Resumo – “República” de Platão – Livro III

Paulo Abe

 

O livro III continua do desenvolvimento final do livro II, os guardiões e sua educação. Todo ele se limitará a especificar como será essa educação em suas temáticas, censurando os antigos poetas. Sócrates inicia o livro pelo Hades, solicitando para que este não seja depreciado e nem que se tenha medo, pois os guerreiros devem ser corajosos perante a morte. Desta maneira, conclui que todas as passagens de Homero e outros poetas que tenham tais conotações sejam eliminadas, censuradas, pois não engrandecem a virtude, que o guardião tem de possuir.

O mesmo se repete nas passagens que falam sobre o riso descontrolado, a mentira, a exacerbação do Eros, o luxo, o suborno e outros vícios. Ou seja, Platão procura a matéria perfeita da poesia, das fábulas e mitos a custo da história. Os deuses e heróis devem se comportar no agir virtuosamente para que “não produzam na juventude uma forte predisposição para os atos maus”[1], pois “ o que os poetas bem como os prosadores nos contam a respeito dos seres humanos  é  ruim. Dizem eles que muitos indivíduos injustos são felizes e muitos justos são infelizes, que a injustiça é  vantajosa se não for descoberta e que a justiça é  o beneficio alheio, mas também o prejuízo próprio”[2]. Aqui se encerra essa primeira parte quanto à matéria, sendo o próximo tema sobre a forma da poesia agora.

Há diferentes tipos de relatos poéticos. Existe a maneira direta, onde o narrador não se confunde com o personagem; a maneira representativa, onde o narrador produz suas narrativas por meio da imitação, ou seja, “quando ele compõe um discurso como se ele fosse outra pessoa (…) diríamos que está tornando seu próprio estilo o mais semelhante possível daquele da pessoa a quem concede a palavra”[3]; e a terceira maneira é quando se imita certas coisas e não outras.

A imitação forma “hábitos no que tange aos gestos corporais, a voz e o pensamento”[4]. Então, quando se apresentar na narração um personagem que seja um escravo ou uma mulher; alguém apaixonado, colérico, tomado por dores ou agindo de maneira malévola; artesãos das artes inferiores, loucos, animais ou a própria natureza, o guardião não imitará. Pois, este guerreiro deve ser um homem moderado e deve se identificar com o caráter digno, tendo em sua educação uma poesia majoritariamente sem imitação, mas com uma pequena quantidade de imitação apenas dos homens virtuosos. Assim, se admite apenas “o imitador puro do homem bom”[5][6].

Na poesia, Platão também esmiúça o tema com Glauco, que é músico, dividindo a poesia em odes e canções e colocando a música em três elementos: letra, harmonia e ritmo. A partir de então, a poesia será vista sob este novo aspecto. A censura começa novamente com os cantos fúnebres e lamentosos[7]. Logo depois, tudo o que incentiva a embriaguez, a indolência ou efeminação[8] e a ociosidade[9] é descartado para o guerreiro. O que sobra são as duas modalidades: para a violência, resistência, autocontrole e coragem; e para a paz e persuasão[10].

Após a decisão das modalidades, Platão discorre sobre os ritmos e letras que alguém de coragem e moderação deveria ouvir. Até “o prazer mais intenso e mais ardente”[11], o sexual se torna moderado e harmonioso com a educação através da música. No entanto, Platão ressalva que o amor deve ser direcionado apenas para o que é nobre e belo, acabando aqui a primeira parte do livro sobre a poesia. Agora a discussão avança para a educação física.

“Uma boa alma, devido a sua própria excelência, torna bom o corpo o quanto isso seja possível”[12]. Por isso, o guardião deve se focar na atlética e na dietética. Ou seja, evitar embriaguez e o luxo, enquanto devem se focar na disciplina, no regime alimentar e num treinamento rigoroso. Desta maneira, todos esses cuidados, essa moderação evitam a doença e a necessidade

Aqui é onde, na opinião do autor desta resenha, se encontra a parte mais importante do livro III. Platão compara os médicos aos juizes. Enquanto o bom médico deve provar de todas as doenças no corpo e curar os corpos com sua alma, o juiz deve reger outras almas com sua alma, no entanto deve permanecer íntegro e puro. Ou seja, não devem conhecer o vício e o mau. “Um bom juiz não deve ser uma pessoa jovem, mas velha, na vida um tardio conhecedor da justiça e alguém que haja se cientificado dela não como algo interno em sua própria alma, mas como algo estranho e presente nos outros – alguém que, após muito tempo, reconheceu que a injustiça é naturalmente má não por a ter experimentado pessoalmente, mas através do conhecimento”[13].

Entretanto, se a educação discutida até então for feita, os jovens terão a prática da justiça no dia a dia, o que torna desnecessária a existência do juiz ou a justiça dos tribunais. Assim, finalmente se retorna ao tema da justiça do Livro II, depois de se ter chegado à sua origem, a educação.

                Após isso, o tema sobre quem devem ser os governantes é abordado. Os mais velhos, os melhores (na guarda do Estado), os mais inteligentes e que melhor cuidem dos interesses do Estado, pelo que lhe é vantajoso são as primeiras definições destes governantes. A partir de então, Sócrates propõe testes de persuasão na educação do guardião e uma observação constante em seu desenvolvimento.

                Por fim, Sócrates fala sobre o conto fenício e nele finaliza o livro nos três estamentos da sociedade nova que procura. Um pouco de ouro para aqueles que irão governar; prata para os auxiliares; e ferro e bronze aos agricultores e outros trabalhadores. Contudo, quanto às gerações seguintes, contatando-se com a misturo de metais, as pessoas devem ter o que lhes é devido. Ou seja, se um ouro tem um filho bronze, tal será seu destino. No entanto, um guardião nunca será bronze ou prata, mas ouro. E por ter ouro na alma, o guardião nunca poderá ter ouro em forma corpórea, sendo este sempre pobre.


[1] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 139

[2] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 140

[3] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 141

[4] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 144

[5] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 147

[6] Fato interessante é que o próprio Platão nos seus diálogos imita a todos, como um pensamento que vai se desenvolvendo.

[7] Mixolídio  e o síntono-lídio.

[8] As jônicas e as lídias são boas para banquetes, mas não para guerreiros.

[9] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 150

[10] Isto é, a modalidade dória e frigia respectivamente.

[11] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 156

[12] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 157

[13] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 165


[1] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 139

[2] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 140

[3] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 141

[4] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 144

[5] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 147

[6] Fato interessante é que o próprio Platão nos seus diálogos imita a todos, como um pensamento que vai se desenvolvendo.

[7] Mixolídio  e o síntono-lídio.

[8] As jônicas e as lídias são boas para banquetes, mas não para guerreiros.

[9] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 150

[10] Isto é, a modalidade dória e frigia respectivamente.

[11] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 156

[12] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 157

[13] PLATÃO, A República (Da Justiça). Edipro. São Paulo. 2006. p. 165

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