Nietzsche, o pensamento trágico e a afirmação da totalidade da existência

A inocência do vir-a-ser é o “grande sim” que Nietzsche buscava com sua filosofia da tragédia, analisa Oswaldo Giacoia. Concepção trágico-pagã de justiça era contraposta às teorias de justiça hegemônicas da modernidade europeia, marcadas pela influência espiritual do Cristianismo.

Por: Márcia Junges

“Um modo de pensamento que fosse capaz de assumir e afirmar a totalidade da existência, na integridade de seus aspectos, incluindo o que nela existe de sombrio e luminoso, de alegre e doloroso, de desfalecimento e exaltação. Trágico é um pensamento capaz de acolher e bendizer tanto a criação como a destruição, a vida como a morte, a alternância eterna das oposições, no máximo tensionamento”. A explicação é do filósofo Oswaldo Giacoia, na entrevista exclusiva que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. Antecipando aspectos que aprofundará em sua conferência desta segunda-feira, 24 de maio, intitulada Nietzsche e o pensamento trágico, dentro do Ciclo de Estudos Filosofias da Diferença – Pré-evento do XI Simpósio Internacional IHU: O (des)governo biopolítico da vida humana, Giacoia acentua que uma filosofia trágica “prescinde de uma visão jurídica e culpabilizadora da existência,  acredita na inocência do vir-a-ser, não nega nem condena, mas aceita a vida sem subtração e nem acréscimo”. Segundo ele, Nietzsche queria fazer ressurgir a tragédia porque percebia nela “uma forma de vida marcada pela autenticidade e pela recusa de uma postura ingenuamente otimista, artificiosa, satisfeita e conformada com um ideal de felicidade individual e social reduzida a conforto, segurança, ausência de sofrimento”. O artista que poderia levar a termo tal feito seria Richard Wagner, compositor apto a “fazer reviver o mito pelo espírito da música, redescobrindo a profunda relação entre arte, religião e política, própria dos gregos da era da tragédia”.

Graduado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), Giacoia é mestre e doutor em Filosofia por esta instituição. É pós-doutor pela Universidade Livre de Berlim, Universidade de Viena e Universidade de Lecce, Itália, e livre docente pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde leciona no Departamento de Filosofia. Especialista em Nietzsche, sobretudo no seu pensamento político, publicou, entre outros: Nietzsche – Para a Genealogia da Moral (São Paulo: Editora Scipione, 2001), Nietzsche como psicólogo (2ª ed. São Leopoldo: Unisinos, 2004), Sonhos e pesadelos da razão esclarecida: Nietzsche e a modernidade (Passo Fundo: Editora da Universidade de Passo Fundo, 2005) e Nietzsche & Para Além do Bem e Mal (2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como pode ser definido o pensamento trágico?

Oswaldo Giacoia – Uma definição resumida do conceito de trágico no pensamento de Nietzsche , que poderia incluir as diferentes tematizações e problematizações desse conceito, seria a de um modo de pensamento que fosse capaz de assumir e afirmar a totalidade da existência, na integridade de seus aspectos, incluindo o que nela existe de sombrio e luminoso, de alegre e doloroso, de desfalecimento e exaltação. Trágico é um pensamento capaz de acolher e bendizer tanto a criação como a destruição, a vida como a morte, a alternância eterna das oposições, no máximo tensionamento. Uma filosofia trágica prescinde de uma visão jurídica e culpabilizadora da existência,  acredita na inocência do vir-a-ser, não nega nem condena, mas aceita a vida sem subtração e nem acréscimo. Uma existência trágica é aquela que, sem depender de uma crença na ordenação e significação moral do mundo, não considera o mal e o sofrimento como uma objeção contra a vida.

IHU On-Line – Qual é o seu contexto de surgimento?

Oswaldo Giacoia – O contexto de surgimento da problemática do trágico no pensamento de Nietzsche encontra-se em suas obras de juventude, nas quais houve um predomínio da arte e da metafísica da vontade, inspiradas em Arthur Schopenhauer  e Richard Wagner . Posteriormente, Nietzsche identificou sua obra juvenil com uma “metafísica de artistas”, que procura julgar a ciência sob a ótica da arte, e esta sob a perspectiva da vida. A despeito das variações internas que a obra de Nietzsche experimenta ao longo da vida e da produção filosófica de seu autor, o tema da tragédia – mesmo que não mais firmado sobre o par conceitual apolíneo-dionisíaco – permanece um aspecto central de sua filosofia.

IHU On-Line – Analisando a obra de Nietzsche como um todo, é correto falarmos numa centralidade do pensamento trágico na sua filosofia? Por quê?

Oswaldo Giacoia – Minha resposta a essa pergunta é afirmativa, como já insinuei na resposta à questão anterior. Os temas cardinais do pensamento de Nietzsche – e aqui me refiro a aspectos por ele reconhecidos como medulares em toda sua crítica da religião, da metafísica e da moral, a saber o problema da culpa, do ressentimento, da responsabilização – estão indissociavelmente ligados à sua concepção de tragédia.

IHU On-Line – Quais são as fontes nas quais Nietzsche busca inspiração para escrever O nascimento da tragédia no espírito da música?

Oswaldo Giacoia – Essas fontes podem ser encontradas em diferentes registros. Os mais conhecidos são a filosofia de Schopenhauer e a estética de Richard Wagner. Mas não se pode desconsiderar a presença de Kant , Schiller , dos românticos alemães, assim a “frequentação” dos textos da antiguidade clássica, filosóficos e poéticos.

IHU On-Line – Nesse sentido, por que o filósofo aposta em Wagner, a princípio, como o artista capaz de fazer renascer a tragédia?

Oswaldo Giacoia – Entre outras razões, porque o jovem Nietzsche julgava perceber em Wagner um vigor artístico, ético, filosófico e político capaz de regenerar a capacidade de re-criar um público de artistas, não entorpecido pelos artificialismos da ópera e da crítica de arte, nem desertificado pela erudição e pelo historicismo. Wagner seria capaz de fazer reviver o mito pelo espírito da música, redescobrindo a profunda relação entre arte, religião e política, própria dos gregos da era da tragédia.

IHU On-Line – E por que Nietzsche queria tanto fazer ressurgir a tragédia?

Oswaldo Giacoia – Porque nela via uma forma de vida marcada pela autenticidade e pela recusa de uma postura ingenuamente otimista, artificiosa, satisfeita e conformada com um ideal de felicidade individual e social, reduzida a conforto, segurança, ausência de sofrimento.

IHU On-Line – Podemos compreender o pensamento trágico ao qual Nietzsche se refere como uma reação, uma contraposição ao pensamento racional, do qual Sócrates  era o grande ícone?

Oswaldo Giacoia – Não creio que o pensamento trágico de Nietzsche se refira a uma recusa do pensamento racional, do qual Sócrates era o grande ícone. Ao contrário, devemos prestar muita atenção para a imensa riqueza das apreciações de Nietzsche sobre Sócrates, o que já ocorre desde O nascimento da tragédia, em que Sócrates figura como o pensador que marca o limiar da modernidade cultural. O que Nietzsche denuncia não é a racionalidade lógica, mas sua tirania, ou aquilo que nela assume a forma delirante de uma compulsão: a pretensão de curar integralmente todas as feridas da existência, de desvendar todos os enigmas do mundo, e não somente conhecê-lo, mas também corrigi-lo.

IHU On-Line – É correto afirmar que a tragédia grega e a filosofia de Heráclito  são a inspiração para o conceito de amor fati? Por quê?

Oswaldo Giacoia – Deleuze  percebeu muito bem que a filosofia de Heráclito é uma verdadeira pedra de toque para se compreender o pensamento de Nietzsche. Penso que o mesmo vale para as tragédias de Ésquilo  e Sófocles  – e mesmo para Eurípedes , a despeito do juízo negativo de Nietzsche quanto ao autor de As Bacantes. Isso porque a tragédia representa, para Nietzsche, a transfiguração da sabedoria de Sileno : para os humanos, o bem maior é o que lhes é inalcançável: não ser, nada ser, pois o mal maior é ter nascido. O outro bem, esse sim acessível aos homens, é morrer logo. A tragédia é a transformação desse horror numa vida da qual não queremos, por nada, nos desprender.

IHU On-Line – De que forma o pensamento trágico nietzschiano é uma crítica à moral cristã?

Oswaldo Giacoia – Sob um aspecto que deve ser bem compreendido para poder ser também justamente avaliado. Parece-me que, do ponto de vista de Nietzsche, o Cristianismo, ou ao menos algumas das vertentes do Cristianismo, concebe a existência sob a ótica da culpabilização e do castigo, e desvalorizam o mundo, a vida terrena, contrapondo-a a uma vida suprassensível, a um mundo ideal, situado no além.

IHU On-Line – Até que ponto estão imbricados o pensamento trágico e a concepção de justiça em Nietzsche? Como essa relação resulta numa ruptura ao conceito cristão de justiça?

Oswaldo Giacoia – A concepção de justiça e o pensamento trágico guardam profunda relação na filosofia de Nietzsche, tanto que essa relação se encontra presente, com muita intensidade, já nos textos de juventude, e assim permanece até seus derradeiros escritos. Em considerável medida, Nietzsche tem a pretensão de contrastar uma concepção trágico-pagã de justiça, em oposição às teorias da justiça hegemônicas na modernidade europeia, todas profundamente marcadas pela influência espiritual do Cristianismo.

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