Vladimir Safatle – Aula 9/30 – ‘Fenomenologia do Espirito’, de Hegel

Curso Hegel

Aula 9

 

 Temas do trabalho:

 

“Experiência é justamente o nome desse movimento em que o imediato, o não-experimentado, ou seja, o abstrato – quer do ser sensível, quer do Simples apenas pensado – se aliena e depois retorna a si dessa alienação; e por isso – como é também propriedade da consciência – somente então é exposto em sua efetividade e verdade” (Fenomenologia, parágrafo 36)

“O indivíduo que não arriscou a vida pode bem ser reconhecido como pessoa; mas não alcançou a verdade desse reconhecimento como uma consciência-de-si independente” (Fenomenologia, parágrafo 187)

Aula 9

A Aula de hoje será dedicada à apresentação do capítulo “A percepção ou A coisa e a ilusão”, segundo capítulo da seção “Consciência”. Como havia dito anteriormente, esta apresentação visa fornecer um esquema geral de leitura e interpretação, e não se organiza como uma leitura detalhada de texto, tal como foi o caso do comentário do capitulo “A certeza sensível ou O isto e o visar”. O objetivo central é assim, através da apresentação deste esquema, permitir que vocês possam ler diretamente o trecho em questão  por conta própria e risco. Neste sentido, iremos insistir em três aspectos complementares:

–         O regime de passagem da figura da consciência assentada na certeza sensível à figura assentada na percepção

–         As contradições internas à percepção e a maneira com que elas aparecem no interior do campo de experiências da consciência

–         O modo de encaminhamento da percepção à figura que irá supera-la, ou seja, aquela apresentada no capítulo “Força e entendimento: fenômeno e mundo supra-sensível”

Da certeza sensível à percepção

 

            Vimos, na aula passada, em que condições a consciência que assentava suas expectativas cognitivo-instrumentais na certeza sensível foi deixada. A descrição fenomenológica da experiência da consciência partiu daquilo que aparece ao pensar como “representação natural”. Esta representação natural dizia respeito à crença na presença integral do ser através da pura intuição sensível. O saber que, de início, é nosso objeto só pode ser o saber que põe a imanência originária entre pensar e ser. Este saber é apresentado como uma certeza sensível (sinnliche Gewissheit), ou seja, certeza de que a presença do ser se dá através da receptividade da sensibilidade.

No entanto, a fim de passar da certeza (subjetiva) à verdade (objetiva), a  consciência deveria ser capaz de expressar sua certeza sensível no campo da linguagem pública. Hegel é claro neste ponto: aquilo que não pode ser apresentado no campo da linguagem não tem realidade objetiva. O saber nada tem a fazer com o que se põe como inefável a não ser vê-lo como o que se apresenta de forma imperfeita. Daí porque Hegel insiste na importância da operação de pôr (setzen) o que é pressuposto, ou seja, de expressar o que se aloja na pura intenção. Daí porque Hegel insiste na operação de explicitar o que é implicitamente vivenciado pela consciência como certeza.

Isto nos levou a compreender a experiência em jogo no interior da certeza sensível como um problema eminentemente lingüístico ligado aos modos de expressão do que aparece à consciência como presença imediata do ser em sua integralidade. Vimos como esta expressão era apresentada a partir das operações aparentemente mais elementares da linguagem: estas vinculadas à designação (que aparece no nosso texto como o ato de visar – Meinen – ou simplesmente ato de indicar – zeigen, anzeigen). Este processo de indicar o ser visado (meinen), ou seja, a capacidade de expressar aquilo que aparece à intenção da consciência de maneira imediata era assim o motor do movimento dialético da consciência sensível. Para nós, dirá Hegel, esta expressão do ser indicado vai se mostrar não como expressão do imediato, mas como pura mediação, ou seja, como uma operação inferencial.

            Através da impossibilidade da linguagem em fundamentar significações a partir de designações ostensivas, Hegel nos colocava no cerne da dialética entre o particular e o universal. A consciência visa sempre um caso particular que lhe aparece de forma imediata à intuição sensível. No entanto, ao tentar enunciar o particular visado, ela enunciava, necessariamente, sempre o universal (já que a linguagem estaria necessariamente vinculada à operações universalizantes do signo). Mesmo os modos de intuição no espaço e no tempo através do “aqui” e do “agora” seriam, à princípio, experimentados como submissão do diverso da experiência à estruturas gerais de apreensão.  Podemos dizer que, enquanto o particular encontrava-se do lado da designação, o universal era o único espaço possível da significação e do sentido.

Hegel terminava então reafirmando a impossibilidade da designação do particular e a essencialidade da linguagem enquanto pólo de produção de sentido:

Se quisessem dizer efetivamente este pedaço de papel que visam – e se quisessem dizer mesmo – isso seria impossível, porque o isto sensível, que é visado, é inatingível pela linguagem, que pertence à consciência e ao universal em si [Pois] Quando digo: uma coisa singular eu a enuncio antes como de todo universal, pois uma coisa singular todas são, esta coisa é tudo o que se quiser. Determinando mais exatamente, como este pedaço de papel, nesse caso, todo e cada papel é um este pedaço de papel, e o que eu disse foi sempre e somente o universal. O falar tem a natureza divina de inverter imediatamente o visar, de torna-lo algo diverso, não o deixando assim aceder à palavra[1].

            Desta forma, podemos dizer que a certeza sensível não realiza o seu próprio conceito, que consistia em apreender o particular que se coloca sob a designação. Esta impossibilidade de designação direta do particular e a essencialidade do universal serão o que levará a consciência a modificar seu modo de orientação na confrontação cognitivo-instrumental com o objeto. Entramos, com isto, no solo da percepção.

            O primeiro ponto a notar é que a consciência continua a pensar a confrontação com o objeto como uma operação absolutamente independente de práticas sociais ou de determinações restritivas da estrutura da nossa linguagem. Tal como na certeza sensível, a consciência crê dar conta da apreensão do objeto em sua verdade simplesmente a partir da perspectiva de sujeitos isolados confrontando-se com objetos ou com estados de coisas. Sujeitos isolados devem encontrar uma perspectiva de adequação direta entre suas representações mentais e os objetos do mundo. Daí porque o conhecimento começará a ser compreendido como um problema de correspondência de representações às coisas.

            A fim de iniciarmos nosso trajeto, devemos inicialmente perguntar: o que Hegel entende por “percepção” (Warhnehmung)?  Um comentário do título do nosso capítulo pode ser útil neste sentido. Hegel fornece um título complementar prenhe de significação: “a coisa e a ilusão” (das Ding und die Täuschung). A percepção é um modo de apreensão da coisa, mas um modo de apreensão marcado pela consciência da ilusão e do erro. Não estamos mais diante da certeza imediata e aparentemente segura do capítulo anterior. A consciência já se desiludiu a respeito da imediaticidade do puro ser que se ofereceria através da pura designação. Ela sabe que o conhecer é uma operação de comparação entre representações mentais e estados naturalizados de coisas. Neste sentido, ela sabe que o conhecer da coisa está sempre regulado pela possibilidade da ilusão, do tomar a coisa por outra coisa do que ela é.

            Mas devemos ainda colocar uma questão simples: para a percepção, o que significa “conhecer uma coisa”? Já temos algumas indicações importantes no primeiro parágrafo do nosso capítulo:

A certeza sensível não se apossa do verdadeiro; já que sua verdade é o universal mas ela quer apreender (nehmen) o isto. A percepção, ao contrário, toma como universal o que para ela é o ente. Como a universalidade é seu princípio em geral, assim também são universais seus momentos que nela se distinguem imediatamente: o Eu é um universal e o objeto é um universal[2].

Ou seja, a percepção parte da noção de que conhecer uma coisa é predicar universais, daí porque a universalidade é seu princípio. Precisamos, no entanto, entender o que Hegel compreende, neste contexto, por universal. Hegel afirma que tal universalidade emergiu como resultado da certeza sensível, ela é resultante da experiência de que a linguagem só enuncia o universal. No entanto, a consciência permanece aferrada à noção de que a essência está no objeto, e não no conhecer ou na linguagem que se disponibiliza ao conhecer. Isto indica que o universal deve aparecer como universal da coisa,  e não como universais sintetizados pelo pensar.

            Para que isto seja possível, Hegel precisa operar um certo deslizamento. No capítulo sobre a certeza sensível, vimos como os universais apareciam inicialmente através dos dêiticos (ou shifters) como “aqui’, “agora”, “eu”. Estes, eram universais não exatamente por serem predicações universais de classes de objetos, mas por serem o que se abstrai de todo e qualquer particular. Eles não se referem inicialmente a termo em particular algum, podem ser universalmente usados para todo e qualquer objeto ou sujeito e não podem ser vistos como universais da coisa. No entanto, no nosso capítulo, Hegel fala dos universais como propriedades gerais de objetos (. É isto que o permite afirmar: “O princípio do objeto – o universal – é em sua simplicidade um mediatizado; assim tem de exprimir isto nele, como sua natureza: por conseguinte se mostra como a coisa de muitas propriedades”[3].

            O objeto, ou a coisa, é uma simplicidade mediatizada, no sentido de ser um simples só apreensível através da mediação, através de operações de inferência. Isto, aparentemente, só é possível porque os universais são, agora, propriedades ou atributos que me permitem apreender a coisa em sua singularidade. Isto não seria possível se a consciência continuasse a compreender apenas os dêiticos como universais. É graças a compreensão da coisa como o simples com múltiplas propriedades que chegamos a definição da percepção como a consciência de individuais através de universais. Conhecer uma coisa é, assim, ter consciência de individuais através de universais. E, desta forma, ao passar de uma figura dos universais pensados a partir dos dêiticos, aos universais pensados a partir de propriedades gerais, a percepção poderia dar conta do que a certeza sensível não foi capaz, ou seja, de designar particulares, mesmo sabendo que a linguagem só enuncia o universal. Na verdade, Hegel apela aqui à estrutura categorial das propriedades, um pouco como Aristóteles lembrava que as categorias eram os gêneros mais gerais do ser que permitia a individualização de substâncias [é exatamente a compreensão das atribuições de propriedades sobre o pano de fundo do problema da subsunção categorial que leva Hegel a afirmar que: “O grau mais preciso no qual a filosofia kantiana apreende o espírito é o perceber, que constitui em geral o ponto de vista de nossa consciência ordinária e, mais ou menos, das ciências”[4]].

            Hegel defende então, no parágrafo 113, que o “isto” da certeza sensível é superado pela noção de “propriedade distinta determinada” própria à percepção. Se podemos falar aqui em superação, é porque a consciência conservou as expectativas referenciais que animavam o uso do “isto” na certeza sensível [a predicação como negação determinada da designação]. Ela crê agora poder  realizar o que a simples designação não foi capaz, já que, contrariamente ao “isto”, a propriedade é uma universalidade determinada. Notemos ainda que, neste momento, Hegel fornece, pela primeira vez, uma definição operacional de Aufhebung:

O superar apresenta sua dupla significação verdadeira que vimos no negativo: é ao mesmo tempo um negar (Negieren) e um conservar (Aufbewahren). O nada, como nada do isto (Nichts des Diesen), conserva a imediatez e é, ele próprio, sensível; porém é uma imediatez universal[5].

As contradições internas à percepção

Vimos pois como se dá a reflexão sobre a passagem da certeza sensível à percepção. A exposição fenomenológica visa expor a necessidade desta passagem enquanto tentativa de realização de um conceito de experiência que já estava presente na certeza sensível, ou seja, a experiência como adequação do pensar a essencialidade de estados de coisa dotados de autonomia metafísica em relação ao próprio pensar. Tanto na certeza sensível quanto na percepção, a consciência não coloca em questão a existência de um mundo dotado de autonomia metafísica que deve servir de eixo de orientação para a conformação do saber. Em relação à certeza sensível, a percepção procura convergir a estrutura universalizante da linguagem com a particularidade da experiência do mundo através da compreensão dos universais como propriedades gerais de objetos. A coisa aparece assim como um individual capaz de ser descrito e apreendido por universais, ou ainda, como uma coisa com múltiplas propriedades.

            Mas Hegel quer demonstrar como também a percepção não será capaz de realizar seu próprio conceito, ou seja, tematizar de maneira adequada a particularidade da experiência sem precisar recorrer a algo outro do que a própria percepção. Para tanto, ele deverá demonstrar como o conceito de objeto próprio à percepção é contraditório, além de demonstrar como a consciência terá a experiência desta contradição.

             O primeiro passo consiste em descrever o que significa conhecer um objeto através de predicações. Sigamos Hegel em sua descrição:

Este sal é um aqui simples e, ao mesmo tempo, múltiplo: é branco e também picante, também é cubiforme, também tem peso determinado etc. Todas essas propriedades múltiplas estão em um aqui simples no qual assim se interpenetram: nenhuma tem um aqui diverso da outra, pois cada uma está sempre onde a outra está [ou seja, a coisa é, ao mesmo tempo, a diversidade dos predicados e a igualdade consigo mesma do sujeito – que não passa integralmente no predicado]. Igualmente, sem que estejam separadas por aquis diversos, não se afetam mutuamente por essa interpenetração [aparentemente, uma propriedade não é deduzida da outra, elas são indiferentes umas às outras]. O branco não afeta nem altera o cúbico, os dois não afetam o sabor salgado etc. mas por ser, cada um, simples relacionar consigo, deixa os outros quietos, e com eles se relaciona através do indiferente também (Ausch). Esse também é portanto o puro universal mesmo, ou o meio: é a coisidade (Dingheit) que assim engloba todas essas propriedades[6].

            Se conhecer é predicar universais, então a coisa será, ao mesmo tempo, o conjunto de predicados e o meio, a substância ou a coisidade a respeito da qual se predica. “Tal síntese de um diverso efetuada pela consciência, eis o ato de perceber; esta mesma síntese como fixa, eis a coisa percebida”[7]. O que apenas nos demonstra esta proposição empirista central a respeito da qual o conhecer se serve, principalmente, da forma da análise. Hegel chega mesma a falar da análise como “decomposição de determinações’[8].

No entanto, esta coisidade só aparece à experiência como um “também” que liga propriedades que são, aparentemente, indiferentes entre si. Este também mão nos remete apenas à idéia de uma substância que se exprima através de seus atributos. Por outro lado, “também” indica que a coisa sempre é aquilo que ultrapassa a somatória de suas propriedades, já que eu sempre posso dizer que a coisa também é mais uma propriedade. O sal não é apenas aquilo que é branco, picante, cubiforme, mas ele também é aquilo que está no mar, que é adstringente etc. Nunca esgotaremos a coisa através da enumeração de suas propriedades.

            A coisa, por sua vez, não é apenas um “também” que engloba múltiplas propriedades. Como sabemos, uma determinação sempre é necessariamente articulada através de negações. As propriedades determinam-se através de negações opositivas: o que é branco, não é preto; o que é salgado, não é doce. Por outro lado, elas se determinam através de negações entre si: a quantidade não é qualidade, não é localização, não é modalidade [Hegel irá depois discutir a aparente indiferença das categorias nas suas determinações recíprocas]. Isto demonstra como a coisa não é apenas um simples relacionar-se consigo mesmo, mas ela é também uma unidade excludente, ou seja, ela é aquilo que nega sua identidade com outra coisa. Neste sentido, ela não é apenas um “também”, universalidade passiva e indiferente; mas, além disto, ela é um Um (das Eins), unidade que exclui o Outro enquanto excluir das propriedades opostas. Assim, Hegel pode afirmar:

Na propriedade, a negação está, como determinidade, imediatamente unida com a imediatez do ser – o qual, por ser essa unidade com a negação, é a universalidade  [a propriedade determina-se através da negação, o ser definido pela propriedade é imediatamente universalidade determinada]. Mas a negação está, como Um, quando se liberta desta unidade com seu contrário [a imediatez do ser] e é em si e para si mesma[9].

A tentativa de unificar esta dupla acepção da coisa, como também e como Um, como multiplicidade aberta e como unidade excludente, será o motor da experiência dialética da consciência. Podemos dizer que a consciência procura perceber a coisa como o que se oferece imediatamente à percepção, mas ela descobrirá que só percebemos coisas (determinadas) em relação com outras coisas, ou seja, coisas no interior de um sistema de coordenadas e relações. No limite, isto levará à consciência a ter que assumir a divisão da coisa em coisa tal como é em si (fora de um sistema de relações) e coisa tal como aparece fenomenalmente à consciência (dentro de um sistema de relações). A coisa tal com é em si será incognoscível e indeterminada.

Vejamos como Hegel descreve o trajeto da experiência fenomenológica da consciência na percepção. Tal trajeto encontra-se no parágrafo 117. Antes, Hegel lembra que a medida do saber da consciência é a igualdade com o objeto e, principalmente, a igualdade do objeto consigo mesmo. Mas como o apreender é o correlacionar o diverso das propriedades sob a unidade da coisa, a ilusão só pode ser compreendida como atribuição de propriedades que não são da coisa. Isto significa tomar a coisa por outra coisa do que ela é. A ilusão aparece assim como um erro do saber na sua operação de atribuição de propriedades a uma coisa. No entanto, a própria compreensão da coisa como o que é individualizado através da atribuição de propriedades é uma ilusão, já que: “uma coisa tem propriedades; elas são, em primeiro lugar, suas relações determinadas a outra coisa; a propriedade está presente apenas como um modo de ser-em-relação” já que “uma coisa tem a propriedade de efetuar isto ou aquilo em outra e de se exteriorizar (äussern) de uma maneira própria em sua relação”[10]. Ou seja, as propriedades não são exatamente propriedades da coisa, mas propriedades de uma relação. Este será o resultado da experiência fenomenológica. Isto fica muito claro mais a frente, quando Hegel dizer:

cada coisa se determina como sendo ela mesma algo diferente, e tem nela a distinção essencial em relação às outras; mas ao mesmo tempo não tem em si esta diferença, de modo que fosse uma oposição nela mesma [já que esta diferença está expulsa para fora de si, em um Outro]. Ao contrário: é para si uma determinidade simples, a qual constitui seu caráter essencial, distinguindo-a das outras[11].

No entanto, a consciência perceberá o caráter insustentável desta posição. Primeiro o objeto percebido é apreendido como puro Um idêntico a si mesmo. Mas a simples determinação deste Um através de propriedades (como o faz necessariamente a percepção) já é uma ruptura da pura singularidade. O Um enquanto essência da coisa deve ser visto como um conjunto de propriedades, uma comunidade em geral (Gemeischaft überhaupt), como um “também” que engloba a diversidade das propriedades. Mas, por sua vez, percebo a propriedade como determinada, oposta a Outro e excluindo-o. Assim, a essência objetiva não é apenas a continuidade do conjunto de propriedades, mas é unidade excludente em relação ao oposto. No entanto, encontro na coisa propriedades determinadas indiferentes entre si e, se assim for, o que encontro não pode ser nem propriedade, nem determinado (já que o Outro foi negado como inessencial ao Um, ele não pode fornecer assim o fundamento da determinação). A consciência retorna a indiferenciação própria ao visar da certeza sensível. Mas como o visar nos leva diretamente à percepção, todo o movimento retorna como em um círculo perpétuo.

A única maneira de quebrar o círculo é tentar distinguir o que é da ordem da verdade do objeto e o que é da ordem da ilusão da consciência. A consciência procura, ao apreender o objeto, separar o que seria ilusão resultante dos nossos modos de apreensão. Daí porque Hegel afirma: “O comportamento dessa consciência, a ser tratado de agora em diante, é de tal modo constituído que a consciência já não percebe simplesmente; senão que também é consciência de sua reflexão-sobre-si e a separa da simples apreensão”[12].

Assim, por exemplo, a consciência pode dizer que a coisa é Um e que a diversidade das propriedades é apenas para nós: “ De fato, esta coisa é branca só para nossos olhos e também tem gosto salgado para nossa língua, é também cúbica para nosso tato etc. Toda a diversidade desses aspectos, não tomamos da coisa, mas de nós”[13]. Assim, a coerência da consciência parece salva e a verdade de ser Um da coisa é preservada. Desta forma: “A coisa sempre será o verdadeiro e o igual a si mesmo, mas o conhecimento que disso tomo será perturbado por minha reflexão em mim mesmo. Minha percepção já não será considerada uma apreensão pura e simples, mas uma apreensão mesclada a uma reflexão que altera a coisa e faz com que, para mim, seja outra coisa do que aquilo que é em si”[14].

Mas Hegel logo completa lembrando que dizer que a coisa é Um já implica em determiná-la, a unidade aparece como propriedade. Assim, quem diz: “A coisa é Um”, diz necessariamente que a coisa tem propriedades que a diferencia das demais coisas: “As próprias coisas são determinadas em si e para si; têm propriedades pelas quais se diferenciam das outras”[15]. O Um só pode se diferenciar através do que é determinado e que tem, com isto, existência autônoma em relação à percepção da coisa. A consciência poderá ainda inverter o seu conceituar e se ver como o que sintetiza a percepção em um objeto, enquanto a coisa seria apenas uma multiplicidade de matérias independentes, matérias calóricas, químicas, elétricas, etc.

Nos dois casos, temos a experiência de uma clivagem e de uma contradição descrita por Hegel nos seguintes termos: “a coisa se apresenta de um modo determinado, mas ela está ao mesmo tempo, fora do modo como se apresenta, e refletida sobre si mesma. Quer dizer: a coisa tem nela mesma uma verdade oposta”[16]. Ou ainda, de maneira mais explícita: “O objeto é, antes, sob o mesmo e único ponto de vista,  o oposto de si mesmo: para si enquanto é para Outro; e para Outro enquanto é para si”[17].

Da percepção ao entendimento

Neste  ponto, podemos dar conta do último aspecto que havia proposto: o modo de encaminhamento da percepção à figura que irá supera-la, a saber, o entendimento. Já vemos nesta clivagem no interior da coisa um regime de passagem ao entendimento. Basta que esta clivagem entre o Um e o múltiplo como determinações da coisa seja compreendida como distinção entre a coisa-em-si e a coisa para-um-outro, tal como se manifesta à consciência, ou seja, a coisa como fenômeno. Isto implica em aceitar a coisa-em-si como o puro indeterminado (de onde viria, segundo Hegel, a necessidade do seu caráter incognoscível). Daí porque Hegel irá afirmar: “a coisa em si enquanto tal é apenas a abstração vazia de toda determinidade, aquilo a respeito do qual não podemos nada saber justamente porque ela deve ser a abstração  de toda determinação. Assim que a coisa-em-si encontra-se pressuposta como indeterminado, toda determinação cai fora dela em uma reflexão que lhe é exterior e a respeito da qual ela é indiferente”[18].

Ou seja, a gênese da coisa-em-si, para Hegel, deve ser procurada inicialmente no puro ser da certeza sensível; este puro ser que indicava o totalmente indeterminado e que, na percepção, aparece como o Um indiferente que procura resistir a toda determinação da coisa através da posição de propriedades. Entre estas três representações, encontramos a mesma crença na essencialidade do que se oferece como imediato. Só que agora, a consciência tem a experiência de que este imediato não está ao alcance do saber. A consciência não abandona o vínculo entre presença imediata, essência e sentido. Ao passar ao entendimento, ela irá simplesmente negar que esta presença lhe seja acessível. No entanto, como vimos desde a certeza sensível, Hegel quer mostrar que este totalmente indeterminado não é outra coisa que o puro nada. Esta experiência, a consciência ainda não teve.A consciência ainda não compreendeu que:

[O objeto] tornou-se um universal a partir do ser sensível; porém esse universal, por se originar do sensível, é essencialmente por ele condicionado, e por isso, em geral, não é verdadeiramente igual a si mesmo, mas é universalidade afetada de um oposto; a qual se separa, por esse motivo, nos extremos da singularidade e da universalidade, do Um das propriedades e do também das matérias livres[19].

Ao invés de oscilar entre esses pólos contraditórios, o consciência poderá encontrar uma estabilidade se admitir que um dos pólos é inacessível e que o outro, embora sendo inessencial, já que indica apenas o que o objeto é para-um-Outro, deverá aparecer como necessário ao saber. Com isto, passamos da percepção ao entendimento.


[1] HEGEL, Fenomenologia, par. 110

[2] HEGEL, Fenomenologia I, par. 111

[3] HEGEL, Fenomenologia I, par. 112

[4] HEGEL, Enciclopédia, par. 420

[5] HEGEL, Fenomenologia, par. 113

[6] HEGEL, Fenomenologia, par. 113

[7] HYPPOLITE, Gênese e estrutura… p. 123

[8] HEGEL, Enciclopédia, par. 38

[9] HEGEL, Fenomenologia, par. 114

[10] HEGEL, Ciência da lógica

[11] HEGEL, Fenomenologia, par. 124

[12] HEGEL, Fenomenologia, par. 118

[13] HEGEL, Fenomenologia, par. 119

[14] HYPPOLITE, Gênese, p. 128

[15] HEGEL, Fenomenologia, par. 119

[16] HEGEL, Fenomenologia, par. 122

[17] HEGEL, Fenomenologia, par. 128

[18] HEGEL, Ciência da Lógica – A doutrina da essência

[19] HEGEL, Fenomenologia, par. 129

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