A Poesia dos Países Árabes

 

A Poesia dos Paises Arabes - Clique Aqui para Download
Abdul Rehman Mangá
12/05/2011

 
Assalamo Aleikum Warahmatulah Wabarakatuhu (Com a Paz, a
Misericórdia e as Bênçãos de Deus)
Bismilahir Rahmani Rahim (Em nome de Deus, o Beneficente e
Misericordioso)
JUMA MUBARAK
No dia 4 de Maio de 2011, fui convidado pela Livraria Poetria, para falar acerca da
Poesia dos Países Árabes e da situação de revolta que está a acontecer nos
respectivos países. Antes da leitura das poesias por parte de outros convidados, fiz a
seguinte intervenção:
“Seguindo a minha tradição islâmica, cumprimento-vos com “Assalamo Aleikum” –
Que a Paz de Deus esteja convosco. Esta é a forma dos muçulmanos se
cumprimentarem. Usamos e “abusamos” desta saudação!. Em Portugal, esta
manifestação de harmonia foi desvirtuada, dando a origem à palavra “Salamaleque”,
que literalmente significa mesura exagerada ou saudação interesseira. Não é só de
“salamaleques” que nos ligam aos Árabes, conforme poderão ouvir mais adiante.
O Islão incentiva a procura do conhecimento. No Alcorão encontramos centenas de
vezes a palavra caneta, ler, escrever e seus derivados. A primeira revelação do
Alcorão começa com o seguinte versículo:
1 – Iqra (Recita) em nome do teu Senhor que criou; 2 – Criou o homem de um
coágulo; 3 – Recita e o teu Senhor é o mais generoso; 4 – Que ensinou com a
caneta; 5 – Que ensinou ao homem aquilo que ele não sabia”.
O próprio Alcorão recomenda-nos pedirmos a Deus, o fortalecimento da nossa
sabedoria, através da prece “Rabi Zidni ilm” – Meu Senhor, conceda-me o
conhecimento”. Muhammad, o Profeta do Islão, recomenda-nos: “Procurai a
sabedoria, mesmo se para isso tiverdes de viajar até à China”. Os grandes
pensadores e intelectuais muçulmanos, seguiram a orientação divina, procurando e
desenvolvendo o “ILM”, o conhecimento. Conhecer a literatura e a poesia árabe, é
também compreender as diversas culturas unidas numa religião, que foram
impulsionadoras da ciência e da literatura. É compreender os povos que se regem
pelo Alcorão na sua vida quotidiana, fazendo dele o seu código de vida.
A língua árabe atrai muitos ocidentais. Mesmo não percebendo nada das palavras, os
ouvintes ficam comovidos. Veja-se o caso do AZAN - “O cântico do Muezin”, que
não é mais do que a chamada para a oração. Estas palavras doces, entoadas cinco
vezes ao longo do dia, incentivam os mais curiosos a procurarem saber o significado.
Alguns acabam por desenvolver os seus conhecimentos sobre a religião e convertemse
ao Islão. Abdul Basit Abd Us - Samad, já falecido, foi um dos maiores recitadores
dos versos do Alcorão. Ainda é considerado um dos melhores recitadores de todo o
Islão. Ninguém fica indiferente à sua voz, límpida e cativante, ao ponto de ficarmos
comovidos. Actualmente, existem outros recitadores, também de grande qualidade.
Uma vez, Abdul Basit fez parte duma delegação Egípcia, chefiada pelo falecido
Presidente Gamal Abdel Nasser, em visita à antiga União Soviética. Na reunião, os
membros do Partido Comunista, solicitaram-lhe para recitar alguns versículos do
Cur’ane. Escolheu o Surat TA HÁ. Ao recitar com a sua bela voz, comoveu-os, ao
ponto de alguns deles deitarem lágrimas, apesar de não compreenderem o respectivo
significado.
Em Portugal, no século 11, nasceu um grande poeta Luso - Árabe, o AL MU’TAMID.
De nome completo, Muhammad Ibn Abbad Al-Mu’tamid, conhecido como Rei-Poeta de
Sevilha. Nasceu em Beja, foi governador e Califa de Silves e depois soberano de
Sevilha. Encontra-se sepultado em Agmat, Marrocos, perto de Marraquexe. O
respectivo mausoléu, foi visitado pelo Presidente da República Portuguesa, Dr. Jorge
Sampaio. Na sua corte, reuniam-se grandes nomes da ciência e da literatura como o
astrónomo Al-Zargali, o geógrafo Al-Bakri e os poetas Hamdis, Ibn Al-Labbana e Ibn
Zaydul. Al Mu’tamid é conhecido pelos seus inúmeros poemas, que permitiram
descrever, com muita fiabilidade, a história da época.
Ibn Arabi, de nome completo, Abu Bakr Muhammad Ibn Ali Ibn Al-Arabi, é outro Luso
- Árabe e grande mestre sufi. Nasceu em Múrcia em 1164 e estudou Jurisprudência e
teologia Islâmica em Lisboa. Deu uma grande contribuição no campo das Ciências
Islâmicas. Valeu-lhe os títulos de “Vivificador da Religião” e de “Mestre Supremo”.
Na altura, a literatura, a poesia e a ciência floresciam no sul de Portugal e de Espanha.
Os adeptos das 3 grandes religiões do Livro, os Judeus, os Cristãos e os Muçulmanos,
viviam em paz, trocando experiências. Os poetas referiram nas suas obras, os
aspectos religiosos e sociais que regiam a vida quotidiana. Após o pôr do sol, a
escuridão invadia a Europa, com excepção de todo o sul da Península Ibérica, onde as
vias públicas e as casas eram iluminadas, não só pelas luzes artificiais, mas também
pelas luzes do conhecimento e da sabedoria.
A luxúria, os gastos exagerados do reino, as querelas (fitna) com os pequenos reinos,
a imposição de altos impostos para pagar as guerras e as extravagâncias dos
governantes e a má conduta contrária aos preceitos religiosos e morais, levaram à
decadência dum período de conhecimentos e de esplendor, em plena Europa ainda
adormecida.
São célebres os autores árabes e persas que, através da poesia, cantam louvores a
Deus. Antes de iniciarem as suas carreiras, procuram atingir o “HAQIQAH”, ou seja o
puro conhecimento. Mas, para o efeito, percorrem os “TARIQAH”, as vias para
obterem a perfeição. Por isso se diz no meio religioso, que “AS VIAS PARA DEUS
SÃO TÃO NUMEROSAS COMO AS ALMAS DOS HOMENS”. Vou referir-me a dois
poetas sufis, que deixaram obras de inestimável valor e reconhecidos em todo o
mundo. São eles, os poetas Sanai e Rumi.
Sanai, místico sufi, de nome completo, Hakim Abdul Majid Majdud Ibn Adam Sanai
Ghaznavi, viveu na Pérsia e morreu por volta do ano 1131. A obra mais conhecida, é
“Hadiqat al Haqiqa” - “O Jardim Fortificado da Verdade”, traduzida em diversas
línguas. Eis aqui algumas das passagens, que fazem referência a Deus e à Sua
criação:
“A razão levou-nos até à porta, mas foi a Sua presença que nos deixou
entrar……. Mas como poderás alguma vez conhece - Lo, enquanto fores
incapaz de conhecer-te a ti mesmo?......... O lugar, Ele próprio não tem
lugar; como poderia haver lugar para o Criador do lugar? Ele disse: “Eu era um
tesouro oculto, a criação foi criada para que pudésseis conhecer-Me”. …... Só
é longo o caminho porque te demoras em empreendê-lo: um único
passo te levaria até Ele........ O caminho para o Amigo não está longe de ti:
tu mesmo és o caminho: então põe-te em marcha por Ele……… A morte da
alma é a destruição da vida, mas a morte da vida é a salvação da
alma”.
Outro grande pensador, foi Dajal Ud-Din Muhammad Balkhi, mais conhecido por
RUMI, é o maior poeta de língua persa. Morreu em Konya, Turquia em 1273.
Extraordinário poeta, escreveu milhares de versos, referindo todos os aspectos, o
universo, a natureza, as pessoas e principalmente Deus. Foi um embriagado pelo
amor, fazendo dele “um louco de Deus”, como também eram São Francisco de Assis e
outros grandes devotos. Nas suas obras, Rumi refere a imagem de Deus o
Beneficente e Misericordioso (Rahman e Rahim), que ampara e encaminha sempre o
Seu servo. Quando no coração existe o amor por Deus, Ele, o Criador, nunca nos
abandona, conforme refere o Cur’ane: “Que o teu Senhor não te abandonou, nem
te odiou.. Não te encontrou extraviado e te encaminhou?” 93:2..7. “Invocai-Me,
que Eu vos atenderei”. 40:60.
Escreveu Rumi: “O Teu amor veio até ao meu coração e partiu feliz. Depois
retornou, vestiu a veste do amor, mas mais uma vez foi embora. Timidamente lhe
supliquei que ficasse comigo ao menos por alguns dias. Ele se sentou junto a
mim e se esqueceu de partir”.
Escreveu Rumi: “Quando é que a religião foi única? Sempre houve duas ou três e a
guerra e as querelas existiram entre elas. Como podeis vós tomar uma só, todas as
religiões? Elas tornar-se-ão uma no Dia do Julgamento, mas aqui em baixo é
impossível, pois cada um tem finalidades e desejos diferentes”. A Unesco declarou
2007, o ano internacional de Rumi e celebrou os 800 anos do seu nascimento, tendo
como lema, o seu legado: “construir a paz nas mentes dos homens”.
Deus e a Sua criação, o jardim, o perfume das flores, a tristeza, a alegria, a meditação,
a sensualidade da guerra, a mulher, eram pretextos para os poetas descreverem os
seus sentimentos. Consta uma lenda que há mil anos atrás, um poeta impedido de ver
a sua amada, ateou fogo a porta da casa, para entrar e vê-la. Foi detido e levado à
presença do juiz. Declarou-se inocente e como tal foi reconhecido pelo tribunal, ao
alegar que a causa do desastre foi uma fagulha que se soltou involuntariamente do
seu coração ardente.
O vinho é proibido pela religião, mas não deixou de fazer parte de inúmeros poemas,
como este do Abd al-Malik, acabando por confirmar os maléficos das bebidas
alcoólicas: “Durante toda a noite não parava de lhes servir vinho e de beber eu
próprio... até que me embriagou tal como a eles.... Mas o vinho conseguiu bem a sua
vingança: eu fi-lo cair na minha boca e ele fez-me cair a mim”.
O mundo está hoje em convulsão. Por um lado, as invasões e as ocupações indevidas
das terras e por outro lado, a posição dos ocupados, retaliando e muitas vezes
utilizando indevidamente a religião. Este confronto, faz com que o mundo se encontre
numa encruzilhada e com um futuro incerto. Em resultado destas provocações, o Islão
é hoje uma religião mal compreendida e distorcida. O Islão não pode ser conectada
com os actos divulgados pelos jornais e televisões. Será que devemos atribuir ao
Cristianismo, as atrocidades da inquisição?. Refere o Alcorão: “Quem matar um ser
humano, é como se tivesse dizimado toda a humanidade”. E por tal, prestará contas
perante Deus.
Alguns Países Árabes estão em ebulição. Não é possível manter amordaçados por
muito tempo, os jovens sedentos por empregos, pelo pão e pela liberdade. Eles estão
aí todos os dias nas televisões, afrontando os respectivos regimes. A melhor palavra,
é a aquela que é dirigida ao rei tirano. Pelas palavras e pelas canetas, cairão aqueles
que teimam manter-se no poder, conforme um ditado popular muito utilizado no meio
muçulmano: “Depois de assentar a poeira, verás se montavas num cavalo ou
num burro”.
“Oh amigo! Mantém-te afastado dos caminhos da opressão; oprimir a Criação, é
esquecer o Criador”. (Abdullah Al Ansari Al-Harawi – 1006/1089)
Apesar de todos estes obstáculos, os escritores e poetas árabes continuam a produzir
obras de grande qualidade. Continuam a escrever, afrontando os governantes,
lembrando as palavras de Deus, quando no dia do julgamento final, (zangado),
segurando na Sua mão direita toda a terra e o céu dobrado: Deus perguntará: “Eu
Sou o Rei; onde estão os reis (governantes) da terra?”.
Ontem, dia 3 de Maio, comemorou-se o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. É um
atentado à dignidade humana, encarcerarem pessoas por manifestarem as suas
opiniões. Também considero que é uma afronta à dignidade dos crentes das diversas
religiões, quando alguns se dedicam a difamar os respectivos símbolos,
argumentando a utilização de liberdade de imprensa. Não é difícil encontrar a linha
que separa o bom senso da maldade.
Para terminar, um belo poema de Rumi: “No Inverno, os ramos nus, que parecem
dormir, trabalham em segredo, preparando-se para a primavera”.
Mais uma vez, o meu “SHUKRAN”, o meu obrigado e o meu reconhecimento por esta
magnífica manifestação de cultura. Como diria o meu conterrâneo, o saudoso João
Maria Tudela, Kanimambo! Salam! Fiquem em Paz! Fiquem com a Poesia Árabe”.
Um bom dia de Juma para todos, na melhor das companhias, a vossa família.
Abdul Rehman Mangá
12/05/2011
 

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