Oswaldo Pessoa – Aula 4 – Método Científico Em Aristóteles (3/4)

3. Indução e Abdução nos Contextos de Descoberta e Justificação

Há dois tipos de indução em Aristóteles, que aparecem no exemplo dado. A indução por simples enumeração, ou indução enumerativa, leva a uma generalização a partir da observação de casos particulares semelhantes. Se se observa uma propriedade em vários indivíduos, presume-se que seja verdadeiro para a espécie a que pertencem os indivíduos. Se se observa algo para várias espécies, generaliza-se para o gênero a que pertencem as espécies.

O segundo tipo, a indução intuitiva de Aristóteles (a referida “perspicácia”), é hoje mais conhecido como “abdução”. Segundo exemplo dado por Aristóteles (Analíticos Posteriores, livro 1, § 34), se o cientista observa várias vezes que o lado brilhante da Lua está voltado para o Sol, ele pode inferir que a explicação para o brilho da Lua provém da luz solar nela refletida. A abdução é uma inferência “ampliativa” (ou seja, se correta, aumenta o conteúdo de nosso conhecimento, ao contrário da dedução – a indução enumerativa também é ampliativa) que está sujeita a erros. Por exemplo, observamos que a Lua descreve um movimento circular em torno do globo terrestre, sem sair voando e sem cair. Aristóteles explicou isso abduzindo que a Lua estaria presa a uma esfera cristalina. Desta explicação, pode-se deduzir que a Lua terá um movimento circular, mas tal explicação é errônea (não existe tal esfera cristalina). Às vezes uma abdução pode ser justificada, outras vezes ele deve ser abandonada.

Notamos nessa discussão que a indução enumerativa e a abdução são dois procedimentos que levam à descoberta científica. A indução se baseia em nossa capacidade de associar percepções que se apresentam de maneira regular, ao passo que a abdução baseia-se numa capacidade de “insight” ou perspicácia que pode ocorrer numa observação única (a indução enumerativa também pode se dar a partir de uma observação única). Porém, uma vez que uma hipótese foi formulada, por meio da indução, abdução ou outro procedimento, como podemos justificá-la?

Os empiristas da era moderna argumentariam que a indução não é só um método de descoberta, mas também de justificação. Uma indução bem feita, em que as regularidades são explicitamente observadas e anotadas, e na qual variações apropriadas de experimentos são feitas, serviria para justificar a aceitação de uma lei hipotética. Críticos do indutivismo, como Karl Popper19, argumentam porém que tal justificação não se sustenta; a indução pode servir como procedimento de descoberta, mas não de justificação. O procedimento correto de justificação, segundo Popper, é o método hipotético-dedutivo, que já se encontra em Aristóteles, ao partir do princípio explicativo (hipótese) e deduzir conseqüências observacionais. Empiristas indutivistas, como Bacon ou Mill, em geral não negam a importância do método hipotético-dedutivo, pois é esta a maneira de justificar uma abdução.

Mas também defendem que a indução enumerativa seja um procedimento de justificação (ao contrário de Popper).

 

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