Resumo – “República” de Platão – Livro IV

O livro IV começa do último tema do livro III, isto é, ainda falando dos guardiões e da sua condição de pobreza. Adimanto questiona se não estaria assim condenando os guardiões à infelicidade. Sócrates responde positivamente e acrescentando que se faz isso não só pelos próprios guardiões, mas pelo bem de toda a cidade, pois o poder de administrá-la está em suas mãos, além da própria felicidade dela.

A partir daí, Sócrates começa a demonstrar os efeitos de como as diferenças econômicas constituem dificuldades para a harmonia da cidade e sua defesa. Sua analogia é comparável ao do homem quando se dedica ou muito à música, isto é, à alma ou quando se dedica muito à ginástica, i. é., ao corpo no livro III. Ou seja, ele aponta como a riqueza é também a origem da preguiça e do luxo, enquanto a pobreza, à rudeza e um modo desleixado de trabalhar. Desta maneira, a cidade deve se organizar como um corpo só, não podendo se dar ao luxo de disputas internas para o seu próprio enfraquecimento. Cada parte é crucial na cidade, portanto deve-se também dar importância ao todo da cidade, já que ela não pode ser muito pequena ao ponto de não ser auto-suficiente e não pode ser muito grande ao ponto de não ser unida.

Decorre daí que as pessoas tenham educação a ser cidadãos desde crianças e tenham o que lhes sejam devidas, como Sócrates diz no final do livro III  por meio da metáfora dos metais. Pois, não buscando o que não lhes é devido, os estamentos não se confundem com pessoas fora de lugar, por exemplo, um bom músico como guardião. Então, a cidade tem cada uma das suas partes com os homens com o tipo de alma correlata, se tornando mais organizada e auto-eficiente, isto é, feliz.

Aqui Sócrates dá por encerrada a discussão sobre a fundação da cidade, dando para seus interlocutores a vez para diferenciar a justiça da injustiça e saber qual delas é necessária para ser feliz, uma vez que se tem por unânime que Apolo já dera as leis referentes ao culto das divindades e dos mortos[1] Desta maneira bem fundada, a cidade só poderá ser sábia, corajosa, moderada e justa. Porém, há de se averiguar ainda o que são cada uma dessas qualidades da cidade.

A sabedoria é fazer boas escolhas. No entanto, há diferentes áreas de escolhas, a saber, a de determinado campo de conhecimento e a do conjunto da cidade, o todo. Este último equivale aos guardiões e aos seus chefes. Por estes serem tão poucos na cidade e terem tão crucial saber para eles, depende de poucos a felicidade de muitos, ou melhor, da cidade inteira, sendo este o único saber que merece o nome de sabedoria, já que corresponde ao todo.

Já a cidade corajosa é aquela que mantém com firmeza a correta opinião sobre as coisas a temer, isto é, as coisas que lhe foram ensinadas na sua educação, que fixaram-se mais fortemente por ter ocorrido na juventude.

Quanto à moderação, Sócrates diz, se assemelha a uma harmonia, porque ela é uma espécie de domínio que se estabelece sobre os prazeres e desejos, fazendo com que a pessoa se coloque acima de si. Platão já havia dito algo semelhante nos livros anteriores, sobre como a música pode acalmar os ânimos, os desejos sexuais, o Eros. No entanto, aqui há uma diferença, esta harmonia entre os elementos, aqui se expressam como um misterioso eu superior e eu inferior.

Sócrates diz “o objetivo dessas expressões é tentar indicar que na alma dessa mesma pessoa há uma parte melhor e uma pior, e que toda vez que a parte naturalmente melhor está no controle da pior isto é expresso declarando-se que a pessoa é auto-controlada ou tem domínio de si mesmo. De qualquer modo, a expressão domínio de si mesmo ou autocontrole é um termo de louvor. Mas, quando,  ao contrário, a parte melhor (que é menor) é dominada pela pior (que é a maior), devido a uma má criação ou más companhias, isto é designado como descontrole ou licenciosidade e constitui uma censura”[2].

Desta forma, diferentemente das outras qualidades, a sabedoria e a coragem, que podiam pertencer a um certo grupo da cidade, a harmonia tem de pertencer a todos, isto é, a própria moderação.

Por fim, a discussão toma o tema da justiça novamente. E Sócrates parece apenas retomar algo que já havia dito no livro anterior e mesmo neste, o IV. Cada um ocupar-se com o que lhe foi destinado pela natureza, eis a justiça. Ou seja, também daí vem que ninguém se aproprie dos bens alheios e seja privado dos próprios. Entretanto, isso diz respeito à cidade, veremos nesta próxima parte como o que foi dito até então se comporta na alma.

Segundo Sócrates, na nossa alma encontramos impulsos, sentimentos e outras atividades. Cada parte da alma deve produzir efeitos coerentes, sendo que já que temos muitos efeitos devemos possuir diferentes partes para tais atividades. Sócrates distingue uma parte que impele a alma a fazer algo e outra que impede, ou seja, uma que raciocina e outra que deseja, o apetitivo irracional. No entanto, são três as partes da cidade, a dos negócios, a da defesa e a do governo.

Desta maneira, deve haver três tipos também, a saber, a parte racional, a cólera, ira ou animosidade que é o auxiliar do elemento racional[3], e por fim o apetitivo. Como na cidade, deve haver harmonia entre as partes e elas existem nas duas em proporções iguais. Além do mais, os motivos para fazer a cidade sábia, corajosa e justa devem ser os mesmos para a alma do homem.

Assim, Sócrates diz que as virtudes podem nos manter saudáveis, por meio do caráter inabalável da coragem, do comando da sabedoria, da harmonia da moderação e da disciplina da justiça em se manter na tarefa a qual lhe é devida. Sendo assim, a doença só poderia ser o vício, isto é, a enfermidade, a feiúra e a fraqueza da alma. Em uma palavra, injustiça.

No entanto, falta-nos observar se vale a pena praticar a justiça independentemente de ser visto ou se é melhor ser injusto quando não se tem de pagar. Porém, Glauco já adverte.

Mas, Sócrates, tal investigação me parece absurda agora que se mostrou serem a justiça e a injustiça como as havíamos descrito. Mesmo que alguém possua todo tipo de comida e bebida, muitíssimo dinheiro e toda espécie de poder para exercer domínio, não vale a pena viver quando a constituição do corpo está arruinada. Assim, mesmo que alguém possa fazer o que bem lhe aprouver, exceto aquilo que o libertará do vício e da injustiça e o leve a ter acesso à injustiça e à virtude, de que vale a vida se sua alma – aquilo por meio do que ele vive – está arruinada e tumultuada?[4]

 

Bibliografia:

PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006.

MIRANDA, Mário. Crenças: Filosofia e religião na leitura da República. 2011.

STRAUSS, Leo. Jerusalém e Atenas.


[1] Em uma dentre tantas ocasiões, Sócrates mostra quão infundada está a acusação feita a ele de ateu.

[2] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 195

[3] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 209

[4] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 216

3 comentários em “Resumo – “República” de Platão – Livro IV

  1. rose santiago de jesus disse:

    nota-se que todos estes grandiosos filosofo acreditavam no poder da divindade ao perceberem que poderiam mudar os pensamentos de milhares acredita-se que o poder das palavras fariam efeito atingindo sentimentos desconhecidos. dando a eles o verdadeiro motivo da razão de sua esisténçia humana.

  2. eliane disse:

    muito bom!

  3. Lais Barros disse:

    Muito bom,me ajudou bastante para a apresentação do meu trabalho!!

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