A ignorância (2/2)

Post retirado do site  Saindo da Matrix.

Por Paula & Acid

Parte 1 aqui. Nesse post foram usados trechos do livro “A roda da Vida como caminho para a lucidez”, do Lama Padma Santen

Dukkha (a primeira Nobre Verdade do Budismo) pode ser entendido como as paredes que nos isolam e nos conduzem pra uma realidade à parte. O termo em geral é traduzido como “sofrimento”, mas não há realmente um correlato específico pra essa palavra sânscrita em nossos dicionários. Dukkha é uma forma de olhar o mundo, um estreitamento da visão, ou melhor, são as aflições que sentimos ao perdermos a capacidade natural de reconhecer a dimensão limitada do espaço diante dos nossos olhos.

Imagine uma criança numa reunião de negócios, onde são tratados os assuntos de ações, alta do dólar, conjuntura macroeconômica e o preço das balas juquinha. Tirando talvez o último tópico, provavelmente a criança não se interessará por nada, porque nada daquilo condiz com o seu mundo, nada daquilo agrega informação ao seu viver, não é mais do que pura perda de tempo e conversa fiada. Sua mente estará no Sol lá fora, no que o amiguinho de escola estará fazendo neste momento, ou em alguma coisa que tenha encontrado por ali, como uma bola ou um formigueiro no canto do escritório. Pra os adultos que estão na reunião, aquilo É SOBRE UM MUNDO, seus mundos, um mundo virtual que afeta não só suas vidas diárias como a de milhares de outras pessoas mundo afora. Dali se define o quanto vão ganhar no fim do mês, os milhares de empregados que vão manter, produtos que vão lançar ou não, enfim, aquilo diz respeito a um mundo que não existia, e que foi construído e mantido por homens nas duas últimas décadas (a tal da globalização). Isso gera stress, sofrimento, prazer e uma necessidade de comprometimento constante que equivale a uma algema. Um monge, ou alguém livre dessas amarras, achará aquilo tão irrelevante quanto a criança.

A aflição intensa nos põe em contato com nosso karma. O karma quer dizer ação – um tipo de ação que se repete indefinidamente, formando as estruturas aparentemente sólidas daquilo que podemos perceber como as grades de nossas prisões (como, por exemplo, o mercado de ações e os tópicos da reunião acima). Tudo se passa como se estivéssemos batendo leite pra produzir manteiga: repetimos um movimento de forma distraída, por vezes sem conta, até que finalmente aquilo que era fluido se torna cremoso, denso. Do mesmo modo, se movimentarmos nossa energia sempre em uma determinada direção, acabaremos por esquecer a liberdade que nos possibilitou iniciar o processo. Ficamos presos em algum ponto, somos fisgados. E seguimos distraidamente recriando as causas e condições de nosso sofrimento.

Essa experiência cíclica é construída e se mantém como a reprodução incessante de formas variadas a partir da mente. Quando analisamos essas formas aparentemente externas, vemos que elas surgem como experiências inseparáveis de estruturas internas da mente. O nome que se dá a esses mundos é Loka, e essa é a segunda Nobre Verdade do Budismo. É na estrutura interna da mente que Dukkha se instala e opera, gerando os mais diversos tipos de aflições. Sofremos incessantemente, ora por possuir algo que não queremos, por temer perder aquilo que conquistamos, por não ter aquilo que aspiramos, por ter perdido o que nos esforçamos pra obter. Sofremos sem nos dar conta de que, nas bases internas, onde o pensamento repousa, qualquer forma acaba por adquirir qualidades muito sólidas e pesadas. Não mais vislumbramos nenhuma possibilidade de abertura ou flexibilidade. O leite virou manteiga.

Privilegiamos a linguagem discursiva, mas a linguagem verdadeira em que o mundo opera é a linguagem da energia. O mundo não troca palavras, o mundo se movimenta pelo sinal das energias, e o karma se manifesta nessa linguagem, e assim nos impulsiona. Temos muita dificuldade de lidar com isso porque, sempre que uma energia brota claramente em certa direção, achamos que precisamos simplesmente segui-la. E é o processo pelo qual o karma nos domina: o karma movimenta energia.

Esses dois conceitos são importantes pra poder adentrar Avydia (a Ignorância), que começamos a delinear nooutro post.

No círculo externo da Roda da Vida estão os chamados Doze elos do surgimento dependente. São chamados assim porque abrangem a seqüência causal das vidas na existência cíclica. Aqui constituem os detalhes dos estágios de causa e efeito que levam às situações aflitivas da nossa vida. O surgimento dependente da existência cíclica começa com (1) a ignorância, que motiva (2) uma ação. Ao final da ação é estabelecida uma (3autoconsciência. Temos então uma identidade, mas não uma materialidade. Isso nos leva ao (4) “nome e forma“. O estágio seguinte é chamado de (5esfera dos sentidos. Já de posse dos sentidos, desenvolve-se (6) o contato; do contato (7) à sensação; da sensação (8) ao desejo; do desejo, (9) ao apego; do apego, desenvolve-se no fim da vida um estágio chamado de (10existência, e, assim, uma nova vida está para começar com (11) o nascimento e continua com (12) oenvelhecimento e a morte.

Como podem perceber, em cada detalhe da Mandala há um significado amplo para se estudar e refletir, e só demos uma pincelada aqui. É algo aparentemente complexo, mas que vale a pena dar tempo e atenção ao que ela quer nos dizer. Enfim, vamos nos deter um pouco no primeiro Elo da Roda da Vida:

Ignorância
Avidya (“a não-visão”)

Este elo é representado por uma pessoa idosa, cega e manca. Idosa, porque a ignorância se dirige ao processo da existência condicionada pelos padrões repetitivos. Cega, porque a ignorância a respeito da verdadeira natureza das pessoas e dos demais fenômenos a obscurece. Manca, porque, não importa quanto sofrimento essa ignorância crie, ela não tem nenhum fundamento válido, não está baseada na verdade e, portanto, pode ser minada pela sabedoria.

Existem dois tipos de ignorância: uma básica e outra secundária.
A ignorância básica é uma consciência que concebe de forma equivocada o status das pessoas e dos outros fenômenos; essa consciência imagina que as pessoas e os fenômenos têm uma solidez maior do que eles realmente possuem, ocasionando as emoções aflitivas, sendo chamada, pois, de consciência que concebe a existência inerente. Ou seja, a ignorância de que há uma permanência em si e nos fatos. Assim, a ignorância básica não é apenas a ausência de conhecimento do status real dos fenômenos, mas uma ativa concepção do OPOSTO – ou seja, a concepção da existência inerente, quando na verdade os fenômenos não existem inerentemente. Percebemos as coisas como se fossem capazes de abranger todas as partes de que são constituídas, quando de fato não existe nada que abranja todas aquelas partes.

A ignorância secundária é ligada apenas às ações não-virtuosas ou negativas – é uma concepção equivocada dos efeitos das ações, que leva a um obscurecimento a respeito até mesmo das relações mais grosseiras entre as ações e seus efeitos. Por exemplo, entender que, se determinada ação é praticada, determinado resultado se seguirá; desenvolver concepções equivocadas, como achar que um roubo trará apenas prazer. Então, esse tipo de ignorância significa que, se realmente soubéssemos o que seria suportar os efeitos futuros de uma ação não-virtuosa, não a realizaríamos. Não cometeríamos assassinato, furto, não praticaríamos a má conduta sexual, a mentira, a discórdia, não diríamos grosserias, traições, leviandades e assim por diante.

“Ser ignorante a respeito de, desconhecer a(s) verdade(s) sobre a natureza da mente e da realidade. (…) isto significa ser ignorante – ignorante pessoal e experiencialmente – sobre a inexistência do ego-self. Também significa as confusões – os pontos de vista e emoções equivocadas de se acreditar em um self – originados dessa ignorância”.
(VARELA, THOMPSON E ROSCH, 2003, p. 122)

Na Psicologia Budista existe uma perspectiva que sintetiza na Roda da Vida como iremos nomear e observar o que é identidade e como é visto a realidade que somos e que nos cerca.
Se construirmos o mundo a partir da ignorância, os impulsos de corpo, fala e mente surgirão dessa visão de mundo equivocada que desenvolvemos. Podemos ouvir as palavras de Mestres espirituais e tentar seguir seus conselhos de como utilizar o corpo, a fala e a mente, mas tudo vai parecer muito artificial. Isso porque a sabedoria natural que estaremos usando vai brotar da compreensão que temos do mundo. Da compreensão equivocada de mundo não brota nada além de impulsos equivocados.

Mesmo cientes de que os Mestres estão corretos, se não desenvolvermos a visão dos Mestres a nossa ação será contraditória e não veremos solução, nunca teremos descanso, estaremos sempre em conflito interno, nunca teremos um comportamento não-repressivo. Estaremos sempre fazendo esforços para seguir os conselhos dos Mestres. O aspecto do esforço é dramático. De tanto nos esforçarmos, um dia cansamos; quando chegamos nesse ponto, a queda é rápida, e dizemos: “Desisto. Se a espiritualidade fosse natural, eu andaria de forma naturalmente lúcida e válida. No entanto, tudo isso me parece artificial”. Parece artificial porque precisamos de esforço constante, nunca encontramos um ponto de equilíbrio, precisamos constantemente relembrar o que ouvimos. De tanto esforço, terminamos desistindo.

Equivocadamente, podemos acreditar que a realidade convencional é muito poderosa, muito abrangente. Podemos pensar que, mesmo construindo uma realidade mais elevada, o que existe mesmo é a realidade convencional de dificuldades e sofrimento. Acabamos por desistir de tentar melhorar a nós mesmos e o mundo. O caminho de tentar alterar o comportamento pode ser muito penoso, muito lento e, principalmente, de resultados incertos. Se a pessoa alterar o comportamento sem alterar a visão, é certo que mais adiante cairá novamente. O aspecto cíclico é um processo natural da vida, passamos por altos e baixos. A partir das mandalas de sabedoria teremos efetivamente a visão que permite a ação sem esforço. A visão surge sem esforço porque dentro de uma mandala de sabedoria não lutamos contra nós mesmos, mas vemos e agimos naturalmente. Assim, é essencial gerarmos uma visão de mundo para que as ações surjam de forma natural, sem esforço e sem contradições. As visões de mundo, que podem ser geradas individual e socialmente, potencializam as ações.

A ignorância, então, pode também ser compreendida como sofrimento oriundo do estreitamento da visão e da frustração advinda do esforço ineficaz. Tudo se passa como se um raio tivesse partido nossa natureza básica, como se ela estivesse esfacelada, tivesse deixado de existir e ser vista e ficássemos colando pedaços, tentando construir a realidade verdadeira a partir da artificialidade da operação da mente.

O Buda ensinou também os meios de produzir felicidade nas relações humanas: casamento, namoro, filhos, trabalho, estudo. Em primeiro lugar, ao invés de pensar “o que vou obter do outro?”, pensar “o que posso oferecer?”. Alegrar-se em oferecer! Se estamos na dependência do comportamento do outro para obter felicidade, eventualmente pode até funcionar, mas quando surgir a impermanência e o outro flutuar, entramos em crise. O Dalai Lama sempre brinca, “que tipo de amor é o de vocês, aquele que só existe se o outro sorrir?”. Esse tipo de amor está baseado em quanto estamos recebendo e, por isso, é frágil.

Praticando assim, podemos usar a vida cotidiana como caminho espiritual, tentando constantemente superar os conflitos internos e trazendo benefícios a todos os seres. Alegria!

Fontes:
Padma Samten, “Prática na Vida Cotidiana” e “A roda da Vida”.
Aurino Ferreira Lima, NEIMFA.

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