Homofobia e moralidade I

Homofobia e moralidade I

Introdução

As relações homossexuais, desde que o mundo é mundo e o homem é homem, existem. Estão tanto no mundo civilizado quanto no mundo animal. Lembremos da antiguidade clássica, Grécia e Roma, dos diálogos de Platão, das peças de Aristófanes, das relações entre os soldados em Esparta. Existem diversas explicações para as várias práticas comportamentais na antiguidade, na modernidade e na contemporaneidade, mas o que vou refletir nesse texto é um problema muito mais sério do que a simples investigação dos motivos por trás das práticas homossexuais, e questiono até a relevância de pesquisar tais motivos. Realmente importa saber o porquê? Se é biológico, psicológico, social, uma mistura de todos esses supostos, realmente importa? Se de fato descobrirmos os motivos desse comportamento, mudaria algo na vida dos homossexuais? Bom, aumentaria nosso conhecimento, e mais nada. Heterossexuais continuariam suas vidas assim como os homossexuais.

Pois bem, deixarei de lado esse pequeno problema (apesar que direi algo sobre isso mais a frente) para investigar um problema muito maior, como dito acima, a saber, o de porque os homossexuais são tão odiados na civilização contemporânea. Porque seu estilo de vida causa ódio, repulsa, intolerância e outros sentimentos negativos em pessoas que, muitas vezes, não são más?

Existem, portanto, determinados pressupostos que devem ser esclarecidos, analisados racionalmente, para, por fim, identificar se as razões relativas à repulsa contra homossexuais são sustentáveis, são fundamentáveis, são racionais.

Para começar, algumas palavras sobre a ética

Sempre que escrevo algo sobre a ética (no contexto desse texto usarei as palavras ética e moral como sinônimas), acho necessário explicitar algumas coisas sobre essa disciplina. Pode parecer meio chato, mas é fundamental para podermos ter um critério de avaliação racional sobre o que é “certo” e o que é “errado”.

Uso geralmente um texto que escrevi a algum tempo, e essa parte está contida em outros artigos, e nesse artigo, portanto, não será diferente. Comecemos, pois, a investigação (breve) sobre a natureza da ética.

Para começar nossa discussão, que faz parte do campo da ética, que por sua vez é uma disciplina (e talvez a mais importante) da filosofia, é importante fazer algumas distinções e esclarecer, acima de tudo, o que é a ética. Tentarei não fazer uma exposição exaustiva desse conceito, e exporei apenas o necessário para se ter uma boa clarificação do que é realmente a verdadeira natureza da ética.

Primeiramente direi algumas breves palavras sobre a filosofia para posteriormente estabelecer dentro da prática filosófica as investigações de natureza ética.

A filosofia, desde seu estabelecimento no século VI a.C. por Parmênides de Eléia1, sempre foi um exercício puramente racional. Parmênides desenvolveu uma definição do Ser sobre bases puramente intelectuais e lógicas (tanto é que foi ele quem primeiro estabeleceu o princípio de identidade lógica) demonstrando que a contradição é irracional e o irracional é insuportável. O filósofo eleático distinguiu os dois caminhos que os seres humanos podem seguir em qualquer investigação racional: o caminho consequente que conduz à verdade ou o caminho das simples opiniões que conduzem ao erro. “…é preciso que de tudo te instruas, do âmago inabalável da verdade bem redonda, e de opiniões de mortais, em que não há fé verdadeira (ou seja, certeza)”.2 Nas palavras dos grandes especialistas na filosofia grega antiga, “Parmênides afirma que em qualquer investigação há duas, e apenas duas, possibilidades logicamente coerentes, que se excluem mutuamente – a de que o objeto de investigação existe ou a de que não existe. Em bases epistemológicas, ele rejeita a segunda alternativa como ininteligível. Em seguida, ataca o comum dos mortais (ou seja, o senso comum inconsequente, a doxa, a opinião) por demonstrarem com as suas crenças que nunca escolhem entre as duas vias ‘é’ e ‘não é’, mas que seguem ambas sem discriminação”.3

Bem, tudo isso foi dito para esclarecer como, desde Parmênides, a filosofia se constituiu como uma pratica racional e consequente sobre problemas bem determinados. Desde essa época a filosofia já era concebida como “desafio ao senso-comum”.

Ora, a preocupação com questões éticas, e o estabelecimento da ética como investigação filosófica, contudo, surgiu com um personagem muito conhecido da humanidade, Sócrates.

Antes de Sócrates, as preocupações dos “filósofos” concentravam-se, sobretudo, em questões relativas ao cosmos e a physis, em outras palavras, concentravam-se na tentativa de compreender a configuração do real, do mundo, e não do homem e suas ações.

Sócrates, no início de suas investigações filosóficas, concentrou-se também (como os filósofos posteriores) em buscar respostas a respeito do ser das coisas a partir de elementos naturais, porém, abandonou bem cedo o estudo da natureza (physis). No diálogo “Fédon”, Sócrates dirá que se decepcionou com os estudos da physis, pois as respostas que encontrou davam conta mecanicamente, por exemplo, de suas ações enquanto cidadão. Ou seja, os físicos explicariam o fato de Sócrates estar preso e condenado à morte porque seu corpo é constituído por ossos e músculos e que esses músculos se contraem dando movimento ao corpo e que, por conseguinte, esse movimento teria levado Sócrates para a prisão. Não contente com esse tipo de resposta mecanicista, Sócrates se voltará para os estudos dos homens nas cidades e buscará as causas que motivam os homens a agir. Esse abandono da physis também se dá pelo fato de que a natureza não exerce o logos. Os animais, os campos, as árvores não consentiam em ensinar-lhe alguma coisa. Sócrates demonstrava que o homem se define por ser um animal racional, sua natureza era racional (como posteriormente dirá Aristóteles), e apenas o homem pode exercer o diálogo (dia– através, logos– discurso, razão), “o através do discurso/razão”, pois naturalmente desenvolvia a linguagem.

Ora, Sócrates funda a ética em bases puramente racionais, não existindo uma fonte externa à própria razão capaz de estabelecer o que é o justo ou o injusto, o certo ou o errado. Nas palavras de Sócrates, a ética nos diz “como devemos viver”. Se o que eu disse à respeito da filosofia é certo, o mesmo se aplica à ética. Se a filosofia é um exercício puramente racional, por conseguinte, a ética também é.

Como disse o filósofo americano James Rachels, a filosofia “como qualquer outra investigação humana responsável é, do princípio ao fim, um exercício da razão. As ideias que devem prevalecer são aquelas que tiverem as melhores razões do seu lado”.4

Não discutirei aqui as diversas teorias éticas desenvolvidas pelos filósofos, contudo, direi que para que um juízo tenha valor ético, ou, para que determinada teoria ética constitua-se de maneira consistente, “primeiro: os juízos morais tem de se apoiar em boas razões; segundo, a moral implica a consideração imparcial dos interesses de cada indivíduo”.5

Ora, o que eu disse pode nos levar a duas consequências interessantes. A primeira é a de que a ética independe da religião e a segunda é a de que nossas inclinações afetivas não constituem base alguma para a moralidade. As críticas à teoria ética religiosa (a chamada teoria dos mandamentos divinos) e as críticas à teoria ética que diz que temos o sentimento de que as ações são boas ou ruins (a chamada teoria do subjetivismo ético), não serão feitas aqui, e isso deixarei para um próximo texto. Contudo, afirmo que em bases racionais essas duas teorias apresentam sérios problemas, e nossa única opção frente a elas é abandoná-las como teorias defeituosas e insuficientes.

Continuando com o texto, podemos concluir então que a ética é uma disciplina filosófica puramente racional, e para que juízos éticos sejam válidos, eles devem apoiar-se em boas razões. Dizer que os juízos éticos devem apoiar-se em boas razões não significa nada mais que dizer que esses juízos e suas justificativas estão disponíveis para a análise de qualquer sujeito racional, ou seja, as razões se apresentam a qualquer ser-humano e podem ser compreendidas por qualquer ser-humano que saiba pensar consequentemente. Enquanto que uma ética baseada na religião se apóia, em última instância, na fé, ou seja, suas justificativas estão condicionadas a serem aceitas apenas por quem compartilha da fé pressuposta, ao mesmo tempo, uma ética baseada em sentimentos subjetivos só será justificável para as pessoas que possuem as mesmas inclinações subjetivas. Ou seja, o único critério aceitável de uma ética objetiva, não pode ser senão fundado na própria objetividade da razão.

Para os propósitos desse texto, acredito que o que foi dito acima seja suficiente para compreender as reflexões posteriores, e, apesar da conceitualização feita acima poder ser criticada por muitos, não vejo como essas críticas poderão ser bem fundamentadas em critérios que se sustentem firmemente.

Se a ética não for um exercício da razão, então não há possibilidade de ética.

Homossexuais e seus carrascos

Bom, como foi dito, me movimentarei sobre as bases estabelecidas acima. Tentarei ser o mais consequente possível.

Como todos devem saber, as críticas negativas feitas ao comportamento homossexual são em sua esmagadora maioria de caráter religioso/moralista, e isso é tanto consciente como inconsciente. Digo isso, pois temos tanto os religiosos convictos de que Deus estabeleceu a “abominação” da prática homossexual já no velho testamento, quanto os cidadãos que se auto-intitulam não religiosos mas que também desaprovam essa mesma prática, e tentam justificar essa desaprovação de muitas formas, sendo a mais comum dizer que “não parece natural”. Ambas possuem raízes na religião judaico-cristã. A primeira fica explicitamente clara, sendo apenas necessário consultar o Levítico 18:22. A segunda alegação, de que é contrária a natureza, pressupõe que a natureza foi feita inteligentemente por um criador que colocou cada coisa no seu lugar, e que cada coisa deve permanecer nesse mesmo lugar. Adão e Eva foram criados e não Adão e Ivo. Não é essa piadinha que costumamos ouvir? Está aí, pois, a origem religiosa da homofobia.

Os críticos dos homossexuais baseiam seus argumentos no fato de que estes últimos possuem algum tipo de desvio moral que corrompe e macula a sociedade. Temos os exemplos vergonhosos, tanto do deputado fascista e racista (eleito pelo povo) Jair Bolsonaro, que além de defender o regime militar e suas atrocidades, milita ferozmente contra a causa gay, quanto do pastor Silas Malafaia, o porta voz dos evangélicos irracionais (isso para falar apenas dos mais expressivos na mídia). Para esses senhores, homossexuais são estupradores, pedófilos e exibicionistas que desvirtuam os verdadeiros valores da sociedade.

Ora, suas criticas poderiam ser justificáveis, mas não são. Poderiam, digo, se encontrasse base factual para o que afirma, mas não existe tal base. Suas razões são ilusórias, marcadas por um discurso ideológico-religioso irracional.

Analisemos, pois, os argumentos dos críticos do comportamento homossexual, que no fundo, são todos os mesmos e velhos sofismas de sempre.

Primeiramente, devemos sempre ter em vista que homossexualidade não é escolha e sim descoberta.
“O fato mais pertinente é que os homossexuais seguem o único tipo de vida que lhes dá oportunidade de ser felizes. O sexo é um impulso particularmente forte – não é difícil saber porquê – e poucas pessoas são capazes de conceber uma vida feliz sem a satisfação das suas necessidades sexuais. Não devemos, no entanto, centrar-nos apenas no sexo. Mais de um escritor gay afirmou já que a homossexualidade não se centra em saber com quem se tem sexo; mas sim em saber quem se ama. Uma vida boa, para gays e lésbicas, assim como para qualquer outra pessoa, pode significar viver com alguém que se ama, com tudo o que isso envolve. Além disso, as pessoas não escolhem a sua orientação sexual; tanto homossexuais como heterossexuais descobrem ser o que são sem terem tido qualquer voto na matéria”.6

O que Rachels escreveu acima já deveria ser o suficiente para que a discussão fosse encerrada, contudo, é necessário examinar os argumentos que sempre ferem a índole dos homossexuais.

Não existem provas, base factual, evidência, que possam provar que homossexuais são imorais, que possuem uma índole perversa e desvirtuada que ameaçam a estrutura moral da sociedade. Como disse Rachels, “Além da natureza de suas relações sexuais, não há qualquer diferença, entre homossexuais e heterossexuais de índole moral ou na participação da sociedade. A ideia de que os homossexuais são de alguma forma perniciosos, revela-se um mito muito semelhante à ideia de que os negros são preguiçosos ou os judeus avarentos”.7

Como não há fatos que provem a perniciosidade moral dos homossexuais, todos os ataques acabam caindo sempre no velho chavão “é contrário à natureza”.

Ora, o “contrário à natureza” é algo extremamente vago, e se perguntarmos às pessoas que defendem tal princípio, não conseguirão sustentar de maneira clara o que tal coisa significa. A partir de Rachels, clarificarei pelo menos três formas de compreender essa afirmação.

A primeira reduz o “contrário à natureza” a uma noção estatística. A segunda reduz-se à ideia de finalidade de uma coisa, e a terceira pode ser reduzida à um termo de avaliação particular.

Comecemos, pois, pela primeira.

Uma noção estatística diz respeito a números, ou seja, o “contrário à natureza” seria tudo aquilo que se difere do que a maioria das pessoas são. Ora, se isso fosse moralmente errado, todas as diferenças estatísticas, pela lógica, deveriam ser condenadas. Peguemos o caso dos canhotos, ou dos ruivos, por exemplo. Estatisticamente, são inferiores à maioria numérica, porém, não há motivo algum para afirmarmos que isso é contrário à natureza, ou pior, que isso deve ser considerado uma coisa má. “Pelo contrário, as qualidades raras são frequentemente boas”, afirma Rachels. Essa primeira noção, por conseguinte, deve ser abandonada, pela falta de justificativa que ela possui.

A segunda noção de “contrário à natureza” diz respeito à finalidade de uma coisa. Tomemos o exemplo de nosso próprio corpo. Nossos órgãos, segundo os que defendem tal argumento, foram feitos para determinadas finalidades (percebam que só o fato de dizer que “foram feitos” implica um criador, uma consciência, o que já apresenta um problema), como nosso olho que foi feito para enxergar, ou nossas pernas que foram feitas para andar. Ou seja, nessa mesma linha, nossos órgãos genitais foram feitos para a procriação. Contudo, quem está disposto a ser coerente consigo mesmo, seguindo esse pensamento, deve abandonar todas as outras atitudes que implicam um uso “contrário à natureza” do próprio corpo. A masturbação seria condenada, assim como utilizar os olhos para flertar com alguém. Utilizar os dedos para acompanhar uma música ou fazer um sinal com as mãos seriam, ambos, antinaturais. “Portanto, a ideia de que é errado usar as coisas para outras finalidades que não são as “naturais” não pode ser defendida convenientemente, logo essa versão do argumento falha”.8

E por último, “contrário à natureza” como termo de avaliação pessoal, talvez seja o mais comum e o mais pernicioso, isso porque esconde um preconceito velado que insiste em ser negado por quem o possui. Isso pode significar algo do tipo: “contrário àquilo que uma pessoa deveria ser”. Essa posição é normativa, e implica que quem a sustenta, já sabe o que alguém deveria ser. Mas isso é impossível. A única possibilidade é um dever-ser pessoal, ou seja, deve ser aquilo que eu achar que deve ser. E mais uma vez, Rachels fulmina: “Mas se é isso que ‘contrário à natureza’ significa, então, dizer que algo é errado porque é contrário à natureza seria uma afirmação frívola. Seria como dizer que isso ou aquilo é errado porque é errado. Este tipo de observação não fornece, naturalmente, qualquer razão para condenar coisa alguma”.9

Concluindo, se não pudermos encontrar uma explicação mais elaborada sobre o que significa esse “contrário à natureza” (e tal explicação não existe), essa linha de raciocínio deve ser abandonada por seres-humanos racionais e éticos, pois não há uma única razão para sustentá-lo. O único motivo para tal pensamento é a ignorância. E condenar pessoas por viverem segundo a única forma que possuem para serem felizes, é a ação mais perversa que alguém pode cometer enquanto homem. Como disse Drummond, “somos humanos, isto é, achamos que somos”. E é nessas horas que percebemos exatamente isso.

Para a finalidade inicial de tais problemas, esse texto é suficiente. O próximo artigo, sobre esse mesmo tema, falará sobre o fato de se homossexuais atacam os valores da família e se a igreja realmente é tão condenatória em relação aos homossexuais.

1A história tradicional da filosofia atribui a Tales de Mileto o início das investigações filosóficas, contudo, o que Tales e os outros sábios gregos chamados de “físicos” faziam era radicalmente diferente do que Parmênides fez. Não entra no mérito desse texto discutir quem verdadeiramente criou a filosofia, porém, atribuo a Parmênides e não a Tales a “invenção” da prática filosófica, com a criação da ontologia. A título de curiosidade, convencionou-se dizer que Tales é o primeiro filósofo apenas porque Aristóteles, o grande filósofo grego e talvez o maior filósofo de todos os tempos, disse isso a respeito de Tales. A afirmação de Aristóteles bastou para que Tales ficasse na história do pensamento humano como sendo o primeiro filósofo.

2PARMÊNIDES. Os pré-socráticos. Tradução de J. C. De Souza. Ed. Abril: São Paulo, 1973. p. 147, fr. 1.

3KIRK, G.S., RAVEN, J. E, SCHOFIELD, M. Os filósofos pré-socráticos. Tradução de Carlos Alberto Louro Fonseca. Fundação Calouste Gulbenkian: Lisboa, 2008. p. 251.

4RACHELS, J. Problemas da filosofia. Tradução de Pedro Galvão. Gradiva: Lisboa, 2009. p.12.

5RACHELS, J. Elementos de filosofia moral. Tradução de F. J. Azevedo Gonçalves. Gradiva: Lisboa, 2004. p. 27.

6Idem.p. 71-2.

7Idem. p. 72.

8Idem. p.73.

9Id. Ibidem.

12 comentários em “Homofobia e moralidade I

  1. admiradorad disse:

    Parabéns, mais uma vez através da historia você conseguiu descrever a ignorancia da sociedade em ver e aceitar determinados fatos. Sem dúvidas você a cada dia se torna um grande filosofo e não demorará para seu nome ser dito e lembrado.
    Agora uma curiosidade, qual foi sua inspiração para buscar um tema tão polêmico como a homossexualidade? Eu um de seus comentarios que você dizia que os texto surgem. Como surgiu este?

    Este texto será devidamente compartilhado para que outras pessoas possam deixar a ignorância de lado.

    • Diego Azizi disse:

      Obrigado pelo comentário.
      A ideia para a elaboração do texto foi a mais básica e simplória que poderia ser. O assunto estava em voga e muita besteira estava sendo dita. Sei que o alcance desse texto não é tão longo quanto eu gostaria que fosse, mas me senti instigado por tratar desse tema de uma perspectiva mais racional e filosófica. Surgiu, pois, como todo texto político, por necessidade.
      Agradeço seus elogios e até a próxima.

      Diego Azizi

  2. Diego Azizi disse:

    Agradeço seus elogios e fico muito feliz por gostar de meus textos.

    • admr disse:

      Legal vc tem e-mail?
      não admiro só os textos mas sim tudo q sei sobre vc, sua determinação, foco, lado genioso… Infelizmente a vida nem sempre é como queremos temos altos e baixos… Até a forma q você vê a dor é genial. Eu torço mto para que você chegue muito longe em um lugar onde nem você imagina chegar, espero q seja brilhante.

      Realmente admiro você demais e sei q vc não é bobo

  3. Diego Azizi disse:

    De maneira nenhuma. Trataria com educação e conversaria normalmente. Não detesto ninguém…
    Acho que está na hora desse mistério acabar, não acha?

  4. Ronald disse:

    Há alguns erros aí:

    1) Sócrates não era um racionalista, pelo contrário; pode-se dizer que ele se opôs ao racionalismo e ao, digamos, discurso lógico absoluto, isto é, se opôs aos sofistas que apelavam ao discurso lógico para tudo explicar, sendo que Sócrates se impunha com o que se pode chamar de “presença do ser”. Tentar fazer de Sócrates um cartesiano é um erro monumental; embora você não perceba, faz exatamente isso.

    2) O homossexualismo sempre existiu, é verdade, mas nenhuma sociedade o aceitou como algo normal – mesmo porque, o heterossexualismo não é tão-somente uma conduta, mas a condição natural do homem, já que o fim último do sexo é a mera reprodução. E o esforço para impedir a reprodução por vias artificiais já demonstram isso, evidentemente. Assim, o heterossexualismo é a condição natural para a existência mesma da humanidade. Por mais que se tente refutar isso com lindos discursos lógicos, é razoável concluir que não se pode querer revogar algo que está expresso pela própria estrutura da realidade.

    3) Sócrates e, por conseguinte, todos os pré-socráticos falavam de quão maléfico é entregar-se aos prazeres, tanto, que estes últimos estimulavam a castidade. E a castidade em si já demonstra que a conduta sexual alheia a reprodução da espécie é apenas uma escolha – o que pressupõe que o fim último do homem seja qualquer coisa, mas não a entrega aos prazeres imediatos.

    4) Outro erro monstruoso é afirmar que a ética é algo racional. Se assim fosse, existiria pelo menos uma civilização formada sem uma religião, o que a história não demonstra. Nunca houve civilização sem religião; nunca houve uma civilização regida por um edifício ético, digamos, científico ou lógico-racional – e nunca vai existir, pois a lógica funda-se na realidade e não nos raciocínios. Essa idéia de que a razão rege o universo apareceu somente com os iluministas, e neles é perceptível uma disparidade daquilo que se fala em lindos discursos, e aquilo que se pratica em ações reais. É uma espécie de deslocamento do discurso em relação à existência real. Aristóteles já apontava que isso aconteceria caso se tomasse as relações lógicas entre objetos como meros pensamentos. Acontece que, independente do que circula dentro da cavidade craniana, há um mundo inteiro lá fora que, em nenhum momento, depende dos pensamentos das pessoas. Uma pedra existente em algum lugar desconhecido da Amazônia, lá estará a existir independentemente de se tomar conhecimento dela. Um elefante será ele mesmo um elefante, independentemente de tomarmos conhecimento da sua existência ou saibamos classificá-lo em alguma categoria lógica.

    5) Ainda sobre a ética, é importante relembrar que ela se fundamenta na própria estrutura da realidade e não na razão humana, que é falha e limitada. Este é o motivo pelo qual nenhuma civilização foi fundada sem uma religião. Todas as religiões estabelecem princípios da estrutura da realidade, que podem ser fundamentados pela razão humana – através da metafísica.

    6) Para não me estender, e chegar logo a uma conclusão, todo o teu texto – e toda as frases que procuram refutar uma posição contrária ao homossexualismo (independente aqui de se tomar ou não partido nessa discussão inócua) – baseia-se numa premissa bastante estranha: os prazeres humanos têm primazia na existência. Como se um homossexual só existisse a partir da sua conduta sexual, como se uma mera escolha por prazeres fosse a parte mais importante da existência de um indivíduo. Isso demonstra o quão estúpido é pretender tomar a diferenciação de condutas sexuais como valor absoluto – e alguém duvida que os movimentos gays fazem isso, quando exigem que devemos respeitar um homossexual simplesmente por ele ser homossexual? Pelo contrário, ninguém deve ser respeitado ou desrespeitado por uma mera escolha pessoal e intransferível.

    7) O mais importante nisso tudo é saber o que os movimentos gays querem, de fato. Por um lado, exigem que sejam respeitados por serem homossexuais; por outro, e ao mesmo tempo, exigem que não se faça discriminação. Confesso que fico um pouco confuso, pois não consigo ver uma possibilidade que harmonize essas duas contradições. Enfim, deve-se ou não discriminar? Sou da opinião que não; não se deve discriminar. Porém, também não se deve fazer de uma opção pessoal, individual, de foro íntimo, tornar-se um problema de Estado, mesmo porque, só o Estado sai ganhando quando lhe-é dado mais poder para impor regras de condutas aos indivíduos.

    • Diego Azizi disse:

      Bom, comecemos as refutações, enumerando-as uma a uma, para uma melhor compreensão.
      Primeiro, sou um acadêmico, um estudioso sério, e me baseio não apenas nas leituras dos textos originais mas também nos estudos dos especialistas mais renomados e que mais corroboram com a exegese do texto, quando submetidos à critica comparada dos textos originais.
      (1)Sócrates é tido, e isso não somente eu afirmo (citemos Marcelo Perine, Francis Wolff, , Hector Benoit, François Chatelêt, Nicolas Grimaldi, J. P. Vernant, J. Burnet, F. Cornford, G. Morente, G. Vlastos, etc.). Não se trata de afirmar que Sócrates era um racionalista, mas afirmar que o racionalismo é desenvolvimento consequente daquilo que começou historicamente com Parmênides. Sócrates não se opôs ao discurso lógico absoluto, e sim ao relativismo dos sofistas, que sustentavam discursos contraditórios de acordo com a comodidade da situação (imagem que Guthrie desfaz em relação aos sofistas em seu livro “Os sofistas”). Sócrates (e não há nenhum estudioso sério que diga o contrário) inventou o que em termos modernos chamaríamos de “conceito”, esse, segundo o próprio Platão, apreensível pelo intelecto, mas simplifiquemos e chamemos de razão. Descartes é socrático/platônico e não o contrário. A história da filosofia possui um desenvolvimento não só cronológico, mas também lógico, dos problemas levantados. Descartes é apenas a culminação de um processo que começou na antiguidade. Sócrates é um lógico implacável, e não aceita a contradição em hipótese alguma. Basta ler os diálogos.
      (2) Afirmar, peremptoriamente, que nenhuma sociedade aceitou o homossexualismo como algo normal é imprudente e ignorante de sua parte, dado o fato que você não possui conhecimento antropológico suficiente para sustentar tal afirmação. É sabido que nas sociedades antigas as relações homossexuais eram praticadas inclusive com mais significado do que as heterossexuais. Os gregos viam na pederastia uma importante (e normal) prática pedagógica. Falar de condição natural, inclinação natural, é sempre um problema, dado o fato de que os homossexuais não decidem o que são, apenas são. Dizer que o fim último do sexo (humano) é a simples reprodução contradiz o fato da existência do prazer sexual. Se a reprodução fosse o único fim, o prazer existente, logicamente, não existiria. Assim, como a condição natural da pessegueira é dar pêssegos, e nenhuma pessegueira no mundo dá limão, se a condição natural do homem fosse o heterossexualismo, não existiriam homossexuais. Simples assim. Agora, falar de reprodução e conservação da espécie, na natureza e na sociedade civilizada, são coisas distintas. A reprodução é possível com técnicas que desenvolvemos, sem que seja necessária a relação sexual homem-mulher. Na natureza, a sobrevivência ou não das espécies não necessita apenas de reprodução e sim de fatores externos e também genéticos (depois de Mendel), cegos, segundo a lei da seleção natural. E o mais importante é, como citei no meu texto, saber quem se ama e não com quem se faz sexo. O termo opção sexual não faz o menor sentido. Além de que, em meu texto, dei três sentidos de “conforme a natureza” e nenhum se sustenta solidamente. Os discursos lógicos devem fundamentar sim nossas opiniões e nossas ações, pois o mais razoável sempre é o melhor. O racional é o real e o real é o racional, já dizia Hegel. E além do mais, aqui se trata de uma questão moral, ética, de raiz racional e responsável. Podemos negar a natureza se essa se mostrar incompatível com a melhor conduta que podemos ter.
      (3) Erro grosseiro. Quando alguns filósofos ditos pré-socráticos afirmam algo sobre os prazeres, não se limitam apenas aos sexuais. Sócrates não condena o prazer, e sim ao conceito que os homens possuem de prazer. Critica o luxo e os adornos desnecessários, mas elogia muito os prazeres e nunca nega os prazeres sexuais. Me mostre onde ele faz isso, ou algum pré-socrático. Tanto é que Aristipo de Cirene, por exemplo, um hedonista (e é preciso saber o que essa palavra significa) é um discípulo de Sócrates. Sustentar a castidade já é outra história, e tem a ver com a concentração intelectual que se dirige apenas à um fim, para não haver distrações. Esse fim é a busca pela verdade. E, onde em meu texto, falo sobre entrega à prazeres imediatos? Não falo de sexo e nem de satisfação sexual, falo de amor, de sentimentos, que como você quer, são inclinações naturais. Aristóteles, por exemplo, defende que devemos ter tudo em justa medida, e o Phronimus, o homem virtuoso sabe qual é a medida certa, sempre. Ora, existem situações em que o Phronimus concebe que um banquete com muito vinho é sim a medida certa. A eudaimonia não exclui o hedonismo, e sim o pressupõe. Falta um pouco de conhecimento em história da filosofia de sua parte.
      (4)Primeiro, a ética possui uma data de nascimento e um criador: Sócrates na Gécia do Séc. V. Se quer falar sobre uma disciplina intelectual que possui pressupostos bem fundamentados, deve aceitar esses pressupostos. Não se trata de afirmar se sociedades foram regidas ou não por princípios éticos racionais, e sim como deveriam ser regidas essas sociedades. Posso afirmar que todas as sociedades antigas possuíram um fundamento mítico, ritualístico, e não religioso. Religião significa conceber que existe uma realidade mais fundamental à qual possamos nos religar (do latim religare). Ora, religião é outra coisa. Pensamento encantado, mítico, é outra coisa. Além do mais, regras e leis são diferentes de pensamentos e ações éticas. Se eu sigo uma lei, não sou ético, sou conforme a legislação. Se sigo um mandamento, não sou ético, e sim conforme ao mandamento. Em outro texto, trabalharei isso mais, aqui o espaço é pequeno. E apenas para te contradizer, lhe darei um exemplo apenas, dos muitos que posso dar. Heráclito afirma que uma Razão (logos) é o princípio que ordena e rege toda a ordem da Physis (Hegel tem aí sua maior influência para a célebre frase). Ora, não é com o Iluminismo que essa ideia de razão que a rege o universo apareceu pela primeira vez. Outro erro absurdo (e basta estudar Aristóteles, Frege, Russel, Copi, Kant) é dizer que a lógica se funda na realidade. A lógica produz juízos que se fundamentam na razão. Lógica é o estudo de inferências, de sua forma e estrutura. Oposição lógica e oposição real são coisas diversas. A ontologia estuda a realidade, a lógica, raciocínios. Se para Aristóteles o conceito de verdade é a adequação do pensamento ao fato (dizer do que é, que é e do que não é, que não é), o conceito de lógica é puramente formal.
      (5) Toda civilização, inicialmente, começa com culto (a palavra cultura segue daí) mas não com religião, como dito acima. O medo das potências naturais e fenômenos como a morte fazem com que o mundo pareça encantado. Nenhuma religião oficial discute a ética, os comportamentos. Inclusive Tomás de Aquino rejeita a ideia de uma ética dos mandamentos. A ética é discussão e reflexão racional e responsável sobre nossas condutas, que devem ser guiadas pelo pensamento sobre o melhor, como diria Platão, sobre o Bem. O fato de toda sociedade começar com uma religião não significa nada. Não se trata de apenas diagnosticar como é ou como sempre foi, e sim como deve ser. Agora, sustentar que esse conceito de ética está errado significa que você deve possuir um melhor e que funcione de forma mais adequada. Uma ética racional funciona para todo e qualquer ser racional. Uma ética religiosa, só para aqueles que aceitam determinados mandamentos doutrinais. A razão não é despótica e sim libertária. Uma ética puramente racional (e diz Kant que somos éticos pois somos racionais) é passível de erro e correção de erro, de re-avaliação. De análise do que nos leva a melhores resultados, para todos.
      Para concluir os pontos (6) e (7), serei breve. Leia direito meus textos e cite as partes em que sustento os prazeres como fundamento: “os prazeres humanos têm primazia na existência. Como se um homossexual só existisse a partir da sua conduta sexual, como se uma mera escolha por prazeres fosse a parte mais importante da existência de um indivíduo”. Não vejo no meu texto essa sua afirmação, e seria ridículo sustentar isso. Seu argumento é espantalho, que modifica o que falei para ser mais fácil de derrubar. E os movimentos gays não afirmam que os homossexuais devem ser respeitados por serem homossexuais, e sim por serem humanos, indivíduos livres, sob leis que deve zelar pelo bem estar de todos, como iguais enquanto cidadãos. Assim como um negro não exige respeito por ser negro, e sim por ser humano dotado de direitos. Não existe discurso homofóbico que não seja irracional, pois não existe motivo nenhum aceitável para que exista esse ódio, a não ser ideologias inculcadas religiosamente pela tradição.
      E a questão de opção pessoal, questão de foro íntimo, já disse acima, não existe. Assim como você não escolheu ser hétero, o pensamento deve valer para o outro lado. Ou você incorre em uma falácia de incoerência. Homossexuais não escolhem quem amam (e isso define tal nomenclatura).
      É uma questão de inteligência saber que se vale para um caso, deve valer para o outro também. Senão, me mostre algum estudo biológico ou psicológico que seja sério, afirmando que homossexuais escolhem ser como são.

  5. A Homossexual disse:

    “Homossexualismo” não é a mesma coisa que “homossexualidade”. Aquele pressupõe certo preconceito pelo sufixo “-ismo”. Não falamos heterossexualismo e sim heterossexual, portanto, homossexualidade.

  6. Diego Azizi disse:

    Diferenciação semântica irrelevante. Ambos os conceitos possuem a mesma referência. E o sufixo -ismo, logicamente, não possui em si nenhum preconceito imanente.
    Mas se assim prefere….

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