Oswaldo Pessoa – Aula 6 – A Ciência Aristotélica e seus Sucessores (4/4)

4. As Filosofias da Natureza Atomista e Estóica

A ascensão do império de Alexandre teve o efeito de pôr outras culturas em contatocom a grega. Com sua morte em 323 a.C. e a queda de seu império, diversos reinos surgiram,concentrando bastante riqueza, como o Egito, a Selêucia (na Babilônia) e Pérgamo. Com isto,a atividade científica passou a ser impulsionada pela patronagem real. O ponto alto destapatronagem ocorreu na dinastia dos Ptolomeus, no Egito, com a fundação da Biblioteca e doMuseu de Alexandria, que se tornou o principal centro de pesquisa a partir do séc. III a.C. OMuseu era uma comunidade de pesquisadores, e veremos algo sobre sua pesquisa emmedicina, matemática e astronomia nos capítulos seguintes.

O interesse dos reis ptolomaicos estaria em parte no desenvolvimento de armasbélicas, e em parte na obtenção de prestígio. Porém, nossa concepção atual de “ciência”,enquanto empreendimento associado ao progresso material, estava ausente em toda aAntigüidade.25

Na Filosofia, os grandes inovadores foram os epicuristas e estóicos. Colocando a éticaacima da física e da lógica, viam na finalidade da filosofia a obtenção da felicidade, mesmodiante de adversidades.

Epicuro (341-270 a.C.) nasceu em Samos, mas fundou sua escola, o Jardim, emAtenas. Atacou vigorosamente a superstição e a mitologia, mas não se interessava pelainvestigação detalhada dos fenômenos naturais, pois o objetivo da pesquisa seria atingir a pazde espírito.

Epicuro era um atomista, seguindo Leucipo e Demócrito, e sendo sucedido nesteaspecto pelo romano Lucrécio (séc. I a.C.). Respondendo às críticas de Aristóteles, defendeuque os átomos são “mínimos físicos”, mas não “mínimos matemáticos”, tendo assim umtamanho e partes. Epicuro também adicionou a propriedade de peso à lista das propriedades primárias dos átomos, que para Leucipo e Demócrito eram apenas forma, arranjo e posição.

Os fundadores do atomismo concebiam que o Universo se originaria com todos osátomos “caindo” na mesma direção. Átomos maiores cairiam com maior velocidade, sechocariam com os mais lentos e, assim, se iniciariam movimentos em todas as direções, queacabariam formando os mundos, num dos quais nós viveríamos (os outros mundos estariamespalhados pelo espaço infinito). Mencionamos na seção II.1 que Aristóteles comentou que,se houvesse o vazio, a queda de todos os corpos no vazio deveria se dar com a mesmavelocidade. Isso teria trazido um problema para Epicuro, que portanto introduziu um pequenomovimento aleatório lateral (clinamen), um movimento sem causa, para explicar aprogressiva agregação dos átomos.26

A questão de se a natureza é determinista ou intrinsecamente estocástica (aleatória)permanece até hoje. O movimento sem causa de Epicuro seria também usado para explicar aliberdade da alma. Epicuro era um materialista, e explicava eventos mentais por meio deátomos-espirituais.

O estoicismo surgiu na mesma época e foi o grande rival do epicurismo. Fundado porZenão de Cício (335-263 a.C.), desenvolvido por Cleanto de Assos (331-232) e especialmenteCrisipo de Soles (280-207), evoluiu até a época romana, com Sêneca (séc. I d.C.).Os estóicos concordavam com os epicuristas que o motivo subjacente ao estudo dosfenômenos naturais seria alcançar a paz de espírito (ataraxia), mas, de resto, discordavam.

Os estóicos negavam a existência do vazio dentro do mundo, apesar de fora do mundo existir umvazio infinito. O mundo seria “pleno”, mas mesmo assim o movimento seria possível, pelamesma razão que um peixe consegue nadar dentro d’água. O espaço e o tempo seriamcontínuos, ao contrário da opinião de Epicuro, para quem espaço e tempo seriam compostosde partes mínimas.

A física estóica era essencialmente qualitativa. Partia-se de dois princípios, o ativo e opassivo, onde o passivo é a matéria ou substância sem qualidades, e o ativo é causa, deus,razão ou sopro vital (“pneuma”), alma, fatalidade. Adotavam os quatro elementos deEmpédocles e Aristóteles.

O mundo começaria no fogo, evoluiria, até que o processo seria revertido, terminandosenovamente em fogo, num eterno vai e vem. O pneuma consistiria de ar e fogo, e seria umprincípio ativo. Objetos teriam “hexis”, que os mantém coesos; plantas teriam “physis”,natureza, que as fazem crescer e se reproduzir; animais também teriam “psyche”, alma, que osfazem se movimentar e sentir. Segundo os estóicos, o universo como um todo é um ser vivo,com “pneuma”, “psyche” e “nous” (razão). Não haveria acaso na natureza: os estóicos eramdeterministas, e procuravam adivinhar o futuro levando em conta a cadeia de causas e efeitos.Temos com os estóicos uma teoria do contínuo da matéria, iniciando o debate que dura atéhoje entre atomismo e continuismo.

 

25 Nosso relato da ciência helenística, neste e nos próximos capítulos, segue: LLOYD, G.E.R. (1973), Greek Scienceafter Aristotle, Norton, Nova Iorque. Seu resumo sobre a ciência dos epicuristas e estóicos está nas pp. 21-32.

26 A estória contada neste parágrafo foi formulada na p. 26 de LANGE, F.A. (1974), The History of Materialism,trad. E.C. Thomas, Arno Press, Nova Iorque (1a ed. em alemão: 1866; 2a ed.: 1875). Porém, este relato éduvidoso, conforme argumentado por KATZ (1943), op.cit. (nota 24), p. 435, que nega que Demócritoconcebesse que as partículas mais pesadas cairiam mais rapidamente. Há também quem atribua o clinamen aLucrécio, não a Epicuro.

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