Análise da argumentação, da primeira parte do “Protágoras”, de Platão

Introdução

O diálogo Protágoras, cujo gênero é o demonstrativo, tem como objetivo investigar a natureza da virtude e, por conseguinte, demonstrar se é passível ou não de ser ensinada.

O texto possui uma pequena introdução, onde Sócrates dialoga com um amigo sobre a beleza de Alcibíades (considerado o rapaz mais belo de Atenas), e conclui que existe um homem mais belo que o jovem ateniense.

Sócrates afirma, através de uma pergunta, que a sabedoria é mais bela que atributos unicamente físicos: “Como poderá deixar de ser mais belo, meu caro, quem é mais sábio?”1

Mas quem seria esse homem mais belo que Alcibíades, que chamou tanta a atenção de Sócrates? Era um estrangeiro, Protágoras de Abdera, considerado o primeiro dos sofistas e também um dos homens mais sábios da Grécia antiga. Platão, escrevendo através do personagem de Sócrates, com muita ironia responde, quando perguntado pelo amigo se ele vinha do encontro com algum sábio: “O homem mais sábio de nosso tempo, se também fôres de parecer que Protágoras é o mais sábio entre os homens.” 2

Sócrates (Platão), não acredita realmente que um sofista seja o mais sábio entre os homens, dato o fato de sabermos, através de outras obras de Platão, que os sofistas ensinam saberes aparentes, preocupados apenas em provocar as paixões (pathos) dos ouvintes e não conhecerem de fato, as virtudes que se propõem a ensinar.

O amigo de Sócrates, propõe então, que Sócrates lhe conte como foi o encontro com o sábio Protágoras e de que assunto trataram. Começa nesse ponto, a investigação de Platão, acerca da virtude e da possibilidade de ser ou não ensinada.

A alma, os sofistas e a virtude

O texto começa propriamente, quando o jovem Hipócrates aparece batendo violentamente à porta da casa de Sócrates, exclamando que Protágoras chegara em Atenas. Devido à inquietude do jovem, Sócrates pergunta se o sofista teria o ofendido, e Hipócrates responde: “Sim, pelos deuses, Sócrates; por ser sábio só para si e não me comunicar o que sabe”

Na fala seguinte, podemos identificar claramente a ideia que Sócrates (Platão) possui dos sofistas: “Por Zeus, lhe repliquei; se lhe deres dinheiro e o persuadires, deixar-te-á também sábio”3

Imediatamente Hipócrates suplica a Sócrates, para levá-lo de encontro ao sofista, afim de ser educado pela imensa sabedoria de Protágoras.

Antes do encontro com o sofista, Sócrates interroga o jovem sobre a natureza do ofício do sofista. A argumentação é feita através de analogias, em relação à arte ensinada e à formação posterior. Sócrates afirma que se Hipócrates desse dinheiro para um médico, visando sua formação, seria para se formar em medicina. Se pagasse um escultor, visando também a sua formação, seria para se formar escultor, mas e quanto ao sofista? Hipócrates responde que segundo a argumentação precedente, não haveria como responder outra coisa, e necessariamente, quem busca se educar com o sofista, seria para se tornar um sofista. Mas o jovem heleno diz que teria vergonha de se apresentar como sofista, e nem pretende ser um sofista. Pretende visitar Protágoras, não em vista de ensino profissional, mas sim “apenas para fins educativos, como convém a um jovem particular e livre”.4

Mas o que é um sofista, pergunta Sócrates, afim de identificar se Hipócrates realmente sabe para quem está entregando sua educação. O jovem afirma que o sofista é um homem cheio de sabedoria (sophia), que ensina as pessoas a falar bem. Sócrates, através das analogias, novamente identifica o conhecimento de uma arte (techné) à uma sabedoria específica, científica (episteme), e exemplifica: um citaredo sabe, além de ensinar a tocar cítara, a falar bem sobre essa arte. O sofista sabe falar bem a respeito de que? Hipócrates não possui resposta, fica sem saída (aporia).

Dado o fato de Hipócrates não saber absolutamente nada, nem a respeito do que seja um sofista e nem do que ele ensina, Sócrates o questiona sobre o ato impensado de se entregar, ingenuamente, aos cuidados de Protágoras: “Se tivesses de confiar teu corpo a alguém, correndo o risco de deixá-lo mais forte ou de estragá-lo, havias de refletir mais de espaço antes de tomares qualquer resolução; procurarias aconselhar-te com amigos e parentes e meditarias sobre o assunto dias seguidos; e por uma coisa que consideras muito superior ao corpo, por tua alma, de que dependerás sêres feliz ou desgraçado, conforme venha ela a ficar forte ou a estragar-se, por tua alma, não te aconselhaste nem com seu pai, nem com teu irmão, nem com nenhum de nós(…).”5

Sócrates afirma ser a alma superior ao corpo, e dependendo do conteúdo que a alimenta, pode-se macular e tornar doente a parte mais divina do homem.

O sofista, é definido por Sócrates como um tipo de mercador, ou traficante de vitualhas para alimentar a alma. O alimento da alma, por conseguinte, é o conhecimento.

Depois desse percurso podemos extrair a seguinte argumentação:

Se a alma é o que o homem possui de mais importante, e seu alimento são os conhecimentos, portanto, maus conhecimentos macularão a alma e bons conhecimentos elevarão a alma.

O sofista não possui conhecimentos verdadeiros (segundo Sócrates), portanto bons, apenas produz um pseudo-conhecimento, se preocupando apenas em provocar as paixões (pathos) dos ouvintes e não a elevação da alma. Por conseguinte, os sofistas maculam as almas alimentando-as com maus conhecimentos.

. . .

Sócrates identifica que, quanto aos alimentos referentes ao corpo, os mercadores elogiam-nos indiscriminadamente, ignorando se fazem bem ou mau para a saúde do corpo, se preocupando apenas em fazer propaganda de seus produtos. Os que compram também ignoram a nocividade ou a beneficência desses alimentos, a menos que haja algum médico ou pedótriba por perto para avaliá-los. No caso da alma isso ainda é mais grave, pois os alimentos do corpo podem ser adquiridos mediante a avaliação da boa aparência ou do bom odor, e podem ser guardados em vasilhas ou em algum lugar em casa, para uma posterior avaliação de um especialista. Os mercadores de alimentos da alma, ignorando se seus conhecimentos são nocivos ou benéficos, os propagandeiam sem avaliar conseqüências prejudiciais, e os compradores igualmente ignoram a utilidade ou nocividade desses alimentos, salvo se existir entre eles algum médico da alma.

Contudo, “no caso de conheceres o que neste particular é vantajoso ou prejudicial para a alma, poderás comprar conhecimentos sem perigo nenhum, não só de Protágoras como de qualquer outro sofista; mas se ignoras isso, acautela-te, meu caro, para não arriscares num simples lanço de dados o que tem de mais estimado, pois corremos muito maior perigo na compra de conhecimentos do que na de alimentos para o corpo”.6

Os conhecimentos não podem ser armazenados em vasilhas, uma vez adquiridos, vão direto para a alma, e seus portadores podem, ou se saírem grandemente prejudicados ou beneficiados.

Todas essas informações servem, tanto como conclusões provisórias, quanto como premissas para a conclusão final de Sócrates (Platão), tendo em vista que:

  • A alma é a parte mais importante dos homens.

  • Os sofistas são mercadores, ou traficantes de vitualhas para a alma.

  • Se alimentares sua alma com conhecimentos nocivos, sua alma será prejudicada.

Sócrates, através dessas conclusões extraídas da conversa com Hipócrates, irá utilizá-las como premissas contra a argumentação de Protágoras, em relação à virtude poder ou não ser ensinada.

Essas informações estarão pressupostas em toda a argumentação socrática, ao longo da segunda parte do diálogo, ao qual postaremos, quando esta estiver devidamente analisada.

1Platão. Protágoras in Diálogos. Tradução de Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Ed. Melhoramentos. 1970, P. 227, 309c.

2________________________.  São Paulo: Ed. Melhoramentos. 1970, P. 228, 309d.

3________________________.  São Paulo: Ed. Melhoramentos. 1970, P. 229, 310d.

4________________________.  São Paulo: Ed. Melhoramentos. 1970, P. 230, 312b

5________________________.  São Paulo: Ed. Melhoramentos. 1970, P. 231, 313a.

6________________________.  São Paulo: Ed. Melhoramentos. 1970, P. 232, 313e.

Análise Da Estrutura Lógica Do Texto Fédon De Platão

Por: André Luíz Avelino

1 – Argumento à imortalidade da alma: teoria dos contrários.

P1 – Se é verdade que as almas dos que morrem estão ou não no Hades (o invisível) e se regressam a este mundo para renascerem dos mortos, devemos pensar que as almas existem no além. Elas não poderiam renascer se não existissem. (XV)

P2 – Todas as coisas contrárias nascem das que lhes são contrárias: o belo nasce do feio, o justo do injusto, o fraco do mais forte, o pior do melhor. (XV)

P3 – Viver tem um contrário, assim como o contrário de acordado é o contrário de dormir. Se existisse o dormir e não lhe correspondesse o acordar parece que tudo estaria mergulhado no sono. Do mesmo modo que se tudo quanto participa da vida morresse e se conservasse depois na morte, nada existiria com vida. (XVI)

P4 – Estar morto é o contrário de viver e estes estados se originam um do outro. O que está morto nasce, então, do que está vivo. Os vivos nascem dos mortos e estes dos vivos. (XVI)

C1 –  Então, é verdade que a alma dos que morrem estão no Hades e regressam a este mundo para renascerem dos mortos, devemos pensar que as almas existem no além. Elas não poderiam renascer se não existissem. Podemos concluir que as almas dos mortos subsistem. (XVI)

2 – Argumento à pré-existência da alma: teoria das reminiscências.

P1 – Para que alguém se lembre de alguma coisa, é indispensável que a tivesse sabido no passado. A sabedoria é reminiscência quando se produz em nós de um modo determinado. Reminiscência é o fato de alguém se recordar de alguma coisa quando está em presença de outra. A reminiscência procede não só de coisas semelhantes, mas até das dessemelhantes. (XIX)

P2 – O conceito de igualdade é diferente da igualdade existente entre os objetos, o que significa existência da igualdade em sí. Os objetos iguais, ainda que sua igualdade seja diferente da igualdade em si, permitem-nos conceber a idéia e o seu conhecimento, e isto só é possível pela reminiscência. Quando se vê uma coisa, é-se obrigado a pensar noutra, quer seja igual, quer seja diferente, o que se produz é, necessariamente, uma reminiscência. (XIX)

P3 – Alguém, ao ver uma coisa, pensa que aquilo que vê aspira a ser igual a outro objeto, sendo, no entanto, inferior a ele. Podemos concluir que é necessário ter-se visto já o objeto que serve de modelo. É preciso que tenhamos visto a igualdade num tempo anterior àquele em que vemos um objeto para que possamos dizer que há semelhança entre eles. (XIX)

P4 – Está reflexão (da reminiscência) só é possível porque se origina nos orgãos sensoriais, mas antes de nos servirmos dos sentidos, é necessário que tenhamos adquirido o conhecimento da igualdade em si para, com ela, podermos comparar as igualdade percebidas pelos sentidos. (XIX)

P5 – Quando nascemos começamos a utilizar os orgãos sensoriais, no entanto, foi necessário ter adquirido o conhecimento do igual em si, e é forçoso concluir que tenhamos adquirido antes do nascimento. (XIX)

P6 – Se nascemos com este conhecimento, podemos admitir que toda a realidade pura nasce conosco, quer trate do belo, do bom ou do justo e de todas as essências deste gênero. (XIX)

P7 – Certamente nossas almas não adquirem o conhecimento das essências depois do nascimento, pois há identidade das nossas almas com as essências (vide argumento à natureza da alma). Significa que as almas existiam separadas dos corpos e aptas a pensarem antes de revestirem forma humana. (XIX)

C2 – Se todas as essências existêm em nós (o argumento demostra que existe), é forçoso concluir que também as nossas almas existem antes de nascermos, porque é tão necessária a existência das essências como das nossas almas. A não existência das primeiras implica a não existência das segundas. (XXII)

3 – Argumento à natureza da alma: simplicidade da alma e sua identidade com os objetos ideais.

P1 – Só perece o que é composto, o que sempre permanece isento de composição. Ora, as essências, tal como o belo em si e toda a qualidade pura, não sofrem alterações, são uniformes. Tudo que é particular e visível só pelos sentidos é apreensível, nunca permanece na identidade, está submetido à mudança. (XXV)

P2 – A alma, quando se serve do corpo para examinar alguma coisa é arrastada para a relatividade, mas quando se dirige para o que é puro, eterno e imortal, permanece sempre a mesma e igual àquilo que contempla e é a isso que se chama conhecimento. (XXVII)

P3 – A alma é semelhante ao divino, é imortal, inteligível, uniforme, indissolúvel. O corpo decompõe-se porque é composto, e a alma permanece. (XXVIII)

C3 – Pode afirmar-se que o que permanece sempre idêntico, o que é invisível, não pode ser apreendido pelos sentidos, mas só pelo pensamento. O corpo indentifica-se com o visível e a alma com o invisível. (XXVIII – Conclusão implícita)

4 – Argumento à imortalidade da alma e natureza da alma: desenvolvimento à teoria dos contrários.

P1 – Os contrários não podem subsistir simultaneamente, a grandeza em sí não consente ser grande e pequena ao mesmo tempo. O que agora se afirma não colide com o que se demostrou no primeito argumento dos contrários, isto é, que o maior nasce do mais pequeno e este do maior e que a verdadeira origem dos contrários são os seus contrários. (LI)

P2 – Afirmar que de uma coisa contrária nasce outra contrária é diferente de afirmar que o próprio contrário não pode ser contrário de si mesmo, quer no homem quer na natureza. O corpo humano passa da vida à morte, mas isso não significa que a vida como essência se torne no seu contrário, ou seja, na morte. (LI)

P3 – A natureza do ser quente nunca se transformou na natureza do ser frio, o dia nunca se transforma na noite, a natureza da vida na natureza da morte e a do par na do ímpar. (LII)

P4 – Cada um dos contrários permanece sempre exatamente o que é. (LIII)

P5 – Quando a morte se aproxima do homem, morre só o que nele há de mortal, o imortal permanece ileso à destruição. (LV)

C4 – A essência da alma é ser vida e exclui o seu contrário que é morte. A alma identifica com as essências imortais, as idéias, é da mesma natureza, logo é imortal e indestrutível. (LVI)

CONCLUSÃO GERAL ESTRUTURAL LÓGICA

PC1 –  Então, é verdade que a alma dos que morrem estão no Hades e regressam a este mundo para renascerem dos mortos, devemos pensar que as almas existem no além. Elas não poderiam renascer se não existissem. Podemos concluir que as almas dos mortos subsistem.

PC2 – Se todas as essências existêm em nós (o argumento demostra que existe), é forçoso concluir que também as nossas almas existem antes de nascermos, porque é tão necessário a existência das essências como das nossas almas. A não existência das primeiras implica a não existência das segundas.

PC3 – Pode afirmar-se que o que permanece sempre idêntico, o que é invisível, não pode ser apreendido pelos sentidos, mas só pelo pensamento. O corpo indentifica-se com o visível e a alma com o invisível.

PC4 – A essência da alma é ser vida e exclui o seu contrário que é morte. A alma identifica com as essências imortais, as idéias, é da mesma natureza, logo é imortal e indestrutível.

CGERAL- Essencialmente a alma consiste em ser vida e exclui a morte que é o contrário de vida (PC1); A alma é imortal e participa do imortal que é imperecível, portanto, a alma é imortal e imperecível (PC2); A alma é imortal porque é da mesma natureza das idéias, que são eternas (PC3); A impericibilidade da alma é deduzida  da sua essência, porque o conceito de alma exclui intrinsecamente, o atributo mortal (PC4); Portanto, a alma humana é capaz de conhecer coisas imutáveis e eternas, e para poder conhecer coisas imutáveis e eternas, ela dever possuir uma natureza dotada de afinidade com essas coisas. Caso contrário estas coisas ultrapassam as capacidades da alma. Conseqüentemente, como as coisas que a alma conhece são imutáveis e eternas, a alma também precisa ser eterna e imutável.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PLATÃO. Fedão, Versão eletrônica. Trad. Carlos Alberto Nunes. Créditos da digitalização: Membros do grupo Acrópolis (Filosofia). Disponível em:< http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/fedon.pdf>

Dilálogo da alegoria da caverna de Platão na “República”.

Alegoria da Caverna – Extraído de “A República” de Platão . 6° ed. Ed. Atena, 1956, p. 287-291

SÓCRATES – Figura-te agora o estado da natureza humana, em relação à ciência e à ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer. Imagina os homens encerrados em morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda extensão. Aí, desde a infância, têm os homens o pescoço e as pernas presos de modo que permanecem imóveis e só vêem os objetos que lhes estão diante. Presos pelas cadeias, não podem voltar o rosto. Atrás deles, a certa distância e altura, um fogo cuja luz os alumia; entre o fogo e os cativos imagina um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para ocultar-lhes as molas dos bonecos maravilhosos que lhes exibem.

GLAUCO – Imagino tudo isso.

SÓCRATES – Supõe ainda homens que passam ao longo deste muro, com figuras e objetos que se elevam acima dele, figuras de homens e animais de toda a espécie, talhados em pedra ou madeira. Entre os que carregam tais objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam em silêncio.

GLAUCO – Similar quadro e não menos singulares cativos!

SÓCRATES – Pois são nossa imagem perfeita. Mas, dize-me: assim colocados, poderão ver de si mesmos e de seus companheiros algo mais que as sombras projetadas, à claridade do fogo, na parede que lhes fica fronteira?

GLAUCO – Não, uma vez que são forçados a ter imóveis a cabeça durante toda a vida.

SÓCRATES – E dos objetos que lhes ficam por detrás, poderão ver outra coisa que não as sombras?

GLAUCO – Não.

SÓCRATES – Ora, supondo-se que pudessem conversar, não te parece que, ao falar das sombras que vêem, lhes dariam os nomes que elas representam?

GLAUCO – Sem dúvida.

SÓRATES – E, se, no fundo da caverna, um eco lhes repetisse as palavras dos que passam, não julgariam certo que os sons fossem articulados pelas sombras dos objetos?

GLAUCO – Claro que sim.

SÓCRATES – Em suma, não creriam que houvesse nada de real e verdadeiro fora das figuras que desfilaram.

GLAUCO – Necessariamente.

SÓCRATES – Vejamos agora o que aconteceria, se se livrassem a um tempo das cadeias e do erro em que laboravam. Imaginemos um destes cativos desatado, obrigado a levantar-se de repente, a volver a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer tudo isso sem grande pena; a luz, sobre ser-lhe dolorosa, o deslumbraria, impedindo-lhe de discernir os objetos cuja sombra antes via. Que te parece agora que ele responderia a quem lhe dissesse que até então só havia visto fantasmas, porém que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, via com mais perfeição? Supõe agora que, apontando-lhe alguém as figuras que lhe desfilavam ante os olhos, o obrigasse a dizer o que eram. Não te parece que, na sua grande confusão, se persuadiria de que o que antes via era mais real e verdadeiro que os objetos ora contemplados?

GLAUCO – Sem dúvida nenhuma.

SÓCRATES – Obrigado a fitar o fogo, não desviaria os olhos doloridos para as sombras que poderia ver sem dor? Não as consideraria realmente mais visíveis que os objetos ora mostrados?

GLAUCO – Certamente.

SÓCRATES – Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelo caminho áspero e escarpado, para só o liberar quando estivesse lá fora, à plena luz do sol, não é de crer que daria gritos lamentosos e brados de cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor ambiente, ser-lhe ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por serem reais?

GLAUCO – A princípio nada veria.

SÓCRATES – Precisaria de algum tempo para se afazer à claridade da região superior. Primeiramente, só discerniria bem as sombras, depois, as imagens dos homens e outros seres refletidos nas águas; finalmente erguendo os olhos para a lua e as estrelas, contemplaria mais facilmente os astros da noite que o pleno resplendor do dia.

GLAUCO – Não há dúvida.

SÓCRATES – Mas, ao cabo de tudo, estaria, decerto, em estado de ver o próprio sol, primeiro refletido na água e nos outros objetos, depois visto em si mesmo e no seu próprio lugar, tal qual é.

GLAUCO – Fora de dúvida.

SÓCRATES – Refletindo depois sobre a natureza deste astro, compreenderia que é o que produz as estações e o ano, o que tudo governa no mundo visível e, de certo modo, a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.

GLAUCO – É claro que gradualmente chegaria a todas essas conclusões.

SÓCRATES – Recordando-se então de sua primeira morada, de seus companheiros de escravidão e da idéia que lá se tinha da sabedoria, não se daria os parabéns pela mudança sofrida, lamentando ao mesmo tempo a sorte dos que lá ficaram?

GLAUCO – Evidentemente.

SÓCRATES – Se na caverna houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e mais prontamente distinguisse a sombra dos objetos, que se recordasse com mais precisão dos que precediam, seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em lhes predizer a aparição, cuidas que o homem de que falamos tivesse inveja dos que no cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não preferiria mil vezes, como o herói de Homero, levar a vida de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo a voltar às primeiras ilusões e viver a vida que antes vivia?

GLAUCO – Não há dúvida de que suportaria toda a espécie de sofrimentos de preferência a viver da maneira antiga.

SÓCRATES – Atenção ainda para este ponto. Supõe que nosso homem volte ainda para a caverna e vá assentar-se em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz à obscuridade, não lhe ficariam os olhos como submersos em trevas?

GLAUCO – Certamente.

SÓCRATES – Se, enquanto tivesse a vista confusa — porque bastante tempo se passaria antes que os olhos se afizessem de novo à obscuridade — tivesse ele de dar opinião sobre as sombras e a este respeito entrasse em discussão com os companheiros ainda presos em cadeias, não é certo que os faria rir? Não lhe diriam que, por ter subido à região superior, cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se alguém quisesse fazer com eles o mesmo e dar-lhes a liberdade, mereceria ser agarrado e morto?

GLAUCO – Por certo que o fariam.

SÓCRATES – Pois agora, meu caro Glauco, é só aplicar com toda a exatidão esta imagem da caverna a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo visível. O fogo que o ilumina é a luz do sol. O cativo que sobe à região superior e a contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus sabe se é verdadeiro.

Quanto à mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mundo inteligível está a idéia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, conhecida, se impõe à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos negócios particulares e públicos.

Quadrinho do Piteco sobre a alegoria da caverna de Platão. – Clique aqui.

Sombra e Luz em Platão

No texto “Sombra e Luz em Platão”, G. Lebrun diferencia a interpretação da “visão” entre Platão e Descartes. Sendo elas:

Para Platão a visão é o único sentido que se faz necessário um terceiro elemento, o Sol, assim como para chegar ao conhecimento, se faz necessário um terceiro elemento, o bem, pois se isso não ocorrer à exposição não passará de um espelhamento de saberes desconexos. Encontraremos esse paralelo entre o olho e o espírito na “analogia solar”no livro VI da republica. “A visão, como já sabemos, precisa de luz, sem a qual desaparece” (GÉRARD n.d. p. 403). Para Platão: “a visão não é um paradigma do saber. O único paradigma do saber é a luz.” (GÉRARD n.d. p. 405)

Platão luta contra o sensu comum, “Para sair da amathía[1], é preciso não apenas “virar a cabeça” e “violentar-se”, mas sobre tudo deixar que o educador use de violência. Pois não há, aqui “razão natural” à nossa disposição.Para Platão de natural só há a desrazão.é preciso obrigar aqueles que são capazes (e estes não são muitos) a olhar alhures.” (GÉRARD n.d.)

Sabedoria humana seria o foco luminoso para Descartes que se opõe à “uma tradição (Platão e Agostinho) a qual o espírito humano só é capaz de apreender seu objeto se estiver iluminado por uma luz cuja a fonte ela não traz em si, mas lhe vem de um foco luminoso transcendente (a idéia de bem, deus).” (GÉRARD n.d. p.401)

Descartes acreditará na condução do individuo, paideía, porém não declarará guerra ao sensu comum. ”O único defeito do vulgo é o de contentar-se com conhecimento sensíveis, que recebeu pela visão ou pela audição (os ensinamentos dos mestres). Mas o exercício do método porá fim a esse estado de ignorância (ágnoia) fazendo-o concentrar sua visão “nos princípios comuns e os axiomas” que ele, até agora, “não se preocupou em considerar” (GÉRARD n.d. p. 410)


[1] “Nada saber e crer que sabe”

E-book – Platão

A República – Clique Aqui

Críton (o dever) – Clique aqui

Apesar da sua brilhante defesa, Sócrates é condenado à morte. Na véspera da sua execução, o filósofo é visitado na cadeia por Críton, discípulo devotado, que lhe vem apresentar um plano seguro de evasão. Entre os dois amigos trava-se um diálogo dramático, o mais importante de todos aqueles em que, ao longo do 70 anos, Sócrates participou, porque nele se debate um problema de vida ou de morte.

Górgias (a retórica) – Clique aqui

O título deste Diálogo de Platão faz referência a Górgias, sofista grego (487-380 a.C.), Mestre de Tucídides, e que é um dos intervenientes. Nesta obra, a doutrina de Sócrates sobre a Retórica é confrontada com a dos sofistas.

Fédon (a imortalidade da alma) – Clique aqui

Não se conhece a época em que foi escrito; possivelmente depois do Banquete. O diálogo narrado passa-se na prisão, do qual participam Sócrates e seus discípulos fiéis, no dia em que o mestre teve de beber sicuta. O assunto é sobre a alma e a morte de Sócrates. O ‘Fédon’ é considerado a obra da maturidade do espírito de Platão.

Filebo (o prazer, a vida boa) – Clique aqui

No início do diálogo vemos Sócrates levantando a questão de que o saber, a inteligência, a memória e tudo o que lhes for aparentado, como a opinião certa e o raciocínio verdadeiro são melhores e de mais valor do que o prazer, em oposição à tese de Filebo que afirmava que para todos os seres animados o bem consiste no prazer e no deleite.

Teeteto (o conhecimento) – Clique aqui

O Teeteto (em grego, Θεαίτητος) é um diálogo platônico sobre a natureza do conhecimento. Nele aparece, talvez pela primeira vez explicitamente na Filosofia, o confronto entre verdade e relativismo.

O Sofista – Clique aqui

No ‘Sofista’, opõe-se aparência e realidade.

Parmênides (o uno e o múltiplo, as formas inteligíveis) – Clique aqui

Parménides narra um acontecimento provalvelmente fictício, mas não historicamente impossível – um debate que opõe o jovem Sócrates a Zenão e ao mestre deste, Parménides. A discussão desenrola-se em três conversas sucessivas – na primeira, entre Sócrates e Zenão, faz-se referência ao escrito deste último; nas duas conversas seguintes, entre Sócrates e Parménides, discutem-se, respectivamente, algumas das questões mais relevantes da orgânica das formas colocadas em todo o corpus platónico e por fim as consequências resultantes da hipótese parmenídea do uno. O diálogo termina na declaração da aporia. O Parménides é consensualmente tido como um diálogo do último período do platonismo e inaugura, por assim dizer, um conjunto de obras de reflexão crítica sobre a teoria das formas.

O Banquete (o amor, o belo) – Clique aqui

O Banquete’ é a celebração e o louvor de Eros. Platão, com dramatismo e suma habilidade literária, propõe nos diversos discursos (de Ágaton, Aristófanes, etc.) conceitos vários sobre o Amor que são negados ou superados na narração de Sócrates acerca de Diotima. Eros é o intermediário entre o humano e o divino; através de todas as formas do belo arrasta e impele para a Beleza supra-sensível.

Platão – Coleção Os Pensadores – O Banquete, Fédon, Sofista, Político – Clique Aqui

Apologia de Sócrates

A Morte de Sócrates. Quadro de David, concluido em 1787
A Morte de Sócrates. Quadro de David, concluído em 1787

O julgamento de Sócrates (469-399 a.C.) foi um dos fatos históricos mais importantes da Grécia Antiga e até hoje inspira escritores, artistas e filósofos. Em 399 a.C., Atenas estava se recompondo após a derrota para Esparta na Guerra do Peloponeso, tentando consolidar o ainda frágil regime democrático. O posicionamento crítico de Sócrates pareceu uma afronta aos costumes da cidade e ele foi incriminado, julgado e condenado à morte por envenenamento sob as acusações de não cultuar os deuses da cidade, tentar introduzir novas divindades e corromper a juventude com suas idéias. As acusações não intimidaram o pensador, que decidiu conduzir a própria defesa, dando origem aos textos aqui reunidos, Êutifron, ‘Apologia de Sócrates’ e Críton. São obras que partem da discussão filosófica, mas assumem ramificações religiosas, políticas e éticas, mostrando por que Sócrates passou para a História como fundador da tradição filosófica ocidental.

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Cálicles faz um discurso aconselhando Sócrates

Em Górgias, Cálicles faz um discurso aconselhando Sócrates a abandonar a filosofia, uma vez que “…se prosseguir filosofando até uma idade avançada, forçosamente ficará ignorando tudo o que importa conhecer […] logo que procuram ocupar-se com seus próprios negócios ou com a política, tornam-se ridículos […] é procedimento ridículo, indigno de homens e merecedor de açoites. É precisamente isso que se dá comigo com relação aos que se dedicam à filosofia.[…] Mas, quando vejo um velho cultivá-la a destempo, sem renunciar tal ocupação, um homem nessas condições Sócrates, para mim é merecedor de açoites.” Como podemos perceber no fragmento acima, Cálicles considera inútil continuar com a filosofia após uma certa idade, considerando “ridículo” e merecedor de açoites.

No mito da caverna Platão demonstrará a existência de dois mundos, sensível e inteligível. Vivemos em um mundo governado pelas sensações, vemos apenas sombras (educação realizada pelos poetas) e que precisamos percorrer um longo caminho para chegar até a luz (conhecimento) e assim realmente ver o mundo real. O mundo sensível está dividido em entre Eikasia e pistis ou doxa. O mundo inteligível estará dividido entre diánoia e Noesis. Podemos encontrar a representação dessa divisão na “Símile da linha”:

A_____∆_________Γ________E________________B

Onde:

A∆ / ∆Γ = ΓE / EB

A∆ = Eikasía (Imagens das coisas sensíveis; cópias)

∆Γ = Pístis ou doxa (Crença e opinião; coisas sensíveis)

ΓE = Diánoia (Raciocínio ou pensamento discursivo matemático)

EB = Nóesis (Intuição, intelectual ou ciência intuitiva; eidos ou idéia)

Para Platão, Cálicles assim como todos os sofistas, vivem na Eikasía, representado no Mito, pela caverna, onde podemos apenas conhecer a “sombra” das coisas, mas nunca a coisa, apenas aquele que se dedicar à filosofia será capaz de realmente conhecer, a verdade. No mito da caverna Platão nos mostra que ao chegar a luz e querer voltar para “salvar” as outras pessoas que estão presas na escuridão da caverna terá problemas seriíssimos, podendo até ser condenado à morte, caso que podemos encontrar na apologia a Sócrates, assim podemos perceber que aos olhos de Platão o “ridículo” seria Cálicles, já aos olhos de Cálicles o “ridiculo” é Sócrates. “Parecerá ridículo no sólo aquel que se oponga a la experiencia, sino tambiém quien enuncie principios cuyas consecuencias imprevistas lo enfrentan con concepciones que son obvias em uma sociedad dada, y a las que él mismo no osaría oponerse.”

O dialogo de Calicles é o oposto da teoria defendida por Platão, uma vez que para Calicles a filosofia só poderá ser exercida até uma certa idade e para Platão a filosofia seria a única forma para se chegar a verdade e deveria ser exercida durante toda a vida.