Vladimir Safatle – Aula 6/30 – ‘Fenomenologia do Espirito’, de Hegel

Curso Hegel

Aula 6

  

Nesta aula, terminaremos o comentário da Introdução à Fenomenologia do Espírito dando conta, assim, do trecho que vai do parágrafo 81 ao parágrafo 89. Vimos, até agora, como Hegel parte da necessidade da consciência operar aquilo que chamamos de “modificação da gramática filosófica”. Para que haja uma ciência da experiência da consciência, faz-se necessário uma profunda mudança na gramática filosófica que suporta as expectativas de racionalização que animam a consciência em seu agir e em seu julgar. Por “gramática filosófica” podemos compreender o conjunto de pressupostos não problematizados que serve de orientação para o pensar e para a constituição de seus modos de encaminhamento. De uma certa forma, ela é o campo de pressuposições de uma sintaxe para o pensar, campo este tão naturalizado que normalmente aparece ao pensar como uma “representação natural”.

            Vimos então como Hegel partia desta representação natural do pensar. Criou-se um modo natural de pensar que produz certas convicções, começava afirmando Hegel logo no primeiro parágrafo da Introdução. Parece natural, por exemplo, ver no conhecer ou um instrumento ativo de transformação da Coisa ou um meio passivo de participação com a Coisa. Parece também natural compreender o erro como uma inadequação entre pensar e o ser resultante de postulados equivocados do pensar. Tais representações naturais chegam a determinar que entre o conhecer e o absoluto passa uma nítida linha divisória, como se o objeto do conhecer humano fosse, naturalmente, o que é finito. Vimos ainda como, para Hegel, esta representação natural do pensar era, na verdade, uma figura da filosofia kantiana.

Partindo deste ponto, tentei mostrar para vocês como Hegel compreendia filosofia kantiana como operação filosófica dependente do que podemos chamar de “gramática da finitude”. Ao reconstituir alguns traços gerais da experiência intelectual kantiana, segundo Hegel, vimos como tratava de insistir que a estratégia kantiana de reconhecer que a experiência refere-se apenas a fenômenos, e não a coisas em-si, que se mantém para nós incognoscíveis implicaria em uma absolutização do finito. Tal perspectiva só é capaz de admitir que tem realidade objetiva aquilo que se submete à condição de objeto finito, intuído no espaço e no tempo e categorizado pelo entendimento. Ou seja, esta figura do conhecimento absolutiza o finito por distinguir finito e absoluto a fim de afirmar que o conhecimento que está fora do absoluto ainda pode aspirar validade. Hegel, por sua vez, quer mostrar que o finito é apenas um erro gramatical que desaparecerá quando a consciência for capaz de tematizar aquilo que aparece na experiência para além do que o que pode ser representado pelo entendimento. Para Hegel, não há nenhuma razão para a consciência assegurar-se de estar exilada de uma experiência da ordem do incondicionado e do absoluto.

Apresentei então um primeiro modo de encaminhamento para a questão do absoluto em Hegel. Vimos como Hegel parte de uma pressuposição que podemos chamar, juntamente com Robert Brandom, de “holismo semântico”. Neste sentido, podemos dizer que, para Hegel, saber o absoluto só é possível á condição de aceitarmos que o conhecimento das relações entre objetos da experiência é condição suficiente para a determinação do conteúdo da experiência. De uma certa forma, passei nossa última aula discutindo com vocês o modo de encaminhamento desta idéia.

Lembremos aqui de alguns pontos fundamentais da nossa leitura. Primeiro, este conhecimento das relações não pode ser, para Hegel, o resultado de uma dedução prévia à experiência, como se fosse questão de uma dedução transcendental das estruturas possíveis de relação sob a forma de categorias. O conhecimento das relações é o fato da experiência, ou seja, só através dela podemos conhecer relações. Proposição aparentemente sem sentido, já que, ao afirmar que o conhecimento das relações é o fato da experiência, parece que esquecemos que só há experiência porque há uma pressuposição prévia de estruturas de relações. Sem elas, não seríamos capazes sequer de o diverso da intuição sensível sob o nome de “objeto”. Afirmar estar diante de um objeto já pressupõe uma capacidade comparativa e diferenciadora que só se adquire ao postularmos relações.

Críticos do hegelianismo insistem que a experiência fenomenológica já é desde sempre organizada a partir da perspectiva a posteriori de uma consciência que rememora o a integralidade do processo histórico de formação em direção ao saber. Neste sentido, o conhecimento das relações já estaria previamente pré-determinado, sendo o trajeto fenomenológico apenas a confirmação do que a consciência histórica já tem condições de determinar. Neste sentido, para defender Hegel, devemos mostrar que o caminho fenomenológico em direção ao saber pode ser trilhado pela consciência individual sem a necessidade de uma perspectiva estruturada como uma meta-narrativa histórica.

Sugeri que podemos compreender a estratégia hegeliana ao levar a sério a idéia de que o caminho da experiência fenomenológica do saber é o “caminho do desespero”. Neste contexto, “desespero” (ou, em outras situações, “angústia”) indica uma fragilização absoluta das imagens do mundo que permite o colocar em questão as bases da gramática que sustentava o pensar da consciência natural e seu modo de estruturar relações. Este desespero pode ser assim também fragilização da certeza de si e, fundamentalmente, dos modos de orientação do pensar. Sem este trabalho do negativo, a consciência continuará sempre aferrada às representações naturais do pensar.

No entanto, dizer isto é ainda dizer pouco. Pois poderíamos simplesmente dizer que este desespero em relação a representações, pensamentos e opiniões pretensamente naturais não necessariamente nos levará ao saber absoluto, mas simplesmente ao ceticismo. Este mesmo ceticismo que só vê contradição lá onde o pensar procura determinar a essência do que aparece e que, com isto, leva a consciência à suspender o juízo (epokhè) como estratégia para alcançar um porto para além do desespero.

Hegel compreende claramente este ponto. Tanto que podemos afirmar que o pensar especulativo procura apropriar-se do trabalho do negativo em operação no ceticismo, isto a ponto de insistir que a dialética deve internalizar o ceticismo como seu momento inicial. No entanto, seus resultados serão diametralmente opostos, ao invés da suspensão do juízo, Hegel quer levar a consciência à absolutização do saber. Para tanto, ele deve compreender o ceticismo a partir de duas perspectivas. Primeiro, o ceticismo estaria certo ao mostrar como toda tentativa de compreender a experiência a partir de determinações finitas, toda tentativa de simplesmente aplicar conceitos à experiência fenomenal, nos leva a contradição. No entanto, ele estaria errado em compreender esta contradição apenas como o puro nada, da mesma forma como duas proposições produziriam necessariamente um objeto vazio desprovido de conceito. Isto seria apenas a prova de que o ceticismo ainda estaria preso a uma gramática filosófica dependente da entificação de postulados como: o princípio de identidade, de não-contradição e do terceiro excluído. Daí porque Hegel apresenta, contra o ceticismo, o conceito de negação determinada.

Este é o conceito mais importante da Introdução e é ele que deve nos explicar como o caminho do desespero não deve levar a consciência ao ceticismo (ou, na pior das hipóteses, à loucura), mas a esta meta na qual:  “o saber não necessita ir além de si mesmo, onde a si mesmo se encontra, onde o conceito corresponde (entspricht) ao objeto e o objeto ao conceito”. Antes pois de retomar o comentário do nosso texto, gostaria de expor, de maneira mais sistemática, a noção hegeliana de “negação determinada”.

Negação determinada

 

            Um dos fundamentos da experiência intelectual hegeliana está na sua teoria das negações. Hegel está disposto a levar às últimas conseqüências o questionamento de idéias clássicas como: “ a realidade é algo, a negação é nada”. Ele compreende que a tentativa de recusar dignidade ontológica ao negativo só pode ser compreendida no interior de um modo de pensar que determina o saber como presença diante de si do objeto através da representação. Presença que se molda a partir da visibilidade das coisas que se dão no espaço. Afirmar, como quer Hegel, que a negação é, que ela tem um ser que lhe é próprio, significa admitir que nem tudo se adequa à visibilidade de uma presença que tende a reduzir todo ser ao regime de disponibilidade próprio ao espaço.

            Veremos no decorrer do curso como Hegel estrutura sua teoria das negações e as conseqüências dela para uma teoria da linguagem e do conhecimento. Por enquanto, gostaria de trabalhar uma das figuras centrais da negação hegeliana: a negação determinada. [os três níveis da negação, segundo Hegel: negação abstrata/ negação determinada: Verkehrung e Aufhebung – negação absoluta].

            Retornemos primeiramente à hipótese do holismo semântico, ou seja, à esta noção de que a compreensão das relações entre objetos é condição suficiente para a determinação do conteúdo da experiência. Vimos que Hegel definia a meta do saber fenomenológico como este ponto onde o conceito corresponde ao objeto e o objeto corresponde ao conceito. Uma primeira leitura parece nos indicar que o saber absoluto hegeliano seria a realização da adequação total do conceito (compreensão de relações – lembremos que, para Hegel, o conceito não é subsunção do diverso da experiência sob a forma de objeto, mas posição de estruturas de relações) ao objeto (o conteúdo da experiência).

            No entanto, esta adequação só seria possível á condição de compreendermos as relações de objetos como negações determinadas. Ou seja, a negação determinada é aquilo que permite, ao conceito, estruturar relações entre objetos.

            A princípio esta definição é mais trivial do que parece. Tomemos, por exemplo, duas proposições negativas:

–         A mulher não é alta

–         A mulher não é homem

Percebemos claramente que há aqui dois usos distintos da negação, um uso indeterminado e um uso determinado. Eles são resultados de dois modos distintos de uso do verbo “ser”: um como predicação e outro como posição de identidade. A negação que incide sobre o verbo ser no interior de uma relação de predicação é indeterminada. A negação de um termo não me dá automaticamente o outro termo. Não posso passar de “mulher” para “alta” é vice-versa. Já a negação que incide sobre o verbo ser no interior de uma relação de identidade é determinada. A negação de um termo me faz passar automaticamente a um outro termo, neste sentido, a negação “conserva” o termo que ela nega. No nosso exemplo, a negação do sujeito gramatical “mulher” me faz necessariamente passar ao termo posto no predicado. Isto porque, ao negarmos o verbo ser no interior de uma relação de identidade, estamos necessariamente estabelecendo uma relação de “oposição” ou de “contrariedade”. “Passar de um termo a outro” indica aqui a existência de uma relação de solidariedade entre dois termos contrários: homem e mulher, Um e múltiplo, ser e nada. O Um é inicialmente negação do múltiplo, o ser é inicialmente negação do nada. Isto nos mostra que uma determinação só pode ser posta através da oposição, ou seja, ela deve aceitar a realidade de seu oposto. A positividade da identidade a si é suportada pela força de uma negação interna que, na verdade, sempre pressupõe a diferença pensada como alteridade.

            Assim, quando dizemos: a negação determinada é aquilo que permite, ao conceito, estruturar relações de objetos, parece que estamos dizendo, simplesmente que toda relação capaz de determinar identidades é necessariamente uma relação de oposição. Poderíamos mesmo dizer, com Deleuze, que: “Hegel determina a diferença por oposição dos extremos ou dos contrários”[1], como se toda diferença essencial pudesse ser submetida a relações de oposição. Falar de uma negação que conserva o termo negado seria simplesmente uma maneira mais nebulosa de dizer que, em toda relação de oposição, a posição de um termo pressupõe a realidade de seu oposto como limite à sua significação. Neste sentido, poderíamos compreender tentativas, como a de Robert Brandom, de definir a negação determinada como a simples reflexão sobre as conseqüências de assumirmos o caráter estruturante de relações de incompatibilidade material. Lembremos do que ele afirma: “Hegel aceita o princípio medieval (e spinozista) omni determinatio est negatio. Mas a mera diferença ainda não é a negação que a determinidade exige de acordo com esse princípio. Essencialmente, a propriedade definidora da negação é a exclusividade codificada no princípio de não-contradição: p exclui-se de não-p; eles são incompatíveis”[2]. Assim: “o conceito de incompatibilidade material ou, como Hegel o designa, de ´negação determinada´é seu mais fundamental instrumento conceitual”[3].

No entanto, esta compreensão da negação determinada como figura da oposição é falha sob vários aspectos. Ela é útil para nos lembrar como a negação pode estruturar relações conceituais, mas ela não dá conta de dois pontos centrais. Primeiro, a negação determinada não é apenas o modo de relação entre dois termos, mas fundamentalmente o modo de relação entre conceito e objeto. Neste sentido, lembremos da idéia central de Hegel: o conhecimento das relações não é o resultado de deduções, mas só é possível no interior da experiência. Conhecer relações não consiste em deduzir, mas em compreender processos.

A negação determinada diz respeito fundamentalmente aos modos de efetivação do conceito na experiência. Isto indica que, ao tentar indexar o conceito a um objeto, ao tentar realizar o conceito na experiência, a consciência verá o conceito passar no seu oposto e engendrar um outro objeto (daí porque a negação determinada é o locus da passagem de uma figura da consciência à outra). Neste sentido, a consciência nunca consegue aplicar seu conceito ao caso sem engendrar uma situação que contradiga as aspirações iniciais de significação do conceito. A experiência é exatamente o campo destas inversões. Lembremos: Hegel está interessado em compreender como o sentido dos conceitos modifica-se a partir do momento em que eles procuram se realizar na experiência. Como já vimos anteriormente, internalizar o sentido da experiência significa, para Hegel, estruturar relações conceituais através das inversões que a efetividade impõe ao conceito. De uma certa forma, não é o conceito que molda a experiência, mas a experiência que molda o conceito ao impor uma reordenação nas possibilidades de aplicação do conceito.

Por outro lado, Hegel construiu a noção de negação determinada exatamente como dispositivo de crítica à idéia de que as oposições dão conta da estruturação integral das relações. Pois a oposição pode admitir que só é possível por um termo através da pressuposição da realidade do seu oposto, que aparece aqui como limite de significação. Assim, ela admite que toda determinação da identidade de um termo só é possível através da mediação através da alteridade (não apenas do oposto, mas da estrutura de determinações pressupostas). Mas a oposição não pode admitir que a identidade de um termo é a passagem no seu oposto. No entanto, a negação determinada significa exatamente isto: que o termo, ao realizar-se, ou seja, ao se referir à experiência, passa necessariamente no seu oposto e esta passagem é, ao mesmo tempo, a perda do seu sentido e a realização do seu sentido.

Percebe-se que assumir tal possibilidade implica em problematizar a própria noção de “estruturas de relação”. De fato, nesta perspectiva, a noção de negação determinada parece naturalmente obscura. Afinal, como é possível dizer que a realização de um termo, no sentido de sua referencialização na experiência é uma passagem no oposto? Aqui, podemos notar de maneira mais clara a necessidade de uma fenomenologia. Hegel acredita que a exposição adequada deste movimento depende de uma compreensão dos modos como o campo da experiência se estrutura para um sujeito. Veremos isto claramente ao seguirmos o trajeto fenomenológico da consciência a partir da aula que vem.

Por enquanto, vale esboçar algumas considerações introdutórias para melhor apreendermos o lugar da negação determinada.

A consciência é sua própria medida

 

Os últimos parágrafos da Introdução são dedicados a uma reflexão sobre aquilo que Hegel chama de método de desenvolvimento da Fenomenologia. Novamente, Hegel retorna à necessidade da consciência ter, no seu próprio campo de experiências, aquilo que permitirá sua superação em direção à realização como Espírito:

Parece que esta apresentação (Darstellung), vista como um procedimento da ciência em relação ao saber fenomenal e como investigação e exame da realidade do conhecer não se pode efetuar sem um certo pressuposto colocado na base (no fundamento – Grunde) como medida (Masstab) (…) Mas nesse ponto onde a ciência apenas está surgindo, nem ela nem seja o que for se justifica como a essência ou o em si. Ora, sem isso, para que não pode ocorrer nenhum exame[4].

Ou seja, a princípio parece que a Fenomenologia precisa apresentar o fundamento como medida de avaliação entre os descaminhos da consciência e a efetividade do saber. O fundamento aparece aqui como medida, ou seja, como aquilo que permite ao pensar estabelecer os entes na disposição do seu olhar. A medida é o solo não problemático que oferece ao pensar uma positividade que lhe permitirá estabelecer relações de diferença e de identidade. No entanto, esta medida, Hegel insiste que ela não está disponível à consciência.

Logo no parágrafo seguinte, Hegel completa: é verdade que a consciência parece não ter à sua disposição uma medida que sirva de fundamento para o saber. Mas, por outro lado: “a consciência distingue algo de si e ao mesmo tempo se relaciona com ele; ou, exprimindo de outro modo, ele é algo para a consciência”[5]. A esta relação, para a consciência, entre termos distintos, Hegel chama de saber. Este saber teria mero valor subjetivo se não pudesse ser medido por uma verdade que deve ter valor objetivo. Esta verdade como medida é apresentada, na economia do nosso texto, primeiramente através do recurso ao “para nós”: “Nós porém distinguimos desse ser para um outro, o ser-em-si; o que é relacionado com o saber também se distingue dele e se põe como ente, mesmo fora dessa relação: o lado desse em-si chama-se verdade”. Nós, que avaliamos a experiência na posteridade, vemos que há algo fora da relação do saber. Isto que está fora é o em-si do objeto. No entanto, de onde tiramos a medida que permite avaliar o que o objeto é para-a-consciência com o que ele é em-si? Notemos que Hegel, no parágrafo seguinte, irá abandonar esta via. Dizer que temos uma medida de verdade que nos permite de reconfigurar a experiência fenomenológica a partir dela resultaria apenas em comparar o saber com um outro saber do objeto, mas agora um saber para nós, saber de uma consciência hipostasiada: “O em-si do saber resultante dessa investigação seria, antes, seu ser para nós, o que afirmássemos como sua essência não seria sua verdade, mas sim nosso saber sobre ele”. Todo saber é um dispor-diante-de-si, um Vors-sich-stellen.

Daí porque Hegel deve recusar tal fundamento prévio que aparece através da perspectiva do para nós e afirmar que a própria natureza do objeto da experiência da consciência já fornece a medida de comparação entre a verdade e o saber. È neste sentido que devemos compreender a afirmação central:

A consciência fornece, em si mesma, sua própria medida; motivo pelo qual a investigação se torna uma comparação de si consigo mesma, já que a distinção que acaba de ser feita [entre saber e verdade] incide na consciência. Há na consciência um para um outro, isto é, a consciência tem em geral (überhaupt) a determinidade do momento do saber. Ao mesmo tempo, para a consciência, esse outro não é somente para ela, mas é também fora dessa relação, ou seja, é em si: o momento da verdade[6].

            A princípio, esta reviravolta parece surpreendente. Ao afirmar que a consciência fornece, em si mesma, sua própria medida, Hegel não deixa de aludir a afirmações anteriores, que analisamos na aula passada, como, por exemplo: “a consciência é para si seu próprio conceito” ou “ a violência que a consciência sofre vem dela mesma”. Já sabemos que esta medida não é um solo não problemático que oferece uma positividade ao pensar, nem mesmo um solo que só poderia estar pressuposto na perspectiva do para nós. A única coisa que Hegel lembra é que a consciência traz em si sua própria medida porque há nela um para um outro. Há uma alteridade que não se determina completamente no interior de uma relação de saber pensada como representação do objeto pelo sujeito. Ao dizer que a consciência é para si seu próprio conceito, Hegel esta pois afirmando que a consciência tem dentro de si um outro que não pode ser totalmente posto como objeto no interior de uma relação cognitiva, já que aquilo que é totalmente posto é disposto para-a-consciência. Tentar refletir sobre este outro que fornece a medida da distância entre o saber e a verdade é, assim, para a consciência, uma violência que estranhamente vem dela mesma.

            Hegel faz então uma consideração ainda mais surpreendente. É indiferente definir o saber como conceito e o em-si, o verdadeiro, como objeto ou, inversamente, o em-si como conceito e o saber para-a-consciência como objeto. No entanto, a princípio, a diferença é total: ela é a distância que vai de um modo de conhecer que vê a determinação do objeto como aquilo ao qual o conceito deve se adequar (como no empirismo) e um modo de conhecer no qual o conteúdo de verdade é fornecido pela determinação prévia do conceito (racionalismo). Hegel simplesmente afirma que tal distinção é indiferente porque os dois pólos incidem no interior do saber investigado. Podemos dizer que isto apenas indica que a alteridade não é uma experiência que se coloca apenas na confrontação do sujeito com o objeto, mas é interna ao próprio conceito.

            No entanto, até aqui não podemos deixar de nos sentir diante de um certo passe de mágica. Hegel parece afirmar, ao mesmo tempo, que há uma divisão na consciência entre saber e verdade, mas esta divisão, por ser interna à consciência, não é uma divisão irreconciliável. Tudo parece ficar mais evidente quando Hegel afirma, no parágrafo seguinte:

Com efeito, a consciência, por um lado, é consciência de objeto; por outro, consciência de si mesma; é consciência do que é verdadeiro para ela e consciência do seu saber da verdade. Enquanto ambos são para a consciência, ela mesma é sua comparação[7].

Ou seja, a divisão da consciência seria simplesmente uma divisão entre consciência e consciência de si; entre a experiência do objeto [na pura intuição] e o saber de objetos em geral. Mas notemos: esta consciência de objeto é consciência do objeto como uma alteridade que permanece fora das relações de saber de objetos em geral. Esta alteridade aparecerá como uma realidade ontológica. Daí porque Hegel insiste tanto na etimologia do termo Gegenstand: “o que está em posição contrária”. Assim, não basta apenas tentar adequar o saber de objeto em geral ao objeto como pólo de alteridade. De uma certa forma, a inadequação irá se perpetuar, mesmo com as mudanças na figura do saber:

Caso os dois momentos não se correspondam nessa comparação, parece que a consciência deva então mudar o seu saber para adequá-lo ao objeto. Porém, na mudança do saber, de fato se muda também para ele o objeto, pois o saber presente era essencialmente saber do objeto; junto com o saber, o objeto se torna também um outro pois pertencia essencialmente a esse saber[8].

Ao descobrir necessariamente que aquilo que ela tomava por em-si, enquanto consciência de objeto, era um em-si para-a-consciência não ocorre uma conciliação, mas algo leva a consciência a deparar-se novamente com um objeto que se torna outro. Esta reiteração só pode ser compreensível se lembrarmos que a relação entre conceito e objeto é sempre uma negação determinada. Ou seja, a efetivação do conceito deve sempre ser passagem no oposto, experiência de que as representações fixas de adequação do conceito são sempre incompletas. O conceito só se realizará ao deparar-se com um objeto que é a formalização da própria negação do conceito.

De volta à negação determinada

 

            É desta forma que podemos compreender o parágrafo 86. Nele. Hegel utiliza pela primeira vez o termo “dialética”. Ele é usado para se referir a essas estruturas de inversões próprias à experiência. A própria experiência é definida como um movimento, que a consciência exercita em si mesma, tanto em seu saber como em seu objeto. Movimento de aplicação do conceito e de fracasso desta aplicação através da produção de “um novo objeto verdadeiro”. Hegel já havia fornecido uma definição muito semelhante de experiência no parágrafo 36: “ experiência é justamente o nome desse movimento em que o imediato, o não-experimentado, ou seja, abstrato se aliena e depois retorna a si dessa alienação (Entfremdung); e por isso somente então é exposto em sua efetividade e verdade”. No entanto, a consciência pode retornar a si da alienação exatamente porque o objeto operou uma negação determinada e mostrou que a realização daquilo que foi negado é necessariamente sua própria negação. Como podemos ver, isto implica em uma noção de negação como modo de manifestação da essência, e não como simples indicação da privação, da falta ou do nada.

            Sigamos, por exemplo, a descrição fornecida por Hegel a respeito do movimento da experiência:

A consciência sabe algo: esse objeto é a essência ou o em-si [estamos diante de um saber imediato da consciência, ela julga ter o objeto imediatamente diante de si em sua essência]; mas é também o em-si da consciência; com isso entra em cena a ambiguidade (Zweideutigkeit) desse verdadeiro. Vemos que a consciência tem agora dois objetos: um, o primeiro em-si [o objeto imediato], o segundo, o ser para ela desse em-si. [No entanto] esse último parece, de início, apenas a reflexão da consciência sobre si mesma, uma representação (Vorstellen) não de um objeto, mas apenas de seu saber sobre o primeiro objeto [ou seja, não uma apreensão do objeto, mas uma reflexão sobre a estrutura do saber de objetos em geral, estamos assim diante da divisão entre consciência e consciência de si. Mas admitindo tal divisão, a consciência não pode permanecer com a crença de ter acesso imediato ao objeto, por isto] (…) o primeiro objeto se altera ali para a consciência [ele se torna um em-si para a consciência. Assim, o verdadeiro ou a essência é o ser para a consciência do em-si. Poderia parecer que entramos assim em um movimento no qual a consciência simplesmente descobre que a essência do objeto é posta por ela mesma. Mas se assim fosse, não haveria dialética, nem negação determinada, nem fundamento como negação, apenas desvelamento de que a essência do objeto é apenas uma projeção da consciência. É para evitar tal leitura que devemos dar todo o peso correto à afirmação] Esse novo objeto contém a aniquilação (Nichtigkeit) do primeiro [o novo objeto é apenas a apresentação do aniquilamento do primeiro objeto, ele é a forma dessa negação, e isto já é a essência do objeto pois a essência do objeto é uma negação que pode se apresentar enquanto tal na efetividade][9].

Esta leitura que proponho fica mais clara no próximo parágrafo. Hegel afirma que pode parecer que a transição do primeiro objeto para o segundo não seja uma passagem relacional, mas apenas uma negação simples do primeiro objeto pelo segundo. Como se não houvesse relação alguma entre os dois. Como se o resultado da primeira tentativa de efetivação do primeiro objeto fosse um nada vazio. De fato, é assim que a consciência compreende a experiência, já que ela opera com uma gramática de negações que vê o fracasso da realização do conceito apenas como negação simples. Daí porque Hegel pode afirmar que: “ a gênese do novo objeto se apresenta à consciência sem que ela saiba como lhe acontece. Para nós, é como se isso lhe  transcorresse por trás das costas”. E, de fato,  a consciência não é capaz ainda de compreender o que está em jogo nas passagens de um objeto a outro, por isto que “no movimento da consciência ocorre um momento do ser-em-si ou do ser-para-nós que não se apresenta à consciência”. Mas este momento não se apresenta em seu aspecto formal, embora ele se apresente como conteúdo através do aparecer de um novo objeto e através da negação do primeiro objeto. Quando a consciência for capaz de elevar esta negação que aparece como conteúdo à condição de forma, então teremos uma compreensão dialética da experiência.

A dialética consiste exatamente em apreender as contradições engendradas pela realização do conceito na experiência, ou seja, o fato de que a efetivação do conceito de um objeto é necessariamente sua negação, como realização do próprio conceito. Isto exige, por um lado, uma noção de essência como negação em-si, só assim podemos dizer que o conceito apreende seu objeto exatamente ao fracassar sua tentativa de apreensão. Por outro lado, ela exige uma noção de relação que não é pensada como mera oposição (pois é por isto que a consciência não compreende o movimento que se passa às suas costas), mas que é pensada como uma passagem no oposto. Mas para que esta passagem seja possível, faz-se necessário compreender que a negação de um termo pode ser seu modo de manifestação. Daí porque precisamos de um conceito de essência como negação em-si.

Neste ponto, podemos voltar a algumas considerações sobre a diferença entre negação determinada e oposição que haviam ficado em suspenso. É através delas que gostaria de terminar a aula de hoje.

Eu havia afirmado anteriormente que Hegel desenvolve suas considerações sobre a negação determinada tendo em vista, principalmente, o conceito kantiano de oposição real. Para Kant, uma oposição real indica que dois predicados de um sujeito são opostos de maneira contrária, mas sem contradição lógica. Assim: “a força motriz de um corpo que tende a um certo ponto e um esforço semelhante deste corpo para se mover em direção oposta não se contradizem, sendo ao mesmo tempo possíveis como predicados de um mesmo corpo”[10]. Tal oposição é descrita em linguagem matemática através dos signos + e – (+A e -A) a fim de mostrar como uma predicação pode destruir outra predicação, chegando a uma conseqüência cujo valor é zero, mas sem que seja necessário admitir um conceito que se contradiz em si mesmo (nihil negativum). Isto permitirá a Kant sublinhar que o conflito resultante de um princípio real que destrói o efeito de outro princípio no nível da intuição não pressupõe uma contradição no nível das condições transcendentais de constituição do objeto do conhecimento[11]. Este conflito real, ou oposição real, é a boa negação; “que permite ao entendimento constituir objetos “[12], já que, contrariamente à contradição lógica (pensada como objeto vazio sem conceito), esta negação deixa fora de seu julgamento a questão da existência do sujeito do julgamento.

Mas se Kant afirma que os predicados opostos são contrários sem serem contraditórios, é porque eles se misturam como forças positivas determinadas no resultado de uma realidade final. Os opostos reais são, para Kant, propriedade igualmente positivas, eles correspondem a referências objetivas determinadas[13]. Não há realidade ontológica do negativo. A aversão e a dor são tão positivas (no sentido de se referirem a objetos positivos) quanto o prazer. Elas têm uma subsistência positiva como objetos sensíveis que não é redutível à relação de oposição.

Hegel está atento à maneira com que a oposição real não modifica a noção de determinação fixa opositiva. Mesmo reconhecendo a existência de uma solidariedade entre contrários no processo de definição do sentido dos opostos (ao afirmar que : “a morte é um nascimento negativo”[14], Kant reconhece que o sentido da morte depende da determinação do sentido do nascimento), a noção de oposição nos impede de perguntar como a identidade dos objetos modifica-se quando o pensamento leva em conta relações de oposição. Ela nos impede de colocar a questão: “como os objetos são redefinidos, reconstituídos pelo fato de se inscreverem em relações? Quais transformações a noção de objeto recebe pelo fato de assim ser reconstituída pelo pensamento?”[15]. Como nos diz Lebrun: “Que cada um dos termos só possa ter sentido ao ligar-se ao seu oposto, isto o Entendimento concede, esta situação é figurável. Mas que cada um advenha o que significa o outro, aqui começa o não-figurável”[16]. Daí porque: “Mesmo admitindo, contra os clássicos que o positivo pode se suprimir e que o negativo possui de alguma maneira um valor de realidade, Kant jamais colocará em questão o axioma: ‘A realidade é algo, a negação não é nada’. Essa proposição é até mesmo a base do escrito sobre as grandezas negativas: ela é a condição necessária sem a qual não se poderia discernir a oposição lógica da oposição real”[17].

Neste sentido, podemos dizer que Hegel procurar desdobrar todas as conseqüências possíveis de um pensamento da relação. Pois a produção da identidade através da mediação pelo oposto, tal como vemos na oposição real, é reflexão-no-outro. Um recurso à alteridade que aparece como constitutivo da determinação da identidade, já que: “cada um é apenas na medida em que seu não-ser é, e ele é em uma relação idêntica”[18]. O que promete uma interversão (Umschlagen) da identidade na posição da diferença. A negação abstrata passa no seu contrário, já que ela deve reconhecer a presença do excluído como limite que configura a identidade. Como nos dirá Henrich, o primeiro passo deste movimento dialético consiste em passar de algo que se distingue do outro enquanto seu limite para algo que é apenas limite[19]. Tal passagem advém possível porque Hegel submete a negação funcional-veritativa à noção de alteridade, seguindo aí uma tradição que remonta ao Sofista, de Platão[20]: “Contrariamente à negação funcional-veritativa [fundada na idéia de exclusão simples], a alteridade é uma relação entre dois termos. Faz-se necessário ao menos dois termos para que possamos dizer que algo é outro”[21].

Tal submissão da negação à alteridade nos explica porque a figura maior da negação em Hegel não é exatamente o nada ou a privação, mas a contradição[22]. Contradição que aparece quando tentamos pensar a identidade em uma gramática filosófica que submete a negação à alteridade. Nesta gramática, só há identidade quando uma relação reflexiva entre dois termos pode ser compreendida como relação simples e auto-referencial, ou seja, só há identidade lá onde há reconhecimento reflexivo da contradição.

[1] DELEUZE, Différence et répétition, p. 64

[2] BRANDOM, Holism and idealism in Hegel Phenomenology, p. 179

[3] idem, p. 180

[4] HEGEL, Fenomenologia, par. 81

[5] HEGEL, Fenomenologia, par. 82

[6] HEGEL, Fenomenologia, par. 84

[7] HEGEL, Fenomenologia, par. 85

[8] HEGEL, Fenomenologia, par. 85

[9] HEGEL, Fenomenologia, par. 86

[10] KANT, Essai pour introduire en philosophie le concept de grandeur négative, Paris: Vrin 1949, pp. 19-20

[11] De onde se segue a afirmação: “Só na intuição sensível, em que é dada realidade (por exemplo, o movimento), se encontram condições (direções opostas) de que se abstraiu no conceito de movimento em geral, que podem provocar uma contradição, não lógica aliás, suscetível de transformar em zero=0 algo bem positivo; e não se poderá dizer que todas as realidades concordam entre si, só porque entre seus conceitos não há contradição” (KANT, Crítica da razão pura, B338/A282).

[12] DAVID-MÈNARD, La folie dans la raison pure:Kant lecteur de Swedenborg, Paris: Vrin, 1990,  p. 41

[13] “As grandezas negativas não são negações de grandezas, como a analogia da expressão pode deixar supor, mas, ao contrário, algo de realmente positivo em si que é simplesmente oposto a outra grandeza positiva” (KANT, Essai pour introduire en philosophie le concept de grandeur négative, Paris: Vrin, 1997, p. 16)

[14] KANT, idem, p. 24

[15] LONGUENESSE, Hegel et la critique de la métaphysique, Paris:Vrin, 1981, p. 80

[16] LEBRUN, La patience du concept, op.cit, p. 292

[17] LEBRUN, Kant e o fim da metafísica, p. 266

[18] HEGEL, Science de la logique, op.cit, pp. 60-61

[19] Ver HENRICH, Hegel im Kontext, Frankfurt: Surkhamp, 1967, p. 112

[20] Como vemos na afirmação: “Quando enunciamos o não-ser, não enunciamos algo contrário ao ser, mas apenas algo de outro” (PLATÃO, Sofista, 257b)

[21] HENRICH, Hegel im kontext, op.cit, p. 133

[22] Neste sentido, Dubarle notou claramente que o termo que teria valor de termo nulo está ausente da doutrina hegeliana do Conceito (DUBARLE et DOZ, Logique et dialectique, Paris: Larousse:, 1972, pp.134-145). Isto acontece porque, em Hegel, o termo negado nunca alcança o valor zero, já que esta função do zero será criticada por Hegel como sendo um “nada abstrato” (abstrakte Nichts). Neste sentido, o interesse hegeliano pelo cálculo infinitesimal estaria ligado à maneira com que Hegel estrutura sua compreensão da negação como um impulso ao limite da determinidade. A negação hegeliana nunca alcança o valor zero porque ela leva o nada ao limite do surgir (Entstehen)  e o ser ao limite do desaparecer (Vergehen) (cf. HEGEL, Science de la logique I, op.cit, pp. 79-80). Na verdade, ela é a exposição deste movimento no qual o ser está desaparecendo (ou em fading, se quiséssemos falar com Lacan) e onde o nada esta manifestando-se em uma determinidade. Movimento cuja exposição exige uma outra compreensão do que é um objeto (para além da idéia do objeto como polo fixo de identidade). De onde segue também a importância dada por Hegel à noção de grandeza evanescente na compreensão da dinâmica da dialética do devir (Werden). Como dirá Hegel: ”Estas grandezas foram determinadas como grandezas que são em seu desaparecer (die in ihrem Verschbwinden sind), não antes de seu desaparecer, pois então elas seriam grandezas finitas – nem após seu desaparecer, pois então elas seriam nada” (HEGEL, Science de la logique I, p. 78). Para uma análise detalhada do papel dos infinitesimais na Lógica de Hegel, ver FAUSTO, Sur le concept de capital: idée d’une logique dialectique, Paris: L’Harmattan, 1996, pp. 23-25. Sobre esta questão da impossibilidade da negação hegeliana alcançar o valor zero, lembremos ainda da maneira com que Hegel determina o vazio (das Leere): “O vazio não é o imediato, indiferente para si em face do Um, mas ele é o relacionar-se-a-outra-coisa deste Um ou seu limite” (HEGEL, Science de la logique I, Op. cit., p. 135).Lembremos também que Lacan, ao usar a negação sobretudo como ´falta´, mas raramente como ´nada´, afirmar que: “A negação, isto não é um zero, nunca, lingüisticamente, mas um não-um”. (LACAN, S IX, sessão de 21/02/62)

2 comentários em “Vladimir Safatle – Aula 6/30 – ‘Fenomenologia do Espirito’, de Hegel

  1. […] ____________Aula 6 sobre a ‘Introdução’ da Fenomenologia do Espírito, disponível aqui […]

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