O Paradigma da Confissão Cristã – Breves Considerações Exegéticas.

 

Carlos Eduardo Bernardo.

E, chegando Jesus às partes da Cesárea de Filipo, interrogou os seus discípulos dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?

E ele disseram: Uns João Batista, outros Elias, e outros Jeremias ou um dos profetas.

Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou?

E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho de Deus Vivo.

E Jesus, respondendo, disse: Bem aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus.

Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e aas portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Mosteiro Ortodoxo de Meteora (Grécia)
Bela imagem de “sobre esta pedra edificarei a minha igreja”.

E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo que desligares ma na terra será desligado nos céus.

Então mandou aos seus discípulos que a ninguém dissessem que ele era o Cristo.

(Mt. 16, 13-20[1])

            Temos nesta passagem a famosa confissão de S. Pedro, o apóstolo, que pode ser considerada como o paradigma da confissão de todo cristão, afinal, como foi dito em outra parte, somente pela ação do Espírito aqueles que estão em Cristo podem confessá-lo como Senhor.

1º – Possíveis Motivos Para a Escolha do Cenário.

O fato que a narrativa desta passagem ocorra na região de Cesárea de Filipo é paradigmático, esta era uma região fronteiriça localizada ao norte da Terra Santa, ao pé do monte Hebron, lugar onde, Jesus apareceria transfigurado (17,1-2). Esta cidade fora na Antiguidade centro de adoração do paganismo, reformada pelo tetrarca Filipo, recebeu o nome de Cesárea em honra do imperador, segundo o historiador hebreu Flavio Josefo (Ant.18,2-1). A distância de Jerusalém e do Templo dificultava a penetração da atmosfera da religião judaica nos corações humanos e tornava muito difícil o reconhecimento da messianidade de Jesus. Talvez, seja este um dos principais motivos para que esta região tenha sido escolhida para a revelação do Messias e do caráter de sua comunidade, a ekklesía (gr.ekkhlhsia

 

 

 

2º – A Natureza da Pergunta.

Jesus pergunta: Quem dizem os homens ser o Filho do Homem? (v.13) […] E vós, quem dizeis que eu sou? (v.15)

Poderíamos considerar que estas perguntas têm, no mínimo, dupla função: reafirmar a fé dos discípulos no status messiânico e divino – o que é menos evidente – e anunciar-lhes um primeiro esboço do caráter de Sua comunidade de seguidores: aquele caráter de terem sido chamados “para fora de” uma determinada ordem, o que está presente já no modelo escolhido por Jesus, ekklesía,formado por ek, para fora de, + klesis, chamado (kaleõ, chamar).

A ekklesía era uma “instituição” comum no mundo grego, designava um corpo de cidadãos reunidos, geralmente, na praça (gr. àgora) para discutir assuntos do Estado.

Jesus faz uso de uma palavra, um conceito, uma imagem comum no mundo jurídico da Antigüidade, mas essa é apenas uma dentre as imagens possíveis para o conjunto de fiéis, e, não a única. S. Paulo usará outras: corpo, lavoura e edifício; S. Pedro dirá casa espiritual e sacerdócio santo.

3º – Por que Prevaleceu o Uso Desta Imagem?

Podemos apresentar algumas razões para que esta imagem, porém as mais evocadas, consideradas as mais fortes são as seguintes:

(1º) Porque esta imagem foi proferida pelo próprio Senhor, Jesus.

(2º) Porque na versão grega da Torah, a Septuaginta, a palavra ekklesía é a mais usada para traduzir a palavra hebraica gahal (palavra que tem o sentido de assembleia, congregação e mesmo multidão).

(3º) Porque amplos processos histórico-sociológicos imbricados na latinização do mundo antigo contribuíram para a fixação de palavra igreja como veículo “oficial” do sentido e do significado do que seja a comunidade dos cristãos.

Estes três motivos são dignos de aceitação e carregam em si mesmos a justificativa plausível para a prevalência desta imagem. Todavia, ousamos apresentar algumas considerações críticas aos mesmos:

(1º) O Senhor, Jesus, também se referiu aos seus discípulos usando outras imagens, como rebanho (gr. poimnh, poimne) e noiva (gr.numφh, ninfe) e estas palavras suficientes significativas no grego e noutras línguas para servirem de referência a comunidades dos crentes.

(2º) O uso de ekklesía na Septuaginta é um compreensível fenômeno lingüístico, dada à necessidade de condução do sentido de uma língua à outra, de uma cultura à outra, todavia a polissemia da palavra hebraica exige a consideração contextual em que se use seu “equivalente” na língua grega; não sacraliza o termo e tampouco confere exclusividade na expressão da intenção à que se refere.

(3º) A partir do IV século é deflagrado o processo de cristianização do mundo antigo. O Ocidente se tornará cristão através de longo desenvolvimento histórico-sociológico – e teológico –, sob o modelo administrativo de Roma,a Igreja, agora nomenclatura de uma instituição monolítica e centralizada, imprimirá de modo indelével na consciência religiosa ocidental a justificativa da singularidade de seu título, não apenas isso, mas de seu próprio estatuto enquanto agência exclusiva da salvação divina para a humanidade.

Essa imanência da comunidade dos que crêem em Jesus na história faz da igreja uma comunidade histórica, marcada por idas e vindas, por atropelos e avanços, mas ainda uma comunidade de homens. A ekklesía grega era uma comunidade de homens que tinham um objetivo comum, isso não exclui, no uso cristão, a relação analógica com outros modelos. Aliado ao processo levado em efeito pela Igreja Católica possibilitou relacionar a palavra com o local de reunião e posteriormente com alguma personagem eminente ou concepção teológica peculiar, daí as diversas denominações cristãs comuns em nossos dias.

 4º – Jesus Domina Sobre a Ekklesía.

Jesus afirmou Sua soberania sobre aqueles que crêem Nele, aqueles que O confessam. Daí fazer parte da característica essencial dos fiéis confessá-lo não apenas como Salvador, o que Ele realmente é, mas também – e ouso dizer principalmente – como Senhor.

Ele diz: “minha ekklesía” (v.18), a igreja é apenas de Cristo, Jesus. Todo uso desta palavra com adjetivos é extra-bíblico, não significa isso que seja, de todo, incorreto, mas seu uso deve ser contextualizado. Isso porque temos a tendência em considerar o grupo ao qual nos afiliamos, enquanto cristãos, como único detentor do caráter essencial de ekklesía, e, por vezes, fortalecemos certo sectarismo que prejudica nossa visão orgânica da comunidade dos crentes.

 

 

5º – As Hipóteses “Das Chaves” (v.19).

Duas leituras não-católicas têm sido consideradas ao longo da história do Cristianismo:

(1ª) Admite a outorga das chaves apenas a S. Pedro, crendo terem sido duas estas chaves, segundo esta interpretação o apóstolo usou a primeira chave no Dia de Pentecostes, para introduzir os judeus no Reino dos Céus, e, a segunda chave fora usada na casa de Cornélio para abrir o Reino dos Céus aos gentios.

(2ª) Contempla a outorga das chaves a S. Pedro como paradigma da autoridade dada a todo aquele que crê em Jesus (18,18), pois todo aquele que proclama o Evangelho “abre as portas dos céus” pelo poder de salvação da própria mensagem (Rm.1,16).

6º – Instruções do Ocultamento.

 Perguntamo-nos, por que Jesus instruiu os discípulos a que não revelassem ser Ele o Cristo?

Muito provavelmente porque as circunstâncias favoreceriam as expectativas equivocados dos judeus acerca do Messias, expectativas relativas à instauração de um reino terreno em que os dominadores de Israel seriam esmagados.

Mas, podemos especular que essa instrução tenha como objetivo, também, permitir que aqueles que fossem “tocados” pela palavra e ministério de Jesus chegassem ao entendimento deste mistério. Este entendimento seria a própria experiência da verdade, e, não seria transmissível, é fruto de uma espontaneidade que é a marca da ação da Graça.


[1] Textos paralelos: Mc. 8,27-33 & Lc. 9,18-22.

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