Vladimir Safatle – Aula 18/30 – ‘Fenomenologia do Espirito’, de Hegel

Curso Hegel

Aula 18

 

Vimos, na aula passada, como Hegel apresentava a figura da consciência vinculada ao ceticismo enquanto desdobramento dos impasses de reconhecimento herdados da dialética do Senhor e do Escravo. Já havíamos visto como o trabalho abstrato do Escravo levava a consciência a uma autonomia do pensar que encontrava sua melhor realização na autarkeia estóica com sua indiferença em relação aquilo que Hegel chama de Dasein natural. Era no interior deste contexto que podíamos compreender a afirmação:

O ceticismo é a realização do que o estoicismo era somente o conceito – e a experiência efetiva do que é a liberdade do pensamento: liberdade que em-si é o negativo e que assim deve apresentar-se (…) Agora, no ceticismo, vem-a-ser para a consciência a total não-autonomia desse Outro [o Dasein independente] . O pensamento torna-se pensar que aniquila o ser do mundo multideterminado; e nessa multiforme figuração da vida, a negatividade da consciência-de-si livre torna-se a negatividade real[1].

Se o estoicismo foi apresentado como indiferença em relação ao Dasein natural que nos levaria a uma autarkeia vista como “independência e liberdade interiores”, ceticismo poderia ser visto como realização do conceito de liberdade e autonomia presentes no estoicismo a partir do momento em que ele coloca-se como negação da essencialidade do que aparece. Daí porque Hegel pode falar que, no ceticismo, a negatividade da consciência-de-si livre “no trono como nas cadeias e em toda forma de dependência do Dasein singular” tornou-se negatividade real, pensar que aniquila o ser do mundo multideterminado.

Mas tratava-se, principalmente, de mostrar as distinções entre a negatividade dialética e esta negatividade cética. Vimos como, por um lado, o ceticismo indicava (aufzeigen);

o movimento dialético que são a certeza sensível, a percepção e o entendimento; e também a inessencialidade do que tem valor na relação de dominação e de servidão, e do que para o pensamento abstrato vale como algo determinado[2].

Contra as figuras dogmáticas da consciência que compreendiam o saber como adequação entre representações mentais e estados de coisas dotados de determinação essencial (certeza sensível, percepção, entendimento), o ceticismo insistia no caráter contraditório do que aparece ao pensar como representação natural; embora o valor da contradição não seja posto em questão. O ceticismo está certo em ver na fenomenalidade o espaço da contradição, e com isto nos levar ao desespero em relação a representações, pensamento e opiniões pretensamente naturais, mas está errado na sua maneira de compreender o valor da contradição. Segundo Hegel, é por isto que ele pode ver uma negação simples como resultado da afirmação: “Uma teoria [descrição de estado de coisas] por momentos nos seduz e nos parece persuasiva? Um pouco de investigação serena logo nos faz encontrar argumentos que a contradigam com não menos persuasividade”[3]. Por outro lado, contra a tentativa estóica de determinar a essência a partir das leis gerais do pensamento abstrato ou de uma teoria causal da percepção fundada em representações privilegiadas), o ceticismo lembrava das incertezas nas quais o pensamento teórico se enreda já que toda representação não é apenas de um objeto, mas também de alguém.

Vimos como Hegel levantava, então, uma diferença maior entre ceticismo e dialética. Ela diz respeito àquilo que poderíamos chamar de “origem da experiência da negatividade”:

O dialético, como movimento negativo, tal como é imediatamente, revela-se [erscheint – manifesta-se/aparece] de início à consciência como algo a que ela está entregue; e que não é por meio da consciência mesma. Como ceticismo, ao contrário, o movimento dialético é momento da consciência-de-si – para a qual já não acontece, sem saber como, que desvaneça/desapareça seu verdadeiro e real (Reelles). Pois é essa consciência-de-si que na certeza de sua liberdade faz desvanecer/desaparecer até esse outro que se fazia passar por real[4].

 

            Ou seja, na perspectiva dialética, o movimento negativo é algo que aparece à consciência vindo do próprio objeto, trata-se de um movimento impulsionado pela coisa mesma, em um certo sentido, a negatividade vem da coisa. Por isto, a consciência parece estar entregue a uma força que opera às suas costas. Ela deve reconhecer a essencialidade desta negação que vem da coisa mesma, isto ao ponto de tal experiência com negatividade reonfigurar as estruturas de relação da consciência á si mesma.

No ceticismo, a negação é consciente de si (Selbstbewusstsein Negation) no sentido de ser um projeto conscientemente realizado pela própria consciência. Isto explica, segundo Hegel, a impossibilidade da consciência-de-si modificar seu modos de relação à si a partir desta experiência da negatividade. Por isto que Hegel irá falar da “ataraxia do pensar-se a si mesmo, a imutável e verdadeira certeza de si mesmo”. Em outras palavras, mesmo que o aparecer se manifeste ao cético como espaço da contradição, a consciência, por sua vez, é o que não é contraditório, o que é: “determinidade frente ao desigual”. Ou seja, para Hegel, o ceticismo é, em última instância, um certo retorno à posição do Senhor que procura assegurar a pura certeza imediata de si, certeza da interioridade através da aniquilação da sua dependência ao objeto. É assim que Hegel compreendia a ataraxia cética.

No entanto, Hegel insistia que a verdade da consciência cética era ser uma consciência clivada já que, na dimensão da ação, ela era uma:

consciência que é empírica, dirigida para o que não tem para ela realidade alguma; obedece àquilo que para ela não é nenhuma essência, faz e leva à efetividade o que para ela não tem verdade alguma[5].

            Ou seja, mesmo reconhecendo a impossibilidade de afirmar a essencialidade do que aparece, ela age como se aceitasse a essencialidade do que aparece, já que o que aparece, aparece de maneira essencial para mim. Mesmo sob regime de epokhè, a consciência não deixa de engajar-se na ação tal como aqueles que confundem o que aparece como o que se determina essencialmente. Em última instância, segundo Hegel, a dimensão da ação entra em contradição com a dimensão da justificação. Daí porque Hegel afirma que o ceticismo aparece como um bewusstlose Faselei (um falatório desprovido de consciência – isto no sentido de alguém que não sabe o que diz). Diríamos hoje que sua posição equivale a uma “contradição performativa”, já  que:

Seu agir e suas palavras se contradizem sempre e, desse modo, ela mesma tem uma consciência duplicada contraditória da imutabilidade e igualdade; e da completa contingência e desigualdade consigo mesmo[6].

            Assim, quando Hegel afirma que o cético “declara a nulidade do ver, do ouvir etc., e ela mesma vê, ouve, etc.”, ele quer apenas insistir nesta posição clivada de quem se vê aprisionado em um mundo cuja realidade essencial parece não poder ser fundamentada, já que é absolutamente vinculada à dimensão do fenômeno. Esta clivagem, para Hegel, só pode resultar na “infelicidade” de quem se vê necessariamente distante do que possa ter fundamento absoluto e incondicionado. Esta clivagem só pode resultar em uma “consciência infeliz”. Consciência que reconhece a parcialidade de sua perspectiva de vinculação ao mundo, mas que não pode dar realidade efetiva a uma perspectiva fundamentada de maneira incondicional e absoluta.

A infelicidade da clivagem da consciência

 

A consciência infeliz é o tema fundamental da Fenomenologia do Espírito. Como efeito, não tendo ainda chegado à identidade concreta da certeza e da verdade, visando portanto a um além de si mesma, consciência enquanto tal sempre é, em seu princípio, consciência infeliz e a consciência feliz é ou uma consciência ingênua, que ignora ainda sua infelicidade, ou uma consciência que tanspôs sua dualidade e reencontrou a unidade para além da separação”[7]. Esta afirmação de Hyppolite demonstra como alguns comentadores procuraram transformar a consciência infeliz, com seu desespero em relação à sua própria perspectiva de apreensão do mundo, em figura central para a compreensão hegeliana da consciência. Via aberta, na verdade, por Jean Wahl, com seu livro canônico Le malheur de la conscience dans la philosophie de Hegel, de 1929.

            De fato, a consciência infeliz ocupa uma posição importante na economia do texto da Fenomenologia, já que ela  marca a passagem da seção “consciência-de-si” à seção “razão”. Neste sentido, ela esgota as expectativas que animaram o trajeto fenomenológico na primeira seção e indica as condições para a consolidação de um novo parâmetro de organização para as aspirações da razão em fornecer um critério fundamentado de correspondência entre conceito e objeto.

Vimos como a seção “consciência-de-si” estava marcada pela compreensão de que a racionalidade das operações cognitivo-instrumentais da consciência dependia da racionalidade dos modos de interação social entre consciências: conseqüência hegeliana do postulado idealista a respeito do qual a estrutura do objeto duplica a estrutura do Eu. Mas vimos, desde o início, que tais modos de interação social, para servirem de fundamento para as aspirações da razão, não poderiam aparecer apenas como modos de interação entre consciências particulares. Ele deveria poder preencher exigências gerais de validade universal. Isto implicava em pensar modos de relação da consciência com aquilo que é universal. Vimos, já na dialética do Senhor e do Escravo como o movimento de confrontação entre consciências era relativizado a partir do momento em que um Outro absoluto (a morte) e universal (ainda que uma universalidade abstrata) aparecia na posição de Senhor a ser reconhecido, permitindo o advento de um trabalho abstrato. Vimos, no estoicismo, como tal noção de trabalho fornecia as condições para o advento de uma subjetividade cuja manifestação mais clara era a interioridade da autarkeia. Vimos, por fim, no ceticismo, como a consciência chegava à clivagem de reconhecer a inessencialidade de seu agir e a parcialidade de sua perspectiva. Mas se ela reconhece sua posição particular é porque ela tem um conceito de universalidade que a ela se contrapõe (um pouco como Descartes que afirmava ver a prova da existência de Deus da consciência da minha finitude). A consciência infeliz será marcada pois pela tentativa de unificar sua posição particular e a universalidade do que no ceticismo só aparecia de maneira negativa. Tal unificação permitirá o advento da razão enquanto primeira tentativa de fundamentar a universalidade da ação e do conhecer de consciências-de-si.

Dito isto, devemos entrar no comentário do texto a fim de compreender como esta passagem se estrutura. Inicialmente, lembremos que a figura da consciência infeliz marca uma guinada abrupta do encaminhamento do trajeto da consciência em direção á reflexão sobre estruturas próprias à religião. Vários comentadores já apontaram a incidência de temáticas desenvolvidas inicialmente por Hegel em seus escritos teológicos de juventude ligadas ao judaísmo e ao cristianismo. Isto apenas indica como, para Hegel, a religião é a primeira manifestação de expectativas de fundamentação absoluta e incondicional de práticas sociais e critérios de justificação. A consciência compreende a perspectiva universalista com a qual ela se relaciona: “como a perspectiva do olho de Deus que, se alguém alcançá-lo, será capaz de afirmar o que á verdadeiro e válido, assim como o que não é”[8]. Fundamentação imperfeita pois ainda marcada pelo pensamento da representação. Mas caminho necessário em direção à realização da “ciência”. De qualquer forma, percebemos que, para Hegel, filosofia e religião são diferentes formas de práticas sociais através das quais sujeitos procuram alcançar reflexivamente a posição do que fundamenta, de maneira absoluta, suas condutas e julgamentos.

Nosso trecho está, grosso modo, dividido em três partes. A primeira via até o parágrafo 209 e visa apresentar a cisão que caracteriza a consciência infeliz. Ela reconhece, ao mesmo tempo, a particularidade de sua perspectiva (Hegel fala em mutabilidade –walndelbare –  e inessencialidade)e a imutabilidade e a essencialidade da consciência de uma Outra consciência (que não é mais Outra consciência particular – como no caso do Senhor da Dialética do Senhor e do Escravo – mas consciência que se afirma como universal). Esta cisão entre o imutável e o particular (no caso, a singularidade) receberá uma primeira tentativa de conciliação através do que Hegel chama de “figuração do imutável na singularidade”. Este é o assunto central do trecho que vai do parágrafo 210 ao 213. No entanto, como veremos, a figuração não anula a cisão. Os próximos 16 parágrafos (214/230) descreverão três tentativas da consciência anular a cisão, seja através da presença do imutável através do fervor e do sentimento (215/217), seja através de um agir ritualizado que encontra sua expressão mais bem acabada na ação de graças (218/222), seja através do sacrifício de si mesmo, sacrifício de sua própria singularidade (223/230). É através das vias do sacrifício de si que as condições objetivas para a passagem em direção à razão estarão postas.

Um luta interna

            Logo no início de nosso trecho, Hegel expõe claramente a estrutura da consciência infeliz:

Essa consciência infeliz, cindida dentro de si, já que essa contradição de sua essência é, para ela, uma consciência, deve ter numa consciência sempre também a outra; de tal maneira que é desalojada imediatamente de cada uma quando pensa ter chegado à vitória e à quietude da unidade. Mas seu verdadeiro retorno a si mesma, ou a reconciliação consigo, representará o conceito do espírito que se tornou um ser vivo e entrou na esfera da existência; porque nela mesma como uma consciência indivisa já é ao mesmo tempo uma consciência duplicada. Ela mesma é o intuir de uma consciência-de-si numa outra; e ela mesma é ambas, e a  unidade de ambas é também para ela a essência. Contudo, para-si, ainda não é a essência mesma, ainda não é a unidade das duas[9].

A consciência infeliz tem, em relação às outras figuras da consciência, a peculiaridade de ter internalizado a cisão entre consciência e essência. Essência esta figurada em uma outra consciência-de-si que se afirma como aquela que tem para si a perspectiva universal de validação de condutas e julgamentos. Por ter internalizado esta perspectiva de uma outra consciência essencial, ela pode intuir a si mesma em uma outra, ser ao mesmo tempo ambas. Ou seja, a clivagem incide na consciência e, por incidir nela, pode ser superada.

No entanto, tal internalização não foi reflexivamente apreendida. Por isto, Hegel afirma que  “para-si” a consciência infeliz ainda não é a unidade com a determinação essencial. Por outro lado, as condições objetivas para tal unidade já estão dadas desde o ceticismo, já que só é possível ser cético ao reconhecer a essencialidade de um ponto de vista universal (que não pode ser assumido por nenhum dos sujeitos). O trajeto da consciência infeliz será pois a apreensão reflexiva de tal processo de internalização.

Nós já vimos como se apresenta a clivagem da consciência infeliz: ela é ao mesmo reconhecimento de si como consciência inessencial, perspectiva particular e contextual, e reconhecimento da essencialidade, da imutabilidade de uma perspectiva que nega seu particularismo. “Mas como consciência da imutabilidade ou da essência simples, [a consciência infeliz] deve ao mesmo tempo proceder a libertar-se do inessencial, libertar-se de si mesma”[10]. Ou seja, a consciência não pode repousar-se na ataraxia de quem se sabe aprisionado em um inessencial inexpugnável. Daí porque Hegel pode dizer:

a consciência da vida, de ser Dasein e de seu agir é somente a dor em relação a esse Dasein e agir, pois nisso só possui a consciência de seu contrário como sendo a essência, e a consciência da própria nulidade[11].

Esta inquietude de quem procura se livrar do aprisionamento no inessencial leva a consciência à ascensão rumo ao imutável, reconciliação com a essência

Figuração do imutável

A primeira forma de reconciliação com a essência é aquilo que Hegel chama de figuração (Gstaltung) do imutável na dimensão da singularidade (Einzelnheit). Ou seja, trata-se de um conformar-se da essência à determinação particular. É neste sentido que devemos interpretar a afirmação de Hegel: “Nesse movimento a consciência experimenta justamente o surgir da singularidade no imutável e do imutável na singularidade”[12].

            Hegel tem claramente em mente um exemplo de tal processo: a encarnação do Cristo, presença de Deus na figuração do humano. Na verdade, o esquema da trindade cristã orienta todo o desdobramento deste sub-capítulo na configuração do movimento de reconciliação da consciência infeliz. Isto fica claro na afirmação:

O primeiro imutável é para a consciência apenas a essência estranha (fremde) que condena a singularidade [o Deus distante do judaísmo – o imutável é oposto à singularidade em geral], enquanto o segundo imutável é uma figura da singularidade, tal como a própria consciência [o Cristo – o imutável é um singular oposto a outro singular]; eis que no terceiro imutável [o espírito santo – o imutável é um só com o singular] a consciência ver-a-ser espírito, tem a alegria de ali se encontrar e se torna consciente de ter reconciliado sua singularidade com o universal[13].

            Hegel insiste que esta figuração do imutável é uma reconciliação imperfeita. De fato, o imutável adquire a figura da singularidade. Mas ele aparece como um outro singular diante da consciência, e não como uma posição da essência à qual a consciência infeliz enfim participa. Daí porque Hegel lembra que:

através da figuração do imutável, o momento do além não só permanece mas ainda se reforça, pois, se pela figura da efetividade singular parece de um lado achegar-se mais à consciência singular, de outro está frente a ela como um impenetrável Uno sensível, com toda a rigidez do  Efetivo[14].

            Ou seja, a simples manifestação da essência no campo do que é fenomenalmente determinado não basta para termos à nossa disposição um protocolo geral de reconciliação. Isto é apenas “em geral um acontecer” (überhaupt ein Geschehen), acontecimento que aparece como apresentar-se da essência, mas que ainda não indica as modalidades de apreensão reflexiva de tal apresentar-se. A consciência ainda se vê distante de tal acontecimento. Daí porque ela deve levar à unidade sua “relação inicialmente exterior com o imutável figurado como uma efetividade/uma realidade estranha”[15].

O esforço de reconciliação

 

            A partir do parágrafo 214, Hegel descreve o movimento através do qual a consciência infeliz se esforça em atingir a unidade com a essência. Tal movimento é tríplice, devido à tríplice configuração dos modos de relação com o que aparece como além. Primeiro, como pura consciência através do sentimento. Segundo, como consciência prática e desejante que, através do agir, procura unificar-se com a essência. Por fim, como consciência de seu ser-para-si através do sacrifício de si.

            Hegel assim descreve o primeiro modo de relação com o que aparece como além:

Nessa primeira modalidade em que a tratamos como pura consciência, a consciência infeliz não se relaciona com seu objeto como pensante (…) A consciência, por assim dizer, apenas caminha na direção do pensar e é fervor devoto. Seu pensamento, sendo tal, fica em um uniforme (gestaltlose – informe) badalar de sinos ou emanação de cálidos vapores; um pensar musical que não chega ao conceito, o qual seria a única modalidade objetiva imanente. Sem dúvida, seu objeto virá ao encontro desse sentimento (Fühlen) interior puro e infinito, mas não se apresentará como conceitual, surgirá pois como algo estranho[16].

            Tal como vimos no capítulo dedicado à certeza sensível, novamente a consciência crê aproximar-se do essencial através da imanência do que se apresenta de maneira pré-conceitual, através do puro intuir do sentimento. Este intuir manifesta-se através da devoção de um fervor que mais se assemelha a um “pensar musical que não chega ao conceito”.

            Esta figura do pensar musical é extremamente ilustrativa. Há uma clara contraposição entre forma musical e conceito que perpassa vários momentos da filosofia hegeliana. A análise de tal contraposição pode nos esclarecer certos aspectos do que está em jogo neste momento do nosso texto

Segundo Hegel, a música seria a mais subjetiva das artes, linguagem da pura interioridade, já que seu conteúdo seria o puro Eu, inteiramente vazio de determinações objetivas. Lembremos, por exemplo, como Hegel insiste no fato da música não produzir uma objetividade espacialmente durável. Pois o som é uma exteriorização que, precisamente converge o momento de sua exteriorização com o momento de seu desaparecimento. A música seria muito próxima deste elemento de liberdade formal para não ser: “de todas as artes, aquela que é mais apta a se liberar (…) da expressão de todo conteúdo determinado”[17]. Ao contrário da poesia, onde o significante fônico continua sendo a designação de uma representação e não aspira significação apenas por si mesmo, a música permite à forma sonora de transformar-se em fim essencial enquanto edifício sonoro. Mas ela perde a objetividade interior dos conceitos e representações que a linguagem poética apresenta à consciência. A música aparece assim como linguagem da interioridade subjetiva da sensação.

            Fora da arte, o som (grito, exclamação etc.) já é exteriorização imediata de estados de alma e de sensações. Mas, na sensação, a distinção entre o eu e o objeto  não pode ser posta. Desta forma, na música. “A consciência, que não tendo mais nenhum objeto em face dela, é tragada pelo fluxo contínuo de sons”[18]. A música, e este seria o seu pecado maior, não permitiria com isto a reflexividade que funda a consciência-de-si, ainda mais porque ela levaria a consciência à percepção abstrata de si. Eis o ponto central: seu “pressentimento do infinito” e sua tentativa de ser uma “língua para além da linguagem” seria, segundo Hegel, fundada sobre a ausência de reflexividade própria à forma musical.

            Hegel termina esta exposição da primeira modalidade de unificação com a essência lembrando que a informidade de um pensar musical fevoroso pode inverter-se em objetificação da essência: “singular como objeto ou como um efetivo, objeto da certeza sensível imediata”. A consciência sai então á procura de objetos que possa representar a essência. No entanto, ela encontra apenas “o sepulcro de sua vida”. [As cruzadas como símbolo histórico de uma verdade metafísica/ mas também o signo como túmulo de pedra que guarda em si uma alma estranha que, no entanto,  é fonte de significado].

            Esta experiência de que a representação material da essência no mundo é um sepulcro impulsiona o advento do segundo modo de esforço de unificação. A consciência agora não mais tenta apreender a essência através da certeza imediata do sentimento. Ela é consciência que deseja e trabalha, ou seja, consciência que nega o mundo como sepulcro. No entanto:

A efetividade contra a qual se voltam o desejo e o trabalho já não é uma nulidade em si que ela apenas deva superar (Aufzuhebendes) e consumir. É uma efetividade cindida em dois pedaços, tal como a própria consciência: só por um lado ela é em si nula, mas pelo outro lado é um mundo consagrado, a figura do imutável[19].

Ou seja, o mundo aparece, ao mesmo tempo, como nada e sagrado, como sepulcro e como o que deve ser consagrado ao imutável [a transubstanciação]. O sentido do agir da consciência não é apenas a negação do mundo, mas o construir a comunhão através de um trabalho que é consagração ao imutável, trabalho que é santificação. Isto é possível porque: “A existência sensível tornou-se um símbolo, não é o que é; e se ela se entrega à consciência é porque o próprio imutável faz disso um dom para a consciência”[20].

Hegel insiste que esta clivagem do objeto (entre o que deve ser negado e o que deve ser consagrado) apenas duplica uma clivagem da própria consciência. Na dimensão do agir, a consciência, vê suas faculdades e forças como: “um dom estranho (eine fremde Gabe) que o imutável concede à consciência para que dele goze”[21]. Há um avanço aqui pois a consciência não vê mais o imutável como o que se manifesta diante dela. Ele está internalizado na própria consciência através de um agir que é dom divino. A essência não está mais em um além da consciência singular. No entanto, é Deus quem age através da consciência, assim como o Senhor era o verdadeiro sujeito da ação do Escravo. Daí porque Hegel afirma: “nega a satisfação da consciência de sua independência e transfere a essência de seu agir de si para o além”[22]. O agir da consciência aparece, de uma certa forma, como a própria negação da consciência.

Esta negação e consagração do mundo através de um agir que é “dom estranho” tem sua figuração perfeita na ação de graças. Todo o agir da consciência neste estágio é, em última instância, uma ação de graças. Ação através da qual o sujeito oferece à Deus o fruto de seu próprio dom.

No entanto, Hegel insiste que, na ação de graças, a renúncia à satisfação do sentimento-de-si é apenas aparente. De fato, a consciência reconhece que seu agir é agir de um Outro, mas é ela quem reconhece. É a própria consciência que, de maneira reflexiva, reconhece a essencialidade do Outro através do seu próprio agir particular. Por isto, Hegel não deixa de insistir que: “o movimento completo se reflete no extremo da singularidade”, já que o imutável, este, não reflete para-si no singular. Neste sentido, a passividade da consciência era a ilusão de uma renúncia aparente e, por isto, inefetiva.

A reconciliação através do sacrifício

 

            O último movimento do nosso texto é, na verdade, um aprofundamento deste movimento de despossessão de si que foi apenas encenado de maneira aparente através da ação de graças. Hegel pensa, aqui, processos de reconciliação efetiva com o universal através do sacrifício de si devido ao ascetismo e à culpabilidade. Vejamos como isto se dá.

            Hegel afirma que este terceiro estágio organiza-se através de uma relação na qual a consciência aparece como nulidade (Nichtigkeit).

Por isto, agir e gozo perdem todo conteúdo e sentidos universais – pois assim  teriam um ser-em-si e para-si, e ambos se retiram à sua singularidade, à qual a consciência está dirigida para superá-la[23].

            A consciência percebe seu agir e seu gozar como sempre aferrado à particularidade, à sensibilidade, ao cálculo do prazer. Ou seja, agir e gozar sempre marcado pela animalidade (que aparece como “o inimigo” no interior do si mesmo). Através da culpabilidade e da mortificação ascética, a consciência adentra em uma luta contra si mesmo que só pode produzir “miséria e infelicidade”. No entanto, algo de positivo se esboça neste luta de si contra si mesmo, pois “ao sentimento de sua infelicidade e à miséria de seu agir junta-se a ambos também a consciência da sua unidade com o imutável”[24], já que esta tentativa de aniquilação imediata do ser sensível é feita em nome do pensamento do imutável, um pensamento a respeito do qual a consciência não conhece determinidade alguma [Deus é um Deus escondido].

            Hegel ainda lembra que a mediação entre o pensamento do imutável e a inefetividade do vínculo ao sensível não ocorre inicialmente na consciência, mas em um meio-termo (o ministro, ou ainda, a igreja). Mediação também ilusória, mas necessária. Necessária porque a consciência irá, de uma certa forma, transformar a sua relação com o meio-termo em modo de efetivação e determinação do imutável. Ela submete-se ao meio-termo como suplemento à submissão impossível a um imutável que não pode se determinar de maneira plena.

            Nesta submissão ao meio-termo, a consciência “se põe a fazer algo totalmente estranho”, “algo que não compreende” até ter a certeza de; “ter-se exteriorizado (entäussert) verdadeiramente de seu Eu, e de ter feito de sua consciência-de-si imediata uma coisa (Dinge) um ser objetificado (gegenständlichen Sein)”[25]. Neste sacrifício de si através da alienação do seu agir, alienação resultante de uma decisão que ela mesma toma de pôr sua vontade como um Outro, de ter em si sua própria negação, Hegel indica o caminho para a reconciliação. Pois ela não trocou sua perspectiva particular, por outra perspectiva particular. Ao contrário, na confrontação com o automatismo da ação desprovida de sentido, de um agir que não é posição da expressividade de nenhum sujeito, a consciência pode alcançar a universalidade do que é abstrato. A razão pode então começar a aparecer.

Um caminho que a consciência ainda não apreende reflexivamente. Para ela, o agir continua sendo um agir miserável. No entanto,


[1] HEGEL, Fenomenologia, par. 202

[2] HEGEL, Fenomenologia, par. 203

[3] PORCHAT, Vida comum e ceticismo, p. 168

[4] HEGEL, Fenomenologia, par. 204

[5] HEGEL, Fenomenologia, par. 205

[6] HEGEL, Fenomenologia, par. 205

[7] HYPPOLITE, Gênese … , p. 203

[8] PINKARD, The sociality of reason, p. 80

[9] HJEGEL, Fenomenologia, par. 207

[10] HEGEL, Fenomenologia, par. 208

[11] HEGEL, Fenomenologia, par. 209

[12] HEGEL, Fenomenologia, par. 210

[13] HEGEL, Fenomenologia, par. 210

[14] HEGEL, Fenomenologia, par. 212

[15] HEGEL, Fenomenologia, par. 213

[16] HEGEL, Fenomenologia, par. 217

[17] idem, p. 135

[18] HEGEL, Curso de estética – II,  p. 141

[19] HEGEL, Fenomenologia, par. 219

[20] HYPPOLITE, Gênese …¸ p. 225

[21] HEGEL, Fenomenologia, par. 220

[22] HEGEL, Fenomenologia, par. 222

[23] HEGEL, Fenomenologia, par. 225

[24] HEGEL, Fenomenologia, par. 226

[25] HEGEL, Fenomenologia,par. 229

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