O Ouriço de Aglaia, ou “Da Ambigüidade dos Sentimentos Processados no Coração Humano”.

Dostoievski

Fiódor Mikhailovitch Dostoievski (1821-1881) sempre surpreende ao leitor com sua majestosa capacidade em desvelar os segredos do fenômeno chamado Homem, ele não se furta a explorar nossas mais intimas motivações, nossos medos e nossas fétidas paixões, às explora coloca-as diante de nós e nos impacta como que supomos ser a verdade de suas personagens, que se diz sendo sua, ou sendo a minha, sendo na realidade a verdade de todos nós!
Dostoievski monta, desmonta e remonta as mentes de suas personagens, põe-nos em face de psiques – com as quais nos identificamos sub-repticiamente – marcadas pela obsessão do crime e de sua justificação, da legitimação de uma (a-) moralidade, num mundo onde “Deus está morto”, e, onde desesperadamente procuramos os alicerces de nossa liberdade.
Não são poucos os escritores, filósofos, literatos e outros especialistas que foram influenciados por Dostoievski: Nietzsche, Freud, Sartre, Malraux, Camus; não saberíamos quantos mais, não seríamos capazes de contá-los. Nietzsche, por exemplo, chegou a dizer: Que experiência libertadora é ler Dostoievski!
O crítico dinamarquês Georg Brandes (1842-1927), ao corresponder-se com Nietzsche compartilhou suas impressões acerca de Dostoievski:
Ele é um grande poeta, mas uma pessoa abominável, cristão ao extremo em sua vida emocional e ao mesmo tempo sádico ao extremo. Toda a sua moralidade se resume ao que você chamou moralidade escrava.

Nietzsche lhe responde:
Acredito em cada palavra que você disse a respeito de Dostoievski; e, no entanto, ele me deu o meu mais precioso material psicológico. Sou-lhe grato de uma forma muito especial, por mais que ele constantemente ofenda meus instintos mais básicos1.

Um fato acerca de Dostoievski que tem de ser considerado é este a qual Brandes chama a atenção, ele é um cristão; Dostoievski é tributário ao Cristianismo – em sua expressão Ortodoxa – de sua visão de mundo e do homem, naturalmente não sem conflitos acerca disto, o niilismo, e, o nacionalismo pan-eslavista compõem juntamente a essa fé cristã o universo conflituoso em que operava a psicologia de Dostoievski conforme expressa em seus escritos e em seus personagens. Sua visão do homem penetra no âmago, no mais profundo fosso da perdição e da desgraça em que se encontra a alma humana alienada de Deus e a vê, ali mesmo, como objeto específico do amor divino – compaixão – amor que mesmo conturbado pelas paixões mais infames, de certo modo, é o atributo mais natural à nossa espécie, é o amor que nos assemelha com Deus e nos impele à busca e afirmação constante de nossa liberdade2.
Ler Dostoievski é realmente uma experiência libertadora, porque o conhecimento que nos trás do fenômeno humano é o conhecimento de cada um nós, posto que, individualmente somos expressão deste mesmo fenômeno, e, no entanto, na maioria das vezes, escamoteamos este conhecimento, nos recusamos em admiti-lo.
Nos romances de Dostoievski as mulheres e as crianças são abundantes, personagens marcantes, sempre presente, importantes e paradigmáticas. As crianças são um rico material para suas construções, pois, são contradições ambulantes não dissimuladas, misto de amor e ódio, de companheirismo e egoísmo, de pureza e malícia, de acertos e erros que não são disfarçados, que não se escondem – com maestria – são atos, se vivem e que seguem rumo à maturidade dos adultos, já experimentados na “arte” de dissimular o seu mal, de fingir que não têm contradições ou que têm sempre certeza do caminho a seguir – o que nunca vemos nas crianças.
Bem, e as mulheres, estas serão sempre enigmáticas para o homem, fascínio e encanto, terror e espanto; como a Esfinge, elas nos propõem a que “decifremo-nas ou nos devoram”, Dostoievski criou uma galeria de mulheres notáveis, belas, fortes, confusas, meigas, agressivas, perigosas3, são tantas: Catarina Ivânovna; Grúchenhka; Marfa Ignátievna; Lisavieta Smierdiáchtchaia; Varvara Nikoláievna; Nastienkha; Mária Filípovna; Polina Alieksándrovna; Mademoiselle Blanche; Nastácia Filíppovna; Nina Alieksándrovna; Varvara Ardaliónovna; Lisavieta Prokófievna; Alieksandra; Adelaida e Aglaia. Mencionando apenas algumas dentre as notáveis.
A ambigüidade da filhas de Eva não é maior que aquela dos filhos de Adão, todavia, sua transparência – enquanto invólucro de tamanha riqueza – convida-nos a ir além do que a espessa carapaça com a qual se revestem os yangs4, mesmo que, devamos admitir, dificilmente logramos êxito nesta empresa.
Todos os escritos de Dostoievski são potenciais instigadores da reflexão filosófica acerca da natureza humana, noutras palavras são capazes de suscitar e fornecer elementos para a construção, ou, ao menos, para o esboço de uma antropologia filosófica e isso de modo extremamente agudo. Extraímos do romance O Idiota (1867) a breve narrativa sobre a partir da qual pretendemos refletir, mesmo que sucintamente, acerca de contradição ou da ambigüidade dos sentimentos processados no interior do homem, ou como ouso a dizer do problema proposto pelo ouriço de Aglaia!
Mas, para quem não está familiarizado com este romance, essa afirmação não parece ter qualquer sentido, por este motivo faz-se necessário uma breve exposição acerca do episódio e das circunstâncias em que, no romance, surge a metáfora do ouriço.
O ouriço de Aglaia e seu problema.
No romance O Idiota a jovem Aglaia é a filha mais nova dentre as três filhas do casal Iepántchin: Alieksandra, Adelaida e Aglaia! Após breves contatos com o jovem príncipe Mítchkin, Aglaia – que na época conta apenas vinte anos de idade – se apaixona por ele, mas seu status social e formação familiar são contrários à concretização deste amor, pois, Mítchkin, apesar do título principesco, está falido, sofre de epilepsia e todos o consideram um pobre idiota.
No quinto capítulo da terceira parte do livro desenrola-se a cena em que após perder para o príncipe várias partidas no jogo de cartas, Aglaia ofende-o demasiadamente o expulsa de sua casa, após isso ela recolhe-se em prantos ao interior de seu recinto. Quinze minutos depois do acontecido barganha com alguns garotos – seus conhecidos – a compra de um ouriço que eles transportavam e lhes encomenda que o leve – numa cesta enfeitada – como presente ao príncipe instruindo-os que dissessem ao príncipe que aquele presente deveria ser considerado “como um sinal de sua estima”. Kolia – o principal dentre os garotos – ainda questiona qual o significado do presente, mas não recebe uma resposta quanto a isso. A chegarem à sua residência o casal Iepántchin – pois estavam ausentes ao se desenrolar o incidente – tomam conhecimento do caso, e, tentam compreender o acontecido Lisavieta Prokófievna – sua mãe – especula qual seria o significado do ouriço como presente: “Vai ver que era esse o estado de ânimo dela. Sua inquietação chegara ao cumulo da excitação e, o principal – o ouriço; o que significa o ouriço? O que estará convencionado aí? O que isso subentende? Que sinal é esse?”.
Uma aproximação despretensiosa.
Dostoievski não é objetivo ao elucidar estas indagações, para o pai de Aglaia não há significação oculta, “é um simples ouriço e só – significa ainda, além disso, amizade, esquecimento das ofensas e reconciliação, em suma, tudo isso é travessura, em todo caso inocente e perdoável”.
Mas, o significado estaria posto apenas no ato do presentear, sem nenhuma relação com a natureza do presente? Teria o autor escolhido arbitrariamente, sem qualquer intenção o ouriço como presente da bela, porém arisca Aglaia?
Estas conjecturas são as mais óbvias, são as primeiras que nos vêem à mente quando lemos este episódio. Porém, Dostoievski não é um autor dado a obviedades, não segue os caminhos mais claros e distintos, os caminhos da razão humana, antes ele segue as trilhas do coração, as complexas e sinuosas trilhas da natureza humana que não se rende è tentação da racionalidade absoluta e se afirma por atos e atitudes que, por vezes, escapam à nossa própria capacidade de racionalização. Dostoievski põe nuas todas as nossas contradições e o faz não como o alguém distante e onipotente que a todas conhece sem ser afetados por elas, mas como alguém que delas participa e por elas é profundamente afetado, portanto, algumas vezes metaforiza para suavizar-nos e si mesmo do impacto que a desvelação provoca! Poderia ter ele escolhido qualquer outro objeto como presente. Mas – fazendo eco às indagações de Lisavieta – por que escolheu o ouriço? O que estaria significado ai? O que isso subentende? Que sinal é esse?
Consideremos, ainda que brevemente, o animalzinho a que chamamos de ouriço. Bem, o ouriço é um pequeno, mas curioso mamífero, não tem rapidez para caça, embora algumas espécies se alimentem até mesmo de serpentes5, não é um animal indócil, todavia, ao pressentir o perigo não foge eriça apenas os espinhos e aguarda, essa atitude aparentemente temerária o torna praticamente inatacável e provoca a desistência de seus predadores, outra peculiaridade do ouriço é que ele geralmente se enrola – dobra-se sobre si mesmo – formando uma bola que não deixa ver sua verdadeira aparência e que igualmente repele os predadores.
Que analogia ou transposição são possíveis de se realizar com relação aos sentimentos humanos, e, ao nosso comportamento enquanto pequenas epifanias destes gigantes da alma?
Não é fácil expressar com agudeza a complexidade dos sentimentos que digladiam nos recônditos de nossa alma, sentimentos que se processam no interior do coração humano. Somos seres cindidos, feridos em nossas profundidades, afetados por muitas impressões e marcados pelas mais bizarras contradições; contradições de que muitas vezes somos conscientes, mas, geralmente, somos impotentes em alterar este quadro, logo, caminhamos rumo à consecução de nossa existência formados e conformados às diversas contingências que se impõem sobre nós, crendo realmente na nossa liberdade e lutando desesperadamente por afirmá-la.
Porque intuímos, no mais intimo de nosso ser, que a existência autenticamente humana é aquela que se afirma que se concretiza no exercício da liberdade. E não nos basta apenas que tenhamos consciência da faculdade de livre exercício imaginativo ou psicológico da liberdade – ou seja, que a liberdade seja uma realidade interior do tipo “podem prender meu corpo, mas não minha mente” – pois a liberdade se quer de modo pleno, concreto, oniabrangente, a liberdade quer realizar-se no homem na sua inteireza, psicossomaticamente6!
Todavia, essa liberdade que almejamos está sempre no horizonte, muito perto dos olhos e tão longe do coração, aproximar-se dela é vê-la afastar-se sempre de cada um de nós. E as mais fortes afirmações desta liberdade em nossos discursos estão marcadas pela contingência, por um fazer-se sob os mais variados tipos de condicionamentos; falamos de liberdade, por exemplo, na medida em que dela fazemos certa idéia, mas, essa idéia que hoje defendemos talvez nos pareça muito restrita ou simplória daqui a alguns anos e muitos fatores serão determinantes dessa transformação em nossa concepção, em resumo condicionarão própria concepção do que seja a liberdade.
Bem, mas somos livres para amar, para viver ao lado de quem amamos! Não somos? Este é o problema primeiro que se põe no horizonte de Aglaia.
Talvez, nem mesmo o amor seja livre, não em nosso mundo, o mundo das contingências; mundo em que o amar fora dos determinantes, sociais, religiosos, morais dificilmente pode se concretizar, e, isso não apenas à pressão externa que se exerce sobre nós, mas, talvez, ou principalmente, devido à pressão interna, àquela resultante da assimilação na estrutura de nosso ser de toda herança cultural na qual somos formados. Neste sentido somos fruto do meio e mesmo que desejemos ardentemente não o ser, agimos – em contradição com nossos mais íntimos anseios – como se fossemos, pois que os determinantes se confundem com os valores internos de modo a configurarem nossa própria personalidade. Dostoievski coloca o problema no âmbito de uma reação “instintiva” da alma que se recusa a deixar-se dominar pelos determinismos que operam a negação da própria hominização.
Decorre disto a ambigüidade dos sentimentos, como o amar intensamente alguém que não podemos amar, ou o querer desesperadamente estar próximo de quem sabemos dever nos manter distantes, e, mais, sentirmo-nos vazios quando distantes e realizados quanto estamos perto, porém, quando estamos distantes temos a capacidade de raciocinar o quanto é errado estar próximo e quando estamos próximos esquecermo-nos destes tão bem fundamentados raciocínios!
É o paradoxo em que se encontra Aglaia, quer desesperadamente estar junto a Mítchkin, mas, repele de modo angustiante a incerteza que socialmente se lhe aproxima ante a possibilidade de unir-se a ele. Não é uma predadora, mas, como o pequeno ouriço tem sua estratégia de defesa, ou seja, sabe enfrentar os mais ameaçadores perigos para continuar – tornar-se – ser. Todavia, estaria preparada para isto?
O repele, eriça seus espinhos, aguça suas defesas, não contra Mítchkin, objetivamente, mas contra os próprios sentimentos que a impulsionam aos seus braços. “Serzinho” contraditório com sua meiguice nos convida a que abracemos e quando estamos prestes em fazê-lo nos repele, nos mantêm afastados com seus espinhos eriçados.
Não assim que muitas vezes nos portamos em nossos relacionamentos? Aglaia não é exceção, é a regra. Seu ouriço não é apenas seu, nem apenas de Mítchkin, mas de toda humanidade. Nos corações dos homens as ambigüidades têm “vida” própria. Sentimentos contraditórios coexistem e não há porque nega-los, ainda que nem todos eles possam coexistir no plano da concreção são eles que mais nos caracterizam como seres humanos!
Quando acreditamos que algo ameaça a constituição de nosso ser, habitualmente, nos fechamos, dobramo-nos sobre nós mesmos, à semelhança do ouriço, e não deixamos visualizar nosso verdadeiro caráter7, tornamo-nos uma “bolinha de pelos eriçados”, nada atraente, esse era o dilema de Aglaia, sentindo-se ameaçada, em seu mundo, em sua auto-segurança e em seus sentimentos fechara-se.
O ouriço entregue é o reconhecimento da irrefutável complexidade da psique humana que só se contenta em estado de realização com o outro, Aglaia, sorriu, cantou e dançou após dar-se – simbolicamente – no ouriço a Mítchkin. Realizamo-nos quando nos damos, porque o amor não tem outra expressão senão o dar-se Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos8. Disse o Mestre de Nazaré! Damo-nos, por fim, ao outro, porque no outro nos realizamos, e, o fazemos em harmonia com a realização do outro, pois se o amamos queremos sua realização plena, bela e luminosa, realização em todos os âmbitos do viver, mas, sobretudo na liberdade. O amor conduz à liberdade, conduz mesmo até Deus, na realidade Dostoievski expressou esta relação de um modo bem mais simples e direto: […] se amas, já és de Deus… 9 Pois, de acordo com as palavras do Mestre Jesus, é na expressão deste amor mútuo – divino/humano – que se deve fundar a comunidade dos homens: Nisto todos conhecerão que sóis meus discípulos, se vos amardes uns aos outros10.
Notas.
1 – Devo estas citações a Richard Elliot Friedman – O Desaparecimento de Deus – pp. 171-172. Vide Bibliografia.
2 – Liberdade que em última instância é um atributo absolutamente divino o que se prova em Dostoievski mediante a relação entre divindade e liberdade afirmada por Kirilov em Demônios (1872).
3 – Ou como, hoje em dia, dizem os nossos jovens: “poderosas”.
4 – Referência ao Yang, princípio masculino na concepção taoísta, relativo ao Yin, princípio feminino.
5 – O que provavelmente não é o caso da espécie que vise o texto de Dostoievski, pois, o ouriço europeu (Erinaceus europaeus) é insetívoro em seu hábito alimentar.
6 – Acerca disto vide Recordações da Casa dos Mortos, Capítulo VI (Os Animais do Presídio) onde nos versos finais Dostoievski narra a comovente libertação da águia ferida e a identificação dos prisioneiros em sua sede por liberdade. “–Nem o Diabo a conseguiria segurar!Quer a liberdade, a bela liberdadezinha!”
7 – Não distinguimos o suficientemente a versatilidade do que, em nossa vivência, se constitui um falso eu – pela perspectiva da psicologia, sobretudo entre os existenciais, o Dr. Laing o faz de modo muito eficiente no Sexto (6º) Capítulo de seu livro O Eu Dividido, intitulado: O Sistema do Falso Eu.
8 – Palavras de Jesus no Evangelho de São João 15, 13, Evangelho constantemente lembrado por Dostoievski.
9 – Cito a edição francesa de Os Irmãos Karamazov. Essa proposição é, sem dúvida alguma, uma ressonância da familiaridade de Dostoievski com os escritos de São João. Vide, por exemplo, I Jo. 4,8: Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor.
10 – Evangelho de S. João 13, 35.
Bibliografia
ALMEIDA, João Ferreira. (Trad.) A Bíblia Sagrada, São Paulo, Sociedade Bíblica Trinitariana. 1995.
DOSTOIEVSKI, Fiódor Mikhailovitch. O Idiota, São Paulo, Editora 34. 2002.
DOSTOIEVSKI, Fiódor Mikhailovitch. Recordações da Casa dos Mortos. Portugal. Publicações Europa-América. 1972.
DOSTOIEVSKI, Fiódor Mikhailovitch. Les Frères Karamazov, Paris. Éditions Gallimard, 1962.
FRIEDMAN, Richard Elliot. O Desaparecimento de Deus – Um Mistério Divino. Rio de Janeiro. Imago Editora Ltda. 1997.

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