Eleições 2012 – A Construção da Democracia Participativa No Cenário da Incerteza

Carlos Eduardo Bernardo

Introdução.

A dimensão política é uma das mais importantes dimensões da vida em sociedade, senão mesmo a mais importante, conforme Aristóteles (384-322 a.C.) a ética pode ser compreendida como a esfera da moral individual e a política como a esfera moral social. Mas, não apenas isso, na vida em sociedade a política legisla sobre a própria moral, instaurando um éthos adequado a cada contexto de convívio. Logo, a reflexão política está estreitamente ligada à ética. Não há como se pensar em política dissociada da ética, pois essa noção é propriamente nossa herança da tradução latina da categoria grega de política.

O filósofo não pode se furtar ao exercício da reflexão política, em todas as suas nuances, pois é de sua competência contribuir com olhar crítico e participativo para que a vida em sociedade encontre êxito em seu objetivo final a realização de seus cidadãos, ou como diz o estagirita, a felicidade de seus cidadãos.

O atual cenário político brasileiro e a iminência do processo de sucessão eleitoral à prefeitura da cidade de São Paulo exigem que nos pronunciemos e que pensemos junto aos leitores quais alternativas se nos apresentam como viáveis ou quais devemos nos esforçar em construir no exercício pleno de nossa cidadania.

Como acadêmico valorizo reflexões acerca de assuntos que, por vezes, situam-se em esferas que muitos leitores consideram – na maioria das vezes acertadamente – abstratas em demasia. Mas, o acadêmico, o intelectual, o universitário estão todos imersos na sociedade, contribuem ou prejudicam a construção do social com sua atuação ou omissão. São importantes, bem como todas as demais personagens com quem convivem, para a construção de um mundo melhor, mais justo e mais humano.

 

 

O Cenário da Incerteza.

Intitulamos assim esta secção porque o cenário político contemporâneo nos coloca em estado de total incerteza em relação aos partidos e às formas de expressão políticas com as quais temos que lidar.

Fernando Haddad. O PT aposta na campanha orientada para o tema da novidade, mas o faz com cautela focando em personalidades específicas do partido.

Tínhamos, até pouco tempo, o Partido dos Trabalhadores (PT) como referência no que tange à idoneidade política e engajamento no empenho por uma politização da sociedade. Porém, as ações do governo Lula e a aparente continuidade na gestão da presidente Dilma Roussef movimentaram o pêndulo da gestão administrativa na direção cada vez mais acentuadamente populista e envolvida em questões morais e de costumes, que propriamente políticas de Estado que visem à construção de uma sociedade orientada para a justiça. Além disto, o julgamento do Mensalão trouxe à tona o lado mais obscuro do PT, corrupção, lavagem de dinheiro e desvio de verbas públicas, compra de votos parlamentares, tráfico de influências e outros crimes que ferem frontalmente a todos nós cidadãos brasileiros. Esta situação delineou a campanha de Fernando Haddad que têm explorado mais a imagem e a popularidade do ex-presidente Lula[1] e da atual presidente Dilma, que a legenda petista. Como se isso fosse insuficiente na disputa à prefeitura de São Paulo o PT buscou e fez aliança com Paulo Maluf (PP) que, dentre outras coisas, é herdeiro político da ditadura militar, este episódio que

Aliança insólita: Lula, Haddad e Maluf. O que é lícito fazer pelo poder?

levou à renúncia imediata de Luiza Erundina ao cargo de vice na chapa de Haddad.

O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) que sempre teve em São Paulo seu mais forte colégio eleitoral, ainda que o PT tenha conseguido eleger Luiza Erundina e Marta Suplicy em anos recentes, encontra uma crise acentuada de seu eleitorado, e, mais ainda de sua imagem na pessoa do atual candidato à sucessão municipal José Serra. Isso devido aos seus sucessivos abandonos dos cargos assumidos[2], o que suscitou extrema desconfiança em seus eleitores. Somemos a isso a alta taxa de impopularidade relativa à gestão do prefeito Gilberto Kassab (ex-PL, ex-DEM e atual PSDPartido Social Democrático), cuja associação com Serra foi minimizada neste período, mas não esquecida pela população da cidade. Além disto, a imagem de Serra está fortemente vinculada, inclusive em campanha, ao atual governador Geraldo Alckmin (PSDB) que, por sua vez, enfrenta uma crise abissal de popularidade, suas atitudes rígidas em repressão aos movimentos de contestação, e, em especial a desapropriação vergonhosa dos moradores do Pinheirinho, trazem o estigma de uma gestão que privilegia os poderosos e despreza vozes contrárias. Temos ainda o fato que, embora, seja notório que a política econômica exercida pelo PSDB seja totalmente orientada pelo modelo neoliberal, aquele que esvazia as responsabilidades do Estado fortalece iniciativa privada; o livro Privataria Tucana[3] (Geração Editorial, 2012) do jornalista Amaury Ribeiro Junior, acusa a gestão do PSDB de realizar esquemas escusos durante o mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) que, de certa forma refletem negativamente na imagem do

José Serra. PSDB uma campanha em que a personalidade se sobrepõe ao partido. Não é possível que o tiro saia pela culatra?

atual candidato José Serra.

Esses acontecimentos lançaram-nos num vácuo partidário, em uma situação em que não identificamos aqueles em que possamos confiar nossa representatividade.

Num diagnóstico sempre evocado pelos militantes do PT, uma parcela substancial da população brasileira “moveu-se” da chamada faixa de pobreza e inseriu-se na “nova classe média”, ainda que possam ser questionados os parâmetros usados para tal asseverativa, consideremos que houve uma mudança no perfil sócio-econômico de grande parcela da população.

Evocando este fenômeno disputam os principais partidos à preferência eleitoral também destes agentes, sabendo que estes necessitam de uma personagem representativa que lhes garanta a continuidade deste novo status.

Mas, se o PT e o PSDB estão envoltos em tão difíceis circunstâncias diante do público, qual a nova alternativa para nós, os eleitores?

Temos, então, a ascensão do candidato Celso Russomanno, Partido Republicano Brasileiro (PRB), tendo suas origens políticas ligadas ao PSDB e a ninguém menos que Paulo Maluf.

Russomanno tem a imagem de palatino da verdade, construída na forma midiática, ao longo de sua carreira televisa, ele é tido como defensor dos direitos do consumidor. E ao contrário do que pensam certos analistas – realmente muito sérios e mais competentes do que eu pretenda ser –, isso conta muito, pois essa chamada ascensão da nova classe média afirma a seus atores que eles adquiriram, efetivamente, o estatuto de cidadãos.

Apelando a esta parcela da população, Russomanno ganha força, pois se dirige àqueles que, segundo os padrões da sociedade de consumo, podem realmente ser reconhecidos como participes ativos desta mesma sociedade. Fórmula muito bem descrita pelo professor Wladimir Safatle (Filosofia – USP), a tradução do conceito de cidadão para consumidor na sociedade capitalista.

As relações entre Russomanno e a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) do bispo Edir Macedo, trazem à tona diversas acusações do uso do aparato desta, e mesmo da Rede Record de TV, em prol do candidato. É problemática a comprovação efetiva da extensão Russomanno/IURD/Record. Mas, comprovadamente a liderança da IURD tem interesses políticos acentuados no cenário político brasileiro, posto que dez (10) dos dezoito (18) membros da Executiva Nacional do PRB são provenientes da IURD ou da TV Record e 85% dos dirigentes estaduais do PRB são funcionários ou dirigentes da IURD[4], estes dados são significativos considerando quais as

Celso Russomanno. O “palatino da verdade” que aparentemente esconde muitos segredos.

principais disputas vicejam no cenário político-legislativo brasileiro. Estas envolvem, sobretudo, interesses de alas ultraconservadoras, sobretudo da bancada evangélica, relativos à ordem de costumes e valores.

Conclusão.

O regime democrático impõe-nos a necessidade em escolher as condições vigentes da vida em sociedade, esse poder decisório lança bases para representação política. A representação política é dada pelo sistema partidário, e, os agentes deste sistema têm importante função na manutenção da democracia.

Max Weber (1864-1920) teoriza acertadamente que a reação dos partidos […] é orientada para a aquisição do poder social, ou seja, para a influência sobre a ação comunitária, […] (WEBER, 1974, p. 227). Há que funde um partido preocupado com questões outras, que não sejam à aquisição deste poder?

A resposta a esta pergunta não põe fim a necessidade de certa representação política, mas impõe-nos outra: aquela acerca de qual seja a garantia de que o poder esteja sendo usado legitimamente. Ou seja, numa sociedade em que interesses divergentes e mesmo conflitantes se encontram no mesmo terreno, quem garante que o poder não está sendo usado para atender interesses particulares, ao invés de ir de encontro às aspirações do povo.

Vemos nos dados de campanha como os partidos – talvez, fosse melhor dizer as legendas – se tornaram poderosos captadores de recursos financeiros, esse elemento em si já fortalece a perspectiva que o aparato do Estado seja usado, por fim, de modo a atender os interesses privados, sobretudo das grandes empresários e das corporações, investidores freqüentes deste processo.

Num mundo moldado pela extrema ação midiática, somos impelidos a “atuar” conforme os ditames de uma democracia midiatizada, cujo discurso já foi assimilado pelos partidos, partidos que agora andam sob mesmo compasso; basta atentarmos para o desempenho publicitário das grandes campanhas no horário eleitoral gratuito e perceberemos o quanto a melhor representação artística antecipa a representação política.

Necessitamos urgentemente pensar e agir de modo a instaurar novas formas de fazer política, lançar nosso olhar em direção às manifestações sociais, às redes organizadas que incorporem agentes dos mais diversos segmentos da sociedade.

Através destes dispositivos procuremos dar nova forma à representatividade política, de modo minimizar a influência dantesca dos partidos, movendo-os na direção de sistemas de mediação, onde poderão sem perder a representatividade garantir a participação efetiva dos movimentos sociedade.

Talvez, sejam estas mudanças necessárias para a construção de uma democracia  participativa!

Bibliografia.

WEBER, Max. Classe, Estamento, Partido. In: Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1974.

 

Referências.

http://www.cartacapital.com.br/politica/irritado-gilmar-mendes-acusa-lula-de-divulgar-informacoes-falsas/

http://www.cartacapital.com.br/politica/resenha-de-a-privataria-tucana-causa-demissao-de-jornalista-na-revista-da-biblioteca-nacional/

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/prb_universal_record_e_pt


[1] Mesmo tendo em conta que o processo do Mensalão pode respingar na imagem de Lula, o que subentendemos no suposto pedido feito pelo ex-presidente ao ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a que atrasasse o julgamento do Mensalão, e, às acusações a Lula, feitas por Mendes, em que Lula estaria tentando desacreditar sua imagem divulgando falsas informações sobre ele. Vide: http://www.cartacapital.com.br/politica/irritado-gilmar-mendes-acusa-lula-de-divulgar-informacoes-falsas/

[2] Declinou do cargo de prefeito da cidade de São Paulo após dezesseis meses (2005-2006) para concorrer ao Governo do Estado de São Paulo, vitorioso exerceu o cargo de 2007 a 2010 quando renunciou novamente agora para concorrer ao cargo da Presidência da República no que foi derrotado por Dilma Roussef.

[4] Dados extraídos da pesquisa do cientista político Claudio Gonçalves Couto, vide artigo: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/prb_universal_record_e_pt

2 comentários em “Eleições 2012 – A Construção da Democracia Participativa No Cenário da Incerteza

  1. Clerison Campos disse:

    A participação mais efetiva dos movimentos sociais se perde quando os partidos passam a ser manipulados e financiados por iniciativas privadas e fica nesse jogo de interesses.
    Vou procurar informações sobre o livro “privataria tucana”.

    • Carlos Eduardo Bernardo disse:

      Prezado, Clerison Campos.
      Desculpe-me pela demora em responder-lhe. Tens toda razão em sua observação, que aliás requer muita reflexão e ação no panorama da contemporaneidade brasileira onde a dimensão do privativo assumiu relavância tal que a dimensão do público parece cada vez mais dissolvida. Com certeza o livro “Privataria Tucana” é uma boa pedida. Talvez, seja um importante subsídio para a instauração de um provável julgamento daquilo que já tem sido chamado, por alguns analistas, “Mensalão do PSDB”.
      Um abraço afetuoso.
      Carlos Eduardo Bernardo

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