Osvaldo Pessoa – Aula 7 – Medicina Greco-Romana (3/4)

3. Três Atitudes Epistemológicas na Medicina Antiga

A história da biologia e da medicina helênicas, centrada em Alexandria, sofre da faltade fontes primárias. Vários trabalhos importantes dos sécs. IV e III a.C. só são conhecidoscom algum detalhe devido a comentadores posteriores, especialmente Galeno. Os dois maisimportantes biólogos foram Herófilo da Calcedônia (335-280 a.C.) e Erasístrato de Quios(310-250 a.C.), este discípulo de Estráton, que trabalharam em Alexandria na primeira metadedo séc. III a.C. Eles foram os primeiros a praticar a dissecação do corpo humano, e é prováveltambém que tenham feito vivissecção em humanos (ou seja, corte do corpo de pessoas vivas!).

Estes médicos apontavam as vantagens da vivissecção, argumentando que o benefíciotrazido superava o mal feito: “não é cruel, como a maioria diz, procurar remédios para asmultidões de homens inocentes de todas as épocas futuras, por meio do sacrifício de umreduzido número de criminosos”. Posteriormente, em Roma, o médico Celsius27 viria adefender a dissecação praticada pelos helênicos, mas condenaria a vivissecção, argumentandoque o conhecimento adquirido poderia ser obtido mais lentamente através de outros métodos,como a observação de feridos de guerra.

No período posterior, a dissecação do corpo humano decairia, mas há relatos deestudos de ossos de cadáveres em Alexandria ainda na época de Galeno. Fora de Alexandria,só a observação acidental de esqueletos permitia um exame da ossada humana.

O final do séc. III a.C. viu a proliferação de seitas médicas, como os “dogmatistas”, os“empiristas” e, posteriormente, os “metodistas”. Os dogmatistas, que incluíam Herófilo eErasístrato, argumentavam que a consideração de causas ocultas seria essencial para a práticamédica, e que tal conhecimento só poderia ser obtido suplementando-se a experiência comraciocínio e conjectura. Os empiristas eram contra tais especulações: o invisível não poderiaser conhecido. Como o médico trata casos individuais, ele deveria assim evitar inferências,guiando-se apenas pelos sintomas manifestos de cada paciente. Os metodistas buscavam umavia intermediária, postulando um método para identificar características comuns às diferentesdoenças.

No campo da filosofia, tal debate colocou de um lado os peripatéticos (aristotélicos),estóicos e epicuristas, que defendiam a possibilidade do conhecimento das causas ocultas, ede outro as diferentes tendências do ceticismo, primeiramente com Pirro de Elis (c. 360-270a.C.). Os filósofos céticos negavam que houvesse um critério definitivo de aquisição deconhecimento.

 

 

27 CELSUS, A.C. (1935), On Medicine, trad. W.G. Spencer, Loeb Classical Library, Londres (original em latim: c.30 d.C.), disponível na internet. Em classe selecionamos trechos do “Proêmio” que trata das escolas de medicina.

2 comentários em “Osvaldo Pessoa – Aula 7 – Medicina Greco-Romana (3/4)

  1. Admirável este projeto phronesis que tem o mérito de pulverizar pela net riquíssimos conhecimentos filosóficos. Sou Professor de Filosofia e tenho o mesmo entusiasmo com a Filosofia. Creio que a sociedade precisa respirar mais filosofia; os homens poderiam se apoderar mais do saber filosófico para melhorar mais seu dia a dia. Estou partilhando o link deste espaço no meu blog filosófico http://www.umasreflexoes.blogspot.com e gostaria que fizessem também o mesmo. Grato. Vou seguir mais de perto este projeto.

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