepção

O que quer se apresente à mente, quer empreguemos nossos sentidos, sejamos movidos pela paixão, ou exercitemos nosso pensamento e reflexão, Hume chama de percepção.

Esta percepção Hume divide em duas espécies, a saber, impressões e idéias.

Quando sentimos qualquer tipo de paixão ou emoção, ou captamos as imagens de objetos externos trazidas por nossos sentidos, a percepção da mente é o que ele chama de impressão, palavra empregada em um novo sentido[…] As impressões são, portanto, nossas percepções vívidas e fortes”[1].

“Quando refletimos sobre uma paixão, ou um objeto que não está presente, esta percepção é uma idéia”[2], que é um percepção mais fraca.

E esta distinção de espécie quanto a percepção é algo que Hume diz ser evidente, tanto quanto entre sentir e pensar.

Quanto as impressões, Hume ainda diz que, ao contrario de Locke que abrange até as ‘impressões’, que Hume agora denota, como idéia inata e como não existente, as impressões como as mais fortes percepções são sim inatas. E que “a afeição natural, o amor da virtude, o ressentimento e todas as outras paixões, brotam imediatamente da natureza[3].

A grande descoberta que se propõe o autor de decidir as controvérsias concernentes às idéias é que as impressões sempre antecedem as idéias.


[1] HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. P. 47

[2] HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. P. 47

[3] HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. P. 49

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Embora, em parte, remodelação do famoso Tratado da Natureza Humana, este ensaio aborda de modo autónomo e brilhante, a questão dos limites do conhecer e o tema de uma ciência do homem enquanto base de todos os ramos do saber. As páginas da Investigação sobre o entendimento humano’ que, na sua maior parte, giram em torno do problema da causalidade e dele apresentam uma solução fenomista; apresentam com claridade e elegância as linhas centrais do pensamento de Hume.

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Hume e Pascal: o cético e o místico nas veredas da justiça.

Negar que a justiça seja natural ao homem, equivale negar que todo homem tem naturalmente o senso da virtude. Isso não enquanto uma idéia inata em seu espírito, mas quanto uma percepção prática no desenvolvimento dos relacionamentos humanos de que tanto uma quanto a outra, são necessárias e úteis para que uma sociedade goze de relativa paz! Logo, não há arbitrariedade na origem e estabelecimento das regras da justiça, antes, são elas um artifício que confere certo caráter prático àquela percepção originária do teor natural da utilidade e necessidade da justiça.

Todavia, é possível conjeturar que, se houvesse um homem que por uma percepção intuitiva direta da verdade divina, ou que recebesse dos arcanos celestes um conhecimento que transcenda o mero conhecimento da esfera humana, ele compreenderia as palavras supra, mas as teria em conta de uma retórica, muito bem estruturada, que não teria outra função, senão a de convencer-nos que a justiça deste mundo é tudo o que podemos vivenciar, e, que sua verdade é a única que podemos conhecer. Certamente, não descordaria que no estado “decaído” em que se encontra a humanidade, da qual ele não exclui nem a si mesmo, pela via do conhecimento racional ou da experiência esses limites estão postos e é impossível ultrapassá-los por nossa própria capacidade.

Aquele que sustenta o ponto de vista inicialmente descrito, não admite a separação do mundo em duas dimensões estanques, para ele perguntar se há outra justiça além daquela que podemos vivenciar em sociedade, ou se há uma verdade além, é já ir além daquilo que se pode provar, é pressupor a existência daquilo que na realidade se quer provar.

O místico pode julgar estreitos os limites que o cético lhe propõe, pois acostumado a reconhecer no cosmo uma hierarquia dos seres e das coisas, para ele é natural que haja uma hierarquia no reino da verdade, nas formas de se conhecer a verdade e de se vivenciar a justiça, e que se o seu opositor chegou até o nível em que possa conhecer alguma verdade do intelecto e possa vivenciar alguma justiça do corpo, poderá ele, não sem um dispositivo supranatural, conhecer a verdade do coração e vivenciar a justiça do espírito.