AINDA A UFANIA DOS FIÉIS – ELUCIDAÇÕES.

Por: Carlos Eduardo Bernardo.

[…] Jesus Cristo […] Aquele que nos ama, e com seu sangue nos lavou dos nossos pecados, E nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai; […]

(Ap. 1,5-6)

Não importa o que fizeram de ti, mas importa o que tu fazes do que fizeram de ti.

(Jean-Paul Sartre)

Talvez em minha reflexão – A Ufania… – eu tenho sido extremista, mas é provável que isso seja um reflexo da situação extrema em se têm postado o Movimento Evangélico Brasileiro. Afinal, como dizem alguns: Situações extremas exigem atitudes extremas!

                Todavia, não considero que tenha chegado ao extremo, diria que minha crítica é radical – no sentido etimológico do termo, é relativa à raiz – posto que atinja o fundamento do problema: Por que sendo espirituais, estamos lutando nesta milícia com armas carnais?  Por que julgamos que os parâmetros humanos de valoração do poder se aplicam ao Reino de Deus?

                Não proponho ao homem de Deus que se abstenha da dimensão política, quem leu meu artigo, http://projetophronesis.com/2010/10/10/palco-picadeiro-pulpito-palanque-e-politica-%e2%80%93-eleicoes-2010/, a propósito do processo de sucessão eleitoral 2010, sabe, ao menos en passant, a idéia que faço da política e de sua importância para a vida em sociedade.

                Meu alerta é a que não concedamos ao exercício político partidário o caráter messiânico que lhe é estranho – como alguns que supõem, erroneamente, que um líder evangélico é a solução para os problemas da nação –, e, também para que não nos arrisquemos em dormir sossegados acreditando que “ser maioria” é sinal de aprovação e benção de Deus, na Tanach há abundantes provas, na história do comportamento espiritual dos iehoudîm, que essa lógica é falaciosa, e, nenhum evangélico ousa levá-la até suas últimas conseqüências ao refletir sobre o avanço do Islã em escala global[1].

                Considero natural que haja cristãos em todos os segmentos da sociedade, afinal integramos essa mesma sociedade e nossa ação enquanto cidadãos é iluminadora, pois todas as dimensões de nossa vida devem estar sob a Luz de nossa soberana vocação em Cristo, Jesus. Mas, acreditar que representamos uma classe, uma “elite”, ou um grupo à parte que deve munir-se de determinados privilégios, nada mais é que repisar o caminho dos filhos de Zebedeu, esquecendo-nos que, segundo o paradigma de Cristo, somos chamados para servir.

                A reflexão cristã acerca da política geralmente evoca duas personagens bíblicas: José e Daniel. Porém, além das diferenças históricas, culturais e sociais, é necessário ter presente que nenhuma das duas personagens procurava alcançar cargos de poder, ambos foram “colocados”, por Deus, nos cargos que ocuparam, e, isto não sem antes passarem por muitos sofrimentos e vicissitudes, porque cumpriam um desígnio, da parte de Deus, que se estendiam para além deles mesmos.

                Naturalmente que eram homens políticos, mas não apenas eles, Pedro, Joaquim e Manoel também são, aliás, é uma conseqüência natural de nossa condição de pluralidade que exige a organização da vida em sociedade, não é por outro motivo que Aristóteles (384-322) diz do homem ánthrôpos zõon politikon, ou seja, que é um animal político.  É possível que se me objetem que nem todas as pessoas são políticas, admito essa objeção se por “políticas” se tencione dizer: politizadas, consciente de seus direitos e deveres políticos e também habituado a exercê-los, pois há diferença entre uma coisa e outra; somamos a isto o fato que a ação política não se reduz à atividade política partidária, mas perpassa setores muito variados de atividades na sociedade.

                Um crítico muito inteligente e observador, digo isso não em tom de ironia, pois o considero realmente dotado destas virtudes expressas em suas palavras muito bem ponderadas, adverte ao leitor que neste caso em especial, o cristão na política e noutros setores, corresponde em “aproveitar o gancho de Paulo”: Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns. (I Co. 9,22). Logo, o “fazer-se como” do apóstolo parece ser entendido como “comportar-se como”.

                Esta não me parece uma boa exegese da passagem em questão, pois dela se pode deduzir que deveríamos fazer-nos políticos para alcançar os políticos, jornalistas para os jornalistas e assim por diante. O verbo grego usado é um aoristo de ginomai, Gringrich e Danker[2] nos alertam que este verbo é passível de muitas traduções, variando de contexto a contexto.

                O contexto parece conceder que com essa expressão São Paulo demonstre que no seu trato com as pessoas ele se colocava “no lugar delas”, procurava compreender suas necessidades, anseios, medos, as suas categorias de pensamento, noutras palavras ele demonstrava empatia para com essas pessoas, desta forma muitas dificuldades que se interpunham entre ele e seus ouvintes eram superadas e alguns recebiam em seus corações a boa semente[3].

                Não pretendo ter aqui esgotado o assunto e tampouco pretendo que esta seja a única exegese possível, pois a hermenêutica exige uma vigorosa disposição de abertura – o que tenho buscado há anos, e, não saberia dizer se já a conquistei – e uma capacitação lingüística e teológica muito superior aquela que possuo.

Algumas pessoas podem supor que escrevo movido por sentimentos negativos em relação aos evangélicos, mas se dá exatamente o contrário, pois considero que este Movimento abrange, enquanto expressão visível da Igreja de Cristo, um espectro considerável daqueles de quem podemos dizer: estão em Cristo. Por este motivo me vejo ligado também a estes por um vínculo que transcende as formalidades denominacionais ou mesmo as convicções confessionais.

Por que, então, escrevo estas palavras de duras críticas ao Movimento Evangélico?

Faço como uma ocupação diante da constatação de um fato que se avoluma frente nossos olhos, não o faço por pré-ocupação, pois esta germina na via emotiva abalando-se por coisas e situações que ainda não são. Esta ocupação é um ato reflexivo, incita a todos cristãos ou não, a que se posicionem de modo criticamente saudável perante um estado de coisas.

Não me alegra falar dos descaminhos do Movimento Evangélico, porém entristece-me mais silenciar-me, como muitos que, supondo estar tudo bem ainda se aproveitam de meus irmãos que não têm consciência da situação, porque não há quem lhes anuncie todas estas coisas.

Esta crítica necessita fundar-se na Palavra, sim, orientando-se por seus valores fundamentais, o amor a Deus e o amor ao próximo. O amor nos impele à doação de si, também nos impõe não causar tristeza ao próximo. Mas, como agir se a doação de si, às vezes, possa causar tristeza ao próximo?

Falar, denunciar as injustiças e os descaminhos é uma forma de doação de si,

“Em todo tempo ama o amigo, e na angustia nasce o irmão” (Pv.17;17)
Fonte da Imagem: http://naomordamaca.com
/2011/08/11/na-guerra-nasce-o-irmao/ 

doamos nossas palavras, nossas energias, nossa consciência, mas ao fazê-lo podemos causar tristeza, ainda que momentânea, ao próximo, mas cremos que após esta experiência o próximo possa ver-se fortalecido[4].

Devemos, pois, falar ou silenciar nossas palavras? Que atitude refletirá o chamamento divino para o serviço, para a doação de si, enfim para o amor?


[2] GRINGRICH, F. Wilbur. & DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento Grego / Português. São Paulo. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova. 1984.

[3] O ministério terreno do Senhor, Jesus, foi marcado por essa empatia, ele falava às necessidades de homens simples e letrados, como que partícipe de todas as suas necessidades mais íntimas, mas em verdade o Único capaz de satisfazê-las

[4] Acerca disto vide S. Paulo: II Co. 4,8-12

4 comentários em “AINDA A UFANIA DOS FIÉIS – ELUCIDAÇÕES.

  1. Antonio disse:

    Que o D’us dos nossos corações e da nossa compreensão, nos de discernimento para aplicar a mais dificil das leis,”amar o próximo como a nós mesmo”

    • Carlos Eduardo Bernardo disse:

      Prezado, Antônio.
      Que essa seja a nossa oração e que nossa ação à acompanhe! “Este é o princípio maior da Torá”.
      Um abraço afetuoso.

  2. heber disse:

    Ola estimado irmao! Parabens pela reflexao. Nao podemos deixar :-)de falar daquilo que vimos e ouvimos… Grande abraco

    • Carlos Eduardo Bernardo disse:

      É verdade, meu amigo e irmão, Pr. Heber!
      Vivemos num tempo em que não se pode ser crítico, em que discordar é ofensa e calar-se é expressão de um certo “esprit de finesse”. Sobretudo, entre os adeptos de alguma “fé” – religiosa ou secular – somos contados como ímpios ou como pessoas que não se adequam aos seus valores! Foucault (1926-1984), certa vez, disse: “Uma sociedade que não se põe a si mesma em crítica é perigosa.” Temo que este se seja o maior mal de alguns segmentos do Cristianismo contemporâneo, temo que este seja o nosso maior mal, e, oro para que aprendamos com as palavras do apóstolo: “Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados. (IICo.13,5). Um abraço afetuoso.

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