Oswaldo Pessoa – Aula 7 – Medicina Greco-Romana (2/4)

2. O Corpo Hipocrático
No início do séc. IV a.C., dois grandes centros de medicina, localizados próximos um dooutro, passaram a se destacar. Em Cnido, ao sul de Mileto, na Ásia Menor, surgiu uma escolaespecializada em obstetrícia e ginecologia, e na ilha de Cós, uma dedicada a observações médicasmais gerais. O médico mais importante foi Hipócrates de Cós (c. 460-370 a.C.), e sua escoladeixou mais de 50 tratados de medicina, chamados coletivamente de Corpo Hipocrático.

Nesses tratados, encontra-se uma preocupação em separar o médico devidamentepreparado de um charlatão despreparado. Boa parte da reputação do médico referia-se à suacapacidade de fazer uma prognose, descrevendo corretamente a evolução de uma doença. Já acura era mais difícil, com os meios limitados de então. Entre os métodos de tratamento do Corpo Hipocrático estavam a cirurgia, a cauterização, o sangramento, a administração depurgantes e, especialmente, o controle do “regime”, com dieta e exercício. Um traço distintivodos métodos hipocráticos era a concepção de que a doença é um fenômeno natural, o efeito decausas naturais, e não a ação divina ou sobrenatural. Apesar disso, é claro, permaneciammuitos traços de superstição. Outros métodos desenvolvidos incluíam o exame cuidadoso dopaciente e dos fluidos expelidos, e a observação sistemática da evolução do paciente.

Havia diversas teorias sobre as causas das doenças. Alguns defendiam uma causaúnica para todas as doenças, outros que em cada paciente a causa era singular. No entanto,como o fim prático era o tratamento dos doentes, os médicos valorizavam acima de tudo acoleta de evidência e a cautela com hipóteses causais. No tratado “Da Medicina Antiga”, oautor protestou contra a importação para a medicina das idéias de filósofos, com seusconceitos de calor, frio, seco, úmido, etc. Salientou que a medicina é uma arte, techne, querequer prática e não necessita de hipóteses. A recusa em aceitar as especulações filosóficascaracteriza uma postura que era chamada de empirista.

Apesar destas críticas contra o uso de explicações teóricas, era inevitável que algumashipóteses explicativas acabassem sendo adotadas pelos médicos, como a divisão entre osquatro humores ou líquidos do corpo humano: sangue, bile amarela, bile negra (que nãocorresponde a um fluido real) e flegma (catarro). Mais tarde, Galeno, no De Temperamentis,iria associar esses humores a quatro temperamentos: sanguíneo (extrovertido, alegre,dispersivo), colérico (extrovertido, bravo, comandante), melancólico (introvertido, criativo,deprimido), fleumático (introvertido, calmo, pensativo).

Em meio a especulações sobre embriologia, há a primeira referência a uma investigaçãosistemática sobre o crescimento do ovo de uma galinha no cap. 29 do “Da Natureza daCriança”. Vinte ovos foram incubados, e a cada dia um era aberto para que se observasse oembrião. É provável que nesta época já se empregasse o método da dissecação em animais.

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