A problemática de “A transcendência do ego” de Sartre

Texto escrito pelo colaborador: Túlio Vinícius – graduando em filosofia pela PUC-SP

O problema que Jean-Paul Sartre aborda no artigo A transcendência do ego: esboço de uma descrição fenomenológica, publicado pela primeira vez em 1936 na revista “Recherches Philosophiques”, é um problema clássico da “filosofia transcendental”, já enfrentado por Immanuel Kant e Edmund Husserl. Contudo, através de suas mãos o problema ganha uma face fenomenológica, deixa o âmbito da “filosofia transcendental” – da doutrina que investiga as condições de possibilidade do conhecimento – e passa ao campo da investigação fenomenológica, tal como Sartre a compreende em seu artigo 1. O problema enfrentado por Kant e Husserl era o da passagem do ego da consciência transcendental para o ego empírico. Mas, para Sartre, trata-se de saber como e porque uma consciência que não tem originalmente nenhuma estrutura egológica, ou seja, é uma consciência impessoal, se dá um objeto tal como o ego para, em seguida, se projetar nele e se identificar como sendo ele. É com esta pergunta em mente que Sartre anunciará nas primeiras linhas de seu artigo o seu objetivo: “Nós queremos mostrar aqui que o Ego não está na consciência nem formal nem materialmente: ele está fora, no mundo; é um ser do mundo, tal como o Ego de outrem” 2.

Sartre inicia seu artigo se debruçando sobre a apercepção transcendental de Kant: “devemos concordar com Kant que o ‘eu penso deve poder acompanhar todas as nossas representações’” 3. Contudo, para Sartre os neo-kantianos tendem a pensar como sendo de fato o que é de direito, ou seja, eles tendem a pensar como fato o que Kant considerou apenas como possibilidade lógica, pois a crítica kantiana trata das condições de possibilidade do conhecimento, e uma destas condições é que o “eu” deva sempre poder acompanhar qualquer uma das nossas representações. Destarte, não se pode concluir da apercepção transcendental de Kant “que um ‘eu’ habita, de fato, todos os nossos estados de consciência e executa realmente a síntese suprema da nossa experiência” 4. Em outros termos, segundo Franklin Leopoldo e Silva, a “questão que

[Sartre] se coloca é a seguinte: esse operador supremo de sínteses cognitivas é um ser ou uma função? Para Kant, manifestadamente é uma função” 5.

Assim, se Sartre concede a Kant a questão de direito, resta, contudo, decidir a questão acerca da existência de fato de um ‘eu’ na consciência. Para esclarecer a constituição do ego, Sartre retorna ao pai da fenomenologia, Husserl, e diz ser este um problema existencial:

“Os problemas das relações do Eu com a consciência são, portanto, problemas existenciais. Husserl reencontra e apreende a consciência transcendental de Kant através da epoché [“redução fenomenológica”]. Mas esta consciência já não é um conjunto de condições lógicas, é um fato absoluto” 6

 

Neste caso, afirmar que a consciência é um “fato absoluto” significa afirmá-la como um “campo transcendental” anterior à consciência em sentido físico ou psicofísico, âmbito no qual ela é anulada, em sua realidade empírica, pela redução fenomenológica 7.

Para Sartre, não há motivos para o ego escapar a epoché. A “redução fenomenológica” coloca fora de circuito, juntamente com todo o mundo da atitude natural, a consciência empírica, isto é, o Eu psíquico e psicofísico, o que significa que o ego é um objeto do mundo para a consciência. Após a “redução fenomenológica” é possível fazer a distinção entre a consciência e o ego: a consciência é constituinte e o ego é constituído.

A consciência constituinte mantém uma relação imediata consigo mesma e com o mundo, ela é primordialmente irreflexiva (impessoal), sem a presença de um eu. Deste modo, afirma Sartre, há uma autonomia da consciência irreflexiva em relação ao ego 8: mesmo constituindo a psique (o ego) como um objeto para si, a consciência, em seu

nível imediato, é insubstancial, uma estrutura translúcida e espontânea, que a cada instante “determina-se à existência sem que se possa conceber qualquer coisa antes dela” 9. Assim, “cada instante da vida consciente revela-nos uma criação ex nihilo. Não um novo arranjo, mas uma nova existência” 10.

Já a consciência constituída, a psique, é um conjunto de objetos – o ego, a personalidade e os estados de consciência – 11, que forjam uma interioridade e que não se pode captar senão por uma operação reflexiva. Ou seja: o ego só pode ser apreendido quando a consciência opera um desdobramento sobre si ou sobre sua Erlebnis (sobre o seu vivido), de maneira que, assim como os outros objetos do mundo, ele só pode ser apreendido por perfis variáveis.

Contudo, a afirmação de uma “consciência transcendental” impessoal parece constituir um problema para a fenomenologia de Husserl. Nas palavras de Leopoldo e Silva:

“Nas Investigações Lógicas, Husserl havia concebido o ‘Eu’ como uma ‘produção sintética e transcendente da consciência’; nas Idéias [Idéias para uma fenomenologia pura e filosofia fenomenológica], ele concebe um ‘Eu transcendental’ como estrutura necessária anterior a cada consciência. Seria um ‘Eu’ puro que resiste à redução [fenomenológica], que permanece idêntico e que não pode ser considerado no mesmo plano do vivido, mas deve ser visto como um dado fenomenológico” 12.

Assim, Sartre parece estar diante de “dois” Husserl: um compreende o ego como “produção sintética e transcendente da consciência” e o outro compreende o ego como uma estrutura necessária anterior a cada consciência. Este segundo Husserl, de acordo com André Yazbek 13, teria, na medida em que privilegia a consciência egológica, se rendido às teses elementares do “idealismo transcendental”, conferindo ao “Eu” plena auto-suficiência. Desse modo, Husserl se mostraria ainda fiel à tradição moderna e

kantiana, uma vez que privilegia a consciência reflexiva ou o sujeito do conhecimento – tomado como estrutura e atividade universal e necessária do saber. Isto é: para este segundo Husserl, o ego teria a função de servir como princípio unificador das visadas da consciência. Sartre pretende escapar deste “idealismo transcendental”. Ele considera este “Eu transcendental” de Husserl uma duplicação do Eu psíquico e psicofísico, uma duplicação desnecessária e incompatível com a fenomenologia.

Husserl estava convencido, assim como o neo-kantismo, da necessidade do ego como principio unificador das visadas da consciência 14. Para Sartre, no entanto, o essencial na fenomenologia é a afirmação da consciência como intencional, o que significa que ela é uma “recusa a ser substancia”. Portanto, introduzir uma estrutura como o ego na consciência é, segundo Sartre, torná-la substancial, densa, pesada e opaca a si mesma.

A consciência intencional será definida e ilustrada por Sartre no texto Uma idéia fundamental da fenomenologia de Husserl: a intencionalidade:

“Husserl vê na consciência um fato irredutível, que nenhuma imagem física pode exprimir. A não ser, talvez, a imagem rápida e obscura de uma explosão. Conhecer é ‘explodir em direção a’. A consciência não tem ‘interior’; ela não é nada senão o exterior de si mesma, e é essa fuga absoluta, essa recusa de ser substância, que a constitui como consciência.

Imaginem agora uma sequência de explosões que nos arrancam de nós mesmos, que não deixam a um ‘nós mesmo’ sequer o ócio de se formar atrás delas, mas que nós jogam, ao contrário, além delas, na poeira seca do mundo, sobre a terra rude, entre as coisas; imaginem que somos assim repelidos, abandonados por nossa própria natureza em um mundo indiferente, hostil e recalcitrante. Vocês terão captado o sentido profundo da descoberta que Husserl exprime nesta famosa frase: ‘Toda consciência é consciência de alguma coisa’. Não é necessário mais do que isso para pôr um termo à filosofia aconchegante da imanência, na qual tudo se faz por compromisso, por trocas protoplasmáticas, por uma morna química celular. A filosofia da transcendência nos joga na via expressa, entre ameaças, sob uma luz ofuscante.” 15

Portanto, a consciência intencional, tal como Sartre a compreende, não assimila o objeto, mas, ao contrário, se projeta em sua direção, intenciona-o, transcende a si para alcançar o objeto transcendente, e é neste movimento de transcendência que ela unifica suas visadas sobre o mundo. Dessa forma, o ego é uma estrutura desnecessária como

principio unificador, posto que: a) de uma parte, no plano imanente, a consciência se unificaria concretamente através da recuperação e retenção temporal das consciências passadas, que se cristalizam em uma unidade a partir da qual ela se projeta para o futuro 16; b) de outra parte, no plano transcendente, é preciso considerar que o objeto já é uma unidade real, quer dizer, uma unidade não forjada pela consciência, de modo que, sendo o objeto transcendente à consciência, é nele que a consciência encontraria sua unidade 17.

A consciência “constitui, portanto, uma totalidade sintética e individual inteiramente isolada das outras totalidades do mesmo tipo e o Eu não pode ser, evidentemente, senão uma expressão (e não uma condição) desta incomunicabilidade e interioridade das consciências 18.

Contudo, para Sartre o ego não é só inútil à consciência, ele é também nocivo. Vale a pena reforçar que a discussão que aqui se dá é sobre o nível irreflexivo da consciência, ou seja, seu nível imediato. Sartre não pretende negar a existência de um ego, ele pretende negar a existência de um ego no plano imediato (primordial) da consciência. Isto quer dizer que no plano reflexivo a consciência constitui o ego como objeto para si mesma, mas este é um segundo momento e não quer dizer que ele esteja na consciência.

E por que o ego seria nocivo à consciência? Para Sartre, “se ele existisse , arrancaria a consciência de si mesma, dividi-la-ia, insinuar-se-ia em cada consciência como uma lamela opaca” 19. A consciência é um absoluto porque é consciência (de) si mesma 20. Isto é, no nível irreflexivo ela é consciência não-tética de si enquanto é consciência do objeto visado, ou seja, ela é consciência (de) consciência (do) objeto; e neste nível não há nenhuma relação de conhecimento entre a consciência e o objeto visado ou entre a consciência e seu vivido (Erlebnis). Ela não posiciona a si mesma ou a sua consciência (do) objeto como objeto a ser conhecido 21. Portanto, a consciência é

uma relação imediata de si a si e, por este fato, ela é translúcida a si mesma e absolutamente espontânea. Isto é: “o objeto está face a ela com sua opacidade característica, mas ela, ela é simplesmente consciência de ser consciência desse objeto, é a lei de sua existência” 22.

Portanto, se o ego colonizasse a imanência da consciência, ela se tornaria uma substância, opaca a si mesma, densa e todas os seus estados de consciência seriam emanações de um ego e não criações espontâneas “ex nihilo”, ou seja, ela seria passiva e determinada por um ego. Isso implica, para Sartre, conseqüências gravíssimas no campo da ética: afirmar o ego como um habitante da consciência significa afirmar a consciência como passiva e determinada. Logo, não se poderia exigir dela liberdade e nem tomá-la como responsável pelo seu ser e pela sua existência.

Obs.: A problemática explorada acima constitui parte fundamental no trabalho de Sartre, suas investigações posteriores acerca da realidade humana (O Ser e o Nada, por exemplo) seriam inviáveis sem essa previa reformulação da fenomenologia, tal como Husserl a constitui em sua segunda fase.

Notas:

1 “A fenomenologia é um estudo científico e não crítico da consciência. O seu procedimento essencial é a intuição. A intuição, segundo Husserl, põe-nos na presença da coisa. Deve entender-se que a fenomenologia é, portanto, uma ciência de fato e que os problemas que ela põe são problemas de fato, como alias se pode ainda perceber considerando que Husserl a denomina uma ciência descritiva.” Cf. Idem, ibidem, p.45.

2 Idem, Ibidem, p.43.

3 Idem, Ibidem.

4 Idem, Ibidem.

5 SILVA, Franklin Leopoldo. Ética e Literatura em Sartre: ensaios introdutórios. São Paulo: UNESP, 2004, p.35.

6 SARTRE, A transcendência do ego, op, cit, p. 45.

7 “O método da redução fenomenológica consiste em colocar entre parênteses (epoché) todo o mundo da atitude natural, aquele em que atua um certo realismo espontâneo, pelo qual depositamos uma confiança pré-crítica nas percepções como signos da existência efetiva das coisas. A consciência transcendental, precisamente por ser constituinte da consciência empírica, pode isolar-se depois de operar a redução de todo o mundo natural. Mas, ao cabo dessa operação, o que encontramos não é o transcendental como conjunto de possibilidades lógicas, como em Kant, mas a consciência como um ‘fato absoluto’, quer dizer, aquilo que permanece depois que tudo que temos habitualmente por ‘realidade’ foi colocado entre parênteses ou fora de circuito”. Cf. Idem, Ibidem, p.37.

8 SARTRE, A transcendência do ego, op, cit, p. 57.

9 Idem, Ibidem, p. 79.

10 Idem, Ibidem.

11 Os estados são unidades sintéticas das emoções, sensações e sentimentos espontâneos. Por exemplo, todas as sensações momentâneas de repulsa, raiva e ira sintetizam-se no “estado” ódio, que se dá como existindo para além do momento em que se vivenciou essas sensações, e é apreendido como emanador dessas sensações, que na realidade foram criações espontâneas da consciência.

12 SILVA, Ética e Literatura em Sartre: ensaios introdutórios, op, cit, p.37.

13 YAZBEK, André Constantino. Itinerários Cruzados: os caminhos da contemporaneidade filosófica francesa nas obras de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault. Tese de doutorado apresentada à banca examinadora do Programa de Estudos Pós-graduados em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob a orientação da Profa. Dra. Salma Tannus Muchail. São Paulo, junho de 2008, pp. 39.

14 Neste ponto, Husserl e os neo-kantianos estavam de acordo com a tradição kantiana.

15 SARTRE, Jean-Paul. “Uma idéia fundamental da fenomenologia de Husserl: a intencionalidade”. In: Situações I. São Paulo: Editora Cosac Naify, 2005, p. 56.

16 “Pela intencionalidade, ela transcende-se a si mesma, ela unifica-se escapando-se”. SARTRE, A transcendência do ego, op, cit, p.47.

17 Idem, Ibidem.

18 Idem, Ibidem, p.48

19 Idem, Ibidem.

20 O “de” entre parênteses indica uma relação imediata da consciência consigo mesma: consciência si. Uma relação que se dá no nível irreflexivo, sem a mediação do ego.

21 “É preciso acrescentar que esta consciência de consciência não é posicional, o que quer diz que a consciência não é para si mesma seu objeto. O seu objeto está, por natureza, fora dela e é por isso que, por um mesmo ato, ela o põe e o apreende.” Cf. Idem, ibidem.

22 Idem, Ibidem, p. 48.

Um comentário em “A problemática de “A transcendência do ego” de Sartre

  1. João Carvalho disse:

    Excelente análise. Os meus parabéns.
    Só não percebo porque é que o autor coloca entre parênteses “consciência (do) objecto intencional”. Sartre utiliza parênteses precisamente para diferenciar a consciência tética do objecto da consciência não-tética (de) si, certo?

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