Vigotski – Pensamento e Linguagem

Pensamento e Linguagem.

 

Vigotski, em seu trabalho da obra intitulada “Pensamento e linguagem”, foca seus estudos na antiga problemática e abordagem do pensamento e da palavra, e em como solucionar os caminhos-sem-saída através de um novo método.

O pensador soviético inicia a problemática, neste caso, afirmando que é imprescindível deixar de lado a compreensão das relações interfuncionais do pensamento e da linguagem.

[Pois,] enquanto não compreendermos a inter-relação de pensamento e palavra, não poderemos responder, e nem mesmo colocar corretamente, qualquer uma das questões mais específicas da área.[1]

Já que, até sua época, esta área em específico não havia recebido a devida atenção. Todos trataram os processos psíquicos isoladamente através de métodos de análise atomísticos e funcionais, ignorando sua interdependência e sua organização na estrutura da consciência como um todo. Uma vez que, na antiga psicologia, era consenso que as relações entre duas funções determinadas nunca variava, elas foram reduzidas a um fator comum e sendo ignoradas.[2]

No entanto, Vigotski, em seus estudos, não via o desenvolvimento da consciência determinado pelo desenvolvimento autônomo das funções isoladas, e, sim, antes, via que a essência do desenvolvimento psíquico se encontrava justamente nas mudanças na estrutura interfuncional da consciência. Era uma idéia totalmente original.

A psicologia deve fazer dessas relações e de suas variações ao longo do desenvolvimento o problema central, o foco do estudo, em vez de simplesmente postular a inter-relação geral de todas as funções. Essa mudança de abordagem se torna imperativa para o estudo produtivo da linguagem e do pensamento.[3]

O pensamento por muito tempo foi tido por psicolinguistas como a “fala menos som” ou como um reflexo inibido em seu elemento motor pelos modernos psicólogos e reflexologistas norte-americanos. Ou seja, sempre a relação entre pensamento e linguagem foi sem significado, pois se observava tudo por um escopo tão minucioso que só se via os elementos, o isolado. O pensamento era fala e a fala era pensamento, tendo apenas uma diferença fonética entre eles. Desta forma, nenhuma relação poderia ser visto por mais que se tentasse. Era preciso rever as bases destas idéias. A fala não era apenas a manifestação externa do interno, ou seja, o pensamento, como cria a escola de Würzburg e tampouco era o pensamento apenas este mesmo sem som.

Considerando o pensamento e a fala independentementes e “puros”, e estudando cada um separadamente, são forçados a ver a relação entre ambos como uma mera conexão mecânica e externa entre dois processos distintos. A análise do pensamento verbal em dois elementos separados e basicamente diferentes impede qualquer estudo das relações intrínsecas entre a linguagem e o pensamento.[4]

Desta maneira, afirma Vigotski, o erro está nos métodos de análise. O antigo método de análise dos primeiros psicólogos foi responsável por todos os fracassos nas investigações sobre o pensamento e a linguagem, pois analisa os psicológicos complexos em elementos componentes. Isto é, uma vez que se estuda o pensamento e a palavra separadamente sempre se confrontará com um beco sem saída. [5]

Assim, este antigo modo de pensar estes estudos, levou Vigotski a ver as coisas no seu todo, ou seja, a natureza unitária entre o pensamento e a linguagem, suas inter-relações.

[O antigo método] não proporciona uma base adequada para o estudo das relações concretas e multiformes entre o pensamento e a linguagem, surgidas no decorrer do desenvolvimento e do funcionamento do pensamento verbal em seus diversos aspectos. Em vez de nos proporcionar condições para examinar e explicar exemplos e fases específicas, e determinar regularidades concretas no decorrer dos acontecimentos, esse método leva a generalidades relativas a toda fala e todo pensamento. Além do mais, faz-nos incorrer em sérios erros, na medida em que ignoramos a natureza unitária do processo de estudo.[6]

            Para tanto, o pesquisador russo não viu outra alternativo, a não ser trilhar por outro caminho, usar outro tipo de método de análise, a chamada: análise de unidades.

            Esta abordagem holística, isto é, esta análise global, este entendimento geral dos fenômenos, só poderia estudar a unidade, o todo. Qualquer perda elemental significaria a perda também da unidade, do produto de análise. E o ponto específico em que ocorre o link entre pensamento e linguagem se encontra no: significado da palavra. Até tais estudos, a natureza do significado não era clara. “No entanto, é no significado da palavra que o pensamento e a fala se unem em pensamento verbal. É no significado, então, que podemos encontrar as respostas às nossas questões sobre a relação entre o pensamento e a fala”[7].

            Desta forma, na busca pela essência do significado da  palavra, Vigotski vê que a palavra não se refere a objetos isolados, mas, sim, grupos, sendo sempre cada palavra uma generalização.

A generalização é um ato verbal do pensamento e reflete a realidade de modo bem diverso daquele da sensação e da percepção. Essa diferença está implícita no proposição segundo a qual há um salto dialético não apenas entre a total ausência da consciência  (na matéria inanimada) e a sensação, mas também entre a sensação e o pensamento.[8]

            E ainda continua:

Tudo leva a crer que a distinção qualitativa entre a sensação e o pensamento seja a presença, nesse último, de um reflexo generalizado da realidade, que é também a essência do significado da palavra; e, conseqüentemente, que o significado é um ato de pensamento, no sentindo pleno do termo. Mas, ao mesmo tempo, o significado é parte inalienável da palavra como tal, e dessa forma pertence tanto ao domínio da linguagem quanto ao domínio do pensamento.[9]

            Assim, se chega a conclusão de que não existiria significado da palavra se não fosse ele mesmo simultaneamente pensamento e fala. Eis a unidade do pensamento verbal. Desta maneira, apenas restava a análise semântica para saber em que pensamento e fala estão inter-relacionados. [10]

            Os antigos estudos tratavam o assunto do sistema mediador, isto é, a fala humana, a comunicação de um modo simplificado. Pois, toda a unidade se perdeu, uma vez que foi visto a partir somente de seus elementos. Assim, um estudo posterior e “profundo do desenvolvimento da compreensão e da comunicação na infância levou à conclusão de que a verdadeira comunicação requer significado – isto é, generalização -, tanto quanto signos [a palavra ou o som].”[11] Ou seja, a comunicação só é possível quando incluída numa categoria convencionada, onde a sociedade considere uma unidade e onde seja extremamente simplificado e generalizado. Este último, a generalização, constitui uma forma mais elevada do significado da palavra.[12]

            Mas a forma mais elevada do pensamento humano só é atingida quando o indivíduo ultrapassa o universo dos pseudo-conceitos da fase infantil e reflete uma realidade conceitualizada. Na esfera de Lacan, poderia ser apenas depois da fase altista e egocêntrica, isto é, na fase da reflexão conceitualizada, onde só pode existir num individuo com uma mente social. “É por isso que certos pensamentos não podem ser comunicados às crianças, mesmo que estejam familiarizadas com as palavras necessárias. Pode ainda estar faltando o conceito adequadamente generalizado, que, por si só, assegura todo o entendimento[13].

            E ainda completa o psicólogo soviético:

A concepção do significado da palavra como uma unidade tanto do pensamento generalizante quanto do intercâmbio social é de valor inestimável para o estudo do pensamento e da linguagem, pois permite uma verdade análise genético-causal, o estudo sistemático das relações entre o desenvolvimento da capacidade de pensar da criança e o seu desenvolvimento social.[14]

Assim, aqui se mostra onde este método obtém o sucesso que o anterior não alcançou. Além do mais, sua fertilidade se mostra nas questões concernentes às relações entre as funções ou entre a consciência como um todo e suas partes. Ainda no velho erro da psicologia de manter distante a relação entre intelecto e afeto, fazendo do pensamento um fluxo autônomo, um epifenômeno sem significado e sem influência sobre o afeto e a volição. Há um sistema dinâmico de significados em que o afetivo e o intelectual se agregam numa unidade. Ou seja, bastava para os velhos psicólogos enxergar o todo e ver como este “organismo” tinha seus elementos relacionados em vez de focalizar apenas a parte, deixando o todo de lado. Abordando desta forma os estudos do pensamento e da linguagem, Vigotski deixou um “instrumento promissor para investigar a relação do pensamento verbal com a consciência como um todo e com as suas outras funções essenciais”.[15]


[1] VIGOTSKI, L. S. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes. São Paulo. 2011. p. 1

[2] VIGOTSKI, L. S. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes. São Paulo. 2011. p. 1-2

[3] VIGOTSKI, L. S. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes. São Paulo. 2011. p. 2

[4] VIGOTSKI, L. S. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes. São Paulo. 2011. p. 3-4

[5] VIGOTSKI, L. S. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes. São Paulo. 2011. p. 3

[6] VIGOTSKI, L. S. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes. São Paulo. 2011. p. 4

[7] VIGOTSKI, L. S. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes. São Paulo. 2011. p. 5

[8] VIGOTSKI, L. S. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes. São Paulo. 2011. p. 7

[9] VIGOTSKI, L. S. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes. São Paulo. 2011. p. 7

[10] VIGOTSKI, L. S. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes. São Paulo. 2011. p. 7

[11] VIGOTSKI, L. S. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes. São Paulo. 2011. p. 7

[12] VIGOTSKI, L. S. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes. São Paulo. 2011. p. 7

[13] VIGOTSKI, L. S. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes. São Paulo. 2011. p. 8

[14] VIGOTSKI, L. S. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes. São Paulo. 2011. p. 8

[15] VIGOTSKI, L. S. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes. São Paulo. 2011. p. 10

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