Oswaldo Pessoa – Aula 6 – A Ciência Aristotélica e seus Sucessores (1/4)

1. A Física Aristotélica
Os elementos tenderiam a se ordenar em torno do centro do mundo, cada qual em seu “lugar natural”. Se um elemento é removido de seu lugar natural, seu “movimento natural” é retornar de maneira retilínea: terra e água tendem a descer, ar e fogo tendem a subir. O “movimento violento” envolve a remoção de um corpo de seu lugar natural, ou é o resultado do exercício de uma força por um agente. Os corpos celestes envolveriam um quinto elemento, o éter, que daria conta da imutabilidade dos céus, em seu eterno movimento circular.
A “dinâmica” praticamente inexistia antes de Aristóteles. Os pré-socráticos falavam no princípio de “atração dos iguais pelos iguais”, o que explicaria porque a pedra tende a cair para o chão, mas o princípio se aplicava a tudo. Para Aristóteles, todo movimento tem um agente (um motor) e um paciente (o movido). A fonte do movimento é uma força (dunamin ou ísquis). No movimento natural a força é interna, e no movimento violento ela é externa, tendo que haver contato contínuo entre o motor e o movido. Assim, para explicar porque uma pedra arremessada continua se movendo na horizontal, Aristóteles tinha que postular a “antiperistasis”, ou seja, o ar deslocado pela frente da pedra retornaria para a parte traseira da pedra e nela exerceria uma força!
O paradigma de movimento violento é uma pessoa empurrando um objeto, como um barco, em uma superfície, como na areia. A distância (S) percorrida em um intervalo de tempo (T) é proporcional à força exercida (F) dividida pelo peso do corpo (P), sendo que este peso inclui também a resistência do meio: F/P = S/T. Aristóteles tinha uma noção clara de que, abaixo de uma certa força exercida, o movimento pode cessar (devido ao atrito estático) (Física VII.5, 249b30-250a28).
O paradigma do movimento natural é a queda de um corpo na água. Neste caso (Física IV.8, 215a24-b10), a força é o peso do corpo (P), e a resistência (R) exprime a densidade do meio: P/R = S/T. Aristóteles também descreveu o movimento para cima de uma porção de fogo com a mesma lei, indicando que a velocidade seria proporcional ao volume do objeto (De Caelo, 309b11-15). O filósofo da ciência Stephen Toulmin (1961) salientou que esta lei é correta no domínio de observação restrito em que o corpo atinge uma velocidade terminal de queda, sendo uma versão simplificada da chamada “lei de Navier-Stokes”. Há dois trechos em que Aristóteles indica ter noção de que, na queda dos corpos, há alteração de velocidade (Física, 230b24-28; De Caelo, 277b4-5).
Em sua Física (IV.8, 215b12-22), Aristóteles trata da possibilidade do vazio. Como este não oferece resistência, o movimento de queda seria infinitamente rápido, o que é inadmissível. Assim, o vazio não existiria. Porém, em outros trechos, menciona que a velocidade de queda dos corpos depende do peso. Na Física (VIII, 216-220), considera que se não houvesse um meio a ser vencido (ou seja, se a queda fosse no vazio), as velocidades seriam as mesmas!24

A maior parte da obra científica de Aristóteles versa sobre a biologia (ver seção seguinte). Ao contrário dos platônicos, ele valorizava a observação detalhada da natureza. Com relação às causas finais, tanto Platão quanto Aristóteles insistiam que a natureza é regida por um desígnio racional, em contraste com a abordagem mecanicista de Empédocles e dos atomistas.

 

24 CLAGGETT, M. (1955), Greek Science in Antiquity, Collier-MacMillan, Nova Iorque, pp. 64-67. Ver também: CASPER, B.M. (1977), “Galileo and the Fall of Aristotle: A Case of Historical Injustice?”, American Journal of Physics 45, 325-30; KATZ, J. (1943), “Aristotle on Velocity in the Void”, American Journal of Philology 64, 432-5; e TOULMIN, S. (1961), Foresight and Understanding, Harper & Row, Nova Iorque, p. 50.

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