TEOLOGIA – PERCORRENDO OS CAMINHOS DO PENSAMENTO SOBRE O DIVINO

O encontro entre o Evangelho e  a Paidéia grega. São paulo em Atenas. Fonte da Imagem: checar.files.wordpress.com/2013/07/saintpaul-preaching-in-athens.jpg

O encontro entre o Evangelho e a Paidéia grega. São Paulo em Atenas. Fonte da Imagem: checar.files.wordpress.com/2013/07/saintpaul-preaching-in-athens.jpg

A palavra ‘teologia’ é uma transliteração da palavra grega ‘theología’, cujo significado original é algo como ‘discurso’ (logos) sobre Deus (théos), ou sobre os deuses (theoi).

Embora já houvesse certo discurso sobre os deuses na poesia homérica e hesiódica, foi Platão, a propósito da formação dos guardiões, quem criou este substantivo e o respectivo conceito, em sua obra República traçou as ‘Linhas Fundamentais da Teologia[1]’ (gr. typoi peri theologías).

Aristóteles levou este projeto de Platão mais adiante. Ele desenvolveu toda uma reflexão que reconhece distinção entre a ‘substância primeira’ e a natureza. Esta substância primeira é identificada como a substância imóvel, o movente não-movido, o puro ato, e, por fim, Deus, neste ponto a ciência que investiga esta substancia primeira, a metafísica, deve acertadamente ser reconhecida como uma teologia[2]. A partir destes movimentos Deus se torna um problema filosófico, cuja ocupação reflexiva é teológica.

Embora, o cristianismo tenha usado, desde muito cedo, recursos filosóficos, na proposta de sua mensagem, ainda que de modo insipiente, de modo geral os cristãos relutaram em assumir para si o “título”, ou o ofício de teólogos, foi apenas ao término do século II que eles começaram a reconhecer que suas reflexões sobre as Escrituras eram uma teologia.

Qual teria sido a principal razão desta relutância?

Jaeger (1992, p.10) destaca que a teologia é uma atitude reflexiva característica do espírito grego, que tinha em alta conta a capacidade do logos, portanto, podemos concluir que seja natural que uma religião calcada sobre a pistis opusesse certa resistência na assimilação desta atitude. Porém, esta resistência se diluiu na medida em que o cristianismo se encontra com a paidéia grega; é quase unânime a opinião de que tenham sido Clemente de Alexandria (c.150-215) e Orígenes (185-254) os primeiros a se professarem teólogos, no sentido em que entende o cristianismo, e, o próprio termo se consolida entre a cristandade a partir de Eusébio de

Orígenes, o Alexandrino. Um dos primeiros cristãos a se intitular 'teólogo'. Fonte da Imagem: pt.wikipeia.org/wiki/Ficheiro:origen.jpg

Orígenes, o Alexandrino. Um dos primeiros cristãos a se intitular ‘teólogo’. Fonte da Imagem: pt.wikipeia.org

Cesaréia (260-341).

Ao escrever sobre a história da teologia se faz necessário muita cautela, pois o período dos apóstolos e daqueles que conviveram com eles se distingue do desenvolvimento ulterior da teologia, posto que seja mais propriamente o período ‘fundacional’ da igreja, ali seus escritos são de inspiração do Espírito Santo, portanto não há como comparar o comum empenho em reflexões humanas com seu conteúdo “teológico”. Entretanto, é possível afirmar, como o fizeram Illanes e Saranyana (1995) que a história da teologia se desenvolve em torno de três grandes períodos, cada um destes com suas respectivas subdivisões e, por vezes, um período sendo interpenetrado pelo outro.

1º. Período Patrístico. 2º. Período Escolástico. 3º. Período Moderno e Contemporâneo.

1º. Período Patrístico.

Este período abrange cerca do final do século I ao século VIII, comumente os teólogos deste período são chamados ‘Padres Apostólicos’, pois viveram relativamente próximos aos apóstolos. Há em seu interior, basicamente três períodos: 1º, do século I ao IV, formação da “teologia”; 2º, séculos IV e V, chamado de “a era de ouro”, devido ao o fim das perseguições a igreja e a liberdade para o amadurecimento de sua teologia; 3º, do século V ao VIII, este é o período de transição entre a Antiguidade Tardia e a Idade Média.

 

2º. Período Escolástico.

Este período abrange cerca do ano 750 ao ano de 1500, também é dividido em três períodos: 1º, cerca de 750 ao ano 1100, conhecido como período da ‘teologia monástica’, em 1100 surgem os burgos e se inicia a organização das cidades, o que suscita a formação das escolas em torno das catedrais, a escolástica; 2º, de 1100 a 1300, período da teologia reconhecido como ‘Alta Idade-Escolástica’, é a era de Pedro Lombardo (c.110-1160), São Boaventura (1221-1274), São Alberto Magno (1193-1280), Santo Tomás

Santo Tomás de Aquino, o mais influente pensador da Idade Média. Fonte da imagem: pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Thomas_Aquinas_by_Fra_Bartolommeo.jpg

Santo Tomás de Aquino, o mais influente pensador da Idade Média. Fonte da imagem: pt.wikipedia.org

de Aquino (1225-1274) e Duns Scotus (1265-1308); 3º, de 1300 a 1500, a ‘Baixo-Escolástica’, neste período há o declínio da escolástica, e, a conseqüente abertura para o Renascimento.

Temos aqui dois breves intervalos que não deixam de caracterizar-se por certo tipo de reflexão teológica, é possível se falar de uma ‘escolástica renascentista’, que se desenvolve no começo do século XVI e segue até seus meados, e, também de uma ‘escolástica barroca’, a partir dos meados do século XVI até o século XVII.

Não é possível omitir que o século XVI é marcado pelo inicio de uma divisão profunda no cenário da teologia, a Reforma protestante a secciona de modo tal que diversas correntes se originarão dela. Três personagens destacam-se neste período Martinho Lutero (1483-1546), monge agostiniano, Jean Calvino (1509-1564) e Ulrich Zwinglio (1484-1531), dois documentos são fundamentais para os rumos que a teologia tomaria a partir deste período: ‘A Confissão de Augsburgo’ (1530), documento protestante redigido por Felipe Melanchton (1497-1560), discípulo de Lutero, e, já no

Martinho Lutero, o monge alemão que incendiou o mundo. pintura de Cranach (1529). Fonte da imagem: pt.wikipedia.org/Ficheiro:Luther46c.jpg

Martinho Lutero, o monge alemão que incendiou o mundo. pintura de Cranach (1529). Fonte da imagem: pt.wikipedia.org

século XVII, ’A Confissão de Fé de Westminster’ (1643), documento reformado, dos puritanos, calvinistas ingleses.

3º. Período Moderno e Contemporâneo.

O período moderno e contemporâneo da história da teologia abrange os séculos XVII até os dias atuais, distinguindo-se as seguintes “divisões”: 1º, séculos XVII e XVIII, cenário da ruptura entre os âmbitos espiritual e intelectual, é neste século que a teologia evangélica tem sua gênese, exatamente no interior da ortodoxia confessional, todavia, o fundamentalismo é o resultado dos “revivals[3]” evangélicos dos séculos XIX e XX; 2º, século XIX, centro de polêmicas e tensões, mas também ocorrem vislumbres de “renovações”; 3º, século XX, segundo Gibellini (1998) o discurso teológico que originalmente propunha a “glória de Deus”, evolui em direção à defesa e à valorização do humanum.

Quanto ao papel da teologia no presente século, somente as próximas gerações poderão pronunciar um veredicto!

Bibliografia.

GIBELINI, Rosino. A Teologia do Século XX, Tradução: José Paixão Netto, São Paulo, Edições Loyola, 1998

ILLANES, Jose Luis & SARANYANA, Josep Ignasi. Historia de La Teologia, Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 1995.

JAEGER, Werner. Paidéia: A Formação do Homem Grego, Tradução: Artur M. Parreira, São Paulo, Martins Fontes, 2001.

____________. La Teología de Los Primeiros Filosofos Gregos, México, Fondo de Cultura Económica, 3ª. Reimpresión, 1992.

PLATÃO. A República, Tradução: J. Guinsburg, São Paulo, Difusão Européia do Livro, 2ª Edição, 1973.

LIVRO D CONCÓRDIA. (Editado por) Leopoldo Heimann. Traduzido por Arnaldo Schüller. 4ª Edição, São Leopoldo: Sinodal, Porto Alegre, Concórdia, 1993.


[1] Platão critica os discursos dos poetas sobre os deuses e propõe que os filósofos tracem regras para que eles possam compor: Vide Republica 377b – 383c.

[2] Uma simples e boa explicação sobre a dimensão teológica da obra de Aristóteles pode ser lida em BERTI, Enrico. As Razões de Aristóteles, tradução: Dion Davi Macedo, São Paulo, Edições Loyola, 1998. Sobretudo, o 3º Capítulo: “O método da metafísica”.

[3] Para uma exposição sucinta do que sejam os revivals evangélicos, Vide: http://en.wikipedia.org/wiki/Christian_revival

4 comentários em “TEOLOGIA – PERCORRENDO OS CAMINHOS DO PENSAMENTO SOBRE O DIVINO

  1. Marta Iglesias disse:

    Obrigada!!

    Enviado desde mi iPad

  2. Marco Leme disse:

    Muito bom! me falta palavras pra descrever a importância da visão filosófica no Cristianismo principalmente nos dias de hoje. Grande abço.

    • Carlos Eduardo Bernardo disse:

      Prezado, Marco Leme.
      Muito obrigado pela apreciação ao meu breve artigo. Como sabes minha área é a Filosofia, por isso é certo que tenho uma abordagem diferente de muitos dentre meus amigos e irmãos teólogos, sei que às vezes não sou muito agradável para muitos, logo, fico feliz em ver um feedback tão positivo quanto o seu, de alguém que estando dentro dos arraiais do cristianismo evangélico anseia pela presença mais marcante de um olhar mais crítico e de profundidade, portanto, filosófico. Espero que possamos ser úteis a todos os que, assim como nós, anseiam pela seriedade e pelo rigor filosófico.
      Um abraço afetuoso!

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