Sobre discursos e linchamentos

Recentemente tenho lido muitos textos nas redes sociais e na grande mídia, cada um expondo sua visão dos ocorridos ultimamente sobre o papel da imprensa e a influência direta das opiniões na população. Deixarei a minha então.
A jornalista do SBT Rachel Sheherazade emitiu uma opinião há um tempo atrás, dizendo que na ausência de Estado, é até compreensível a atitude de justiceiros. Atacou os defensores dos direitos humanos e disse que se tivermos dó de bandido, que os levemos pra casa. Isso depois de um garoto ser espancado e amarrado ao poste e uma reação de repúdio por parte da população em relação aos críticos dessa atitude. Ora, ela disse o que (tristemente) talvez a maioria da população defende.
Logo após isso, uma onda de linchamentos começou no país (38, com 19 mortos,todos inocentes).
Poderemos ter duas posições: ou foi uma coincidência absurda ou tais linchamentos são consequência necessária do discurso.
Bem, tendo a optar pelo segundo caso e explico o porquê.
Existe uma primazia do pensamento em relação à ação. Biologicamente falando. Até o simples levantar de um dedo, mesmo que sem a nossa consciência, é produto de um pensamento prévio. Logo, toda ação pressupõe um pensamento prévio. Analogamente, no plano do social as coisas também são assim. Toda ação é justificada (ou fundamentada) por um discurso (pensamento portanto), por mais precário e ilógico que seja.
Em todos os grandes acontecimentos humanos, absurdamente tristes ou absolutamente felizes, sejam genocídios ou festas populares, há sempre um discurso, qualquer um, por trás.
E não precisa ser um discurso direcionado objetivamente para a ação, basta simplesmente ser coerente com o que as pessoas previamente já defendem.
Vivemos um período politicamente efervescente mas com muita pouca consciência do que, de fato, está acontecendo. Somos um povo com raiva do país (com razão) e, portanto, com raiva de si próprio. Os ânimos estão exaltados e basta apenas um motivo, por mais fútil que seja, para que a bomba exploda.
É nesse sentido que, quem fala à massa, deve ter clara consciência do que pode provocar. Cada palavra pode acender um pavio. Basta apenas uma faísca para que tudo estoure. Quem fala à massa DEVE ter isso em mente sempre. Quando qualquer opinião, irrefletida em suas consequências objetivas, é emitida para a massa, é um discurso que, na polifonia existente, tem primazia sobre outros, pois ocupa um lugar de destaque nessa mesma polifonia.
E basta um discurso dito no ar, que seja coerente com o que uma turba pensa, para que o curso das ações (individuais) passem a ser efetivadas em público.
De pensamentos privados, através de uma opinião emitida em público por alguém que representa um papel “importante”, ações públicas surgem, irrefletidas no momento da ação, mas previamente fundamentadas em um discurso.
Turbas enfurecidas só precisam de uma desculpa, pública, que libere seus ódios mais privados. Afinal, turbas não pensam, apenas usam um pensamento preexistente para se ancorarem.
Portanto, quando uma âncora fala publicamente que “compreende” a ação de justiceiros, a turba entende: “bom, se me compreende, então vamos lá”. Simples assim. Essa significação entrou na polifonia corrente com primazia de alcance e autoridade. “Não foi qualquer um que disse, foi a âncora da tv, famosa, inteligente e que, por incrível que pareça, pensa como eu!” Ora, não há uma legião de pessoas que aplaudiram a jornalista e escreveram: “Falou o que muitos de nós pensam” ou “essa tem coragem de dizer a verdade”?…..Enfim. Isso só reafirma que, dado a posição de quem fala, o discurso toma proporções assombrosas.
Tal discurso poderia ter sido feito de muitas outras formas, mas a escolha no “espaço criativo” da âncora construiu uma significação massiva cheia de consequências. Ela tem responsabilidade sim. Assim como Bolsonaro tem responsabilidade quando diz que homossexual é anormal em seus discursos públicos, e depois homossexuais são espancados na rua. É um discurso que, com alcance e potência, fundamenta o curso das ações. Afinal, toda anormalidade merece ser corrigida, eliminada, para as coisas seguirem seu curso, e se, um político eleito defende isso, tenho minha justificação para tal.
Esse breve ensaio surge como desabafo, apenas. Porém, é também um convite ao pensamento racional.
Afinal, todos devem saber das consequências e influências de seus papéis sociais e do impacto de suas opiniões nesses lugares ocupados.

4 comentários em “Sobre discursos e linchamentos

  1. Eu tenho dito, sobre isso, que os mais pobres não tem educação, não tem instrução e são mantidos cativos em “empregos” que não permitem tempo livre para pensar. Sem ócio, sem conhecimento, envelhecem sem pensar. Já a classe média “instruída” e “educada” transborda formadores de opinião. A formula é essa: formadores de opinião e os castrados da própria. O resultado e esse que vemos, na “justiça” e na “política”.

  2. Carpegieri Torezani disse:

    Belas palavras, no entanto sem fundamento. Pois se abordarmos seu ponto de vista teremos que omitir nossa opinião ou máscara-la com palavras mais branda.
    Um ponto que acho interessante, é que isso só é analisado em casos como esses, por que essa lógica não acontece com coisas boas? Quando é falado em um campanha de doação de sangue por exemplo, onde tem opiniões de diversas pessoas do meio artístico. Essa sua lógica só é válida para situações trágicas?
    Essa visão errada é a mesma em relação a jogos violentos, onde alguns jogadores fogem ao dito “normal” e comentem um erro, no entanto os jogos educativos não tem nenhum crédito.
    Devemos parar de ter essa visão pequena e mesquinha, que ao acreditar que uma opinião ou jogo causa um efeito tão devastador.

    • Diego Azizi disse:

      Caro, meu fundamento é a análise dos discursos de Bakhtin. Creio que, ao acusar alguém de “não ter fundamento”, é necessário fundamentar tal visão, e permanecer atento aos argumentos.
      Primeiro, o texto não diz absolutamente nada sobre omissão de opinião, mas sim de responsabilidade discursiva. Porquê? Ora, simplesmente, porque se tomamos em conta o conceito de polifonia, e não de verdade lógica mas de validação ideológica dos discursos (Bakhtin), o que conta basicamente não é tanto o que está sendo dito, mas sim como está sendo dito e por quem. Foi dito de maneira passional, por uma âncora amplamente assistida e respeitada. Ora, se o poder dos discursos na polifonia é maior de acordo com o lugar ocupado de quem o produz, isso aumenta consideravelmente a responsabilidade do falante.
      Segundo, essa lógica é direcionada aos casos trágicos sim, afinal, são esses que causam sofrimento e desconforto social. Mas, vale também para os casos benéficos, afinal, quando é um porta voz “famoso” ou “respeitado” por trás de uma campanha, ela não tem mais ressonância? Me atentei a esse caso em particular pois ele causa sofrimento e dor, simples assim.
      Terceiro, Tenho um texto aqui sobre jogos violentos, leia-o e veja se concorda.
      Quarto, ninguém está dizendo que os discursos são causas objetivas do comportamento, mas que, sim, fundamentam as ações de gente que, a priori, já pensam como a âncora. Isso não pode, de jeito nenhum, eximi-la de responsabilidade. O que ela emite em público é diferente do que o que eu ou você emitimos. Não tem o mesmo poder e nem o mesmo alcance. Se ela não mediu bem as palavras, dada a posição que ela ocupa, e negou sua influência ideológica na polifonia existente, isso é culpa dela sim, que não refletiu sobre o papel social que ocupa em um jornal emitido em uma emissora popular em horário nobre.
      Ou você discorda que toda ação/prática é derivada de um discurso prévio? (Foucault concorda comigo….outro fundamento de meu texto).
      Sugiro, ao ler um texto, atentar aos seus argumentos. Senão suas críticas não serão nada além de falácias, criando espantalhos, mas nunca atingindo nada do que o texto buscou provar.

  3. Carlso Eduardo Bernardo disse:

    Prezado, Diego Azizi.
    Eu tencionava escrever-lhe sobre este texto há algum tempo, mas fui surpreendido por outros comentários sobre os quais tive que em debruçar. Teço algumas breves observações que com certeza necessitam de mais reflexão e desenvolvimento. Mas antes disto lhe saúdo pelo artigo.
    Seu texto é oportuno, e, também é mais um importante subsídio para que pensemos o caso presente (isso com fundamentação epistêmica). Temo dizer, mas me parece que a maioria das discussões sobre este fenômeno ainda estão considerando aspectos isolados do problema e sem a necessária fundamentação teórica que lhe dê suporte (erro no qual você não incorreu, tendo em vista também sua resposta ao comentário supra). Naturalmente a responsabilidade social de personagens de grande expressão na mídia deve ser levada em consideração e o uso que fazem desta expressividade deve ser questionado na medida em que se faça necessário. Mas, é útil destacar que o fenômeno merece uma análise sistêmica, posto que nele estejam imbricados diversos fatores de caráter social, econômico, político, histórico, ideológico e etc. A âncora do telejornal como agente social tem sua responsabilidade e este dado não pode ser ignorado. Mas, não ignoramos também que ela também é partícipe desta mesma sociedade e que talvez sua consciência esteja tão absorvida em seu sistema de valores que sua opinião não difira de todas as opiniões, neste caso temos uma ingenuidade que não se apercebe da gravidade da situação devido a sua imersão na conjuntura, como diz Dahrendorf, para essas consciências os fenômenos passam a constituir-se em fato tão acessível que os consideramos ‘fatos naturais de nosso mundo’. Daí, não pensarmos de modo crítico e racional, apenas emitimos a opinião da massa, movidos pelas mesmas pulsões. Desta forma o produto do veículo de comunicação apenas reforça as tendência e atitudes dominantes, naquilo que Prokop chama de “jogo de trocas pulsionais”. Penso nas categorias de análise do problema midiático propostas por Baudrillard, em seus escritos ele insiste em que a mídia fortaleceria o ‘simulacro’ e baniria o ‘evento’, assim como, a “pós-modernidade” (se tem algum sentido em falar disso) diluiu o sentido histórico do conhecimento, substituindo-o por informação, agora os próprios eventos estão sendo diluídos em sua substancialidade histórica e também estão sendo substituídos pela informação, e, isso no próprio escopo da auto-referencialidade dos veículos midiáticos. É possível dizer, então, que o discurso e a ação midiática (de forte apelo sensacionalista) têm fomentado, não mais a em nível de informação, os eventos, mas em nível de sua “concretização”, ao menos em caráter de espetáculo, de ‘evento-simulacro’ que vende notícia, que gera capital.
    Será que cabe perguntar: se as câmeras de TV (com o caráter em que se encontram) não estivessem apontadas para estes focos de notícias, eles realmente seriam fenômenos tão reiterados?
    Novamente, parabéns pelo texto!
    Um abraço afetuoso.

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