Razão, Fé e Ciência – Assunto Fascinante, Relações Conflituosas.

Por: Carlos Eduardo Bernardo.

Para Um Bom Começo.

Todas as pessoas têm naturalmente certa compreensão do que se quer dizer quando se fala sobre fé; ainda que tenham dificuldade em conceituá-la dificilmente irão dissociar a fé das noções que têm acerca de religião, Deus ou mundo espiritual. Certamente essa é a primeira associação que se faz com o conceito de fé: a fé religiosa.

Todavia, esse senso comum acerca da “fé religiosa” está marcado por certa incipiência e esta o aproxima da idéia mais geral de crença. Mas crença não

Paul Tillich (1886-1965). Teólogo protestante de perspectiva existencial. "[...] fé é a preocupação última  de todo ser humano".

Paul Tillich (1886-1965). Teólogo protestante de perspectiva existencial. “[…] fé é a preocupação última de todo ser humano”.

implica necessariamente a dimensão religiosa, pode-se crer nas instituições, nas pessoas ou em esperanças que têm as mais variadas origens, e, neste sentido é possível falar de fé política, fé antropocêntrica, fé institucional e assim por diante.

Não é tarefa fácil definir “fé”, pois muitas definições são possíveis, mas neste contexto se toma por referência a contribuição de Karl Rhaner (1904-1984) e Paul Tillich (1886-1965), pois parece que elementos que compõe suas

Karl Rahner (1904-1984)Importante teólogo católico e sua contribuição com a leitura existencial da fé

Karl Rahner (1904-1984)
Importante teólogo católico e sua contribuição com a leitura existencial da fé

respectivas definições podem ser atribuídos a todo exercício de fé, independente da religião. A presente reflexão trata da fé em sua dimensão mais especificamente religiosa, no entanto convém clarificar qual seja a concepção – conceito – de fé religiosa visado neste texto. A fé religiosa é aqui entendida como a disposição de “abertura subjetiva e ilimitada do sujeito” (RHANER, 1989, p.32) para com aquele que “é último em ser e em sentido” (TILLICH, 1987, p.485), o transcendente que tem em si prerrogativas que possibilitam a relação, a religação (lat. religio).

Por que temos que escolher entre a fé e a razão? Porque supomos que elas são instâncias mutuamente excludentes? Por que supomos que se alguém “crê não pensa e se pensa não crê”?

Estas questões não são colocadas com objetivo polêmico ou apologético, mas, simplesmente em caráter reflexivo. Pois é fácil encontrar diversos textos que, de um modo, ou de outro, fazem apologética da fé ou da razão, ou apenas polêmica desta temática.

Quando resolvemos uma equação não usamos o sentimento, quando apreciamos Quinta de Beethoven não fazemos racionalmente, embora não estejamos despojados dos sentimentos ou da racionalidade nos dois casos, e, por vezes fazemos uso seletivo de nossos atributos de acordo com o objetivo a que nos propomos. Nada impede que se faça uma análise matemática da Quinta referindo-se a sua métrica, ou que resolvamos apaixonadamente uma equação de segundo grau, mas, isso não é o que se espera de todos e não é que fazemos com maior freqüência.

Ao ultrapassar a fase da vida em que se tem uma visão mágica do mundo, crer na existência do Papai Noel, ou noutras fábulas, é tão ingênuo quanto à tentativa em “calcular quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete”; mesmo que se provasse a existência dos anjos jamais poderíamos fazer tal cálculo, porque essa existência ultrapassaria o âmbito de tudo que é de competência da razão.

A racionalidade procura o objeto que lhe é próprio, assim como fé também o faz. Colocar os objetos da fé na esteira da razão ou os objetos da razão na esteira da fé só ocasiona equívoco e problemas para o desenvolvimento da humanidade nos dois aspectos. Quando falamos das descobertas de Albert Einstein (1879-1955) pensamos em Ciência e não em religião, ainda que se possa advogar que num sentido muito peculiar Einstein foi um homem profundamente religioso, quando falamos de Paul Tillich pensamos em religião e não em Ciência, embora Tillich demonstre um conhecimento profícuo de assuntos científicos.

O fiel interessado em saber acerca da formação geológica da Terra procura informações num livro de Ciências, mais especificamente de Geologia, um aluno universitário que queira saber o crê um cristão começa pela leitura dos Evangelhos. Não se espera encontrar descrições dos aspectos constitutivos da litosfera, ou da hidrosfera na Bíblia, ou nos Evangelhos, assim como não esperamos encontrar no Tratado de Geologia Geral a narrativa do nascimento virginal de Jesus Cristo.

Ao não fortalecer a fé do indivíduo a Ciência em nada é diminuída, porque este não é seu objetivo; de igual modo a Religião não é menos importante por não nos enriquecer em conhecimentos sobre os fenômenos naturais, pois seu objetivo não é este. Porém a Religião será sempre diminuída se for evocada com propósito a obstruir o avanço da Ciência e certamente seus argumentos não serão nem um pouco religiosos, já a Ciência é sempre diminuída quando evocada com o puro propósito de destruir a fé, ou substituir a religião[1].

Stephen Jay Gould (1941-2002), talvez, o mais destacado evolucionista do século passado, desenvolveu uma descrição apropriada da capacidade de abrangência tanto da ciência, quanto da religião, ele a chamou “Teoria dos Magistérios Não-Interferentes”. Sua teoria propõe que as duas instâncias são magistérios – serviços – distintos, cujo campo de atuação não se permite interferir, pois, seus objetos e objetivos são de naturezas totalmente díspares, a ciência tem como objeto a Natureza e trabalha com explicações naturalísticas, o que coloca fora de seu alcance tanto os “objetos” da religião, quanto da moral.

A religião, por outro lado, objetiva a salvação – ou emancipação – espiritual da humanidade, ela cuida de questões sobre o relacionamento com Deus – ou com os deuses – no seu escopo estão inseridos assuntos relativos a espíritos, anjos, demônios, Deus e divindades, destino eterno da humanidade ou do indivíduo. Portanto, suas “explicações” jamais serão naturalísticas, e, seu objeto jamais será a Natureza – a menos que defendamos tratar-se da Natureza Oculta das Coisas, o que não inferimos neste contexto.

Os campos da religião e da ciência são distintos e dependem de instâncias de juízo, ou valorativas diferentes, a religião está submetida à instância da fé, e a ciência à instância da razão que se debruça sobre evidências dadas nos objetos da natureza, buscando corroboração para suas teorias na experiência.

Muitos cristãos ficaram indignados com a definição de fé dada por Richard Dawkins (1941): “[…] uma confiança cega, na ausência de evidências, até mesmo nos dentes das evidências”. Mas, não há motivos para tanta indignação. É possível que o adjetivo “cego” quanto ligado ao substantivo “fé”, seja o motivo principal de tal reação, porém, essa é a única forma como se pode qualificá-la em face da ciência e da razão, pois, seus objetos são invisíveis para estas instâncias e o cristão não deveria ofender-se com o cético quando ele afirma que a situação que se lhe apresenta no mundo da fé é como uma cegueira, pois ela o é realmente, e, isso do ponto de vista em que se coloca o homem “sem fé”, mesmo o homem de fé se posiciona ante o seu alvo como quem pode vê-lo, ainda que este lhe seja invisível como Moisés que ficou firme como se visse o invisível ou quando Paulo disse que Deus é invisível, e, é este o sentido da impossibilidade em ser visto, enquanto objeto da fé[2], ainda o homem de fé se move ante o que seja evidente como que lhe atribuindo menor importância, comparado ao homem sem fé, ou até mesmo ignorando as coisas visíveis, porque não são elas quem o orienta.

O homem de fé pode igualmente dizer que a atitude do homem sem fé, ao tratar racionalmente das “coisas espirituais”, é uma “racionalidade cega”, e, os homens que não creem não devem ficar indignados com isso, pois, podem perceber que o tratamento das coisas da fé com os olhos da razão não consegue chegar a assentir o objetivo da fé. É algo como tentar sentir o cheiro de uma flor com os olhos, ou o gosto da maçã com a ponta dos dedos, em ambos os casos são necessários os sentidos adequados, o olfato para o aroma e o paladar para o gosto. Igualmente, a razão para os cálculos e a fé para se aceitar um evento sobrenatural.

  1. 1.      Da racionalidade da fé.

Tem sido dito que não se chega aos objetos da fé racionalmente, mas, que os objetos da fé são defensáveis racionalmente, e, isso pode ser feito sob a base da fé, ou seja, estando numa atitude de fé. Significa isto que temos acesso a um dado da fé, por uma Revelação – ou Iluminação – não racionalmente alcançável, mas, que de posse deste dado somos capazes de defendê-lo racionalmente. Esta atitude tem sido advogada desde há muito tempo, ela se expressa num exercício que Platão (428-347a.C.), antes de qualquer outro, denominou Teologia, como bem observou Werner Jaeger (1888-1961), a Teologia é a disciplina que expressa muito bem a atitude e o espírito dos gregos, pois, pretende ser a aproximação a Deus ou aos deuses (gr. theoi) através do logos[3].

Naturalmente o tipo de Teologia engendrada pela filosofia grega não é o mesmo que foi desenvolvida no Cristianismo, e, as teologias que se ensinam hoje nos seminários teológicos – católicos ou protestantes – nada têm em comum com o que teorizaram Platão e Aristóteles (384-322a.C.), sua Teologia é especulativa, não dogmática e, sobretudo, visa uma divindade desprovida das características antropomórficas tão comuns ao Deus cristão. Todavia, essa teologia filosófica é o ponto de partida para todas as teologias que se seguiram e que podem ser classificadas em, basicamente, duas correntes: a teologia revelada e a teologia natural[4], a primeira, parte da RevelaçãoBíblica –, a segunda, parte da Natureza tencionando justificar a existência de Deus.

A metafísica cristã do período medievo é vista como o ápice da relação entre Filosofia e Teologia, suscitada pela Patrística nos primeiros séculos do Cristianismo. Mas, apesar do forte apelo que faz à razão ela continua sendo uma teologia revelada, pois, coloca o peso normativo final sobre as Escrituras – atitude reconhecidamente expressa na famosa máxima philosophiae ancilla theologiae. Atitude que não é encontrada no deísmo dos séculos XVIII e XIX, entre estes o maior peso normativo é posto sobre a Natureza e a capacidade da razão em desvendar nela os sinais do divino em uma atitude positiva – científica – o que em suma se constitui no velho exercício da Metafísica Racionalista.

Nem é necessário dizer que Emmanuel Kant (1724-1804), destruiu esta pretensão, ao demonstrar que a Metafísica não conseguiu trilhar o caminho seguro da ciência, ela é um “conhecimento especulativo da razão” que se eleva acima da experiência através de simples conceitos, na Metafísica a razão é discípula de si mesma: não se baseia na experiência e nem na intuição. Portanto, seu objetivo em provar a existência de entidades transcendentes, a alma e Deus, está fadado ao fracasso. Kant fechou a porta ao conhecimento destas entidades à razão pura, porém, advogou a possibilidade a que sejam conhecidas pela instância da razão prática, o que coloca o problema sob a ótica da moral.

Mas, é a asseverativa acerca desta pretensa racionalidade da fé que sempre se fará mostrar em diversos ambientes teológicos, e, os fiéis sempre farão uso de argumentos que colocam a fé em relação de dependência com evidências racionalmente discerníveis.

 

  1. 2.      Da irracionalidade da fé.

A desconfiança das tentativas em colocar a fé sob as bases de uma racionalidade, ou de justificá-la por meio de recursos da filosofia natural não é uma prerrogativa apenas dos incrédulos, ninguém menos que o fiel Blaise Pascal (1623-1662) foi o mais ácido crítico desta atitude, ele considerava tal abordagem simultaneamente arrogante e fraca em seu poder de convencimento.

Surpreende-me a ousadia com que essas pessoas falam de Deus. Quando se

Pascal (1623-1662).Colocar a fé sobre as bases da racionalidade não é uma atitude confiável.

Pascal (1623-1662).Colocar a fé sobre as bases da racionalidade não é uma atitude confiável.

dirigem aos ímpios, o primeiro que fazem é provar a divindade pelas obras da natureza […] e pretender ter acabado a prova com um discurso assim, é dar-lhes motivo de acreditar que as provas da nossa religião são bastante fracas; e eu vejo pela razão e pela experiência que nada consegue inspirar-lhes mais desprezo por ela […] É surpreendente que um autor canônico jamais tenha se valido da natureza para provar Deus[5].

(PASCAL, 1999, pp.97,98)

Um olhar sóbrio e despretensioso sobre a natureza e o desenvolvimento das espécies não deixa dúvidas quanto à incapacidade inerente a qualquer visão de um ordenamento físico-biológico como plano de fundo do universo em seus vários reinos. Mesmo as concepções mais modernas, como Design Inteligente, parecem desconsiderar que a vida só se produz em novidades categoriais a partir de continuas dissoluções de ordens fixas, o próprio caos tem sua “razão de ser” no movimento de perpetuidade da natureza. Qualquer concepção que dissocie totalmente Deus da desordem da – e na – natureza não permite a identificação positiva entre Deus e o curso da vida, daí a grande dificuldade do Criacionismo em, ao menos, considerar as perspectivas evolucionistas.

O químico Ilya Prigogine (1917-2003), laureado com o Prêmio Nobel, desenvolveu pesquisas acerca do que chamou sistemas auto-organizados, suas pesquisas comprovaram que a ordem facilmente discernível nestes sistemas é o produto de processos físicos altamente desequilibrados, ou seja, a instauração de uma ordem no interior de um sistema normalmente é precedida por um estado de completo caos e aleatoriedade[6].

Todavia, não é este o caminho trilhado por aqueles que defendem a fé, eles partem da mesma atitude criticada por Pascal; tentam construir uma ponte entre o estatuto da fé e o estatuto da razão com base em evidências dadas no âmbito da Natureza, porém, a posição adotada por Pascal encontra endosso nas Escrituras, estas fazem com que a vida do cristão seja dependente não da realidade visível, mas de uma instância que não tem fundamento no plano sensível: a fé. Essa fé não fornece uma visão direta das coisas espirituais, mas sim uma convicção firme e absoluta daquilo em que se crê, e, que não é acessível aos sentidos corporais. Significa que se obtêm por meio da fé um “conhecimento” imperfeito, fragmentário e transitório das coisas divinas e mesmo que se tenha uma fé viva e ardorosa, ela não é comparável à realidade vista em sua plenitude[7].

Os cristãos geralmente argumentam que apesar da Bíblia não ser um livro de Ciência quando ela se refere às questões de Ciência ela está sempre correta. Essa atitude é um eufemismo da mesma disposição em validar cientificamente o conteúdo da fé ligando-o a pretensas evidências sob outra perspectiva. Entretanto, essa atitude desconsidera algumas importantes questões e coloca a fé cristã numa situação tão problemática quanto aquele que almeja evitar.

Em primeiro lugar é possível que incidentalmente as Escrituras contenham afirmações que, até certo ponto, “corroborem” com os atuais conhecimentos científicos, mas, deve ser enfatizado que isso ocorre incidentalmente, ou seja, não é o objetivo principal. Mesmo estas “corroborações” não significam a perenidade dos ensinos escriturísticos acerca da Natureza, pois se seus ensinos, neste aspecto, corroborem com as explicações científicas, as afirmações bíblicas se tornam suscetíveis de possíveis correções, assim como as explicações científicas. Isso não é um problema para a Ciência que traz em seu bojo um mecanismo de autocorreção, em seu exercício sóbrio ela não se pretende infalível ou detentora de um saber absoluto. Já para a teologia cristã essa faceta não é vantajosa, pois, havendo mudança do lado da Ciência, não pode haver mudança na afirmação bíblica ou sua infalibilidade é colocada em xeque!

Outro problema é que nos períodos bíblicos não havia o que hoje chamamos de Ciência, nós estamos familiarizados com, ao menos, três conceitos de Ciência: o clássico, o positivista, o neopositivista – podemos incluir aqui o popperiano –, mas, isso está muito distante da realidade do homem bíblico.

Concede-se que os caldeus, os egípcios e os babilônios tinham o que, em uma visão diacrônica, chamamos de “ciência”, e, provavelmente, os escritores bíblicos no contacto com estas civilizações se nutriram de suas concepções “científicas”[8]. Mas, diferentemente afirmavam que a criação do universo era obra de um único Deus e não de várias deidades como criam seus contemporâneos. Os autores bíblicos não trouxeram inovações, nada além do monoteísmo; eles descreveram a atividade deste Deus em termos das idéias científicas comuns em seus dias, há relatos da criação semelhantes nos escritos babilônicos, mas ali há também uma quantidade enorme de descrições de combates entre deuses, o terror de dragões e mitos semelhantes que fazem com que o livro de Gênesis aparente ter sido escrito com muita sobriedade e menos suntuosidade.

A atitude daqueles que buscam estabelecer a base científica da fé pautada em uma pretensa análise racional de evidências naturais, faz com que pareça impossível adorar ao Deus criador porque a Bíblia, pelos padrões modernos, não é válida cientificamente. Mas, por que temos de julgar a Bíblia com base num propósito para qual ela não foi escrita?   A aceitação de suas concepções religiosas não depende da aceitação das alusões científicas que incidentalmente ela contém.

A atitude do fiel muitas vezes o leva a fazer ciência ou filosofia com o objetivo de legitimar suas convicções religiosas. Será que isso produz uma ciência ou filosofia legitimamente religiosa?

  1. 3.      Da supraracionalidade da Fé.

Assume-se com demasiada facilidade que a fé tem de ser classificada ou como racional, ou como irracional. Mas, talvez[9] isso derive de certa estreiteza em pensar o problema, algo como assumir que no mundo há apenas duas cores: preto e branco. Mas, entre o preto e o branco há uma escala de variações na tonalidade e não é responsável ignorar este fato.

Analogamente é possível que ao tratar sobre a fé tenhamos diante de nós algo que não é nem racional e nem irracional. Tem sido sugerido que a fé seja, na verdade, suprarracional, classificação que busca a metáfora no âmbito do posicionamento no espaço, pois, “sub” reporta ao que está abaixo, e, “supra” ao que está acima, e esse procedimento normalmente sugere a superioridade da fé em face da razão, como em uma estrutura hierarquicamente organizada.

A fé conduziria o humano a uma dimensão de sentido superior, dimensão essa inacessível à razão por si mesma. Isso pode ser entendido de modo que a dimensão em que se move a fé seja uma dimensão de sentido absoluto, o sentido que a razão e a ciência procuram no “andar de baixo”; a seguinte alegoria visa clarificar o conceito: ao olharmos um bordado ao avesso vemos um entrelaçado confuso e indistinto, que não transmite qualquer noção de sentido, mas, quando olhamos este mesmo bordado pelo seu lado correto vemos um desenho, uma ilustração, que tem sentido para nós, que carrega um significado. É como se ao olhar para as coisas da fé com os olhos da razão ainda olhássemos o avesso; quando as Escrituras convidam ao homem a que preste um culto racional a Deus ou que dê aos outros a razão de sua esperança[10], ela pressupõe que este homem, em sua racionalidade, já foi transportado para essa região de sentido pela fé. Daí não ter sentido reportar-se ao conteúdo da fé, Revelação ou Iluminação, frente a alguém que não crê, porque se isso lhe representasse Revelação, por exemplo, para ele seria já objeto de sua fé.

  1. 4.      Da diplarracionalidade da fé.

O problema com a concepção acima, é que sua metáfora sugere que a racionalidade está posicionada num nível inferior em relação da fé. Porém, há maior plausibilidade em que nós as consideremos instâncias diferentes. Sugerimos que em relação à fé usemos o adjetivo diplarracional[11], ou seja, ao lado da própria razão, embora não perca a referência espacial, não indica superioridade.

Enquanto em suprarracional temos a imagem de uma relação vertical onde a razão se localiza em baixo e a fé se localiza em cima, no diplarracional a imagem pode ser horizontal onde a fé e razão se localiza lado a lado, sem necessidade de inferir na precedência ou procedência de uma ou da outra.

Encarada desta forma a fé se apresenta como uma instância condutora e complementar, pois, conduz racionalidade a dimensões que lhe “parecem”, por si mesma, inacessíveis e complementa a capacidade racional de busca de sentido ofertando-lhe um sentido que lhe é inesperado, inusitado. Charnonneau tece algumas considerações esclarecedoras sobre esta relação.

A fé não é, pois, de forma alguma, uma dissensão do espírito, uma corrosão da capacidade racional. Em um determinado momento da interrogação há como que um pacto da razão e da fé. O discurso racional emana da Consciência, rigoroso, mas incompleto e insatisfatório; ele encontra no discurso de fé, que emana também da razão, ainda que por um processo diferente, um complemento necessário, uma aliança estratégica no rumo do saber. Uma sem a outra, fé e razão ficam desfalcadas. Elas permanecem em seu desejo insaciável de conhecimentos, e sofrem deformações congênitas: a da razão que é incapaz de sondar o mistério; a de uma fé que, sem dimensão racional, se tornaria pura e perigosa credulidade […] Assim como a fé oferece à razão um acréscimo de consciência, a razão também oferece à fé um substrato que a sustenta e purifica.

(CHARBONNEAU, 1981, pp. 307-308)

É necessário pensar e distinguir certas categorias que se apresentam nesta concepção, mas, é possível tratar de exemplos históricos desta relação notando como estas instâncias se articulam postando-se em face de um mesmo problema sem se anularem. Por exemplo, o Cristianismo tem como doutrina fundamental a Trindade, a concepção de que Deus é em essência um, mas com três centros de personalidade, a discussão acerca desta doutrina durou cerca de quatro ou cinco séculos, e, mesmo ainda hoje há segmentos cristãos que não a tem em seu credo[12]. A solução teológica que culminou na doutrina da Trindade é resultado da problematização de diversos textos, alguns deveras obscuros, da Bíblia Sagrada somados a influência da filosófica grega dos Padres, mais a necessidade da Cristandade Latina em manter a homogeneidade da recém-organizada instituição igreja num mundo que as instituições – começando pelo próprio Estado – estavam se esfacelando. Uma pessoa estudando de modo imparcial acerca desta doutrina, em seus aspectos históricos e doutrinais, percebe que sua origem não é determinada racionalmente, pois a razão recusa fazer-lhe concessões. Por outro lado, constata o quão poderosa é a lógica de sua dinâmica interna, isso no contexto da visão cristã de mundo, sobretudo no contexto epocal em que foi concebida, ela é posta com uma razão quase insofismável que só encontra rejeição em hermenêuticas que se nutrem de influências diferentes em sua disposição de fé – como o arianismo dos primeiros séculos.

  1. 5.      Ciência e Filosofia e a autonomia dos campos heurísticos.

No século XX surgiram discussões acirradas acerca da proximidade entre a Ciência e a mística – principalmente a mística oriental –, sobretudo após o sucesso editorial das obras de Fritjof Capra (1939), “O Tao da Física” e “O Ponto de Mutação”.

Mas as tentativas em relacionar perspectivas religiosas com a Ciência e a Filosofia não são exclusivas dos entusiastas do orientalismo; Pierre Teilhard Chardin (1881-1955) é contado entre os pioneiros na tentativa em relacionar espiritualidade cristã e Ciência, com base evolucionista, a união de suas competências de padre jesuíta e paleontólogo se mostrou paradigmática neste sentido, nenhuma obra com semelhante propósito é tão arrebatadora quanto seu escrito “O Fenômeno Humano”. Outro exemplo, agora mais recente é a chamada Gnose da Universidade de Princenton que tem um caráter mais eclético, embora preserve muito de suas origens cristãs, os autores da Sociedade Criacionista e seus derivados são casos que mantêm uma relação tão ambígua com a Ciência que mereceriam uma abordagem a parte.

A intenção em se fazer uma Ciência ou Filosofia que legitime uma religião qualquer, fere o princípio de autonomia relativo aos campos heurísticos – suas áreas específicas de pesquisa – de cada uma delas, o comprometimento da Ciência ou da Filosofia com convicções religiosas cerceia sua liberdade e metamorfoseia em Teologia sua face de Ciência ou Filosofia.

Assim como a dignidade do homem está posta em sua liberdade, a dignidade da Ciência e da Filosofia também está posta em sua liberdade incondicional que garanta o exercício autônomo de sua investigação.  A dignidade da Ciência e da Filosofia é o valor que estas têm em si mesmas, não a utilidade que possam ter para qualquer outra disciplina; mesmo que elas sejam úteis para muitas disciplinas elas o são por efeito e não por intenção, ou seja, tanto a Ciência quanto a Filosofia podem ter utilidade para a Teologia por seus resultados investigativos e empíricos, mas não por determinações prévias dadas pela “autoridade” teológica.

Essa conclusão não implica em que um homem de fé não possa ser um cientista ou mesmo um filosofo, mas apenas que ele não pode se permitir fazer uso predeterminado da Ciência ou da Filosofia para legitimar sua fé. Pois, as instâncias em que se movem cada uma delas, ou, sobre qual cada uma delas está disposta é diferente daquela em que se dispõe sua vivência religiosa – no sentido original do termo.

Ainda assim, há certo clamor a que se executem investigações mais sérias nas fronteiras entre a Ciência e a religião, entre a fé e razão. Curiosamente as palavras finais do agnóstico Stephen Hawking (1942) em seu belo livro “Uma Breve História do Tempo”, deram novo fôlego a esse clamor.

Entretanto, se descobrimos de fato uma teoria completa, ele deverá, ao longo do tempo, ser compreendida, grosso modo, por todos e não apenas por alguns poucos cientistas. Então devemos todos, filósofos, cientistas, e mesmo leigos, ser capazes de fazer parte das discussões sobre a questão de por que nós e o universo existimos. Se encontrarmos a resposta para isto teremos o triunfo definitivo da razão humana; porque, então teremos atingido o conhecimento da mente de Deus.

(HAWKING, 1988, p. 238)

O igualmente catedrático Paul Davies (1946), colega de Hawking, aceitou o desafio de seu eminente colega e lançou um instigante livro intitulado “A Mente de Deus: A Ciência e a Busca do Sentido Último”, diferentemente das atitudes de comprometimento confessional e religioso, estes homens têm efetuado investigações importantes acerca de questões fundamentais que reportam a profundidade do problema do sentido da própria existência. Desta forma ecoa a concepção de religiosidade professada por Einstein que considerava a pergunta pelo sentido da vida como uma expressão do sentimento religioso.

Mesmo Carl Sagan (1934-1996), que mantinha uma atitude cética quanto às questões relativas à religião, apresentou uma – possível – visão (concepção) científica da espiritualidade, alertando acerca do perigo na dissociação entre ciência e espiritualidade[13].

 

Um Adendo.

Sam Harris num instigante livro, A Morte da Fé, argumenta que a fé é uma impostura, em todas as suas afirmações nada é dito acerca de qualquer estado

Sam Harris: "Morte da Fé", São Paulo, Companhia da Letras, 2005. Rica contribuição para a reflexão acerca dos males da religião.

Sam Harris: “Morte da Fé”, São Paulo, Companhia da Letras, 2005. Rica contribuição para a reflexão acerca dos males da religião.

do mundo. Parece que esta postura requer que qualquer afirmação da fé tenha

que, necessariamente, ser passível a algum tipo de constatação empírica, pois suas afirmações se pretendem referentes de alguma forma à realidade, logo, se não podem ser constatadas elas de nada nos servem, e, nem mesmo têm sentido algum, já que nada dizem a respeito do mundo[14].

Talvez, haja aqui um equivoco que leva a argumentação a laborar com o conceito de realidade marcadamente simplificado, pois pressupõe que sabemos com certeza o que seja a realidade e que conhecemos com certeza todas as suas faces. Mas, essa pressuposição é um tanto quanto ingênua, já que por evidências podemos afirmar, com certa segurança, que aquilo que consideramos “a realidade”, não passa de uma “primeira camada” do que podemos captar pelos sentidos; Max Planck certa vez afirmou que […] se nós quisermos realmente conhecer a realidade, teremos que tirar muitas camadas.

Talvez, nosso orgulho não nos permita admitir que nosso conhecimento da realidade seja, por vezes, fragmentário, parcial; quando nos reportamos a certo aspecto da realidade dado aos nossos sentidos nós o traduzimos dentro de nosso horizonte de representações, logo, o próprio arcabouço da ciência nada mais é que uma tessitura de representações que se desdobram em torno de um espectro limitado de referências que não esgotam as possibilidades da realidade.

Considerar necessário que toda alegação acerca do mundo seja passível constatação empírica, corresponde, de certo modo, à limitação das possibilidades representativas em sua referência as possíveis faces da realidade. Faces que, talvez, não sejam intersubjetivamente constatáveis, posto que estas estejam situadas na esfera do sentido e do valor, esfera que não se confunde com aquela da verdade científica, ainda que não lhe negue seu estatuto e validade. Sabemos que é possível fazer alegações constatáveis acerca do mundo, mas talvez jamais possamos fazer alegações constatáveis acerca de todas as possíveis faces do mundo, pois se isso fosse possível já não faríamos ciência posto ser ela inútil quando nosso conhecimento do mundo transbordaria em onisciência.

Conclusão.

A Ciência e a Religião ocupam “espaços” importantes na história da humanidade, é certo que em nome da Religião muitos crimes horríveis foram executados, mas, também, muitas atividades humanitárias e gestos de amor foram realizados[15]. A execução do mal não está na constituição inerente do sentimento de religiosidade, mas pode instalar-se na prática da vivência religiosa, ainda que não faça parte da religião sem si expressa a possibilidade humana em realizar o mal mesmo em posse do conhecimento daquilo que é tido como bem. De modo análogo as bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki não tornam a Ciência má, mas revelam o poder de racionalidade instrumental que sobrepujou o exercício da racionalidade substancial deflagrando uma situação em que a mais racional das sociedades assume uma forma extremamente irracional.

Distinguir entre a essência da Religião e sua vivência prática-patológica enriquece a consideração acerca da função que ela desempenha na vida do indivíduo e da sociedade.

A essência da Religião é um “sentimento”, a intuição da “presença” – ou ausência – de algo que é radicalmente Outro, algo que difere do cosmos, porém perpassa todas as suas partículas, em cuja relação aflora o sentimento de nulidade, algo que se constitui em seu Sentido e Realidade última[16], daí o movimento natural em sua busca. A Religião enquanto prática é a organização pessoal e “comunitária” deste sentimento, a instituição de crenças, dogmas, ritos que têm a intenção de “atualizar” o encontro com este Sentido último. Posto que esta seja construção humana, pode-se dizer artifício, é susceptível em gerar patologias e graves neuroses, e, realmente o faz, o que comprova a história da humanidade.

Considerando essa distinção deparamos com fiéis que não escamoteiam as dificuldades que o mundo caótico lhes apresenta, e compreendem que mesmo a mais sincera das convicções religiosas não pode mudar a situação de sofrimento humano, mas, sim o agir em conformidade com esta fé, quando ela o ordena ao amor. O ir ao encontro daqueles que realmente sofrem e fazer algo para aliviar-lhes o sofrimento, quer sejam religiosos – de qualquer segmento – quer sejam incrédulos.

O importante é que o sentimento de solidariedade seja primeiramente fundamentado não no princípio de igualdade na fé, mas sim na participação da mesma humanidade, mesmo sendo a fé ou qualquer outra instância a nos despertar este sentido para viver em conformidade com ele. Então, que não venhamos nos contentar com soluções fáceis do “mundo além”, mas façamos do outro o alvo de nosso afeto num sentido que transcenda a mera teoria, e, isso porque aceitamos que o outro, embora diferente, é semelhante a nós mesmos.

Bibliografia.

CHARBONNEAU, Paul-Eugène. O Homem à Procura de Deus. São Paulo. Editora Pedagógica e Universitária (E.P.U.), 1981.

HARRIS, Sam. A Morte da Fé. São Paulo, Companhia das Letras, 2005.

HAWKING, Stephen W. Uma Breve História do Tempo: Do Big Bang aos Buracos Negros. Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1988.

MONDIN, B. Quem É Deus? Elementos de Teologia Filosófica. São Paulo, Paulus, 1997.

PASCAL, Blaize. Pensamentos. In: Coleção “Os Pensadores”, São Paulo, Nova Cultural Editora, 1999.

RHANER, Karl. Curso Fundamental da Fé. São Paulo, Paulus, 1989.

TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. São Leopoldo, Sinodal, 1987.


[1] Os avanços da Ciência devem ser saudados pelos fiéis – das diversas religiões – com real agradecimento, sobretudo quando os forçarem a abandonar concepções confortáveis, porém, equivocadas, acerca da natureza.

[2] Aos Hebreus, 11, 27 & I Tm. 1,17.

[3] Vide JAEGER, Wener.  Paidéia – A Formação do Homem Grego.

[4] A teologia natural também é conhecida por teologia filosófica, teodicéia ou filosofia de Deus, conforme explica Battista Mondin (Vide Bibliografia).

[5] Pascal. Pensamentos, 4, 242, 243.

[6] Este problema é tratado de modo extenso por outro Prêmio Nobel, Jacques Monod (1910-1976), “O Acaso e a Necessidade”.

[7] Vide II Cor. 5,7 & Hb.11,1. As Escrituras Sagradas têm uma mensagem escatológica, nesta a fé está numa  relação de dependência com esperança, e, esta última  aponta para a consumação da mesma fé em uma dimensão de conhecimento do Divino que é mais do que a atitude de fé.

[8] Doravante não serão usadas “aspas” para as concepções científicas dos povos da Antiguidade.

[9] Este “talvez” nos remete ao prognóstico de Nietzsche (1844-1900), em que, os filósofos do futuro seriam os filósofos do talvez. Vide o parágrafo 2º do Af. 1ºDos preconceitos dos filósofos – presente em “Além do Bem e do Mal”.

[10] Vide Rom. 12, 1 & I Pe. 3,15.

[11] Não é muito elegante, mas uso de hibridismo como recurso para elaborar esta palavra, diplarracional. Dipla é uma palavra grega sujo significado é “ao lado de”, usada aqui em relação à fé, posta junto à racionalidade, indica que ambas estão lado a lado, e que cada uma delas tem sua importância para aquilo que lhe compete.

[12] Referimo-nos aos Unicistas, Unitarianos e outros grupos que professam certo Modalismo. Não nos posicionamos como aqueles que os consideram hereges – no sentido negativo da palavra – por não crerem na Trindade, antes, entendemos que eles professam uma concepção diferente daquela que é considerada hoje a posição da ortodoxia teológica cristã.

[13]  Interessantes considerações em “O Mundo Assombrado Pelos Demônios”, Ed. Companhia das Letras, 1990, Cap. 2, p. 43.

[14] Sam Harrris, por exemplo, argumenta: “Simplesmente não existe outro espaço lógico para as nossas convicções sobre o mundo que ocupamos. As afirmações religiosas, enquanto pretenderem tratar da forma como o mundo é – Deus pode realmente ouvir as suas preces; Se você tomar seu santo nome em vão, coisas muito ruins vão acontecer com você, etc. -, terão de se posicionar em relação ao mundo e às nossas outras convicções a respeito dele. E é somente se forem posicionadas dessa forma que afirmações desse tipo poderão influenciar nossos pensamentos e comportamentos subseqüentes. Para uma pessoa afirmar que suas convicções representam um verdadeiro estado do mundo (visível ou invisível; espiritual ou mundano), ela deve acreditar que suas convicções são conseqüência da forma como é o mundo. Isso, por definição, a deixa vulnerável a novas evidências” (p. 72)

[15] A transposição da Lei Canônica para as leis do Estado, estabelecendo os julgamentos com bases racionais e não mais por ordálio, o consentimento com base no casamento, a necessidade de provas de intenção de dano para configurar crime e a proteção legal aos pobres contra os ricos, a fundação de hospitais, escolas e leprosários, além da fundação das primeiras Universidades em Paris e Bolonha, talvez, seja importante lembrar da atuação de Madre Teresa de Calcutá, Martin Luther King, Mahatma Ghandi, São Francisco de Assis e o Dalai Lama.

[16] Nesta “definição” é possível perceber o uso, de modo um tanto livre, de categorias elaboradas por Friedrich Schleiermacher(1768-1834), Rudolf Otto (1869-1937) e Mircea Eliade (1907-1986), estes são os principais proponentes da abordagem fenomenológica e hermenêutica da religião.

5 comentários em “Razão, Fé e Ciência – Assunto Fascinante, Relações Conflituosas.

  1. Paulo Cezar de Mello disse:

    Fé e ciência sempre estiveram presentes nas mesmas cabeças (pensemos, por exemplo, em Newton e Descartes). Quando Heráclito disse há 2500 anos que todas as coisas estão plenas de deuses, não se tratava de um místico divinizando a natureza, mas de um pensador observando que os seres em torno dele moviam-se por algum tipo de energia vital não visível. Não havia então, e durante séculos não houve separação entre, digamos, o exame metódico do meio material e a atribuição a esse meio de essências não verificáveis por esse exame. Tal separação, na verdade, só se deu a partir da adoção de uma FÉ num tipo de ciência que hoje chamamos de racional, materialista etc. Hoje vemos os meios de comunicação convencendo-nos de que algum produto é bom, infalível, porque foi “cientificamente testado”. Revistas citam novas teorias que foram sacramentadas por institutos de prestígio em universidades respeitadas. Não vimos pessoalmente os experimentos que levaram a isso, mas as credenciais da universidade, do laboratório, dos métodos alegadamente empregados, do cientista etc.nos convencem da seriedade do que se fala. Não é isso uma espécie de fé. Por outro lado, não há exemplos de fé pessoal que é confirmada dia a dia na experiência de vida da pessoa? Qual o sentido de continuarmos insistindo numa separação que, como tantos outros tipos de separação, é puramente artificial, servindo só para nosso conforto emocional ou para interesses nem sempre muito racionais?

    • Diego Azizi disse:

      Existem muitos erros historiográficos em seu comentário. Primeiramente, Tales de Mileto foi o responsável (segundo a doxografia) por dizer que tudo está cheio de deuses, juntamente com a afirmação de que o princípio que rege o mundo é o da umidade. Temos aí o início da tentativa de compreender e explicar o mundo de maneira argumentada, diferente da explicação mítica apoiada pela autoridade. A passagem de um discurso a outro foi demorada, mas não tanto como afirma. Já em Platão, a diferença entre crença (pistis) e ciência (epistême) já é feita. Platão é o grande responsável pelo conceito clássico de ciência (conhecimento universal e necessário) e Aristóteles seu grande sistematizador. A confusão começa a ser feita no medievo, quando a ciência deve estar de acordo com a palavra verdadeira de Deus. Se há contradição, é a fé que deve ser mantida. Contudo, os objetos dos dois discursos não são os mesmos, nem seus métodos. Querer juntar aquilo que por questões de princípio são separadas, é errar. Simplesmente. Toda pesquisa tem dados, anotações de observação e resultados. Eles são verificáveis e as experiências estão disponíveis para quem quiser verificar. Não precisamos de fé no cientista se suas experiências são acessíveis a todos que quiserem observá-las. Vá atrás que os pesquisadores lhe mostrarão com o maior prazer seus resultados, negativos ou positivos.
      O sentido em separar é não cometer o erro de unir aquilo que é distinto por natureza de princípio. Agora, se quer juntar os dois tipos de discurso, o que acontecerá é a indiferenciação e a contradição absoluta.
      O texto de Carlos foi mais do que didático, e lendo-o com atenção e sem dogmatismo, é evidente que ele está com a absoluta razão.

    • Raphael Alario disse:

      Prezado, Paulo Cezar de Mello.
      Agradeço por ocupar-se em escrever-me.
      Tenho respeito pela tua opinião, embora, como podes perceber pelo teor de meu escrito, ela é a antípoda de minha proposta.
      Tendo meu amigo, Diego Azizi, esclarecido alguns aspectos acerca do que disse acima; julgo necessário me referir de modo mais específico a alguns pontos.
      1º – Reportar-se a Antiguidade grega para discutir as questões acima é um exercício que requer muita cautela. Pois a distinção entre natural e sobrenatural é um fenômeno que ocorrerá lentamente na história do pensamento, o próprio conceito grego de physis¸ segundo Bornheim (1967), “[…] significa todo existente, incluindo desde fenômenos hoje considerados como da natureza, estendendo-se ao home, suas obras e atividades, até os deuses; e incluindo também, o processo de gênese e do devir de todo existente.” Mas, como bem destacou o Diego Azizi, há já nos pensadores pré-socráticos as primeiras tentativas de explicações não mais dependentes de agentes sobrenaturais e mitológicos.
      2º – Bom, mesmo o falar de uma “energia vital não visível” não requer necessária mente que se traga a tona qualquer conceito de divindade, e, consequentemente de fé na mesma. O que propiciou a origem da ciência moderna, de acordo com Whitehead (1861-1847), foi a “[..] convicção instintiva da existência de uma ‘Ordem de Coisas’ e em particular de uma ‘ordem da Natureza’”, embora que esta ideia de Ordem tem sido colocada em questão desde Hume (1711-1776), porém não entraremos no mérito da questão. A busca de explicação desta “Ordem”, grosso modo, pode ser dada religiosa ou cientificamente. No primeiro caso reporta concepções míticas ou teológicas, e depende de fé na autoridade de uma instância sobrenatural que a legitime, no segundo caso, se busca a explicação racional da natureza por meio de um processo metódico que inclui a observação e a experimentação.
      3º – A “verdade” científica é primeiramente assumida como tal no interior de uma determinada comunidade, a comunidade científica, esta emprega todos os esforços para que determinada teoria seja testada por meio de observações e experimentos. Em realidade as concepções mais contemporâneas acerca da ciência, principalmente devido o falsificacionismo de Popper (1902-1994), não lidam tanto com a verdade de uma teoria, mas apenas com a corroboração da mesma mediante o método acima, isso significa estas teorias não resistem ao teste elas devem ser substituídas. Como já foi dito pelo nosso amigo Diego, as pesquisas e experiências são acessíveis a todos e seus resultados positivos e negativos podem ser averiguados por qualquer pessoa interessada. Naturalmente há muita ingenuidade e (ou) má intenção em diversos veículos de comunicação, portanto sugiro que a busca de informações sobre pesquisas científicas seja realizada em revistas especializadas, realmente reconhecidas, tais como Scientific American, ou, as revistas e periódicos científicos das grandes universidades.
      4º – A palavra fé é usada em relação à ciência no sentido conotativo, ou seja, significa que é uma confiança em que método científico e seus princípios quando corretamente aplicados, nas condições apropriadas alcançarão resultados propostos, corroborando ou não com determinada teoria. Não questionamos que alguns têm fé no sentido denotativo, religiosa, na ciência, porém esta é disposição psicológica deste ou daquele individuo especificamente, e caracteriza-se como aquilo que é oposto do exercício saudável da ciência, o cientificismo, que Cuvillier (1887-1973) define como: “uma concepção deformada da ciência, que consiste: ou em tomá-la como conhecimento dogmático, sistema fechado e definitivo, ou em pedir-lhe a solução de todos os problemas”. Repare que a ciência tem aplicabilidades especificas, assim como o tem outras disciplinas.
      5º – A tendência em separar, em delimitar estes dois campos é um forte antídoto contra todo dogmatismo, inclusive contra o cientificismo.
      Atenciosamente,
      Carlos Eduardo Bernardo.

  2. Rogerio Trindade disse:

    Sou estudante de filosofia da Faculdade Federal da Paraíba e conheci o blog hoje. Admirei a iniciativa do projeto e também a qualidade do conteúdo disponibilizado pelo blog. Irei acompanhar a página de hoje em diante. Meus parabéns.

    • Raphael Alario disse:

      Prezado, Rogério Trindade.
      Agradecemos a apreciação ao nosso blog. Temos como objetivo divulgar a filosofia e incentivar a disseminação da cultura. Ficamos felizes em ver que nosso trabalho tem alcançado muitas pessoas e tem sido ferramenta importante para estudantes, professores e todos os interessados. Este feedback do público faz com que queiramos, cada vez mais, melhorar nosso projeto.
      Um abraço afetuoso.
      Carlos Eduardo Bernardo.

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